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ESTAMOS EM PLENA DITADURA CIVIL RUMO À MILITAR?…

ESTAMOS JÁ EM PLENA DITADURA CIVIL RUMO À MILITAR? (Por Leonardo Boff – Revista GGN – 23.09.17)

O que vivemos atualmente no Brasil não pode sequer ser chamado de democracia de baixíssima intensidade. Se tomarmos como referência mínima de uma democracia sua relação para com o povo, o portador originário do poder, então ela se nega a si mesma e se mostra como farsa.

Para as decisões que afetam profundamente o povo, não se discutiu com a sociedade civil, sequer se ouviram movimentos sociais e os corpos de saber especializado: o salário mínimo, a legislação trabalhista, a previdência social, as novas regras para a saúde e a educação, as privatizações de bens públicos fundamentais como é, por exemplo, a Eletrobrás e campos importantes de petróleo do pré-sal, bem como as leis de definem a demarcação das terras indígenas e, o que é um verdadeiro atentado à soberania nacional, a permissão de venda de terras amazônicas a estrangeiros e a entrega de vasta região da Amazônia para a exploração de variados minérios a empresas estrangeiras.

 

Tudo está sendo feito ou por PECs, decreto ou por medidas provisórias propostas por um presidente, acusado de chefiar uma organização criminosa e com baixíssimo apoio popular que alcança apenas 3%, propostas estas enviadas, a um parlamento com 40% de membros acusados ou suspeitos de corrupção.

Que significa tal situação senão a vigência de um Estado de exceção, mais, de uma verdadeira ditadura civil? Um governo que governa sem o povo e contra o povo, abandonou o estatuto da democracia e claramente instaurou uma ditadura civil. Assim pensa um de nossos maiores analistas politico Moniz Sodré, entre outros. É exatamente isso que estamos vivendo neste momento no Brasil. Na perspectiva de quem vê a realidade política a partir de baixo, das vítimas deste tipo novo de violência, o país assemelha-se a um voo cego como um avião sem piloto. Para onde vamos? Nós não sabemos. Mas os golpistas o sabem: criar as condições políticas para o repasse de grande parte da riqueza nacional para um pequeno grupo de rapina que segundo o IPEA não passa de 0,05 de população brasileira, (um pouco mais de 70 mil milhardários) que constituem as elites endinheiradas, insaciáveis e representantes da Casa Grande, associadas a outros grupos de poder anti-povo, especialmente de uma mídia empresarial que sempre apoiou os golpes e teme a democracia.

Transcrevo um artigo de um atento observador da realidade brasileira, vivendo no semiárido e participando da paixão das vítimas de uma das maiores estiagens de nossa história: Roberto Malvezzi. Seu artigo é uma denúncia e um alarme: Da ditadura civil para a militar.

“Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma “ditadura civil”, sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.

Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.

Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil que funcione apenas para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangs, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de “especialistas”, nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que “quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares”.

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general”. Que Deus e o povo organizado nos salvem.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor

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DEUS NÃO AGE PELA MERITOCRACIA DOS HOMENS

DEUS NÃO AGE PELA MERITOCRACIA DOS HOMENS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 25º. DOMINGO COMUM – dia 24/09/17: Mt 20,1-16 – DIA DA BÍBLIA

A parábola dos trabalhadores da vinha, neste Dia da Bíblia, retrata uma situação social muito sofrida daquele tempo, mas tem uma aplicação muito prática e direta na realidade de hoje. Havia muita gente sem terra e viviam como diaristas, aguardando na praça a chegada de alguém que os contratasse para uma jornada. Isso quando havia algum serviço. A parábola foi contada para explicar por que “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” no Reino de Deus. Quem deveria ter acolhido o Reino e nele ter entrado por primeiro estava se negando a fazê-lo, enquanto os afastados da religião acolhiam a Jesus prontamente. Aquele dono de terra e de parreiral – que na parábola nos lembra o amor e cuidado que Deus tem com a gente e que quer justiça e dignidade para todos – teve diversas atitudes de amor: a) contratou todos os desempregados que estavam na praça; b) foi lá pessoalmente em diversos horários; c) no fim da jornada, pagou a todos a mesma quantia combinada – o que a família precisava para viver – apesar do trabalho ter sido desigual: uns trabalharam dia inteiro, outros apenas uma hora.

  1. O modo de Deus amar

Esta é uma parábola revolucionária. Na cultura dominante em nosso mundo capitalista e individualista, acha-se normal “dar a cada um o que ele merece e só o merecido”. “Menos mal que Deus não é como nós. De seu coração de Pai, Ele sabe dar também seu amor salvador a essas pessoas que nós não sabemos amar” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 240). Quem tem menos poder aquisitivo ou é menos rico é considerado facilmente por outras pessoas como vagabundo, desorganizado, incompetente, “sem vontade”…O Pai misericordioso, que quer que nossa justiça seja maior do que a dos escribas e fariseus, age com amor a todos e amor especial aos últimos da sociedade, como fazia Jesus na sua prática de vida terrena. Ele vivia cercado de pessoas acolhidas por ele: pecadores, prostitutas, impuros, aleijados, leprosos… Deus é bondoso também com aqueles que se apresentam diante dele “sem méritos”, pois na sua lógica de amor vale o dom, a gratuidade, a partilha.

