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Grão de Mostarda

Padre Ivo Pedro Oro

SEM DAR ESPETÁCULO, A AÇÃO E A FORÇA DE DEUS VÃO TRANSFORMANDO

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 16º. DOMINGO COMUM: dia 23/07/17: Mt 13,24-43 (ou 13,24-30)

Olhando para esta sociedade que está nos impregnando de desejos e atitudes de consumo, de prazeres e distrações, de acomodação e isolamento, ficamos quase duvidando de que o Reino de Deus possa transformar esse mundo. No fundo de nosso imaginário ainda estamos, como muitos no tempo de Jesus, sonhando que o Reino venha como algo espetacular, com grandes e bonitas concentrações, com shows de milagres mágicos e aplausos vibrantes das multidões. É para nós que Jesus, neste fim de semana, nos dirige as parábolas da mostarda, do fermento e do trigo misturado ao joio. Entendê-las, ajuda a compreender que Deus age diferentemente do que queremos e que o Reino não dá espetáculo.

  1. Um homem semeou boa semente em seu campo. Veio o inimigo e semeou o joio… Se arrancarem o joio agora, arrancarão também o trigo… Deixem que os dois cresçam juntos até a colheita… Aí, colham primeiro o joio e queimem; depois recolham o trigo no meu celeiro.

Assim é o reino de Deus. O bem e o mal estão meio misturados. Tanto na sociedade como nas pessoas, dentro de nós também. Não adianta fazer julgamento e achar que, de um lado, estão somente os bons e que aí há só santidade; e, de outro lado, somente o mal e os maus, tudo é pecado e corrupção. Quando nos saciamos com boa dose de humildade, tomamos consciência de que o joio dentro de nós nos impede de querer arrasar o joio que seriam os outros. A parábola nos exorta à paciência, mas também à firmeza. Na vida e no mundo há de tudo. Mas não “é tudo a mesma coisa”. Um dia, a foicinha vai cortar e as mãos ágeis de Deus (tomara!) vão nos separar e recolher para o seu celeiro!

  1. O Reino é como um grão de mostarda que um homem semeia em sua terra. É a menor das sementes. Quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se uma árvore, de modo que em seus ramos os passarinhos vêm fazer ninhos.

A vida é muito mais do que as aparências e os fenômenos. A ação de Deus pode estar escondida e não se encaixar em nossos esquemas e pretensões. Ele age por dentro da história do nosso mundo e da nossa vida, sem alarde, discretamente. Aos poucos, com o tempo, poderemos ver o resultado aparecendo. Como os galileus tinham dificuldade de ver em Jesus o Reino chegando e presente, em sua simplicidade e humanidade, Ele lhes propôs a comparação do grão de mostarda. Naquela semente miúda, menor do que a cabeça de um alfinete, há um potencial e força enorme. Daí surge uma árvore de três metros de altura. O Reino de Deus não é um “cedro do Líbano”, com copada frondosa; é como uma semente pequena e insignificante. Assim somos nós que em Igreja buscamos ser sinal e instrumento desse Reino: insignificantes, modestos. O importante é que nesse grão há um potencial, uma força extraordinária. Se nosso testemunho for genuíno, verdadeiro, o Reino será grande e poderá abrigar gentes de todas as raças e condições. “Deus não está no êxito, no poder ou na superioridade. Para descobrir sua presença salvadora, devemos estar atentos ao pequeno, ao comum e cotidiano. A vida náo é só aquilo que se vê. É muito mais. Assim pensava Jesus.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.161)

 

  1. O reino é semelhante ao fermento que uma mulher pegou e misturou com três medidas de farinha, e tudo ficou fermentado.

Cremos que sem enxergar espetáculos, o Reino está aí fermentando a história, mesmo no Brasil turbulento e complicado de agora. Deus não impõe o seu reinado, ele é dom e vai agindo quase de modo imperceptível. Como a mulher, com cuidado e sabedoria, com ação maternal Deus vai introduzindo na dose certa o fermento do Reino, através dos cristãos e cristãs e de tantos que estão abertos ao seu mistério e ao mistério da grandiosidade da vida humana. E a massa humana lentamente vai sendo transformada. É maravilhoso saber que, avesso ao prestígio e ao show midiático, Deus atua a partir de dentro, de modo oculto e silencioso. Às vezes, com nossa ação e nosso ser, introduzindo nas relações sociais “sua verdade, sua justiça e seu amor de maneira simples, mas com força transformadora” (p.162).

 

Dom Roque Paloschi: Brasil tenta desfazer as proteções aos povos indígenas

Dom Roque Paloschi: Brasil tenta desfazer as proteções aos povos indígenas

Por Mary Durran, publicada originalmete, no Catholic News Service.Tradução de Luísa Flores Somavilla.

Desde que o presidente do Brasil, Michel Temer, assumiu o cargo em 31 de agosto, ele se cercou de ministros com fortes vínculos com os pecuaristas e agricultores de soja, que se opõem às medidas tomadas pelos governos anteriores para implementar a demarcação de terras indígenas. Em 13 de julho, a organização não governamental Global Witness, com sede nos EUA, divulgou um relatório citando o Brasil como o país com maior número de assassinatos de ambientalistas e defensores da terra em 2016.

As proteções constitucionais aos povos indígenas estão sendo reduzidas pelo governo brasileiro, disse o presidente da comissão episcopal sobre os povos indígenas ao Catholic News Service, durante uma viagem no Canadá.

