Busca

Grão de Mostarda

Padre Ivo Pedro Oro

O NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA, PRECURSOR DE JESUS

O NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA, PRECURSOR DE JESUS

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE JOÃO BATISTA – dia 24/06/18: Lc 1,57-66.80

Interrompemos neste dia a sequência do evangelho segundo Marcos, devido à festa de São João. Dele celebra-se o nascimento (24/06) e o martírio (29/08). Seu nascimento dá-se em meio aos fatos que ocorreram por graça de Deus: Isabel, sua mãe era considerada estéril e estava em idade avançada (possivelmente, próxima dos 40 anos).

  1. Deus atua na história e o povo se alegra

O profeta Malaquias já anunciara: “Eis que Eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante da minha pessoa” (3,1). É ele o precursor (João) do Messias prometido (Jesus). Seus pais – Zacarias e Isabel – eram fiéis ao Senhor e aguardavam o tempo, sem desanimar, em que a promessa seria realizada. O evangelho conta que, quando nasceu o menino, seus vizinhos e parentes alegraram-se porque “o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela”. Por ocasião do rito da circuncisão, costumava-se dar o nome. Fazer este rito mostra como esta família seguia firme nas tradições e orientações de sua religião. Enquanto alguns queriam dar-lhe  nome de seu pai – Zacarias – os pais deram o nome de João, que significa “agraciado por Deus” ou “Deus cheio de graça”. De fato, João tinha a graça de Deus em sua atuação e missão, e Deus foi cheio de graça e de misericórdia, vindo em socorro do seu povo e enviando seu Filho para realizar o reino no meio da humanidade e dentro da história. Com este nome fica enfatizado que esse é um novo tempo, tempo da graça e da misericórdia que vai começar com a vinda de Jesus ao mundo. Ele será “luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra”, diz Deus por meio do profeta Isaías (1ª. Leitura – Is 49,6).

Se formos humildes e bem ligados a Deus, constantemente nos damos conta dos prodígios e maravilhas que Deus vai operando em nós e no meio de seu povo, e que sempre temos muito a agradecer e bendizer o Senhor, que veio ao nosso encontro nos dando a salvação…

  1. Conversão para acolher a salvação

Como diz São Paulo (2ª. Leitura – Atos, 13,22-26), “antes que ele chegasse, João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel. Estando para terminar sua missão, João declarou: ‘E não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias”. Só nesta breve referência temos duas marcas importantes do profeta João Batista: a) é aquele que anunciou a conversão para aceitar a salvação de Jesus e segui-lo no movimento do Reino; b) é alguém que, para se encontrar verdadeiramente com o Senhor e descobrir a sua vontade, é capaz de “fazer deserto”, passar longos momentos de silêncio para escutar a voz do Senhor; c) é um servidor humilde do Senhor: não se vê digno nem de desamarrar as sandálias de Jesus Messias. Sem conversão, sem acertar nossos passos no caminho do Senhor, não temos como direção de nossa vida o Reino nem a salvação eterna.

  1. O crescimento de menino João

O evangelho acrescenta: “A mão do Senhor estava com ele. E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia em lugares desertos, até ao dia em que se apresentou publicamente a Israel”. É semelhante ao comentário que é feito a Jesus no capítulo seguinte de Lucas: “Jesus crescia em sabedoria, idade (estatura) e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 22,52). Enquanto João crescia, “se fortalecia em espírito”. É uma afirmação simples, mas encerra uma atitude e uma prática fundamental para quem segue Javé. Os filhos, naquele tempo na vivência judaica, eram educados com clareza e firmeza nos mandamentos do Senhor. Recebiam não apenas as instruções e conhecimentos, mas eram iniciados na prática da leitura bíblica, nos prática da oração (diversos momentos por dia), bem como na participação na sinagoga e no templo, por ocasião das festas.

Trazendo para nossa realidade… Hoje em quê são educadas, orientadas e iniciadas as nossas crianças?… Será que seus pais lhes transmitem as iniciações da fé e da vida cristã?… A família está sendo berço de fé, ou apenas berço de vida material e física, de encaminhamentos escolares, e preparação para profissão pensando em faturar e se enriquecer no futuro, mas sem cultivar a espiritualidade, a oração, a doação ao próximo, a vida comunitária e a vivência solidária?… As crianças hoje têm mais tempo de “formação religiosa”, ou mais tempo para entretenimento com celular, videogame e filminhos que nada acrescentam a estes seres humanos?

Anúncios

NÃO A LÓGICA DA EFICÁCIA, MAS A VIDA COMO GRAÇA

NÃO A LÓGICA DA EFICÁCIA, MAS A VIDA COMO GRAÇA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 11º. DOMINGO DO TEMPO COMUM – dia 17/06/18: Mc 4,26-34

As parábolas do Reino, deste domingo, vão na contramão da sociedade e da cultura atuais. Falam da gratuidade, do misterioso crescimento, da força invisível, da doação, do semear, da grandeza dos pequenos gestos e ações.