Os dons recebidos de Deus e da natureza humana e as oportunidades fornecidas pela sociedade desigual tornam as pessoas imensamente diferentes e “desniveladas”. Mas é bom saber que Deus não concorda com isso. No seu coração amoroso não funciona jamais as manias de privilégios de nosso mundo injusto. Por isso, sem olhar o que cada um “produziu”, o patrão no final da jornada deu aos últimos tanto quanto aos primeiros, pois todos precisam viver e ter dignidade. No dia em que no Brasil, em vez do modo de produção capitalista, vigorar um regime “mais socializado, mais justo e mais solidário”, certamente o salário mínimo será muito mais elevado e haverá leis que coíbem altíssimos salários, como ocorre com jogadores e com os “imaculados deuses” do nosso judiciário…

  1. O desprezo aos últimos e aos mais pobres

Quando certo governo reajustou o salário mínimo acima da inflação, para os assalariados terem ou pouco mais de dignidade e de poder de compra, a classe média e os “batalhadores remediados” estufaram o peito reclamando que era inconcebível os pobres andarem de carro e fazerem viagens de avião, bem como poder tirar uns dias de férias viajando. Quando certas medidas beneficiaram estudantes pobres para terem acesso à universidade; quando outras ajudaram as pessoas de cor a ingressarem em faculdade; quando o bolsa-família beneficiou milhões para não terem fome e seus filhos poderem ir à escola, houve quem se indignasse porque o Estado estava também aplicando recursos não somente para os ricos, como era de praxe em nosso país. Na parábola, foi a mesma coisa. Os trabalhadores da primeira hora não se queixaram de receber um salário injusto. O que os ofendeu é o senhor “tratar os últimos como a nós”. O senhor disse ao porta-voz daquele grupo: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”…

“Às vezes ficamos presos aos nossos cálculos, sem deixar Deus ser bom para todos. Não toleramos sua bondade infinita para com todos.”(p. 240). Achamos que apenas nós somos merecedores… No fundo, não queremos deixar Deus ser Deus. E não queremos que Deus tenha amor aos outros, especialmente aos mais pobres e aos últimos da sociedade. Quer dizer, somos invejosos como os trabalhadores da primeira hora da parábola…. E Deus quer que o pagamento do trabalho dê condições de dignidade para todos, e não cometer exploração em vista de aumentar os lucros.

Enquanto não entendermos que para Deus “os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”, ainda não entendemos o que é o cristianismo nem entendemos o que é seguir a Jesus Cristo.

 

PROFETA, POBRE E PASTOR

PROFETA, POBRE E PASTOR

 

Não apenas optou pelos pobres.

Optou pelo caminho da pobreza

para lutar com os pobres

pelo projeto deles,

destinatários do Reino.

Assim, sem nada a perder e a prendê-lo,

correu o risco de perder a vida

apenas por defendê-los.

Teria perdido a vida, isto é,

não teria valido a pena sua vida

se não tivesse o Dom José

gastado minutos,

horas, tantos anos, tudo,

por aqueles que tanto amou até o fim…

Preferiu o risco de errar, mas realizando,

do que não correr o risco,

porque aí se erra sempre.

 

Repartiu o tempo e o pão

brigou pela terra e a paz,

encontrou a paz nos conflitos

sem fugir do caminho da cruz.

Conflitou consciências tranquilas demais.

Seu tempo se multiplicou.

Meu Deus, como foi transformada

esta Igreja e a realidade

desse povo de fé

sob a voz corajosa

e profética de D. José!

 

Recusou-se a receber salário,

(na Bíblia, merecido pelo operário)

para não ser pesado ao povo

que sustenta a Igreja,

já tão acachapado por dilemas

e opressões do sistema.

Seguiu o “pacto das catacumbas”,

pois nada levaria para a tumba.

 

Limitou-se a viver na sobriedade

com tão somente um mínimo.

No Senhor estava sua segurança,

não nos bens, na extravagância,

nem mesmo na poupança.

Na sua simplicidade, roupas modestas;

sem exageros, parcos meios;

trato espontâneo e direto,

sem frescuras e rodeios,

– bastam as atrocidades do sistema

p’ra complicar a vida do povo.

 

Acolheu sempre os pobres,

mendigos e sofredores

com a mesma ternura de Jesus,

sua prática foi uma luz

contra o mundo neoliberal.

Respeitou toda a vida

com afeto fraterno e cordial

seus companheiros e companheiras

de trabalho e de lida,

na cuia e na cruz.

 

Seu gosto pela oração,

profunda mística e espiritualidade!