“Na década de 80, ajudamos a redigir os artigos da constituição de 1988 que reconheciam a cultura dos povos indígenas e estabeleciam a proteção de suas terras por demarcação”, disse o arcebispo Roque Paloschi, de Porto Velho. “Hoje, estamos lutando para manter essas proteções em vigor”. Paloschi é presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

O CIMI foi formado em 1975 – durante a ditadura militar do Brasil, que terminou em 1985 – para acompanhar os povos indígenas do país, que sofreram uma redução de 500 milhões na época da colonização pelos portugueses para menos de um milhão, pertencentes a 240 grupos étnicos diferentes.

Paloschi falou em Montreal, um mês depois de especialistas internacionais terem advertido que os povos indígenas brasileiros estão sendo atacados e que eles precisam de proteção reforçada, ao invés da redução das medidas de proteção.

Três especialistas da ONU e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos apontaram em uma declaração, em junho, que nos últimos 15 anos o Brasil teve “o maior número de assassinatos de ambientalistas e defensores da terra do mundo”, com uma média de um por semana. Muitos desses defensores são indígenas que vivem da terra.

Em 13 de julho, a organização não governamental Global Witness, com sede nos EUA, divulgou um relatório citando o Brasil como o país com o maior número de assassinatos de ambientalistas e defensores da terra em 2016; 49 desses ativistas, incluindo indígenas, foram mortos no Brasil.

“Estamos vivendo como se estivéssemos em uma ditadura militar”, disse Paloschi. “Líderes e povos inteiros estão sendo criminalizados.”

Desde que o presidente do Brasil, Michel Temer, assumiu o cargo em 31 de agosto, ele se cercou de ministros com fortes vínculos com os pecuaristas e agricultores de soja, que se opõem às medidas tomadas pelos governos anteriores para implementar a demarcação de terras indígenas.

Paloschi disse que, apesar dos esforços do CIMI, apenas 50% das terras envolvidas receberam os títulos legais. Ele disse que mesmo as terras atribuídas legalmente aos povos indígenas são muitas vezes invadidas por madeireiros e empresas de mineração.

O governo Temer criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito que pressionou para reduzir proteções ambientais e indígenas e propôs emendas constitucionais que enfraqueceriam a Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Outro projeto polêmico propõe que a responsabilidade pela demarcação de terras indígenas seja retirada da FUNAI, do Ministério da Justiça e do presidente do congresso brasileiro, cuja maioria está vinculada ao grupo de proprietários de terras e pecuaristas que se opõem aos direitos de propriedade indígena. A proposta obrigaria todas as demarcações de terras já aprovadas a serem ratificadas pelo Congresso.

Paloschi disse que a retórica da comissão, que acusou a ONU de promover a agenda de grupos de ativistas internacionais, parece ter colocado lenha na fogueira do racismo encoberto de muitos brasileiros não indígenas. Aumentaram os impasses violentos entre agricultores e grupos indígenas na tentativa de reivindicar terras. Em maio, 13 índios Gamela que estavam ocupando territórios tiveram que ser hospitalizados após serem atacados por fazendeiros armados com facões no estado do Maranhão. Uma das vítimas teve as mãos decepadas e os joelhos cortados.

“Eles são os mais pobres dos pobres, mas são desprezados e sofrem constante preconceito e racismo”, disse Paloschi sobre os povos indígenas. “Sem sua terra, eles não são nada”.

O CIMI, cujos 250 missionários trabalham com esses grupos indígenas em todo o Brasil, foi acusado de incentivar as ocupações de terra e causar confusão, acusação negada por Paloschi.

“O papel do CIMI é acompanhar os povos indígenas, incentivá-los a assumir a própria vida e apoiá-los a crescer. Não podemos fazer isso por eles”, afirmou.

O arcebispo disse que está triste com a colusão histórica da Igreja com os colonizadores portugueses, que tentaram tutelar os povos indígenas e torná-los dependentes.

Mas ele disse que vê sinais de esperança.

“Existe um processo contínuo de diálogo e algumas mudanças visíveis no reconhecimento do valor das línguas e culturas indígenas.

Mas quanto mais avançamos, maior é o caminho a ser percorrido”, disse ele.

Ele diz ser incentivado pelo Papa Francisco, cujos papado e compromisso com os povos das Américas ele considera uma bênção.

Paloschi disse que o papa confidenciou ao cardeal brasileiro Claudio Hummes que está pensando em realizar um sínodo na Amazônia, lar das terras ancestrais da grande maioria dos povos indígenas do Brasil. Atualmente, o papa está refletindo e rezando pelo discernimento a respeito da organização de tal sínodo, disse o arcebispo.

Reforma trabalhista: o pior está por vir

CEBI ⁄ News ⁄ Reforma trabalhista: o pior está por vir

Encaminhada de forma ilegítima pelo legislativo, mudança nas leis fragiliza trabalhador e nos leva de volta à República Velha

O sistema político e a elite econômica carregam uma antipatia visceral da legislação do trabalho. FHC chegou a anunciar o “fim da era Vargas” e, com a reforma trabalhista, Temer, Aécio, Maia & Cia querem terminar o serviço. O mote da reforma é a segurança aos investidores e a criação de novos empregos.  São os ventos da modernização que tardiamente sopram nestes Trópicos.

Em 2016, foram distribuídas quase três milhões de ações trabalhistas. A esmagadora maioria versa sobre direitos básicos: a ausência da formalização do contrato de trabalho, o não pagamento de verbas rescisórias e horas extraordinárias. Há muito tempo somos bombardeados com o mito da superproteção da CLT. Os corredores lotados da Justiça dão a impressão oposta, uma interminável romaria de desempregados que contam histórias parecidas diante das mesmas empresas. Um dos maiores defeitos do sistema de proteção laboral brasileiro é exatamente esse: gravita sobre o espólio da relação morta sem atingir tanto o trabalho vivo.