  1. A sociedade da lógica da eficácia

Estamos num estilo de vida marcado pela produtividade, eficácia e rendimento. Quando as pessoas progridem, acham que é por seus méritos próprios, pelo seu esforço e capacidade. Numa formatura de graduação, um estudante discursou sobre a meritocracia própria, sem lembrar e reconhecer que movimentos populares lutaram 40 anos para haver essa universidade federal, na qual ele entrou pela cota da escola pública, também resultado da luta popular. Nossa cultura impõe a lei fundamental do trabalho, como razão de tudo, e esquece as dádivas da vida e os dons de Deus. Neste clima, nossa existência torna-se tensa e sufocada, e deterioram-se as relações com as pessoas, com o mundo e com Deus. Tudo é submetido à agitação, correria, excesso de atividade, programação e resultados. “Na hora de avaliar uma pessoa, sempre se termina medindo-a por suas capacidades de produção.” (Pagola. O Caminho aberto por Jesus – Marcos, p.99). A sociedade moderna visa a tirar do ser humano “o máximo rendimento por meio do esforço e da atividade”. Mas “nossa maior desgraça é viver somente do nosso esforço, sem deixar-nos agraciar e abençoar por Deus, e sem desfrutar o que nos vai sendo dado constantemente”, pois “há problemas que não se ‘resolvem’ na base do esforço, mas que se ‘dissolvem’ quando sabemos acolher a graça de Deus em nós” (ibid.).

  1. O Reino de Deus é gratuito

Jesus contou esta parábola: “O Reino de Deus é como um homem que lança a semente na terra. Ele dorme de noite e se levanta de manhã; a semente germina e vai crescendo sem que ele saiba como. Por si mesma a terra vai produzindo a colheita: primeiro os caules, depois a espiga, depois o grão. Quando o grão está maduro, mete-se a foice, porque chegou o tempo da ceifa”. É claro que é importante o preparativo da terra e a semeadora. Mas a germinação da semente e o crescimento não são obra do lavrador. Há toda uma força escondida, um poder misterioso e uma lógica da gratuidade da vida que acompanham este espetáculo da natureza… Assim é o Reino de Deus. Não é resultado primeiramente de nosso empenho e esforço, mas da graça de Deus. Nós semeamos, nos esforçamos por ajudar com algumas ações e atitudes, mas é a força de Deus que faz crescer o Reino em nós e na sociedade. Precisamos ser mais instrumentos disponíveis nas mãos do autor do que nos julgar atores únicos do processo, como na visão da meritocracia, que ignora que tudo é graça e bondade do Deus da vida.

  1. Semear humanidade

Urge irmos vencendo aos poucos a lógica da eficácia, competitividade e produtividade. A vida é um “presente de Deus que devemos acolher e desfrutar com coração agradecido. Para ser humana, a pessoa precisa aprender a estar na vida não só a partir de uma atitude produtiva, mas também contemplativa. A vida adquire uma dimensão nova e mais profunda quando conseguimos viver a experiência do amor gratuito, criativo e dinamizador de Deus” (p.98). O evangelho fala que o lavrador semeou e Deus fez crescer. É necessário viver a vida dando atenção às pessoas, à natureza, ao mistério de Deus que vai se revelando de tantos modos. Em vez de produção, correria e busca sôfrega de resultados, é necessário semear humanidade. Viver de modo mais humano e gratuito, pequenas sementes que podem gerar uma enorme colheita de bem, de amor, de alegria, de existência pacífica e feliz. “O ser humano está perdendo a capacidade de sentir e expressar amor. Não consegue sentir solicitude, cuidado e responsabilidade por outros seres humanos que entram no campo dos seus interesses. Vive ‘ensimesmado’…” (p.102).

Gestos pequenos e ações pequenas, com o poder de Deus podem tornar-se grandes contribuições para o avanço do Reino, como Jesus compara: “É como o grão de mostarda: ao ser semeado na terra é a menor de todas as sementes; mas depois brota, se torna a mais alta de todas as hortaliças e deita ramos tão grandes que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra”.

Portanto, este evangelho é um convite insistente de Jesus a acreditarmos na força de Deus nos pequenos e nas pequenas coisas, a semearmos sempre humanidade e o bem, a contemplarmos a ação de Deus que se revela muito além dos esquemas de produtividade de nossa sociedade e a tomarmos consciência de que a vida não vale pelos resultados materiais e de produção.

 

 

 

O PECADO CONTRA O ESPÍRITO SANTO

O PECADO CONTRA O ESPÍRITO SANTO

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 10º. DOMINGO DO TEMPO COMUM – dia 10/06/18: Mc 3,20-35

Coloquemo-nos diante da Palavra de Deus que nos foi proclamada. É Deus nos convidando a acolhermos o Espírito Santo e as suas ações, e a jamais atribuirmos ao demônio o que é de Deus. Isso é mais do que uma blasfêmia; é um pecado que não tem perdão.