Não teria encontrado o pastor

forças p’ra suportar a dor

de tantos tormentos,

vindos de fora e de dentro

do humano-pecador mundo eclesial

sem o rochedo inabalável

da presença do Senhor!…

Quando eram os desafios

mais cruéis e cruciais

sua boca vomitava uns palavrões comuns

contra os inimigos do povo,

os tropeços e estorvos

na estrada dos pobres.

Mas jamais se percebeu

qualquer indício de desesperança.

Dizia frequentemente,

tendo em Deus a confiança:

“Coragem, gente, toquem pra frente!”

(23.09.14 – no lançamento dos Sermões)

 

 

QUEM NEGA O PERDÃO RECUSA A FRATERNIDADE

QUEM NEGA O PERDÃO RECUSA A FRATERNIDADE

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 24º. DOMINGO COMUM – dia 17/09/17: Mt 18,21-35

A nossa sociedade, marcada pela competição e pelas pessoas buscando ser mais do que as outras, divulga que perdoar é favorecer os bandidos e dar asas aos criminosos. Por isso, as pessoas têm dificuldade de amar e de “perdoar o irmão que pecar contra mim”. Este evangelho nos ajuda a entender que perdoar não é aceitar injustiças e crimes, nem deixar de sentir um pouco de ira como reação inicial. Mas é preciso conviver com amor com as pessoas que nos ofendem se quisermos ser misericordiosos como o Pai que nos perdoa sempre.

  1. O perdão cristão é incondicional

Pedro perguntou a Jesus se devia perdoar a alguém até sete vezes. Foi uma pergunta não mesquinha, mas de atitude generosa, está disposto a perdoar bastante. Jesus lhe responde que o perdão não tem limites: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Esta resposta significa perdoar sempre. Para Jesus, perdão não é questão de números, mas de qualidade, precisa ser permanente e total.

O Evangelho de Mateus nos convida a termos uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus. Também, pouco antes, nos desafiou a “corrigir o irmão”, primeiro a sós, depois com dois ou três, depois, se necessário, com a comunidade. Agora nos propõe um perdão incondicional, atitude de misericórdia sempre. Seu ensino é diferente dos estilos de nossa sociedade, eu julga que perdoar muito é prejudicial, que instiga o infrator a continuar, que primeiro tem que exigir reparação… Se quisermos voltar a Jesus, precisamos também viver sua atitude de perdão com generosidade e grandeza.

A parábola do rei não retrata bem a atitude de Deus. No fim, o rei se vinga, retira seu perdão que havia dado, e maltrata o servo cruel, que foi delatado por companheiros “puxa-sacos” do rei, sem fazer nada para animar o colega a uma vivência diferente. Como hoje, eles acreditavam que o mal se repara e os infratores se recuperam a custa de cadeia, de vingança e até de morte. “Às vezes pensamos ingenuamente que o mundo seria mais humano se fosse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo aos que praticam o mal.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 233). Jesus aponta para o amor ao extremo. Negar o perdão não humaniza o mundo: “Um casal sem mútua compreensão se destrói; um família sem perdão é um inferno; uma sociedade sem compaixão é desumana” (p. 234). De quem vive da misericórdia de Deus (ou nos esquecemos de que todo dia Ele se compadece de nós?…) o mínimo eu se pode esperar é o perdão.

  1. Perdoar faz bem não só a quem é perdoado, mas também a quem perdoa.

“Às vezes se esquece eu o processo de perdão faz mais bem ao ofendido, pois o liberta do mal, faz crescer sua dignidade e nobreza, dá-lhe forças para recriar sua vida e lhe permite iniciar novos projetos.” (p. 235) As palavras de Jesus – “setenta vezes sete” – “adquirem uma profundidade ainda maior para uem crê em Deus como fonte última do perdão: ‘Perdoai e sereis perdoados’” (p.235). na prática, nós somos amis humanos quando perdoamos do eu quando nos vingamos. Ao perdoar, estamos diminuindo a espiral de mal e de violência da sociedade. Com o perdão, podemos estar ajudando uma pessoa infratora e pecadora a reabilitar-se e agir de maneira melhor. A ira inicial, frente a uma ofensa recebida, pode ser uma reação quase natural. Mas é preciso erradicar de nós todo ódio e, com amor, suavizar a ira e aos poucos agir com fraternidade e bons sentimentos, afinal, somos todos irmãos e irmãs. E nenhuma pessoa pode ser reduzida e entendida apenas por erro cometido. Sempre é infinitamente maior e mais ampla.

Pra concluir, é preciso construir relações sociais de maior respeito e perdão com todos os seres humanos. Nada e falar que “precisa pena de morte”, ou “tem que enfiar todos na cadeia”, nem que “tem que matar um cara desses”. Pagola nos garante: “o perdão é necessário para conviver de maneira sadia: na família, onde os atritos da vida diária podem gerar frequentes tensões e conflitos; na amizade e no amor, onde se deve saber agir diante de possíveis humilhações, enganos e infidelidades; em múltiplas situações da vida, nas quais temos que reagir diante de agressões, injustiças e abusos. Quem não sabe perdoar, pode ficar ferido para sempre” (p. 237).

