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Padre Ivo Pedro Oro

SEM ESCUTAR JESUS, NÃO SE É CRISTÃO

SEM ESCUTAR JESUS, NÃO SE É CRISTÃO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 2º. DOMINGO da QUARESMA (25.02.18): Mc 9,2-11

Na correria de hoje – que para muitos é mais sensação do que realidade, pois não têm muitas atividades e ocupações – as pessoas quase não tiram tempo para escutar os outros. Muitos, se escutam, ficam ansiosos por terminar a escuta. Como está difícil de a gente se aproximar, ouvir a verdade e a vida do outro, e de ouvir com o coração! Na sociedade atual desigual, muitos não admitem que todo ser humano tenha sua mensagem para dizer… E muitos cristãos esqueceram ou não aceitam “que ser crente é viver escutando Jesus. No entanto, somente a partir desta escuta nasce a fé cristã” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 170)… Domingo passado acolhemos o apelo de Jesus: “Convertei-vos e crede no evangelho!”. Pois é exatamente isso que o Evangelho de hoje nos pede: escutar Jesus e assumir seu projeto. Ou seja, converter-se e crer no Evangelho, passa necessariamente por escutar Jesus e seguir a mesma prática.

  1. A transfiguração na montanha

Jesus subiu ao monte Tabor com três discípulos que resistiam ao seu projeto: Pedro (tentou persuadir Jesus de não ir a Jerusalém, por medo de sofrer), Tiago e João ( que pleiteavam os primeiros lugares quando Jesus instaurasse o seu Reino). Jesus mostra que caminhar para o sacrifício da cruz e a entrega da vida é meio de chegar à glória. Mas revela também que não há glória junto de Deus sem o amor às pessoas e ao mundo… Montanha, na cultura semita era lugar favorável para o encontro com Deus. A luz do rosto e as vestes resplandecentes revelam a glória de Jesus. A nuvem é símbolo de Deus, como aquela que acompanhou o povo ao sair do Egito; é dela que soa a voz do Pai. Moisés e Elias simbolizam o Antigo Testamento, mas não ficam resplandecentes. Só Jesus é o “Filho amado. Escutai-o!” Os três discípulos ficaram com muito medo: na medida em que nos defrontamos com o mistério de Deus sentimos medo, mas, nos aprofundando nele, sentimos paz e alegria e queremos permanecer com Ele. É nova vida que se inicia. Pedro sentiu vontade e ficar no ambiente de glória (“fazer aqui três tendas”), mas Jesus os convida a descer e a voltar à realidade. É preciso chegar a Deus engajando-se pelo Reino, neste mundo.

  1. Escutar Jesus, de verdade

A única voz que ressoou da nuvem diz: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” Já não podemos deter-nos somente no AT, que preparou para acolher o Messias. Jesus é a realização da promessa. É a Ele que devemos escutar, não ao mundo, nem ao senso comum, nem aos (de)formadores midiáticos de opinião, nem aos vícios que vêm de dentro da gente. Às vezes, queremos ouvir de Jesus aquilo que nos agrada, de acordo com nossos interesses e gostos, aquilo que Jesus não diz. Ouvir mesmo o que Jesus diz é acolher a palavra que nos fala e ensina para que viver e para que morrer. É mergulhar na luz verdadeira, reconhecer nossos limites e erros, dar à nossa vida o sentido que Deus lhe dá. “Precisamos em nossas comunidades cristãs, empenharmo-nos mais na escuta fiel de Jesus. Escutar Jesus pode nos curar das cegueiras seculares, pode libertar-nos de desalentos e covardias quase inevitáveis, pode infundir novo vigor à nossa fé.” (ibid.). Para isso, nao é preciso sacrificar um filho (como faria Abraão, na primeira leitura), mas com certeza podemos fazer muito mais para viver o seguimento verdadeiro de Jesus. E aí, podemos nos perguntar como São Paulo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (2ª. leitura – Rm 8,31-34).