A realidade do mercado de trabalho de Brasil é muito, muito dura. O que, sem dúvida, justificaria um debate honesto sobre a eficácia da legislação e até o papel da grande burocracia que se formou em torno da questão social. A legislação trabalhista não é nenhum modelo de perfeição e não é ilegítimo que o Congresso proponha mudanças.

Ilegítimo é o encaminhamento dado pelo Legislativo, que está praticando um autêntico estupro social. O Código Civil de 2002 foi fruto de longuíssima tramitação.  O anteprojeto inicial do novo Código de Processo Civil foi rejeitado e uma nova comissão foi formada, com a realização de audiências públicas e a participação de diversos setores. Já na reforma trabalhista, o projeto final praticamente saiu pronto de uma gaveta. O pequeno projeto do governo se transformou, de uma hora para outra, na mudança de cerca de 200 artigos legais. Emendas e destaques não foram aceitos para não atrasar a tramitação. Uma operação de guerra. Na Globonews, um conhecido sociólogo da USP resumiu a tática: o governo Temer é uma janela de oportunidades para a agenda de reformas que jamais seria referendada nas urnas.

A primeira vítima desta guerra relâmpago é a legitimidade das instituições. É chocante perceber que o sistema político não dá a mínima para a opinião pública, não respeita os procedimentos que legitimam o seu poder e se dispõe a fazer qualquer coisa para angariar a simpatia do mercado, a única coisa que ainda lhes interessa.

A propaganda do governo é enganosa. Independentemente de siglas e malabarismos jurídicos, o custo da mão de obra brasileiro é baixo. Não será criado emprego algum. O resultado óbvio será o aumento da fragilidade no curso do contrato de trabalho aliada à diminuição da reparação posterior, após a dispensa.

A reforma trabalhista enfraquece, ao mesmo tempo, os sindicatos e a Justiça do Trabalho e naturaliza práticas do mercado, que aos olhos da legislação vigente, são ilegais. E quase a cada dispositivo esbarramos com alguma jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) cassada.

Para os empregados, a regra será cada um por si. A prorrogação da jornada pula de dez para doze horas, são abertas as portas à terceirização, ao trabalho “autônomo” diário, impõe barreiras econômicas à propositura da ação, cria o  “termo de quitação anual dos débitos trabalhistas” cuja única e óbvia utilidade será a de convalidar irregularidades trabalhistas. A mudança com relação aos empregados de classe média é radical, porque diminui ainda mais a proteção. O artigo 444, por exemplo, sobrepõe à livre negociação às disposições normativas no caso de empregado com nível superior que recebe salário duas vezes superior ao limite máximo do benefício da Previdência Social.

Se os autores da reforma pensam em diminuir a litigiosidade e o número de ações, o tiro certamente sairá pela culatra. Caberá à Justiça do Trabalho interpretar os artigos da reforma, e é improvável que ela cometa suicídio institucional. A insegurança sobre as novas leis será enorme e a possível contestação social servirá de estímulo para aumentar a confusão. No fundo, o deputado Rodrigo Maia tem razão. O corolário natural da reforma seria a extinção da Justiça do Trabalho. Proposta que, não custa lembrar, vem do governo FHC.

A nova redação dada ao art. 8º, § 3º afirma “princípio da intervenção mínima na autonomia de vontade coletiva”. Passa despercebido que competências importantes foram retiradas dos sindicatos, como assistir os empregados no momento da rescisão ou autorizar determinadas escalas de trabalho. Os meios de pressão sindical, como o direito de greve, não foram fortalecidos. Toda a parte sindical da CLT, cuja sobrevivência em si é um espanto, permanece firme e forte.

O fim do imposto sindical é o ponto menos atacado da proposta aprovada. Mesmo os setores progressistas se envergonham de defendê-lo. Esquece-se de um pequeno detalhe: as contribuições confirmativas e assistências previstas na Constituição Federal viraram letra morta graças ao STF e TST.  O sistema brasileiro garante as vantagens da negociação coletiva para todos, mas impõe o custo da negociação apenas aos sindicalizados, em nome da liberdade sindical, entendida como o direito a não contribuir.

Sem contribuições compulsórias, a esmagadora maioria da estrutura sindical pode fechar as portas. Como manter sindicatos de categorias pobres e/ou voláteis? Como sustentar os altos custos de uma negociação trabalhista séria?  Se os políticos são presas fáceis do poder econômico, porque precisam de muito dinheiro para se eleger, como esperar resultado diferente no meio sindical?

O que temos diante de nós é algo inominável. Recessão, crise econômica e desencanto geral são tratados como uma janela de oportunidade para a imposição de uma reforma trabalhista que visa apenas ao rebaixamento dos direitos sociais. Uma verdadeira volta atrás do relógio, o retorno à República Velha, com seus arranjos oligárquicos e o povo assistindo a tudo, bestializado.

Fonte: Texto de Marcel da Costa Roman Bispo, juiz do Trabalho do TRTRJ e formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicado em projeto Colabora, 13/07/2017.

 

POESIA: A SEMENTE DA PALAVRA

A lavoura espera a semente!

Mas que semente?

A semente, que lançada,

à terra desce e apodrece,

germina e cresce,

é ceifada

e dá muito fruto.

A terra está esperando

bem lavrada e adubada

para não ficar sem nada,

sem sentido de existir,

que um dia, de repente,

uma oportuna semente

ali venha cair.

Pois, de que vale a preparação,

o cuidado, a adubação,

o arado e a enxada,

se a terra não for cultivada?!