Liturgia: Papa Francisco apresenta a sua interpretação sobre o Vaticano

Liturgia: Papa Francisco apresenta a sua interpretação sobre o Vaticano

REVISTA IHU Online (parte)

Papa deixa a tradução dos textos litúrgicos para as Conferências Episcopais

Enquanto o Papa Francisco estava na Colômbia, no sábado, o Vaticano emitiu um novo documento legal em seu nome, que transfere a parte do leão do controle sobre a tradução de textos para uso no culto católico às conferências episcopais locais, afastando-a do Vaticano. Com efeito, esse foi o sinal mais claro até hoje de como Francisco se posiciona nos debates sobre o que deu errado depois do Vaticano II, especialmente sobre a questão da colegialidade.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 10-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um documento legal emitido sob a sua autoridade pessoal, alterando o cânone 838 do Código de Direito Canônico… Um maior controle sobre o processo de tradução de textos para uso no culto católico nas línguas vernáculas em todo o mundo será conferido às conferências locais dos bispos, e não mais ao Vaticano e, especificamente, à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do Vaticano.

… O documento limita o papel do Vaticano no fim do processo, quando uma conferência episcopal submete uma tradução proposta para aprovação. A Congregação para o Culto Divino não vai mais submeter uma extensa lista de emendas necessárias ao texto nessa fase; em vez disso, ela simplesmente dirá “sim” ou “não”. Dado que, na maioria dos casos, Roma não quer atrasar uma tradução inteira, muitos observadores acreditam que, agora, é mais provável que, independentemente do que os bispos decidirem no fim, será isso que o Vaticano vai aceitar.

Sejamos claros: imediatamente, essa decisão [de Francisco] não significa muito. Quando os católicos forem à missa hoje, as orações serão exatamente as mesmas do domingo passado. Ao longo do tempo, no entanto, ela poderia ter implicações significativas para a aparência e o som do culto católico.

É bem sabido que o Papa Francisco, apesar de levar a missa e os outros sacramentos da Igreja muito a sério, não é muito afeito aos detalhes dos debates litúrgicos. Ele não é o Papa Emérito Bento XVI, para quem a liturgia é uma profunda paixão pessoal.

Nos últimos 30 anos, mais ou menos, houve duas narrativas dominantes sobre as consequências do Vaticano II entre os católicos. Uma sustenta que a implementação do Concílio ficou um pouco louca nos anos 1960, 1970 e 1980, e o que João Paulo II e Bento XVI fizeram, foi fornecer algumas necessárias correções de rota, orientando a Igreja de volta àquilo que esse grupo vê como o “verdadeiro” espírito do Vaticano II.

A outra narrativa postula que as decisões do Vaticano II foram um choque grande demais para o sistema vaticano e que a velha guarda contando os segundos, à espera do momento certo para começar a voltar a fazer as coisas como eram antes. Esse momento chegou, dizem eles, com João Paulo II e Bento XVI, e, como resultado, os elementos críticos da promessa do Vaticano II foram ou paralisados ou totalmente revertidos.

Provavelmente, se você perguntasse ao próprio Francisco, ele lhe diria que não engole completamente nenhuma dessas narrativas (aliás, veremos se alguém vai lhe perguntar isso mais tarde nesse domingo, durante a costumeira coletiva de imprensa no voo de volta para Roma a partir da Colômbia).

Mesmo assim, Francisco passou a maior parte da sua carreira como bispo local na distante Argentina (isto é, distante de Roma) e, de vez em quando, expressava a sua frustração com aquilo que ele via como uma tomada de decisão obtusa e opaca no Vaticano. Uma vez, eu ouvi um prelado estadunidense de alto nível dizer: “Por que diabos eles me fizeram um bispo, em primeiro lugar, se eles não confiam em mim para gerir o meu próprio quintal?”. E não é difícil imaginar o então cardeal Jorge Mario Bergoglio ecoando o mesmo sentimento.

Vale ressaltar, também, que, no sábado, quando o motu proprio foi publicado, o Papa Francisco estava em Medellin, na Colômbia. Em 1968, essa cidade sediou um encontro do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), que é lembrado como uma das viradas decisivas do abraço da América Latina à “opção pelos pobres” como um princípio fundamental da doutrina social católica.

Ao longo dos anos, Francisco esteve profundamente envolvido com o Celam, ele acredita nele apaixonadamente e provavelmente sorriu diante do fato de que o seu gesto de colegialidade foi feito no dia em que ele estava pisando em um solo considerado como sagrado para os maiores defensores do Celam.

No fundo, essa medida será vista como uma revanche pelos liberais que insistiram, durante as guerras litúrgicas, que era ultrajante que as decisões fossem feitas a milhares de quilômetros de distância, em Roma, em vez de serem feitas pelos bispos que conhecem a situação local. E como um revés pelos tradicionalistas, que aprenderam a ver as conferências episcopais como o problema, e o Vaticano, como a solução.