Escutar Jesus de fato vai nos humanizando e firmando nossos pés em seu caminho, tornando-nos cristãos novos. Como diz Pagola: “Para ser cristão, o mais decisivo não é em que coisas uma pessoa crê, mas que relação ela vive com Jesus. As crenças, de modo geral, não mudam nossa vida. Alguém pode crer que Deus existe, que Jesus ressuscitou e muitas outras coisas, mas não ser um bom cristão. O que nos pode transformar é a adesão a Jesus e o contato com ele. (…) O mais decisivo não é crer na tradição nem nas instituições, mas centrar nossa vida em Jesus. Viver uma relação consciente e cada vez mais comprometida com Jesus Cristo. Só então é possível escutar sua voz no meio da vida, na tradição cristã e na Igreja. Somente esta comunhão crescente com Jesus vai transformando nossa identidade e nossos critérios, vai mudando para melhor nossa maneira de ver a vida, vai nos libertando de escravidões, vai fazendo crescer nossa responsabilidade evangélica”. (idem, p. 172)

 

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VENCER AS TENTAÇÕES E CONVERTER-SE AO REINO

VENCER AS TENTAÇÕES E CONVERTER-SE AO REINO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 1º. DOMINGO da QUARESMA (18.02.18): Mc 1,12-15

Estamos tão envolvidos com o corre-corre do dia a dia, tão embalados pelos estilos de vida e padrões de comportamento da sociedade atual que, muitas vezes, o que buscamos é ser como os outros, viver como as demais pessoas e seguir o mesmo ritmo e mesma direção da vida. O evangelho deste domingo nos chama, como cristãos, a termos uma postura diferente. O cristão não pode ser como qualquer um nem viver como os outros, como os que se negam a ter Deus na sua vida. O cristão assume valores e atitudes diferentes, pois ele assumiu ser seguidor de Jesus e não do senso comum nem da opinião pública.

  1. “O Espírito levou Jesus ao deserto, onde ficou durante quarenta dias. E aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam.”

Marcos situa as tentações de Jesus, que teve ao longo de sua vida, logo após o seu batismo. Quem é batizado também é tentado a trair o compromisso da fé e do seguimento do Senhor. O batismo é fonte de graça, mas não preserva das tentações do mundo que precisam ser sempre enfrentadas com lucidez, retomando a opção fundamental da nossa vida de fé e de fidelidade ao Evangelho… Marcos coloca aí as tentações e, diferente de Lucas e Mateus, não as explicita. Deserto lembra o treinamento do antigo povo de Deus, durante longo tempo, para seguir os mandamentos do Senhor e viver na sua Aliança. Jesus se fortalece no jejum e no contato com muita oração ao Pai, deixando-se guiar pelo Espirito Santo. Satanás não teve vez com Ele. Na comunhão com Deus, na fidelidade ao seu Reino, na convivência com a natureza e sem nenhum supérfluo nem mordomia, Jesus tornou-se forte para vencer as tentações de ser como outros líderes e de usar os símbolos religiosos em benefício próprio. Soube escolher “entre vida e liberdade, morte e opressão, entre a vontade de Deus Pai que liberta e o poder que oprime” (Balancin. Como Ler o Evangelho de Marcos, p. 22). Ele veio para o Reino de Deus, para dar a vida pela humanidade.

  1. “Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus.”

Estas são as primeiras palavras de Jesus em Marcos: a espera acabou, o tempo já chegou, o Reino está aí; para isso, mudar de vida e crer no Evangelho. João Batista fora preso, era hora de agir e levar adiante a missão. Um grande mensageiro de Deus era perseguido e preso. Precisava ter coragem e continuar a luta do Reino, que está próximo. Jesus já é a presença do Reino acontecendo… “Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus”, diz o início. Galileia é a região de sua origem, mas também é uma periferia, longe dos centros dos poderes (Jerusalém), lugar dos marginalizados. E anuncia o Evangelho de Deus. Evangelho significa “boa notícia”. A boa nova de Jesus é que somos todos queridos de Deus, que Ele está conosco e nos ama, e que nos quer todos como irmãos e irmãs, sem desigualdade, sem injustiças, sem miséria, mas com vida digna e abundante para todos.

  1. E disse: ‘O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho.”

Jesus não se anuncia a si mesmo, mas anuncia o Reino de Deus: “o tempo e a oportunidade para a libertação definitiva: um tempo novo que se realiza num lugar novo” (id., p. 26). Para acolher o Reino é preciso uma mudança. Os pobres e sofredores precisam “acreditar que existem possibilidades novas para sair do pessimismo que considera a injustiça fatal e imutável” (ibid.), não se conformar nem se acomodar à ordem existente. E viver relações de amor e manter acesa a esperança. O Evangelho é boa notícia também para os que têm muito ou demais: basta converter-se, viver a partilha, não centralizar a vida nos bens materiais, mas no amor concreto, viver mais a renúncia e a generosidade, com seus dons e bens ser irmão e ser irmã. Crer no Evangelho e praticá-lo faz parte do processo de conversão e já é entrar na dinâmica do Reino.