  1. Jesus não está louco

Diante das ações de Jesus, de curar pessoas no sábado (para muitos era desrespeitar a Lei), de acolher os impuros e pecadores, de não discriminar ninguém, de anunciar os pobres como destinatários primeiros do Reino, muitos diziam que Ele não estava “em perfeito juízo”. Outros, por sua vez, diziam que estava possuído pelo demônio e que era pelo poder do chefe dos demônios que ele expulsava maus espíritos… Esta Palavra pode ser uma orientação firme e certeira para nós hoje. Vivemos numa sociedade doentia, que precisa da força do Espírito, de muito jejum e de oração para combater os males atuais. Hoje as pessoas não querem pensar no sentido da vida: por que vivemos e para que vivemos? Caem numa vida trivial e no vazio, falta de sentido. Vivemos muitas vezes na superfície das coisas, nas impressões e aparências, nas ilusões e tapeações. Geralmente não queremos ter vida interior, cultivar a espiritualidade, aprofundar a fé. Vivemos na onda das publicidades e da propaganda, na moda do consumismo, nos estilos de vida da cultura dominante que nos impõem costumes, vivência medíocre e falta de consciência da realidade… E nós nos embalamos com as promessas de felicidade e salvação no bem-estar, no conforto, na compra de coisas bonitas… “Quase tudo nos arrasta para viver de acordo com o ideal que já está assumido e interiorizado socialmente: trabalhar para ganhar dinheiro, ter dinheiro para adquirir coisas, ter coisas para ‘viver melhor’ e ‘ser alguém’”. (O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 91) Jesus não estava louco. Estava, sim, com ousadia e coragem, e lutava por uma sociedade diferente, com justiça, amor e respeito a todos os seres humanos, por fraternidade e paz. Mais loucos, sem dúvida, eram os que não reconheciam nele a obra de Deus.

  1. O pecado contra o Espírito Santo

Aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não terá jamais perdão”, disse Jesus. Recebemos o Espírito para dar testemunho, para viver de modo diferente. Ele nos ajuda a descobrir que a verdadeira alegria e felicidade não estão nas ilusões e satisfações, que não vale a pena viver por nada nem por tão pouco. Somos seguidores e testemunhas de Jesus, e precisamos agir conforme seu Espírito. E o Espírito nos anima a acolher a todos como nossos irmãos e irmãs, como nossa mãe: “Quem é minha mãe e meus irmãos?… Aquele que cumpre a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Viver com o a força do Espírito é construirmos atitudes de fraternidade com todos. Não são importantes somente os vínculos de sangue. Jesus revela que vivermos no seu seguimento e no seu Espírito, isto nos faz profundamente fraternos, e nos torna uma imensa e belíssima família. Jesus não desrespeitou sua mãe e seus parentes próximos com essa afirmação. Ao contrário nos convida para a fraternidade com todos, fazendo a vontade do Pai. E a vontade de Deus é que acolhamos a todos, as crianças e pequenos da sociedade, os migrantes, os caminhoneiros, os que padecem devido às ingerências de governos que privilegiam os lucros dos grandes grupos em prejuízo da população em geral, que perde direitos, programas sociais e políticas públicas. Quando vivemos isso estamos no mais perfeito juízo, e não loucos! O Espírito nos impulsiona para o amor às pessoas e anima a sempre darmos atenção aos doentes e enfermos. Hoje a sociedade está enferma em seu conjunto, e padece neuroses coletivas e falta de consciência: “Pode acontecer, inclusive que, dentro de uma sociedade enferma, se considere enfermos precisamente aqueles que são mais sadios” (p. 92). A “sociedade é sadia na medida em que favorece o desenvolvimento sadio das pessoas”; quando não deixa arruinar seu espírito, arrastando-se “por uma vida de conforto, comodidade e excesso”, mas vivendo “de modo sóbrio e moderado”; quando não reduz sua vida à satisfação de desejos e de impulsos, de distrações e diversões; quando se vive compartilhando, convivendo em comunidade, buscando o sentido que Deus dá para nossa vida e procurando praticar o que Jesus nos ensina… (cf. 93)

Não podemos apequenar Deus, vivendo uma fé que nos fecha em tradições e em necessidades e interesses particulares. Nosso Deus quer um mundo com vida digna para todos, não apenas para uma minoria privilegiada. Nosso Deus quer igualdade, participação e democracia, não corrupção nem ditadura. Nosso Deus quer vivência comunitária, e não individualismo, solidão e fechamento em si mesmo.

AS LEIS DE DEUS SÃO PARA A VIDA E FELICIDADE

AS LEIS DE DEUS SÃO PARA A VIDA E FELICIDADE

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 9º. DOMINGO DO TEMPO COMUM – dia 03/06/18: Mc 2,23-3,6

Olhando para o mundo atual e nossa sociedade, para nossa rotina cotidiana e prática da fé, sentimos que as pessoas não conseguem ver Deus como um companheiro, um aliado. Muitos enxergam Deus como inimigo da felicidade, como um atrapalho na vida, alguém que impõe mandamentos, coloca limites para as atitudes e exige algumas práticas a mais para serem realizadas: “São muitos os que continuam pensando que, sem ele, a vida seria mais livre, espontânea e feliz” (O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 87)… O evangelho deste domingo nos faz ver de modo muito radiante que “não há um só ponto no qual Deus imponha algo que vai contra nosso ser e nossa felicidade verdadeira” (ibid.). O ser humano foi criado não para ficar observando leis e ter que cumprir regras impostas, mas para a realização, a alegria plena e a felicidade: “As leis que procedem de Deus e são retamente aplicadas estão sempre a serviço do bem do ser humano, não a serviço da sua destruição” (ibid.).