Não importa onde alguém se posicione nessa disputa, esse sábado trouxe o exemplo mais claro até hoje de que o pêndulo agora está balançando forte na direção oposta daquela em que se encontrava com os dois últimos papas.

E, apenas para antecipar as críticas, sim, eu captei a imponente ironia aqui – Francisco fez esse gesto de colegialidade mediante um exercício de poder papal nu e cru. No entanto, em sua mente, sem dúvida, ele fez isso não por capricho pessoal, mas em nome dos bispos locais de todas as partes, assim como em nome daquilo que ele vê como o legado do Concílio Vaticano II.

 

Papa Francisco: A ESPERANÇA NA AMÉRICA LATINA TEM UM ROSTO FEMININO

IHU Online – 08.09.2017 (parte do pronunciamento do Papana Colômbia)

ESPERANÇA NA AMÉRICA LATINA TEM UM ROSTO FEMININO. Não há necessidade de me alongar sobre o papel da mulher no nosso Continente e na nossa Igreja. Dos seus lábios, aprendemos a fé; quase com o leite do seu seio, adquirimos os traços da nossa alma mestiça e a imunidade contra qualquer desespero. Penso nas mães indígenas ou morenas, penso nas mulheres das cidades com o seu triplo turno de trabalho, penso nas avós catequistas, penso nas consagradas e nas artesãs tão discretas do bem. Sem as mulheres, a Igreja do Continente perderia a força de renascer continuamente. São as mulheres que, com meticulosa paciência, acendem e reacendem a chama da fé. É uma séria obrigação compreender, respeitar, valorizar e promover a força eclesial e social do que elas fazem. Acompanharam Jesus missionário; não se retiraram do pé da cruz; na solidão, esperaram que a noite da morte devolvesse o Senhor da vida; inundaram o mundo com a sua presença ressuscitada. Se quisermos uma fase nova e vital da fé neste Continente, não a obteremos sem as mulheres. Por favor, não as reduzamos a servas do nosso clericalismo recalcitrante; mas sejam, ao invés, protagonistas na Igreja latino-americana: no seu sair com Jesus, no seu perseverar, mesmo no meio do sofrimento do seu povo; no seu agarrar-se à esperança que vence a morte; na sua maneira jubilosa de anunciar ao mundo que Cristo está vivo, ressuscitou.

A esperança na América Latina passa através do coração, da mente e dos braços dos leigos.

Gostaria de repetir o que disse recentemente à Pontifícia Comissão para a América Latina. É indispensável superar o clericalismo que torna infantis os christifideles laici e empobrece a identidade dos ministros ordenados. Embora se tenha feito um notável esforço e tenham sido dados alguns passos, os grandes desafios do Continente permanecem sobre a mesa e continuam à espera da realização serena, responsável, competente, clarividente, articulada e consciente dum laicato cristão, que esteja disposto a contribuir, como crente, nos processos dum desenvolvimento humano autêntico, na consolidação da democracia política e social, na superação estrutural da pobreza endêmica, na construção duma prosperidade inclusiva fundada em reformas duradouras e capazes de tutelar o bem social, na superação das desigualdades e na salvaguarda da estabilidade, no delineamento de modelos de desenvolvimento econômico sustentável que respeitem a natureza e o verdadeiro futuro do homem – que não passa por um consumismo ilimitado – e também na rejeição da violência e na defesa da paz.

Mais ainda: neste sentido, a esperança deve sempre fixar o mundo com os olhos dos pobres e a partir da situação dos pobres. Ela é pobre como o grão de trigo que morre (cf. Jo 12, 24), mas tem a força de promover os planos de Deus. Com frequência, a riqueza autossuficiente priva a mente humana da capacidade de ver tanto a realidade do deserto como os oásis lá escondidos. Propõe respostas de manual e repete certezas de «talk-show»; balbucia a projeção de si mesma, vazia, sem aderir minimamente à realidade. Tenho a certeza de que, neste momento difícil e confuso mas provisório que vivemos, as soluções para os problemas complexos que nos desafiam nascem da simplicidade cristã que se esconde aos poderosos e manifesta aos humildes: a pureza da fé no Ressuscitado, o calor da comunhão com Ele, a fraternidade, a generosidade e a solidariedade concreta que brotam também da amizade com Ele.

Se quisermos uma fase nova e vital da fé neste Continente, não a obteremos sem as mulheres

E gostaria de resumir tudo isto numa frase que vos deixo como síntese e recordação deste encontro: se queremos servir, como CELAM, a nossa América Latina, temos de o fazer com paixão. Hoje faz falta paixão. Pôr o coração em tudo o que fazemos, paixão do jovem enamorado e do idoso sábio, paixão que transforma as ideias em utopias viáveis, paixão no trabalho das nossas mãos, paixão que nos transforma em incessantes peregrinos pelas nossas Igrejas como – deixai lembrá-lo – São Toríbio de Mogrovejo, que não se instalou na sua sede: de 24 anos de episcopado, 18 passou-os nas localidades da sua diocese. Por favor, irmãos, peço-vos paixão, paixão evangelizadora.

