Em outubro de 2010, o povo brasileiro, depois de eleger em duas eleições consecutivas, um operário metalúrgico para dirigir o país e colher os mais significativos avanços sociais de sua história, decidiu que era hora de escolher, pela primeira vez, uma mulher para Presidente do Brasil. 500 anos depois do desembarque dos portugueses. Diante da ferocidade dos inimigos – não se comportavam como adversários – no curso da campanha, frente à ousadia do Partido dos Trabalhadores de apresentar uma mulher para o mais elevado posto da nação ou talvez intuindo o que  nos esperava, publiquei um poema, essa antiga expressão das lutas por Liberdade que percorre os subterrâneos da História humana, irredutível às tiranias ou aos desígnios do mercado.

500 anos esta noite

De onde vem essa mulher

que nos bate à porta 500 anos depois?

Reconheço esse rosto estampado

em pano e bandeiras e lhes digo:

vem da madrugada que acendemos

no coração da noite.

 

De onde vem essa mulher

que bate às portas do país dos patriarcas

em nome dos que estavam famintos

e agora têm pão e trabalho?

Reconheço esse rosto e lhes digo:

vem dos rios subterrâneos da esperança,

que fecundaram o trigo e fermentaram o pão.

 

De onde vem essa mulher que apedrejam,

mas não se detém,

protegida pelas mãos aflitas do povo

que invadiu os espaços de mando?

Reconheço esse rosto e lhes digo:

vem do lado esquerdo do peito.

 

Por minha boca de clamores e silêncios

ecoe a voz da geração insubmissa

para contar sob o sol da praça

aos que nasceram e aos que nascerão

de onde vem essa mulher.

Que rosto tem, que sonhos traz?

 

Não me falte agora a palavra que retive

ou que iludiu a fúria dos carrascos

durante o tempo sombrio

que nos coube combater.

 

Filha do espanto e da indignação,

vem da luz do olhar que recusa a indiferença

diante da fartura e da fome.

Filha da liberdade e da coragem,

escolheu o alarido das ruas,

ao silêncio dos quartéis.

Recortado o rosto e o riso como centelha:

metal e flor, madeira e memória.

No continente de esporas de prata

e rebenque

o sonho dissolve a treva espessa,

expões os cambaus, a brutalidade, o pelourinho,

afasta a força que sufoca e silencia

séculos de alcova, estupro e tirania

e lança luz sobre o rosto dessa mulher

que bate às portas do nosso coração.

 

As mãos do metalúrgico,

as mãos da multidão inumerável

moldaram na doçura do barro

e no metal oculto dos sonhos

a vontade e a têmpera

para disputar o país.

 

Dilma se aparta da luz

que esculpiu seu rosto

ante os olhos da multidão

para disputar o país,

para governar o país.

Brasília, outubro 2010.

Seis anos depois vemos essa mulher, de pé, diante de um tribunal de velhacos. Vem sendo submetida depois de sua reeleição legítima, chancelada por 54 milhões de brasileiros, à mais sórdida campanha de achincalhe, de desrespeito, de vilania por parte dos derrotados nas últimas quatro eleições. O país inteiro é testemunha de que não há crime de responsabilidade que dê suporte ao impedimento de Dilma Rousseff. O parecer da Assessoria Técnica do Senado a absolve. O Ministério Público Federal determinou o arquivamento da denúncia. Do relatório da acusação restaram cinzas. Já ninguém se lembra do que acusam Dilma Rousseff. Não tem sido combatida por seus erros – ela própria admite – mas por suas virtudes, por seu compromisso com o combate às desigualdades sociais criminosas que persistem no país.

Dentro de alguns dias Dilma Rousseff será levada a um julgamento cuja sentença já está lavrada por um tribunal de velhacos. Será condenada por ser expressão da soberania popular. Será condenada por defender a soberania nacional e preservar para o Brasil os recursos naturais do pré-sal por meio de regime de partilha. Será condenada por ser expressão simbólica da condição de mulher que luta pelo espaço legítimo de participação nos destinos do nosso povo. Seus julgadores de hoje, o tempo dirá, receberão um dia, mais breve do que imaginam, o julgamento da História.

Fecha-se e círculo de ferro do patriarcalismo e da exclusão mais uma vez. Ela seguirá como referência, como Maria Quitéria, como Anita Garibaldi, como Margarida Alves, como Dorcelina Folador para as lutas dos cidadãos e cidadãs que souberam resistir às tiranias dos herdeiros do tráfico humano, do trabalho escravo, e do monopólio da terra que ora envergam a farda, ora envergam a toga e sempre manejaram os instrumentos da plutocracia.

*Pedro Tierra (Hamilton Pereira) poeta. É Presidente do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.

 

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