Que façamos uma caminhada quaresmal de muita conversão pessoal, familiar e comunitária, para colaborarmos na superação das violências em nossa sociedade atual, tão desumana, rancorosa e desigual em muitas situações e aspectos! Como Jesus ficou atento, é preciso que sejamos vigilantes  diante das formas culturais e institucionais que toram legais as violências, as escravidões e a destruição de direitos em nosso país.

 

VIVER A QUARESMA É CAMINHAR NO EVANGELHO

VIVER A QUARESMA É CAMINHAR NO EVANGELHO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da QUARTA-FEIRA de CINZAS (14.02.18): Mt 6,1-6.16-18

Deus é o Senhor do tempo e da vida. Ele nos concede agora este tempo de graça e de salvação. Quaresma vai deste dia até a 5ª. Feira Santa antes da celebração da Ceia. O Vaticano II já nos alertava que sua vivência nos prepara para a Páscoa “… pela lembrança ou preparação do Batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal” (SC 109). O Evangelho de Mateus insiste em três práticas tradicionais da vivência quaresmal, mas, sobretudo, aponta para a motivação de fazê-las: não é para aparecer nem engrandecer-se, e sim para viver a humildade de entrar em comunhão com os irmãos e com o Pai. Jesus nos diz: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles”.

  1. “Quando deres esmola, não toques a trombeta…”

Diz Jesus: “Que a tua esmole fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”… No tempo de Jesus, não havia assistência social. E o poder público não tinha nenhuma obrigação de amparar doentes e pobres. Isto só aconteceu na história a partir da segunda metade do século XVIII. Então os necessitados ficavam à mercê das pessoas de boa vontade, e de alguma ajuda do templo… Hoje, melhor do que esmola, é viver a solidariedade, que inclui a partilha, a presença e a ajuda concreta. Isto deve ser feito tanto nas relações com outras pessoas, como através de projetos sociais e conquistas de direitos e portarias que garantam saúde, moradia, terra e, enfim, melhores condições de vida para as pessoas.

  1. “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos…”

A motivação da oração deve ser o encontro com Deus e a busca de conhecer a sua vontade, e não a admiração ou elogio de quem nos enxerga orando. Por isso, Jesus acrescenta: “Quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu Pai que está oculto”. Que o motivo de nossa oração, na quaresma, não seja a busca de Deus resolver nossos gostos e interesses individuais, nem a mania de aparecer e de receber elogios, nem o prestígio por participar e ajudar nas celebrações da comunidade, mas, ao contrário, o motivo de oração seja nosso amor profundo a Deus e ao seu Reino.

  1. “Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste…”

Na quaresma, tradicionalmente a Igreja nos propõe a abstinência de carne e jejum nesta quarta-feira e na sexta-feira santa, bem como abstinência de carne todas as sextas-feiras da quaresma. Os cristãos podem, além disso, abster-se de outras coisas e isto nos torna mais fortes diante dos males e vícios da sociedade. Pode ser jejum de celular, de internet, de TV, de bebida alcoólica, de exageros no cultivo e embelezamento do próprio corpo. O sacrifício do jejum contribui para termos mais controle e autodomínio. E o que se economiza com o jejum, seja doado na Campanha da Fraternidade ou a outras pessoas ou obras sociais.

Nesta Campanha, somos convidados a superar as muitas formas de violências, porque somos realmente irmãos e irmãs. Que este tempo de mais oração, de ajudas solidárias, de jejum e de esforço sincero e dedicado para construirmos relações de paz produza em nós uma vida mais alegre, pacífica e fraterna.

Três vezes neste evangelho Jesus insiste para vivermos e agirmos mais “de modo oculto e humilde”. Evitar a propaganda daquilo que se faz e do que se vive é a condição para recebermos “a recompensa do Pai que está no céu”. Ou seja, nossas boas ações na quaresma sejam sem propaganda, sem busca de prestigio, mas com humildade, no silêncio e no oculto. Aliás, ou é assim, ou então não ajudam nem para “nossa justiça” (para sermos mais justos e salvos) nem para o crescimento do Reino do Senhor.