À proteção da Virgem, invocada com os nomes de Guadalupe e Aparecida, vos confio – vós, irmãos Bispos do CELAM, as Igrejas locais que representais e todo o povo da América Latina e do Caribe – com a serena certeza de que Deus, que falou a este Continente com o rosto mestiço e moreno da sua Mãe, não deixará de fazer resplandecer a sua luz benigna na vida de todos.

 

 

O QUE SIGNIFICA DOIS OU TRÊS SE REUNIREM EM NOME DE JESUS?

O QUE SIGNIFICA DOIS OU TRÊS SE REUNIREM EM NOME DE JESUS?

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 23º. DOMINGO COMUM – dia 10/09/17: Mt 18,15-20

Nós, cristãos e cristãs, temos como identidade a vivência do amor. Este amor precisa ser assumido como incondicional, até o extremo: amar os inimigos, oferecer a outra face a quem bate, dar a vida se for preciso. Neste domingo a Palavra nos motiva a ajudarmos nossos irmãos a se converterem, a nos reunirmos em nome de Jesus, a jamais fazermos o mal ao nosso próximo. Pra nossa justiça ser maior do que a dos escribas e fariseus, precisamos amar os inimigos e conversar com quem erra para que se reúna também em nome de Jesus. Viver o amor até as últimas consequências, afinal somos responsáveis pela evangelização, pela vida e pela salvação dos irmãos e irmãs.

  1. Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo a sós… Se não mudar, leva mais uma ou duas pessoas… Se não der ouvidos, diga-o à Igreja.

Para as comunidades dos primeiros tempos, o importante era “permanecer em Cristo”, “estar com Jesus”. Por isso, mais do que a quantidade, investia-se na qualidade dos fiéis. E todos se sentiam responsáveis pela vida cristã de seus irmãos. Portanto, em caso de erro, motivados pelo amor fraterno, iam ao encontro, com toda delicadeza e misericórdia, para dialogar e motivar o faltoso a superar suas falhas na vivência da fé e do Evangelho. Primeiro, individualmente. Se não conseguia, levava testemunhas junto. Se mesmo assim, a pessoa não reconhecia e não assumia a compromisso de mudar de vida, a questão era resolvida em comunidade. Nesse caso, essa pessoa não era abandona nem excluída, mas considerada como alguém a quem era preciso reiniciar a evangelização novamente. Aqui basta lembrar como Jesus amava os pecadores, e assim os cristãos deviam amar estes que não se corrigiam. O apelo de Jesus é para “corrigir-nos e ajudar-nos mutuamente a sermos melhores, a agir com paciência e sem precipitação, aproximando-nos de maneira pessoal e amistosa de quem está agindo de maneira equivocada” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.229). Amar de verdade não é cada um ficar “na sua”. Convidar a sair do erro, a enxergar os equívocos, pode ser um verdadeiro gesto de amar de verdade. Se não se converter, diria o profeta Ezequiel, “o ímpio morrerá por própria culpa, porém tu salvarás tua vida” (Ez 33,9). “Se ele se converter, terás ganho teu irmão”, não pra ti, mas para o Reino do Senhor, para a comunidade que se reúne em seu nome.

  1. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles.”

Mas o que significa estar reunidos em nome de Jesus? Muitos vão ao culto ou à missa por obrigação, ou sem motivação. Em encontros de Igreja, muitos estão aí, passivamente, sem esforço de captar a Palavra nem de viver um momento orante. Outros se estressam com a hora, não admitem que a celebração dure mais de uma hora. E o encontro com a Palavra e a Eucaristia, na comunhão fraterna da comunidade, fica sem sentido e sem vivência. O cristão sabe que a conversão é esforço de todo dia. E quando vive o espírito de conversão permanente, “reunir-se no nome de Jesus é criar um espaço para viver a vida inteira em torno dele e a partir de seu horizonte. Um espaço espiritual bem-definido não por doutrinas, costumes ou práticas, mas pelo Espírito de Jesus, que nos faz viver como Ele viveu” (p.225). Reunir-se em seu nome é acolher sua presença e sua Palavra e atualizá-la em nossa vida, vivendo a experiência de estar com Ele e com o grupo de seus discípulos.

Reunir-se em Jesus passa pela forte vivência comunitária. Não se pode ser cristão sem viver em comunidade. Os cristãos não são avulsos nem refugiados no seu pequeno mundo familiar. São comunidade fraterna, unida, participativa, ativa e consciente. “A renovação da Igreja começa sempre no coração de dois ou três crentes que se reúnem em nome de Jesus.” (p. 225) E quando acontece e se vive reunidos “em nome de Jesus”, Jesus está em nosso meio; tudo o que pedirmos ao Pai nos será concedido e tudo o que ligarmos na terra será ligado também no céu… Veja que Jesus fala em “dois ou três” reunidos em seu nome. Não precisa “concentração de fé”, nem “missa-show”, nem grandes romarias. Basta a sinceridade da fé e da motivação de estar “reunidos em seu nome”. E não precisa haver padre junto com eles.