  1. O homem da mão paralisada

Jesus tinha permitido aos discípulos colher umas espigas de trigo, em dia de sábado (nesse dia era proibido trabalhar), porque estavam com fome. Aos que o criticavam por isto, falou: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”, pois Deus é o Senhor do tempo e o tempo e as leis devem servir à vida. Numa celebração na sinagoga, Jesus viu um homem com a mão paralisada. Os fariseus ficaram na espreita pra ver se Jesus o curava em dia de sábado, para acusá-lo. Jesus o convida a ficar no meio, não num canto. E perguntou aos que estavam aí: É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida de um homem ou deixá-lo morrer? Como ficaram todos calados, Jesus ficou indignado e triste com o coração duro deles, e disse àquele homem: “Estende a mão”. A mão ficou curada.

Os fariseus queriam se justificar cumprindo rigorosamente as leis. Em vez de ajudar o homem com o problema na mão, não se importam com ele e querem recriminar Jesus por ajudá-lo. Sempre com a desculpa de que no sábado, pela lei, não se pode nem ajudar nem curar. “A lei é necessária para a convivência política ou religiosa. Jesus não a despreza. Mas a lei deve estar a serviço da pessoa e da vida. Seria um erro defender a lei acima de tudo, e propugnar a ordem social sem perguntar-nos se realmente está a serviço dos necessitados” (idem, p.82). Manter a ordem e obedecer às leis não basta. Precisamos como cristãos nos questionar: A quem ajudam as leis? Quais interesses elas defendem?… E no Brasil de agora, podemos refletir quantas leis são injustas, foram (im)postas por quem faz e sanciona as leis, mas para beneficiar, quem sabe, um grupo de capitalistas e privilegiados. A lei que impede por 20 anos investir mais em educação, assistência social e saúde… A reforma das leis trabalhistas… As isenções de certos impostos para as multinacionais que exploram o pré-sal… Há leis feitas em prol de alguns grupos, e para a maioria sofrer em consequência delas…

  1. A religião da vida

Jesus vive em comunhão com o Pai e quer sempre fazer sua vontade. Sua relação com o Pai e sua vivência segundo o Espírito não o impulsionam a cumprir normas, mas em defender a vida, os seres humanos. É isto que o evangelho nos ensina. Para Ele, “a obediência a Deus leva sempre a buscar o bem do ser humano, porque sua vontade consiste em que o homem viva em plenitude. … Deus é Amor, e sua glória consiste precisamente no bem de suas criaturas” (p. 83). Jesus não nos põe diante de centenas de normas, mas diante de um Pai amoroso que não nos cobra obediência a normas, “e sim que se busque o bem de todo ser humano” (ibid.) Na religião de Jesus, como diz Josef Blanck, “o próximo toma o lugar da lei, e suas necessidades determinam o que se deve fazer em cada situação” (p. 84). Então, nossa obediência a Deus passa necessariamente por ouvir o apelo de Deus que brota dos irmãos, especialmente dos mais necessitados. Quem fica atento, escuta, preocupa-se com eles e os defende e ajuda, está obedecendo a Deus, cumprindo a lei. Pois, no fundo, está vivendo o mandamento do amor.

“Fazer o bem ou fazer o mal? Salvar o próximo ou deixá-lo morrer?”, aqui está o núcleo central de viver ou rejeitar nossa religião. O estilo consumista e a vida do bem-estar nos anestesiam, amortecem nossa sensibilidade. Como é difícil hoje nos preocuparmos com nosso próximo; as pessoas não gostam de pensar nos sofredores e excluídos da sociedade. Assim, ainda estamos longe da “religião” de Jesus. Ele veio para que todos tenham vida com fartura, dignidade e felicidade.

Em suma, meditemos com Pagola: “Jesus cura o enfermo infringindo a lei do sábado, e deixa clara sua mensagem: a vontade de Deus sempre busca a vida, a criação, a libertação da pessoa. Por isso é falsa a vivência da religião que leva a desinteressar-se do sofrimento humano. ‘O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado’” (p. 84).