 

JESUS SUPERA A VIOLÊNCIA DA EXCLUSÃO

JESUS SUPERA A VIOLÊNCIA DA EXCLUSÃO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 6º. DOMINGO do TEMPO COMUM (11.02.18): Mc 1,40-45

Neste domingo, também celebrado como Dia Mundial do Enfermo, o evangelho de Marcos nos relata o contato de Jesus com um leproso. O leproso toma a iniciativa surpreendente de aproximar-se de Jesus, o que era proibido pelas leis religiosas e sociais. E Jesus estende sua mão e o toca, o que também era proibido alguém fazer, pois com isso se tornava impuro, uma categoria semelhante a de pecador. Ele não apenas o limpa da lepra. Jesus o liberta da exclusão social a que estava submetido pelas leis e costumes da época.

  1. A vida do ser humano está acima das normas

As pessoas acometidas de lepra eram submetidas a uma situação desumana e cruel. Quando se constatava a doença, não podiam entrar em contato com mais ninguém, tinham que viver isoladas, fora de casa e dos povoados. Não podiam ir ao templo. Eram consideradas como impuras e como castigadas por Deus. Mais ainda: tinham que andar “com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’” (Lv 13, 45 – 1ª. Leitura). Era mais do que ter uma enfermidade, do que ser um doente: era uma verdadeira exclusão social, ser banido do convívio, com uma vida sem condições humanas.

Qual foi a atitude de Jesus, diante do leproso que se pôs de joelhos na frente dele, desafiando as leis desumanas? O leproso, a partir do chão (caído de joelhos), falou: “Se quiseres, podes limpar-me”… Jesus também desafia e contradiz as leis da sociedade e da religião. É emocionante o gesto, a atitude de Jesus. Em vez de se afastar e de sentir repugnância, Ele se aproxima com compaixão, estende a mão e toca no leproso. Que importa se com isso vão considerá-lo como impuro, ou como transgressor? O que importa é acolher o excluído, o ser humano desprezado e banido do convívio familiar e social, mesmo sendo isso contra a lei. E Jesus o limpa (da lepra, da exclusão, da marginalização) dizendo: “Eu quero, fica limpo”.

  1. Contra a onda de ódio e contra o desprezo a segmentos sociais

Muitas vezes precisamos nos perguntar: Se Jesus estivesse em meu lugar, como ele agiria? Que atitude teria? No atual panorama da sociedade brasileira, qual seria a postura de Jesus?… Ele não sentiu horror perto do leproso, nem saiu correndo, nem o chamou de vagabundo ou pecador. Hoje, certamente Jesus não seria a favor da onda de ódio que existe contra as famílias que ganham bolsa-família, nem contra os nordestinos, nem contra os sem-terra, nem contra os moradores de rua… Não ficaria se desviando dos haitianos, nem dos índios, nem dos caboclos mais pobres… Jesus e seus seguidores acolhem os que sofrem e, dentro de suas possibilidades, prestam-lhes ajuda. “Jesus não aceita uma sociedade que exclui leprosos e impuros. Não admite a rejeição social dos indesejáveis. Jesus toca o leproso para libertá-lo de medos, preconceitos e tabus. Limpa-o para dizer a todos que Deus não exclui nem castiga ninguém com a marginalização. É a sociedade que, pensando só em segurança, levanta barreiras e exclui de seu seio os que considera indignos”(Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 59). Quantas pessoas, belas e formosas, se consideram “pessoas de bem” e se acham no direito de odiar as classes mais populares e de não admitir, como aconteceu há poucos anos, que o governo se preocupe com elas e encaminhe políticas públicas e recursos para terem um pouco mais de dignidade e sejam incluídas da sociedade! E ainda se dizem “pessoas de bem”… Esse bem não é o bem comum nem o bem dos irmãos e irmãs amados e queridos do Pai.

  1. Aproximar-se dos impuros e dos sofredores

Essa é outra lição, neste evangelho, da prática de Jesus. Quanta gente hoje em dia, o que faz é defender sua própria felicidade e seu bem-estar, e não aproximar-se de quem padece. Com todas as forças evitam os que estão numa pior, como a criança que mendiga, o indígena que vende balaios, o jovem drogado. “Tenho nojo de pobre!”, dizia um humorista há poucos anos. É incrível, mas é a realidade: quase sempre, quanto mais aumenta a riqueza e o bem-estar, mais aumenta a insensibilidade em relação aos que padecem e mais se desvia do contato com eles. Tais pessoas ficam “na defensiva”, incapazes de dar passos na direção deles e de iniciar algum gesto de amizade e aproximação. Ao tocar o leproso, Jesus “restabelece o contato humano com aquele homem que foi marginalizado por todos” (p. 61). Ele rompe “preconceitos, tabus e fronteiras de isolamento e marginalização que excluem os leprosos da convivência. Nós, seguidores de Jesus, precisamos sentir-nos chamados a trazer amizade aberta aos setores marginalizados de nossa sociedade. São muitos os que precisam de uma mão estendida que chegue a tocá-los” (p. 62). Sejamos como São Paulo que procurava “agradar a todos, em tudo, não buscando o que é vantajoso para si mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de que sejam salvos” (1Cor 10,33 – 2ª. Leitura).