Portanto, isto vale para todos, vale para crianças e adolescentes do catecumenato, vale para a vida religiosa: “A primeira tarefa da Igreja é ‘reunir-se em nome de Jesus’. Alimentar sua lembrança, viver de sua presença, reatualizar sua fé em Deus, abrir hoje novos caminhos a seu Espírito. Quando falta isso, tudo corre o risco de ficar desvirtuado por nossa mediocridade” (227).

GRITO DOS EXCLUÍDOS – Frei Betto

GRITO DOS EXCLUÍDOS = Frei Betto

Há décadas o 7 de setembro, data da independência do Brasil em relação à coroa portuguesa, é comemorado pelas pastorais sociais de Igrejas cristãs e movimentos sociais de nosso país como o dia do Grito dos Excluídos.

Os temas variam de ano a ano, embora haja íntima conexão entre eles. Este ano é a democracia e a defesa dos direitos dos trabalhadores, que no Brasil andam capengas. Somos governados por um executivo que retrocede direitos historicamente conquistados, e cujas principais figuras estão convocadas a sentar no banco dos réus e responder pelos graves crimes de que são acusados.

Somos governados por um legislativo que majoritariamente atua de costas para os seus eleitores, já que 95% da população desaprova o governo Temer e 81% considera que o presidente deveria responder pelos crimes que lhe pesam aos ombros perante a suprema corte do país.

Somos governados por um judiciário que se agarra como carrapato às mais aberrantes mordomias, recebe vultosos salários engordados por penduricalhos, e pratica com frequência o nepotismo (parentes e amigos não merecem cadeia).

A democracia brasileira exclui o acesso de todos ao bem-estar, já que temos 14 milhões de desempregados, 60 milhões de pessoas endividadas e 63 milhões de trabalhadores que ganham por mês menos de dois salários mínimos, dos quais 47 milhões ficam com menos de um.

Nossa economia não prioriza a inclusão social, e sim o crescimento do PIB. Prefere a especulação à produção. A exclusão econômica e social faz do Brasil uma das nações mais desiguais do mundo. Nas relações pessoais, a exclusão se manifesta no racismo, no machismo, na homofobia, e esta modalidade demoníaca que consiste em discriminar e agredir quem abraça uma prática religiosa diferente da minha.

A exclusão se estende até mesmo à natureza, vilipendiada em função dos interesses do capital, como o comprova o desmatamento da Amazônia, a poluição de nossos rios e mares, a impunidade de graves crimes ambientais como o provocado pela Samarco no Vale do Rio Doce.

Há muitas formas de exclusão. A social, que retalha a população em classes objetivamente antagônicas; a cultural, indiferente às expressões artísticas das esferas populares; a semântica, que por ofensas introduz a divergência onde deveria haver apenas diferença.

Hoje, muitos europeus se sentem incomodados com a chegada de refugiados cujos países, durante décadas, foram saqueados e oprimidos pelas potências europeias. Trump promete erguer um muro entre o seu país e o México, sem admitir que a extensão territorial dos EUA resulta da anexação do Texas, em 1845 e, logo em seguida, do Novo México e da Califórnia.

Que tipo de gente eu não suporto? A resposta a esta pergunta aponta quem são aqueles que excluo ou apoio quem os exclui. Há exclusões violentas, como as praticadas pelos adeptos da Ku Klux Klan e os assassinos de homossexuais; exclusões preconceituosas, como a de brancos que se julgam superiores aos indígenas; e a autoexclusão de quem cruza os braços ou se entrega à apatia e à indiferença diante de crises como a que o Brasil atravessa.

O protótipo da prática da não exclusão ou da solidária inclusão, sem nenhuma atitude de preconceito ou discriminação, foi Jesus de Nazaré. Acolheu o cego, o coxo, o hanseniano, e proclamou que todo ser humano é templo vivo de Deus. Acolheu o centurião romano que professava o paganismo; a samaritana que tivera cinco maridos e, agora, vivia com um sexto homem; a prostituta que lhe perfumou os pés e os enxugou com os cabelos.

Jesus acolheu pecadores e enfermos, ricos como Zaqueu e pobres como Bartimeu, o cego que mendigava à entrada de Jericó. Não acolheu, contudo, os promotores da exclusão, como os religiosos moralistas; o governador Herodes Antipas, corrupto e assassino; o homem rico que se recusou a partilhar seus bens com os necessitados.

Data cívica, o 7 de setembro mereceria ser a festa de uma democracia inclusiva, na qual o desfile das forças armadas fosse substituído por uma grande manifestação cívica das forças amadas.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

A CRUZ DOS CRISTÃOS NÃO É QUALQUER SOFRIMENTO

 

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 22º. DOMINGO COMUM – dia 03/09/17: Mt 16,21-27

Estamos na semana do Grito dos Excluídos, com o lema: “Vida em Primeiro Lugar! Por Direitos e Democracia, a Luta é Todo Dia”. Muitas manifestações acontecem pelo Brasil afora, recordando que o poder público e o Estado devem estar a serviço do bem comum, especialmente onde a vida é mais fragilizada, buscando a inclusão social. Neste ano, diante de um quadro de perda de direitos dos trabalhadores e de um verdadeiro estado de exceção (onde as leis valem para uns e não para outros, ou se as torce e retorce), o lema nos conclama a lutar pela retomada da democracia e pelos direitos.