 

MEU CORPO ENTREGUE E MEU SANGUE DERRAMADO…

MEU CORPO ENTREGUE E MEU SANGUE DERRAMADO…

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA SOLENIDADE DO CORPO E SANGUE DE JESUS – DIA 31/05/18: Mc 14,12-16.22-26

Instituída desde o século XIII, esta solenidade é um momento importante para fortalecer a fé na presença de Jesus na Eucaristia, para reavivar a pertença à comunidade (Corpo de Cristo), bem como para assumir na prática a atitude de Jesus de doar-se, entregar-se pela libertação e salvação, para que haja vida verdadeira aos nossos irmãos e irmãs. A adoração do Santíssimo Sacramento tem seu sentido quando se entra em comunhão mais profunda com Jesus e com o seu projeto de vida e de justiça.

  1. Comungar com Jesus

Comungar verdadeiramente com Jesus não é apenas receber a santa hóstia. Fazer comunhão com ele neste gesto e neste rito é predispor-se e comprometer-se profundamente em viver a comunhão com Ele no dia a dia da vida, não apenas na hora da comunhão. Felizmente, muitos cantos litúrgicos do momento da comunhão lembram este compromisso: de amor, de dar a vida, de vivência comunitária, de abraçar a causa do oprimido, de viver e morrer pelo Reino. Pagola nos ensina: “Não devemos esquecer que ‘comungar’ com Jesus é ter os mesmos sentimentos de alguém que viveu e morreu ‘entregue’ totalmente aos outros. Assim insiste Jesus” (O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 258). Participar da eucaristia é alimentar-se de Jesus. É alimentar nossas energias, nossos sonhos, nossa luta, nosso compromisso com o Reino, nossa vontade de democracia e liberdade, de amor ao próximo e de justiça, com a Palavra, com a presença e com a vida de Jesus. Como o alimento se torna nosso ser e nossa vida, assim deve ser a presença eucarística de Jesus. É um desprezo a Ele recebê-lo na Eucaristia, sem nutrir em nós aquilo que Ele ensinou e pelo qual deu a sua vida: que sejamos todos irmãos e irmãs, participantes do Reino do Pai.

  1. Corpo entregue, sangue derramado

Enquanto celebravam a ceia pascal, fazendo memória da antiga Páscoa da libertação do povo escravo, Jesus instituiu a Eucaristia. Escolheu o pão e o vinho, alimento e bebida populares, para simbolizar e fazer-se presente na comunidade que se reúne em seu nome, fazendo memória dele. Assim expressa que a nova aliança, a nova libertação integral do ser humano se realiza no seu projeto, na sua prática, na comunhão com Ele e com o Reino. Os frutos da terra e do trabalho humano – pão e vinho – do campo e da cidade, são dons de Deus, uma bênção para os seres humanos. Lembremos que o pão era trigo e foi amassado, moído; o vinho era uva, que foi pisada e esmagada. Em ambos está o sangue e a vida de Jesus, mas também dos trabalhadores e trabalhadoras. Partilhar na mesa comum, comer e beber juntos, partir o mesmo pão precisam, ao menos, despertar e reavivar em nós a comunhão fraterna e aprofundar a comunhão com o Senhor. Não se come na mesma mesa com indiferença, com ódio, com desigualdade. E celebrar o corpo entregue e o sangue derramado por nós implica nosso reconhecimento do gesto supremo de amor de Deus por nós e nosso compromisso com a mesma atitude de tornar nossa vida compartilhada, derramada, doada e gasta de maneira a gerar mais vida e crescimento ao Reino de justiça.

  1. Recuperar o gosto pela celebração eucarística

Por mais que em nossos dias essa celebração (mais conhecida como santa missa) não tenha muita expressão de refeição e de mesa comum, e tenha mais de sacrifício e de altar, mesmo assim, quando lembramos que aí está Jesus oferecendo novamente e sempre sua vida por nós, sedentos dele, isto não nos pode deixar insensíveis, indiferentes e apáticos. Uma imensa gratidão deve invadir nossos corações. É muito amor de Jesus por nós! Não nos abandona, ao contrário, nos alimenta e nos acompanha, é nosso companheiro (cum+panis) na caminhada. Aí nos reunimos, convocados por Deus, animados pelo seu Espírito, compartilhando a presença de Jesus, vivo no meio de nós. Comungamos formando uma família, apesar de algumas ou de muitas diferenças, com a força da Eucaristia buscamos viver de modo fraternal e solidário, pois invocamos o mesmo Deus e fazemos parte do mesmo Cristo.

Jesus na Eucaristia, mais do que ser adorado, deve tornar-se nosso alimento de comunhão fraterna e de comunhão filial com o Pai-Mãe. Mais do que nos elevar aos céus, precisa nos fazer estender os braços ao nosso próximo, numa profunda e sincera comunhão… Aí, sim, vale a pena carregar Jesus eucarístico pelas ruas, em procissão, pois não será somente um rito e não será uma apresentação, mas uma expressão de vivência verdadeira de comunhão com Deus e com os irmãos/ãs.