 

SER CRISTÃO: APAIXONAR-SE PELA VIDA

SER CRISTÃO: APAIXONAR-SE PELA VIDA

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 5º. DOMINGO do TEMPO COMUM (04.02.18): Mc 1,29-39

O evangelho de Marcos narra em linguagem direta e simples, com muitos detalhes, os gestos, atitudes e ações de Jesus. Revela um Jesus bem humano, cordial e acolhedor. Este texto, depois de curar a sogra de Pedro que estava com febre, conta que “ao anoitecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os enfermos e possuídos pelo demônio. A população inteira aglomerou-se à porta. Ele curou muitos enfermos de diversos males e expulsou muitos demônios”.

 

  1. A vida em primeiro lugar

Quando olhamos a prática de Jesus e percebemos o objetivo de sua missão, não há como fugirmos desta afirmação: Ele veio para defender e dar a vida e é um grande apaixonado pela vida. Em todo momento ele revela amor à vida, cuidado com os sofredores, valorização dos excluídos e dos pecadores. Sempre quer curar e libertar. Não foram preocupações primeiras de Jesus os sacrifícios no templo, os debates sobre doutrinas, o cumprimento de normas morais e religiosas. Ele foi primeiro, isto sim, um curador. O que ela mais fazia era curar as pessoas, libertando-as dos males; e acolher as pessoas, especialmente os necessitados e discriminados, para que sentissem vontade e gosto de viver. Como vimos no evangelho, até de noite chegavam muitas pessoas conduzindo enfermos e pessoas possessas de demônios (transtornadas psiquicamente?) e “ele curou muitos enfermos”. Jesus, também plenamente humano, não apenas divino, possivelmente conhecia algumas práticas curativas populares, remédios caseiros, “simpatias” e outras. Mas certamente o que mais curava essas pessoas destruídas pela marginalização social era sua atitude amorosa, acolhedora, profundamente humana e divina. Por isso, é só ficar atento aos evangelhos que vemos em seu redor: possessos, pecadores, aleijados (coxos, paralíticos), deficientes (cegos, surdos, mudos), crianças, leprosos, enfermos de diversos tipos, famintos e migrantes.

Deus quer a vida, a alegria, a felicidade. Enquanto não temos sensibilidade para com os doentes e empobrecidos; enquanto nos acostumamos facilmente com a morte, a violência, a destruição da natureza, enquanto as dores dos sem-terra, dos sem-teto, dos que perderam direitos que antes eram garantidos… enquanto isto não mexe com nosso coração e com nossas mãos e cabeça, é sinal de que não temos amor cristão, nem entendemos quem é Jesus. “…o amor cristão é a atitude que nasce naquele que descobriu que Deus ama tão apaixonadamente nossa vida que foi capaz de sofrer nossa morte, para abrir-nos as portas de uma vida eterna compartilhando para sempre seu amor” (Pagola. O Caminho Abeto por Jesus – Marcos, p. 51).

 

  1. As mãos de Jesus

Marcos revela Jesus carinhoso com os sofredores. Não apenas falava em palavras, comunicava também por gestos. Jesus abraçou o leproso, abraçou as crianças, impôs as mãos a doentes, tocou neles (Papa Francisco insiste que os cristãos precisam tocar a carne dos pobres), estendia a mão, ajudava a erguer-se, agarrou Pedro para não se afundar, deixou-se tocar e acariciar por Maria de Betânia… Foi um homem “de mão estendida” para abençoar, repartir, ajudar, infundir força, erguer e pôr de pé, perdoar, curar e abraçar… Mãos que acolhem os desprezados e protegem contra a exclusão. Pelas mãos Jesus transmite sua força, mas também, sua humanidade, seu coração cheio de amor. Suas mãos revelam sua proximidade, ternura, misericórdia, compaixão. O texto de Marcos diz que “a sogra de Simão estava de cama, com febre, e logo contaram a Jesus. Ele se aproximou, tomou-a pela mão e a levantou. A febre passou, e ela se pôs a servi-los”.