Nossa Igreja no Brasil, através da CNBB, está pedindo que essa semana seja uma Jornada de Oração pelo Brasil e o dia 7 de setembro seja um dia de jejum. Segundo Dom Leonardo Steiner, secretário da CNBB, “Nós estamos necessitados de um novo Brasil, mais ético; de uma política mais transparente. Nós não podemos chegar a um impasse de acharmos que a política pode ser dispensada. A política é muito importante, mas do modo do comportamento de muitos políticos, ela está sendo muito rejeitada dentro do Brasil. Nós esperamos que esse dia de jejum e oração ajude a refletir essa questão em maior profundidade”.

 

  1. “Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!’ Jesus voltou-se para Pedro e disse: ‘Vai para trás, satanás! Tu és uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.”

Jesus afirmara que ia a Jerusalém, e lá ele seria perseguido, preso, crucificado – pelos detentores do poder religioso e político -, mas ressuscitaria. Os discípulos ainda queriam um Reino na base da facilidade, com êxito total, sem sofrimento. Jesus estava consciente de que, indo a Jerusalém, sempre assumindo radicalmente o projeto de Deus, sofreria rejeição e perseguição, ckmo consequência daquilo que ensinou e praticou. Ter Deus com a gente não significa que a vida será de sombra e água fresca, de sucesso e facilidade… Então Pedro o puxa de lado e o repreende, para que se desvie dessa ida a Jerusalém… Como resposta, Jesus lhe diz que assim ele é “pedra de tropeço”, e o chama de satanás. Também lhe pede a ir para trás, quer dizer, seguir a ele, não querer pôr-se na frente e decidir os seus caminhos… Quando Pedro confessa “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo”, ele é chamado e “pedra” sobre a qual se constrói a comunidade; mas, quando pensa em seguir Jesus com bem-estar e sem sofrimento, é chamado “pedra de tropeço”.

 

  1. “Jesus disse aos discípulos: ‘Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga’.”

Jesus não foca no sofrimento, foca no projeto do Pai. Aliás, fica atento sim aos sofrimentos e às lágrimas dos excluídos e rejeitados. Não busca sofrer nem quer sofrer: “Seu sofrimento é uma dor solidária, aberta aos outros, fecunda” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.210). Nem se assusta diante do seu padecimento futuro. Ele está nas mãos do Pai e confia nele… Hoje muitas pessoas têm a mania de usar demais a expressão “carregar a cruz”, ou “cada um tem sua cruz”. Não se pode chamar de “cruz” a qualquer sofrimento. Por exemplo, os que são consequências de nossos pecados e equívocos, de nossos ressentimentos e apegos não são a cruz proposta por Jesus. “Tome a sua cruz”, “é apenas o sofrimento que nos virá como consequência desse seguimento; o destino doloroso que teremos de compartilhar com Cristo, se seguirmos realmente seus passos” (p. 213).

E quando Jesus diz “renuncie a si mesmo”, não é castigar-se, nem mortificar-se de qualquer jeito, nem autodestruir-se. Mas “é não viver dependente de si próprio, esquecer-se do próprio ‘ego’, para construir a vida sobre Jesus Cristo. Libertar-nos de nós mesmos para aderir radicalmente a ele” (p.213)… E esse “carregar a cruz” não é um peso nem motivo de tristeza. É o único caminho para plena realização, esperança, alegria e salvação.

 

  1. “Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.”

 

No coração de Jesus havia “uma dupla experiência: sua identificação com os

últimos e sua confiança total no Pai” (p. 208). Por isso, é perseguido e sofre. Deixa claro que entre seus seguidores, este é o caminho: “Se seguiam seus passos, deviam também compartilhar sua paixão por Deus e sua disponibilidade total a serviço de seu reino” (p. 209). Não lhes propõe agarrar-se à sua própria vida nem fechar-se em seus próprios interesses, mas em doar-se, compartilhar, arriscar a vida de maneira generosa, pelos outros e pelo Reino. É assim que se ganha e se salva a vida. “Aquele que caminha atrás dele, mas continua aferrado às seguranças, metas e expectativas que sua vida lhe oferece, pode acabar perdendo o maior bem de todos: a vida vivida segundo o projeto de Deus” (p. 209). “Num mundo dominado pela imposição de vontades dos violentos, aqueles eu pretendem seguir Jesus devem servir aos demais em total gratuidade, a ponto de estar dispostos a morrer por eles.” (Aila Pinheiro de Andrade, Vida Pastoral, p.2) Mas, como em Jeremias, apesar do sofrimento e renúncias, sente a paixão e amor por Deus arder por dentro, e não resiste, segue em frente na missão da profecia e testemunho.

 

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