De que adianta essa lavoura,

ser tão fértil e tão boa,

e até mesmo preparada,

se tiver de ficar à toa?

De que valem tantos terrenos,

planos, grandes ou pequenos,

Ocupados por capim?…

De que valeria esta terra

se não fosse plantada

existindo só por nada

e em nada ter seu fim?

 

A humanidade vai andando

à toa e se acabando,

sem rumo, sem sorte,

como a terra vazia,

que espera a semente

que há de chegar um dia.

Muita vida sem sentido!

Muita gente sem estrada!

É como a lavoura,

lavrada e preparada

em que cresce só capim

ou existe aí por nada.

O coração de muita gente

é vazio e seco

como a terra nua.

e em outros também,

por falta de boa semente,

cresce em quantia

o capim e toda a peste

que nasce e aí floresce

que suga até secar

q fertilidade dos corações

e a vida dos cristãos.

Lança a palavra,

do sentido da existência,

para os velhos, jovens e crianças.

lança a semente

do amor e da esperança

no coração vazio da gente.

Para que essa terra se encha

de plantas de paz e carinho,

de flores de dignidade e alegria,

de frutos de justiça e amor,

de sentido e caminho.

Semeia,

semeia a boa semente

para que toda essa gente

descubra sua vocação,

e que pode ser boa terra.

A semente, uma vez lançada,

nascida e cultivada,

cresce e prolifera…

Ivo Pedro Oro

PARÁBOLA DO SEMEADOR, NÃO DO COLHEDOR

PARÁBOLA DO SEMEADOR, NÃO DO COLHEDOR

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 15º. DOMINGO COMUM: dia 16/07/17: Mt 13,1-19 (ou 13,1-23)

No capítulo 13, Mateus narra sete parábolas do Reino. Começa pela do semeador. Jesus percebia que em tantos lugares e por diversas pessoas, sua mensagem não encontrava boa acolhida. Muitos o viam com desconfiança ou indiferença. Outros até ouviam com atenção, mas na hora do seguimento não conseguiam romper com suas amarras e tradições. Ele, no entanto, não podia desanimar, precisava semear sempre, acreditando na força da Palavra e no poder de Deus. Seu anúncio era semeado pela sua palavra e por contínuos gestos de compaixão para com as pessoas e o povo sofrido. Para Jesus, os obstáculos e resistências ao Reino não podem impedir que se proclame a Palavra. Em muita gente ela produz frutos abundantes, e um dia haverá uma boa colheita.

  1. “Jesus disse-lhes muitas coisas em parábolas: ‘O semeador saiu para semear… Algumas sementes caíram à beira do caminho, os pássaros vieram e as comeram. Outras caíram em terreno pedregoso… brotaram… Mas quando o sol apareceu, ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. Outras sementes caíram em terra boa e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta por frutos por semente’.”

Esta primeira parábola de Jesus nos convoca a semear, não a colher. Vale para a Igreja e todos os cristãos de hoje. Muitas comunidades querem boa  participação, liturgias animadas, pastorais organizadas, lotar as igrejas e encher os olhos… Mais do que sonhar com o êxito da colheita, precisamos da paciência e da coragem de semear sempre. “O que falta são semeadores: seguidores e seguidoras de Jesus que semeiam por onde passam palavras de esperança e gestos de compaixão.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 152).

Por vezes, a Palavra se perde. Outras vezes, as sementes produzem pouco, mas produzem. É preciso acreditar. Jesus mesmo, depois, dá aos discípulos a explicação dos terrenos/pessoas diferentes que recebem a semente: a) Beira do caminho = pessoa que ouve a Palavra, mas deixa o Maligno roubá-la do seu coração. b) Terreno pedregoso = quem recebe a Palavra com alegria, mas é volúvel; quando vem a dificuldade e a perseguição, logo desiste. c) Terreno com espinhos = quem ouve a Palavra, mas deixa as preocupações da vida e a ilusão da riqueza sufocá-la e não dá fruto. d) Boa terra = quem ouve a Palavra e a compreende, e produz frutos, uns mais outros menos. Esses terrenos podem ser comparados com inúmeras situações que hoje criam dificuldade para o Evangelho ser anunciado e vivido, ser acolhido e produzir os frutos que Deus espera: o apego ao capital e a certos bens, a ânsia de diversões e de prazeres, a necessidade de gozar o bem-estar e o conforto, a supervalorização das folgas e acomodação, a mania de não assumir nem se comprometer, o vício de “para a Igreja e o próximo o mínimo possível” e as desculpas de não seguir a Jesus porque agentes pastorais defendem a justiça e os direitos dos pobres…

  1. “Quem tem ouvidos, ouça!”

Jesus espera com ansiedade que acolhamos a semente e produzamos frutos. Ele nos convida a semearmos e a acolhermos sempre a Palavra, com disponibilidade e sinceridade, sem tapeação nem disfarces. Ela nos convida “a ser mais humanos, a transformar nossa vida, a tecer relações novas entre as pessoas, a viver com mais transparência, a abrir-nos com mais vontade a Deus” (Idem, p.153). Para isso, o Evangelho “deve ser apresentado com fidelidade, em toda sua verdade, suas exigências e sua esperança. Sem deformações nem covardias. Sem parcialismos intencionais, nem manipulações interessadas” (p.154).

A Palavra precisa chegar ao coração das pessoas, para aí produzir a conversão, a mudança de atitudes e de opções de vida. E deve chegar a todos e a todas. Para isso, as comunidades não podem ficar no tradicional, no “sempre foi assim”. Como Jesus foi criativo, diferente dos líderes religiosos de seu tempo, hoje todos os cristãos participantes devem sentir-se desafiados à criatividade, a encontrar e construir novos meios e atingir mais espaços para que o Evangelho produza através de cristãos verdadeiros as transformações na sociedade.