 

  1. Para refletir:

– Como está nosso acolhimento aos enfermos? Hoje, as dores não são apenas as físicas, do organismo. É o ser humano todo que precisa ser recuperado de tantos males: depressão, falta de sentido, marasmo, apatia, vazio interior, solidão, falta de vontade e passividade. Nossa presença ajuda a curar e a pessoa a se levantar, ou nossa atitude a afunda mais ainda?…

– O que fazemos com as nossas mãos? Somos a “mão de Jesus” para os necessitados, assim como Jesus é a mão que Deus estende para nós? Ou nossas mãos se fecham para não partilhar, tornam-se punhos cerrados para ameaçar e revelar nosso ódio e mania de desprezo aos que podem menos?…

– Quando recuperamos a saúde, nós nos colocamos a servir ao próximo como fez a sogra de Pedro? Ou gozamos a saúde, “belos e formosos”, desfrutando egoisticamente do nosso bem-estar, fechados à dor alheia?…

Precisamos experimentar Deus como força que nos cura, e que nos impulsiona apaixonadamente a defender a vida onde está ferida.

Poesia: RECOMEÇAR

RECOMEÇAR

A estrutura do meu ser

de repente implodiu.

Só o alicerce semiabalado,

ainda subsistiu.

As vigas da vida

(quem entende esta sina?)

em concreto armado

e amado erguida

dissolveram-se em ruínas…

A segurança tornou-se insegura;

a certeza, incerta;

o saber, loucura;

e a loucura, esperta.

O chão dos meus pés

os pontos de apoio

a luz que brilhava em frente

foram arrancados de mim.

Onde finda o começo?

Onde começa o fim?

No princípio era o caos,

informe e vazio.

Hoje o caos é o princípio

de um novo desafio.

Começar de novo!

Começar a crer,

crer para esperar,

esperar para fazer,

caminhar, buscar,

dar passos para a frente,

para os lados, para trás,

para ser o que se é talvez,

e ser para viver outra vez.

Começar de novo!

Um, dois, três!.

Partir da estaca zero,

do apito inicial,

da página em branco,

da aula inaugural,

do sinal da cruz,

do ponto de arrancada.

Jogar-se com tudo,

saltar no escuro

com a vida inteira

para o tudo-ou-nada.

É importante

poder chegar.

Mas é mais gratificante

correr o risco

de recomeçar…

 

JESUS ENSINA PELAS CURAS

JESUS ENSINA PELAS CURAS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 4º. DOMINGO do TEMPO COMUM (28.01.18): Mc 1, 21-28

O evangelista Marcos conta que em Cafarnaum, “num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da lei”. E segue o relato dizendo que entrou um homem possuído por um espírito mau e Jesus o curou.

  1. Outro ensino, outra prática

Na sinagoga, onde os mestres ensinavam oficialmente a Lei, fazendo seu comentário e interpretação, Jesus causa impacto, provoca admiração.  Porque ele usa jeito muito diferente dos mestres da Lei. O povo diz que ele ensina com autoridade. A autoridade de Jesus “não vem da instituição; não se baseia na tradição; tem outra fonte. Ele está cheio do Espirito vivificador de Deus” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 42). Ele fala e cura, curou o possesso. A autoridade de Jesus não estava ligada a nenhum poder deste mundo: nem aos sacerdotes do templo, que controlavam e se aproveitavam do espaço religioso; nem nos aliados do governo e do império, que enriqueciam e se beneficiavam do poder constituído. Sua autoridade vem da força do Espírito: “Provém do amor às pessoas. Busca aliviar o sofrimento, curar as feridas, promover uma vida mais sadia. Jesus não produz submissão, infantilismo ou passividade. Liberta de medos, infunde confiança em Deus, anima as pessoas a buscar um mundo novo” (p.44). Ele é um verdadeiro profeta, como dizia o Deuteronômio: “Farei surgir, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante a ti. Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar” (1ª. leitura, Dt 18,15-20). Uma comunidade de Igreja hoje precisa aprender dessa autoridade de Jesus: “A palavra da Igreja deve nascer do amor real às pessoas. Precisa ser dita depois de uma escuta atenta do sofrimento existente no mundo, não antes. Deve ser próxima, acolhedora, capaz de acompanhar a vida sofrida do ser humano. (…) Um ensinamento nascido do respeito e da estima pelas pessoas, que produza esperança e cure feridas” (idem).