CONTAMOS COM JESUS EM NOSSA MISSÃO

CONTAMOS COM JESUS EM NOSSA MISSÃO

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA SOLENIDADE DA SSMA. TRINDADE – dia 27/05/18: Mt 28,16-20

Na sua despedida junto aos discípulos, Jesus quis garantir a continuidade da missão. E, para eles não terem medo, garantiu a sua presença até o fim. Esta festa da Santíssima Trindade nos motiva e anima a vivermos, nós batizados e batizadas, nossa consagração à Trindade empenhando-nos na mesma missão de Jesus, sempre vivenciando entre nós a presença de Jesus e do seu Espírito. Com Jesus, nada precisamos temer. Toda a comunidade é missionária. A missão é o sentido, o objetivo do ser cristão. Evangelizar a todos e a todas, fazer mais e verdadeiros discípulos de Jesus é a razão e ser da nossa escolha e do envio como seguidores/as de Jesus. O texto deste domingo nos ilumina e fortalece para a vivência de nossa missão, enquanto Igreja.

  1. “Ide e fazei discípulos meus todos os povos…”

É na Galileia – símbolo das periferias, ponto de partida das prioridades missionárias – que Jesus reúne para o envio solene à missão. Foi aí que Ele iniciou sua vida pública e é aí que os discípulos são enviados e dão início à continuação de sua obra. Entre os pequenos, onde a vida é mais fragilizada, há mais necessidade e possibilidade de “o evangelho ser anunciado aos pobres”, pois “deles é o Reino dos céus”.  “Mesmo sendo vacilantes na fé (“alguns ainda duvidavam”), é preciso partir para o anúncio e testemunho de Jesus, de seu evangelho. E isto para todos, mesmo que alguns não aceitem. Todos os povos, categorias, classes, condições e raças. Mais do que detalhes de doutrinas e de rituais, evangelizar se centra em Jesus e em sua prática, sua salvação e libertação, sua vida e proposta do Reino. Evangelizar, para as pessoas conhecerem Jesus, abrirem-se e acolherem a proposta de salvação, através de sua vida, morte e ressurreição, e converterem-se a Ele. É fazer discípulos…

  1. “…batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo…”

Uma vez evangelizadas e convertidas a Jesus e a seu projeto, as pessoas são batizadas para viverem a fé em comunidade, e dar testemunho e viver a vida como missão em todos os aspectos. O Batismo é em nome da Trindade – Deus comunidade de amor. Quem é batizado/a vive a fé com os irmãos e irmãs, na comunidade cristã. É em comunidade que a gente se aprofunda na fé, acolhendo e celebrando a Palavra, e se fortalece no seguimento de Jesus, pelo testemunho uns dos outros. Na comunidade, as relações fraternas, os serviços em conjunto e os momentos celebrativos nos põem mais em comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs, e nos fazem, pelo nosso ser e viver pessoal e comunitário, presença e ação evangelizadoras.

  1. “…e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!”

Mas não para por aí a caminhada cristã. Não basta acolher o anúncio do Evangelho e participar da comunidade. Os seguidores/as de Jesus necessitam aprofundar-se no conhecimento de “tudo o que vos ordenei”. Um cristão não se contenta com as noções iniciais da iniciação à vida cristã e catequese. Sempre há muito a descobrir e a viver mais, conhecendo bem a fundo a Palavra. Nossa Igreja insiste na formação não apenas das lideranças, de animadores/as de comunidades e de pastorais, mas de todo o povo cristão. Essa é uma dificuldade atual. A maioria, por ter algum contato via áudio ou vídeo nas novas tecnologias acaba nutrindo o sentimento de que “já sabe”, “já conhece”. A formação e aprofundamento realizam-se em encontro, no confronto e complementação de ideias e na soma das diversas descobertas dos apelos de Deus no coração de cada participante e no texto da Bíblia e na palavra da Igreja.

  1. “Eis que estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

Precisamos sentir Jesus próximo, amigo, irmão e companheiro. Ele está ao nosso lado. Cristãos que se unem e reúnem sabem que se encontram em Jesus e no seu Espírito. Ele está onde dois ou mais se encontram em seu nome. Enquanto não crermos e não vivenciarmos a presença do Ressuscitado em nossa comunidade reunida, facilmente nos satisfazemos com um cristianismo superficial e medíocre, sem fé cristã profunda e verdadeira. Em nossa vida e celebrações, precisamos superar a ideia/imagem de um Jesus distante e do passado, e acreditar e sentir que está presente “alguém vivo, que anima, vivifica e cumula com seu espírito a comunidade cristã. …impulsionando a missão” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 344).

Somos batizados em nome da Trindade para participarmos de sua missão. Estamos levando a sério esta escolha e envio que Deus nos faz?…

PENTECOSTES: A FESTA DA CONFIANÇA

PENTECOSTES: A FESTA DA CONFIANÇA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DOMINGO DE PENTECOSTES (20.05.18): Jo 15,26-27;16,12-15

Jesus estava em clima de despedida, mas precisava garantir que os discípulos levassem adiante a missão, não se acovardando frente às perseguições. Aliás, não havia motivo para fugir da missão, pois Jesus lhes promete e garante que terão sempre a presença do Espírito Santo. Eles não estão sozinhos… Vale para nós hoje: não estamos sozinhos; com a presença do Espírito temos força para testemunhar Jesus e conhecer e defender a Verdade.