Para concluir, vejamos este alerta: “Nosso problema é acabar vivendo com o “coração embotado”. …Temos “ouvidos”, mas não escutamos nenhuma mensagem. Temos “olhos”, mas não vemos Jesus. Nosso coração não entende nada. …Como podemos despertar entre nós a acolhida do Semeador?” (p. 157). Quanta gente vai à igreja, ou tem suas devoções particulares ou familiares, mas não quer se abrir à Palavra de Deus, que nos pede mudança, novo agir e novo ser! Não faz nenhum esforço para pôr no seu coração essa Palavra e não se empenha nada para que ela produza frutos. Quais são os espinhos, as pedras e as aves de rapina que estão devorando e impedindo de vivermos em nossa vida o Evangelho???

VINDE A MIM… EU VOS DAREI DESCANSO!

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 14º. DOMINGO COMUM – dia 09/07/17: Mt 11,25-30

A maneira que Deus escolheu para se revelar facilita mais aos simples e humildes para compreender, acolher e aceitar. Estes estão mais abertos e disponíveis para sentir e para encontrar-se com Ele. Esta foi a experiência de Jesus: percebeu que eram os simples que entendiam a revelação, por meio dele, de que Deus é Pai, nos ama e quer que tenhamos vida, enquanto as lideranças religiosas e sociais da época não aceitavam nem esta mensagem divina nem a pessoa de Jesus.

  1. “Jesus rezou: ‘Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.”

As pessoas simples e tidas como ignorantes se aproximavam de Jesus  e se deixavam instruir por Ele. Entendiam Jesus mais do que os “praticantes da religião”. Na linguagem de hoje, para os simples e pobres Jesus era um sucesso, já sua atuação com os sabidos e grandes era um fracasso. Esses achavam que sabiam tudo da Escritura e de Deus e não queriam aprender nada novo de Jesus. Sua mente e coração estavam endurecidos e fechados por uma visão tradicional.

Esta oração de Jesus nos ensina: a) a louvar ao Pai pela sua revelação e atuação por meio dos simples e pequenos – e perceber aí os seus sinais e seus apelos; b) a opção de Deus é pelos simples e humildes, e este é o jeito de Jesus, manso e humilde de coração; c) os que não tinham vez com as lideranças da sociedade eram acolhidos e amados por Jesus: os camponeses explorados e famintos, os enfermos considerados impuros, as mulheres inferiorizadas, os deficientes e os desprezados como pecadores; d) os sabidos e entendidos viam na prática de Jesus um perigo para eles e para o tipo de relações e de sociedade que Jesus estava iniciando, por isso não queriam acolher esta proposta, porque se sentiam prejudicados em seus interesses e estilo de vida. “Sim, Pai, porque assim é do teu agrado!”. Já os simples tinham um olhar mais limpo e um coração sem segundas intenções.

  1. “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

Jesus lança um convite aos cansados e oprimidos com três apelos: a) “Vinde a mim todos que estais cansados… eu vos aliviarei”. Os sobrecarregados com as doutrinas, normas legais e cobranças diversas da religião, do templo e do poder dominador  em Jesus encontram alívio e, principalmente, a alegria de se sentirem salvos e amados por Deus. b) “Tomai sobre vós o meu jugo suave, porque meu peso é leve.” Tirar dos ombros a pesada canga imposta pela religião e sociedade e carregar o peso do seguimento de Jesus que “torna a vida mais leve. Não porque Jesus exige menos. Ele exige mais, porém de outra maneira. Exige o essencial: o amor que liberta e faz viver” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 144). c) “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.” Aprender de Jesus a viver a fé e nossa vida de Igreja, não como um peso, mas com a alegria de estar com Deus e com os irmãos e irmãs. Viver com o espírito de Jesus, sem complicar a vida, sem ater-se a muita norma e esquema. Jesus torna a vida mais simples e espontânea, “não oprime, ajuda a viver de maneira mais digna e humana. É um ‘descanso’ encontrar-se com Ele” (p.144).

Hoje em dia todos dizem: “É, não é fácil!”, ou “Não tem mais jeito”, ou “Está cada vez pior”. Há os cansados pelo rigor do mundo do trabalho, cumprimento de metas e ameaças de demissão. Há fatigados pela conjuntura incerta da política e da economia, pela corrupção dos grandes empresários e das instâncias do poder. Há também os saturados de atividades, jantares, reuniões, compromissos sociais e formais, e “por estarem sempre conectados” têm que dedicar tempo, vida e energia a muita coisa que gera pouca vida, ou nada.

Mas há também um cansaço mais disfarçado, difícil de ser percebido: “cansados de nós mesmos, fartos de nossa mediocridade, sem encontrar o que do fundo anseia nosso coração… Por isso não é supérfluo escutar as palavras de Jesus: ‘Vinde a mim vós todos que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso’. Há um descanso que só se pode encontrar no mistério de Deus acolhido em nosso coração, seguindo os passos de Jesus” (idem, p.149). Só os simples e humildes compreendem a força que este descanso pode nos trazer.