  1. A cura e o cuidado pela vida ensinam

O possesso falou: “Vieste aqui para nos destruir?” Quando escuta os escribas ensinando, provavelmente sentia-se bem. Com Jesus sente-se ameaçado, porque Jesus quer as pessoas libertas, sua presença e ação dão vida plena aos necessitados, e quer vida digna para todos, não apenas a alguns privilegiados. “Seu ensinamento humaniza e liberta das escravidões. Suas palavras convidam a confiar em Deus” (p.42). Hoje, em nossa Igreja, “Não somos ‘escribas’, mas discípulos de Jesus. Precisamos comunicar sua mensagem, não nossas tradições humanas. Precisamos ensinar curando a vida, não doutrinando as mentes. Precisamos transmitir seu Espírito, não nossas teologias” (p. 42). As curas de Jesus visam à saúde integral das pessoas, nas dimensões física, psicológica e espiritual. Ao sentirem-se curadas e com vida mais liberta e feliz, as pessoas faziam a experiência de um Deus amigo, pai, cuja marca maior era a compaixão. Como nós cristãos e nossa atuação de Igreja agimos hoje?… “Ao confiar sua missão aos discípulos, Jesus os imagina não como doutores, hierarcas, liturgistas ou teólogos, mas como curadores. (…) A primeira tarefa da Igreja não é celebrar o culto, elaborar teologia, pregar moral, mas curar, libertar do mal, tirar do abatimento, sanear a vida, ajudar a viver de maneira saudável. Esta luta pela saúde integral é caminho de salvação e promessa de vida eterna” (p.43). Tanto as ações sociais da Igreja como o envolvimento de cristãos em organizações populares, pelo testemunho e opção que revelam, ensinam na prática o evangelho e o caminho de Jesus. Mostram que Deus quer a vida, a compaixão e a justiça.

  1. Como ajudamos nossos doentes mentais?

A Bíblia foi escrita dentro da linguagem e da cultura daquele tempo. Evidentemente, ainda não havia compreensão de psicopatias e coisas semelhantes. Provavelmente, muitas expulsões de maus espíritos sejam curas de pessoas com transtornos psíquicos. Cada vez mais, em nosso mundo marcado pela solidão, medo e insegurança, além das cobranças pelo êxito e sucesso, muitas pessoas sem um convívio afetuoso, seguro e verdadeiramente humano na família e na sociedade tornam-se frágeis e vulneráveis a doenças desse tipo. Ao mesmo tempo em que a maioria teme pessoas assim, desinteressa-se por elas, talvez por não saber como cuidar e como ajudar. “O doente psíquico cria insegurança e sua presença parece sempre perigosa. (…) e não se ajuda de forma mais eficaz tantas famílias que se sentem sozinhas ou com pouco apoio para enfrentar os problemas que recaem sobre elas com a doença de um de seus membros.” (p.46) Se o poder público tem poucas condições e capacidades de prestar o auxílio necessário, o que fazem os cristãos? A proximidade e a atenção de Jesus “às pessoas mais indefesas e desvalidas perante o mal será sempre para nós um chamado interpelador” (46).

UM ANO SEM TEORI ZAVASCKI

UM ANO SEM TEORI ZAVASCKI

Faz um ano que perdemos o ministro do STF, Teori Albino Zavascki. Segundo muitos entendem, sua morte trágica, inesperada e misteriosa não foi fruto do acaso, nem de circunstâncias climáticas ou mecânicas desfavoráveis. Eu, pessoalmente, perdi um amigo e ex-colega de curso. Aquilo que aprendemos no Seminário Menor de Chapecó nos instiga a defendermos sempre a justiça e os seres humanos, acima dos lucros e conveniências de interesses particulares. Saudades do Teori. Solidariedade à família, possivelmente até hoje inconformada.

LEVANTAM-SE ALGUMAS QUESTÕES:

  1. Sua atuação era isenta, imparcial, pelo direito e pela lei aplicada a todos, também na Lava Jato, setor que cabia a ele julgar no Supremo. Por isso era ameaçado. Por que justamente o único juiz ameaçado  acaba morto num acidente misterioso?…
  2. Por que as primeiras pessoas entrevistadas após o acidente, nunca mais foram ouvidas nem suas declarações veiculadas depois?… Uma pessoa disse que a chuva na hora do acidente era calma; outra afirmou que sentiu cheiro de combustível, ficou olhando, e viu o avião caindo; outro afirmou que viu fumaça numa asa do avião caindo…
  3. Por que um dos juízes que o assessoravam deixou o cargo imediatamente….?