  1. O Defensor, o Espírito da Verdade

São estas as marcas, as atuações que marcam o Espírito Santo, segundo este texto do Evangelho: a) Defensor: Ele é quem, assim como um advogado defende uma causa, defende a comunidade na luta e trabalho pelo Reino, defende a causa da justiça; b) o Espírito da Verdade: o Espírito fiel ao Pai e ao Filho, que defende a Verdade, a Vida e o Caminho que é Jesus e seu projeto. Ele está também hoje acompanhando a Igreja, apesar de nossos pecados e fraquezas. É claro que sua presença não é de magia nem de impedir que haja sofrimentos e sacrifícios em nossa missão. Ele não favorece nem a preguiça, nem a “sombra e água fresca”. “É o mesmo Espírito que agiu em Jesus desde o início até sua vitória sobre a morte. Os seguidores de Jesus não têm o que temer: o Espírito dará testemunho de Jesus e os ajudará na tarefa de testemunhar. É hora de confiança e não de desespero.” (Bortolini. Como ler o Evangelho de João, p. 150). Jesus mesmo nos garantiu neste evangelho: “Vós também dareis testemunho… Ele vos conduzirá à plena verdade”.

  1. Como Jesus, testemunhas da Verdade

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade.” O mundo de hoje perdeu a preocupação com a verdade. Estamos numa sociedade de “faz-de-contas”, de fingimentos, de aparências, de embalagens… O exterior, para muitos, vale mais do que o interior, o que está por dentro, na vida do ser humano. Na comunicação, tantas vezes, o objetivo não é narrar o fato, de forma isenta e imparcial, mas arranjar determinados truques para que sejam incutidas nos ouvintes a versão que se lhes quer impor. É só olhar para a grande mídia nos últimos anos, como tem tratado a virada política, econômica, parlamentar e jurídica, a promoção de uns personagens e a crucificação de outros. Pessoas mais críticas, que buscam a verdade, não raro após ouvir ou assistir a uma notícia se questionam: Com o que estão dizendo, o que é que estão omitindo e aonde querem nos fazer chegar, ou, o que querem nos enfiar goela abaixo?…. Até em termos de práticas religiosas, a demanda de muitos não inclui a verdade, o compromisso ético, a transformação humana; apenas a busca do próprio interesse, seu bem-estar e prosperidade, seus gostos e expectativas. Se para isso for necessário utilizar-se de truques, de falsidade, de pessoas treinadas, de explicações via encosto, mau olhado e olho grande, não duvidam de lançar mão desses meios. A Verdade para tais pessoas não conta mais.

  1. Os dons e os frutos do Espírito para o bem comum

A ação do Espírito, quando a Ele nos abrimos e o acolhemos, nos renova, recria e transforma. Sua presença da comunidade cristã (1ª. Leitura – At 2,1-11) é simbolizada, como se ocorresse num momento cheio de mistério, pelos símbolos do fogo, do vento e das línguas. É por seu poder que as comunidades foram sacudidas da inércia e do medo, aqueceram seu coração com a fé no Ressuscitado e proclamaram o Evangelho em culturas e idiomas diferentes: “cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua… todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua”.

A Carta do Apóstolo Paulo aos Gálatas (2ª. Leitura, 16-25) nos propõe a vivermos não segundo a carne, o mundo, os instintos, mas de acordo com a voz e a vida do Espírito em nós. Como cristãos precisamos viver como quem renasceu em Cristo, como alguém que vive segundo o Espírito e é consagrado à Trindade. Quando se é conduzido pelo Espírito não se contenta em cumprir leis e normas, mas é o nosso ser todo voltado ao Senhor e ao seu Evangelho. Acolhendo e vivendo o Espírito, produzimos estes frutos: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência”.

Para refletir: Em minha vida pessoal, estou agindo conforme o Espírito Santo de Deus, ou me contendo de “viver como os outros”?… Qual tem sido as posturas pessoais e da comunidade em relação às mentiras, falsidades, enganações e ilusões do mundo atual?… Bem no fundo e com sinceridade: o Espírito Santo tem vez em minha vida e na vida de nossa comunidade de Igreja?…

 

 

 

 

Poesia: BANIR A INTOLERÂNCIA

BANIR A INTOLERÂNCIA

 

O outro, o diferente, o diverso,

Ou a diversa, a outra, a diferente…

É uma pena que em nosso universo

A gente apequene tanto o verso da gente.

 

Por medo ou por insegurança,

Egoísmo, rivalidade ou competição,

Encara-se o outro mantendo distância

Ou arma-se o contra-ataque da rejeição.

 

Não é vista a diferença como outro caminho,

E o outro como outro, em sua possibilidade,

Mas como ameaça e constante perigo

A ser vencido com indiferença e hostilidade.

 

Neste tenso clima de etnocentrismo

Aflora, à toda, o fechamento e estranheza,

Não se aceita como dom o pluralismo

Nem se admite a diferença como riqueza…

 

Frente à outra opção, cultura, cor e etnia

Vivamos a abertura do diálogo e consonância.