PAPA CRITICA SISTEMAS DE APOSENTADORIA QUE PRIVILEGIAM ELITES E FORÇAM IDOSOS A TRABALHAR POR ANOS

CEBI ⁄ News ⁄ Papa critica sistemas de aposentadoria que privilegiam elites e forçam idosos a trabalhar por anos (05/07/2017)

Para ele, é “urgente criar um novo pacto social para o trabalho, que reduza as horas da jornada de quem está no fim da temporada trabalhista para criar trabalho para os jovens que tem o direito-dever de trabalhar”

O papa Francisco fez um discurso na quarta-feira, dia 28 de junho, em que criticou os sistemas de aposentadoria que privilegiam determinados grupos enquanto milhares de idosos precisam trabalhar por anos para ter o direito ao benefício.

Durante sua fala no XVIII Congresso Nacional da Confederação Italiana dos Sindicatos de Trabalhadores (Cisl, na sigla em italiano), o pontífice citou as “aposentadorias de ouro”, que foram reveladas pela imprensa italiana recentemente, e que falam sobre os direitos “vitalícios” a determinados grupos de parlamentares.

“As ‘aposentadorias de ouro’ são uma ofensa ao trabalho e não menos graves do que as aposentadorias muito pobres porque fazem com que as desigualdades do tempo de trabalho tornem-se perenes”, disse aos delegados da entidade.

Para ele, é “urgente criar um novo pacto social para o trabalho, que reduza as horas da jornada de quem está no fim da temporada trabalhista para criar trabalho para os jovens que tem o direito-dever de trabalhar”. O líder católico afirmou que é “uma sociedade tola e míope aquela que obriga os idosos a trabalhar por muito tempo e obriga uma geração inteira de jovens a não trabalhar quando deveriam fazer isso por eles e por todos”.

Em uma crítica aos sindicatos, o Papa mostrou a dualidade de quem está na organização. “O capitalismo de nossos tempos não compreende o valor dos sindicatos porque esqueceu a natureza social da economia, das empresas, da vida, das ligações e dos pactos. Mas, talvez, a nossa sociedade não compreende os sindicatos porque não os veem lutar onde ainda ‘não há direitos’: nas periferias existenciais”, disse Francisco.

Sobre o tema, ele ainda acrescentou que “nas sociedades capitalistas, os sindicatos tendem a perder sua natureza profética e tornarem-se muitos similares às instituições e aos poderes que deveriam criticar”. “Os sindicatos, com o passar dos tempos, acabaram tornando-se muito parecidos com a política, ou melhor, com os partidos políticos, à sua linguagem e ao seu estilo. E se faltar a sua verdadeira dimensão, ele perde força e eficácia”, acrescentou.

 

SÃO PEDRO E SÃO PAULO: TESTEMUNHO DE FIRMEZA NA FÉ E NA MISSÃO!

 

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 13º. DOMINGO COMUM: dia 02/07/17: Mt 16,13-19

Veneramos os santos porque seu testemunho de vida cristã nos enriquece e nos anima a seguirmos no mesmo caminho. Como eles venceram as fraquezas e as dificuldades da vida e da missão, nós também podemos superar e vencer. Temos para isso a graça de Deus que nos acompanha e nos liberta. “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes”, diz Pedro na primeira leitura (At 12,1-11). “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão”, diz Paulo reconhecendo o poder de Deus em meio aos seus limites, já pronto a oferecer a vida ao Senhor: “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício, aproxima-se o momento da minha partida” (2Tm 4,6), afirma ele a Timóteo na segunda leitura. Abertos à graça de Deus, ambos realizaram uma profunda transformação em suas vidas. Pedro era teimoso e covarde, mas tornou-se pedra viva do alicerce da Igreja. Paulo era perseguidor dos cristãos, tornou-se apóstolo e servo, o maior missionário de todos os tempos.

  1. A compreensão a respeito de Jesus e de sua missão

As perguntas “quem dizem os homens que eu sou?” e “vós, quem dizeis que eu sou?” desafiam os discípulos à reflexão e, ao mesmo tempo, a uma tomada de consciência sobre a missão de Jesus. Jesus se deixa avaliar. Quer saber se as pessoas compreendem o objetivo de sua vinda e atuação, o tipo de serviço que como messias veio realizar…Se essa pergunta fosse lançada a nós hoje, como responderíamos?… Possivelmente, de maneira vaga, aérea, muito geral, ou até muito racional, distante, e não algo que brota da vida, de nossa experiência… É bom frequentemente nos fazermos esta indagação: Quem é Jesus para mim e quem eu estou sendo para Jesus?… Da ideia ou imagem que se tem de Jesus pode mudar muito em nossa prática. Se entendemos que Jesus de Nazaré foi o Filho de Deus encarnado em nossa humanidade, igual a nós em tudo, menos no pecado, e que se despojou de qualquer grandeza e honraria humana para dedicar-se e doar-se totalmente aos pobres, doentes, excluídos e pessoas tidas como pecadoras, aí nossa prática, para ser coerente com essa fé, também deve começar a tomar o rumo da solidariedade, da defesa da vida, de priorizar os que têm a vida mais fragilizada, do viver com os outros e para os outros.

  1. Ligar e desligar na terra

Pedro conseguiu dar uma resposta, digamos, até bonita, bem formulada e profunda: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Nessa profissão de fé, eele declara Jesus como humano, divino e Messias. Mateus, ao escrever isto e desta maneira, está confirmando a autoridade de Pedro e sua coordenação dos seguidores de Jesus. Por isso, narra que Jesus lhe diz: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno não poderá vencê-la…Eu te darei as chaves do Reino dos céus. …” Na verdade, a pedra de fundamento da Igreja não é apenas Pedro como pessoa, mas é Pedro com sua profissão de fé. Pedro foi um homem disposto e ousado, mas também fraco e medroso. Foi ele que negou três vezes ser discípulo de Jesus e, noutra ocasião, Jesus lhe disse “Afasta-te de mim, satanás, porque você não pensa como Deus e sim como os homens”. Ser pedra viva da construção da Igreja implica a decisão e a vontade de confessar Jesus e de dar a vida por Ele. Foi isto que Pedro fez, após a ressurreição de Jesus. Partiu com tudo para a missão, nada o pôde demover do compromisso missionário.

“Tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado no céu”, disse Jesus a Pedro. Aqui Pedro é símbolo da Igreja. Esta é a missão da Igreja. Ela não pode hoje legitimar nem sacramentar todo o que acontece na sociedade consumista e materialista, nem no modo de produção capitalista. Há muitos aspectos sobre os quais é preciso ter a coragem e a clareza evangélica de dizer: isto não está de acordo com a vontade do Pai, não combina com o Evangelho, está desligado do céu. Por outro lado, há muitos aspectos e ações, atitudes, especialmente de pessoas humildes, das quais se pode dizer exatamente o contrário: isto é obra da graça de Deus, é assim que se vive verdadeiramente a fé, este gesto é um evangelho vivo para o mundo de agora e para a comunidade; e isto é ligado no céu…

“Não foi um ser humano que te revelou isto, mas meu Pai que está no céu.” A Igreja pode se manter em pé e firme na missão não apenas com as forças humanas. Ela conta com a graça e com a revelação de Deus, que sempre nos fala e nos chama através dos sinais do tempo presente.

Rezemos neste domingo pelo Papa Francisco, para que tenha a força e a iluminação necessárias para conduzir a Igreja, em comunhão com as Igrejas particulares de todo o planeta. Muita oração por ele, porque sofre muita pressão de grupos que não concordam com a sua linha humana e evangélica de atuação, a serviço do Reino.

Papa Francisco aos sindicalistas italianos: É tolice e miopia fazer os idosos trabalhar enquanto os jovens estão desempregados

“É tolice e miopia fazer os idosos trabalhar enquanto os jovens estão desempregados”: o discurso do papa aos sindicalistas italianos

REVISTA IHU ON-LINE – 27/06/17

Santo Padre Francisco recebeu em audiência os delegados da Confederação Italiana dos Sindicatos dos Trabalhadores (CISL), por ocasião do XVIII Congresso Nacional sobre o tema: “Pela pessoa, pelo trabalho” (28 de junho a 1º de julho de 2017).

O discurso foi publicado por Sala de Imprensa da Santa Sé, 28-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caros irmãos e irmãs,

Dou-lhes as boas-vindas por ocasião do Congresso de vocês e agradeço a Secretaria Geral pela sua apresentação.

Vocês escolheram um lema muito bonito para este congresso: “Pela pessoa, pelo trabalho”. Pessoa e trabalho são duas palavras que podem e devem estar juntas. Porque, se pensamos e dizemos o trabalho sem a pessoa, o trabalho acaba se tornando algo desumano, que, esquecendo as pessoas, esquece e perde a si mesmo.

Mas, se pensamos a pessoa sem trabalho, dizemos algo parcial, incompleto, porque a pessoa se realiza em plenitude quando se torna trabalhador, trabalhadora; porque o indivíduo se faz pessoa quando se abre aos outros, à vida social, quando floresce no trabalho. A pessoa floresce no trabalho. O trabalho é a forma mais comum de cooperação que a humanidade gerou na sua história.

Todos os dias, milhões de pessoas cooperam simplesmente trabalhando: educando as nossas crianças, acionando aparelhos mecânicos, cumprindo práticas em um escritório… O trabalho é uma forma de amor civil: não é um amor romântico nem sempre intencional, mas é um amor verdadeiro, autêntico, que nos faz viver e leva o mundo em frente.

Certamente, a pessoa não é só trabalho… Devemos pensar também na saudável cultura do ócio, de saber repousar. Isso não é preguiça, é uma necessidade humana. Quando eu pergunto a um homem, a uma mulher que tem dois, três filhos: “Mas, diga-me, você brinca com os seus filhos? Você tem esse ‘ócio’?” – “É, você sabe, quando eu vou para o trabalho, eles ainda estão dormindo e, quando eu volto, já estão na cama.” Isso é desumano. Por isso, junto com o trabalho, também deve ir a outra cultura. Porque a pessoa não é só trabalho, porque nem sempre trabalhamos e nem sempre devemos trabalhar. Quando crianças, não se trabalha e não se deve trabalhar. Não trabalhamos quando estamos doentes, não trabalhamos quando somos velhos.

 

Há muitas pessoas que ainda não trabalham, ou que não trabalham mais. Tudo isso é verdade e conhecido, mas também deve ser lembrado hoje, quando ainda há no mundo demasiadas crianças e jovens que trabalham e não estudam, enquanto o estudo é o único “trabalho” bom das crianças e dos jovens. E quando nem sempre e nem a todos é reconhecido o direito a uma justa aposentadoria – justa porque não é nem pobre demais, nem rica demais: as “aposentadorias de ouro” são uma ofensa ao trabalho não menos grave do que as aposentadorias pobres demais, porque fazem com que as desigualdades do tempo de trabalho se tornem perenes. Ou quando um trabalhador adoece e é descartado também pelo mundo do trabalho em nome da eficiência – e, por outro lado, se uma pessoa doente consegue, dentro dos seus limites, ainda trabalhar, o trabalho desempenha também uma função terapêutica: às vezes, cura-se trabalhando com outros, junto com outros, para os outros.