CONVERTER-SE PARA ACOLHER A BOA NOTÍCIA DO REINO

CONVERTER-SE PARA ACOLHER A BOA NOTÍCIA DO REINO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da 3º. DOMINGO DO TEMPO COMUM (21.01.18): Mc 1,14-20

Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a periferia do país, Galileia. Era chegado seu momento de ir ao povo e anunciar não uma doutrina religiosa, mas um acontecimento: a proximidade do Reino de Deus. Esta é a Boa Notícia. E como Deus nos quer bem e está entrando em nossa vida, precisamos acreditar, mudar nosso estilo e jeito de viver, acolher Deus com seu projeto.

  1. Apaixonar-se pelo Reino

Foi assim que fez Jesus. Está chegando e está presente. Chega de viver do passado. O tempo completou-se. Deus está aí. Seria como Jesus nos dizer hoje: “Aproxima-se um tempo novo. Deus não quer deixar-nos sozinhos à frente de nossos problemas e desafios. Quer construir junto a nós uma vida mais humana. Mudai a maneira de pensar e de agir. Vivei crendo nesta boa notícia” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p.34).

Jesus não definiu o que é esse Reino. Em parábolas, deu explicações que bastam para quem é bom entendedor. Podemos dizer que Reino de Deus é a nossa vida se realizando como Deus quer, de acordo com sua vontade: “Quando Deus reina no mundo, a humanidade progride em justiça, solidariedade, compaixão, fraternidade e paz” (p.35). Esse reino deve acontecer aqui na terra, mas em plenitude na vida futura. Para Jesus isso foi o valor absoluto, verdadeira paixão. Quem aceita e entra neste projeto, enxerga a realidade como Jesus enxergava, se compadece das pessoas como Ele, doa sua vida pelos outros como Jesus fez e dedica-se para tornar nosso mundo mais humano. “Quando se trabalha nesta direção, a fé se transforma, se torna mais criativa e, sobretudo, mais evangélica e mais humana” (p.35).

  1. Conversão para acolher o Reino

Converter-se é pensar bem, revisar a vida, viver diferente, mudar de rumo. Mudar o que tranca nossa vida em nós mesmos. Libertar-nos, confiando em Deus, do nosso egoísmo, do medo, da acomodação, do “deixar para os outros” e “esperar pelos outros” para fazer algo de bom. Eliminar os hábitos e “escravidões que nos impedem de crescer de maneira sadia e harmoniosa. A conversão que não produz paz e alegria não é autêntica” (p. 37). É acolher o Reino e sua justiça. Ninguém é perfeito nem plenamente santo. Mas conversão supõe o esforço sincero de progredir nesta direção: amar os pobres, querer mais igualdade, doar a vida pelos outros, viver em comunhão, em comunidade, e frequentemente ter templo para oração e meditação. Não ter medo de parar, de fazer silêncio, de refletir na vida: O que eu estou fazendo com a vida que Deus me deu? O que preciso mudar e fazer melhor ou a mais para ser mais coerente com o Evangelho? Caso contrário, a fé fica apenas numa ideologia e não numa atitude de seguimento de Jesus, no caminho do Reino. Tenhamos a certeza: a conversão nos faz bem e nos dá alegria e paz. Podemos ir mudando nossa vida medíocre, frustrada, eternamente insatisfeita com o que temos, e infelizmente, satisfeita com o que somos.

  1. Jesus nos chama para colaborar com Ele neste Reino

Passando à beira do mar, viu Simão e André que estavam pescando. Em seguida, viu Tiago e Joao consertando as redes. Jesus os chamou, os convidou a segui-lo, a pescarem gente para o Reino. Eles deixaram tudo, sua profissão, seus apetrechos e seus parentes e seguiram a Jesus. Todos nós que recebemos a graça de ser batizados, Jesus está nos convidando e chamando. É preciso crer na melhor notícia que poderíamos receber: é possível um mundo com justiça, uma sociedade com muito mais igualdade, uma vida com amor e fraternidade. Somos colaboradores de Jesus. Chega de viver no mesmo tranco dos pagãos, dos que só pensam em si e em seus próprios interesses. Jesus faz conosco “um percurso apaixonante: viver abrindo caminhos para o reino de Deus. Ser discípulo de Jesus não é tanto aprender doutrinas quanto segui-lo em seu projeto de vida” (p.36). Escutar este chamado de segui-lo e “pescar gente para o reino” é “reavivar nossa adesão pessoal a ele, ter fé em seu projeto, identificar-nos com seu programa, reproduzir em nós suas atitudes e viver animados por sua esperança no reino de Deus” (p.36).

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