Para que as diferenças não sejam hierarquia

Vamos com respeito banir toda intolerância.

 

A FESTA DA ESPERANÇA

A FESTA DA ESPERANÇA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DOMINGO DA ASCENSÃO (13.05.18): Mc 16,15-20

Ascensão significa subir a um lugar mais alto, ou a uma posição mais elevada. Na liturgia, celebramos a glorificação de Jesus, após sua caminhada terrestre, humano no meio dos seres humanos. De imediato isto nos remete a pensar que os seres humanos de hoje também precisam ascender, atingir uma situação mais digna, uma vida melhor, em muitos aspectos e dimensões. No entanto, a sensação que temos é de que estamos na “sociedade do cansaço” (expressão do coreano Byung-Chul Han), ou num tempo de “esperança esquecida” e de “perda de horizonte” (expressões do francês J. Ellul). Para Pagola, vivemos um mundo fechado, sem futuro, sem abertura e sem horizonte: “Nunca nós, seres humanos, havíamos alcançado um nível tão elevado de bem-estar, liberdade, cultura, vida longa, tempo livre, comunicações, intercâmbios, possibilidades de desfrute e diversão… Os homens parecem cansados. Não encontram motivos para lutar por uma sociedade melhor e se defendem como podem do desencanto e da desesperança. … Um sentimento de impotência e desengano parece perpassar a alma das sociedades ocidentais. As novas gerações estão aprendendo a viver sem futuro, a atuar sem projetos, a organizar para si apenas o presente. E é cada vez maior o número dos que vivem sem um amanhã” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p.277). A festa da ascensão, com seu evangelho do “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o evangelho”, é uma resposta a essa realidade.

  1. “Ide e anunciai”: é missão de todos nós

Este pedido final de Jesus, por ocasião de sua despedida, foi acolhido pelos discípulos e discípulas como uma mensagem de força e de alegria, de ânimo e de compromisso. Devem ter vibrado com isso e norteado sua atuação: “Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio de sinais que a acompanhavam”. Com eles foi assim. Mas… e hoje? O Papa Francisco insiste numa “Igreja em saída”; a CNBB nos conclama a sermos uma Igreja em estado permanente de missão; os agentes pastorais tentam “reavivar a Igreja das casas”, com nucleação e setorização; muitas iniciativas pelo mundo afora vivem as santas missões populares; e outras atitudes e formas de presença missionária… Milhões de pessoas se engajam, vibram e dão o melhor de si nesta obra do Senhor. Por outro lado, porém, tantos ou mais do que esses não admitem sair do seu “cristianismo mínimo”, de fazer somente pequenas práticas religiosas, não querem fazer mudanças na vida da Igreja e na atuação missionária, nem sair de seu mínimo de atuação na comunidade e na transformação da sociedade. Quem sabe a maioria ainda não admite refletir: Quais os caminhos que o Espírito Santo nos inspira hoje para “anunciar o evangelho a toda criatura”? E sem conversão e sem vontade firme, sem abertura ao Espírito, muitos de nós nos contentamos com o imobilismo, com o “deixar como está pra ver como é que fica”, com o medo de nos desafiar e de nos engajar. Não percebemos que deste jeito estamos sendo “freio e obstáculo cultural para que o evangelho se encarne na sociedade contemporânea” (p. 274).

  1. Confiar na boa notícia do evangelho

Quando do seu primeiro anúncio – literalmente evangelho era uma “boa notícia”. Aquele povo sofrido, escravo, desprezado e inferiorizado acolhia com alegria a notícia de que somos todos irmãos/ãs, iguais entre nós, filhos/as do mesmo Deus que Pai e Mãe, que tem amor misericordioso e nos concede vida, perdão e salvação. Hoje este anúncio será crível, mais do que por belas elaborações doutrinais, pela experiência de Jesus em sua vida e pelo testemunho de amor solidário e de atuação humanizadora dos discípulos de agora. A comunhão solidária e o aprofundamento no evangelho conquistam mais do que os discursos e as mensagens angelicais, doces e aéreas do whats app. “Precisamos sanear nossas vidas eliminando aquilo que nos esvazia de esperança. Quando nos deixamos dominar pelo desencanto, pelo pessimismo ou pela resignação, nos incapacitamos para transformar a vida e renovar a Igreja. …Só conhecem a esperança cristã aqueles que caminham seguindo os passos de Jesus. São eles os que ‘podem proclamar o evangelho a toda a criação’.” (idem, p. 276).

Que nesta Semana de Oração pela Unidade Cristã (com o lema “A mão de Deus nos une e nos liberta”) nos anime ao diálogo e vida fraterna com os cristãos de outras denominações e nos impulsione todos a realizar aquilo é o mais fundamental em nós cristãos: anunciar o evangelho a todos e a todas! Sem vivência do evangelho não haverá ascensão da nossa humanidade em nosso tempo!

 

 

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