 

É uma sociedade tola e míope aquela que obriga os idosos a trabalhar por muito tempo e obriga uma geração inteira de jovens a não trabalhar quando deveriam fazê-lo por eles e por todos. Quando os jovens estão fora do mundo do trabalho, faltam às empresas energia, entusiasmo, inovação, alegria de viver, que são preciosos bens comuns que tornam melhor a vida econômica e a felicidade pública. Então, é urgente um novo pacto social humano, um novo pacto social pelo trabalho, que reduza as horas de trabalho de quem está na última temporada de trabalho, para criar trabalho para os jovens que têm o direito-dever de trabalhar. O dom do trabalho é o primeiro dom dos pais e das mães aos filhos e às filhas, é o primeiro patrimônio de uma sociedade. É o primeiro dote com que os ajudamos a alçar o seu voo livre da vida adulta.

O sindicato, com o passar do tempo, acabou se assemelhando demais à política ou, melhor, aos partidos políticos, à sua linguagem, ao seu estilo. E, em vez disso, se falta essa típica e diferente dimensão, a ação dentro das empresas também perde força e eficácia. Essa é a profecia

Gostaria de salientar dois desafios epocais que, hoje, o movimento sindical deve enfrentar e vencer se quiser continuar desempenhando o seu papel essencial pelo bem comum.

O primeiro é a profecia e diz respeito à própria natureza do sindicato, à sua vocação mais verdadeira. O sindicato é expressão do perfil profético da sociedade. O sindicato nasce e renasce todas as vezes que, como os profetas bíblicos, dá voz a quem não a tem, denuncia o pobre “vendido por um par de sandálias” (cf. Amós 2, 6), desmascara os poderosos que pisoteiam os direitos dos trabalhadores mais frágeis, defende a causa do estrangeiro, dos últimos, dos “descartados”.

 

Como demonstra a grande tradição da CISL, o movimento sindical tem as suas grandes temporadas quando é profecia. Mas, nas nossas sociedades capitalistas avançadas, o sindicato corre o risco de perder essa sua natureza profética e de se tornar semelhante demais às instituições e aos poderes que, em vez disso, deveria criticar. O sindicato, com o passar do tempo, acabou se assemelhando demais à política ou, melhor, aos partidos políticos, à sua linguagem, ao seu estilo. E, em vez disso, se falta essa típica e diferente dimensão, a ação dentro das empresas também perde força e eficácia. Essa é a profecia.

 

Segundo desafio: a inovação. Os profetas são sentinelas, que vigiam no seu posto de observação. O sindicato também deve vigiar sobre os muros da cidade do trabalho, como sentinela que olha e protege aqueles que estão dentro da cidade do trabalho, mas que olha e protege também aqueles que estão fora dos muros. O sindicato não desempenha a sua função essencial de inovação social se vigia apenas aqueles que estão dentro, se protege somente os direitos de quem já trabalha ou está aposentado. Isso deve ser feito, mas é metade do trabalho de vocês. A vocação de vocês também é proteger quem ainda não tem os direitos, os excluídos do trabalho que são excluídos também dos direitos e da democracia.

O capitalismo do nosso tempo não compreende o valor do sindicato, porque esqueceu a natureza social da economia. Esse é um dos maiores pecados. Economia de mercado: não. Digamos economia social de mercado, como nos ensinou São João Paulo II: a economia social de mercado. A economia esqueceu a natureza social que tem como vocação, a natureza social da empresa, da vida, dos vínculos e dos pactos.

 

Mas, talvez, a nossa sociedade não entende o sindicato também porque não o vê lutando o suficiente nos lugares dos “direitos do ainda não”: nas periferias existenciais, entre os descartados do trabalho. Pensemos nos 40% dos jovens com menos de 25 anos que não têm trabalho. Aqui. Na Itália. E vocês devem lutar lá! São periferias existenciais. Não o vê lutar entre os imigrantes, os pobres, que estão sob os muros da cidade; ou não o entende simplesmente porque, às vezes – mas isso acontece em todas as famílias –, a corrupção entrou no coração de alguns sindicalistas. Não se deixem bloquear por isso.

Eu sei que vocês estão se esforçando há muito tempo nas direções certas, especialmente com os migrantes, com os jovens e com as mulheres. E isso que eu estou dizendo poderia parecer superado, mas, no mundo do trabalho, a mulher ainda é de segunda classe. Vocês poderiam dizer: “Não, existe aquela empresária, aquela outra…”. Sim, mas a mulher ganha menos, é mais facilmente explorada… Façam alguma coisa. Encorajo-os a continuar e, se possível, a fazer mais.

 

Habitar as periferias pode se tornar uma estratégia de ação, uma prioridade do sindicato de hoje e de amanhã. Não há uma boa sociedade sem um bom sindicato, e não há um sindicato bom que não renasça todos os dias nas periferias, que não transforme as pedras descartadas da economia em pedras angulares.

Sindicato é uma bela palavra que provém do grego “dike”, isto é, justiça, e “syn”, juntos: syn-dike, “justiça juntos”. Não há justiça juntos se não é junto aos excluídos de hoje.

Agradeço-lhes por este encontro, abençoo-os, abençoo o trabalho de vocês e desejo todo o bem para o Congresso de vocês e para o trabalho cotidiano de vocês. E quando nós, na Igreja, fazemos uma missão, em uma paróquia, por exemplo, o bispo diz: “Façamos a missão para que toda a paróquia se converta, ou seja, dê um passo para melhor”. Vocês também “convertam-se”: deem um passo para melhor no trabalho de vocês, que seja melhor. Obrigado!

E agora peço-lhes que rezem por mim, porque eu também devo me converter, no meu trabalho a cada dia, devo fazer melhor para ajudar e fazer a minha vocação. Rezem por mim. E eu gostaria de lhes dar a bênção do Senhor.

 

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