Cada ano, no dia 07 de setembro, em todo o Brasil, paramos para lembrar e festejar um dos fatos mais importantes da história de nosso país, a independência. Aprendemos desde criança que foi em 07 de setembro de 1822 que Dom Pedro I, às margens do rio Ipiranga, proclamou, gritou: Independência ou morte!

Esse grito, esse “brado retumbante”, que cantamos no Hino Nacional, não deve ser visto como um fato consumado lá no passado, como um evento isolado, como se fosse o ápice, a culminância de um processo de independência que nos livrou de todos os grilhões, de toda miséria. Pelo contrário, esse grito, esse brado, essa queixa, deve ecoar mais forte a cada dia neste processo contínuo pela independência. Se aquele grito em 1822 foi para pedir independência da coroa portuguesa, hoje somos uma nação que grita denunciando o sistema hegemônico que segue escravizando, matando e excluindo milhões de brasileiros e brasileiras todos os dias.

Diante de um sistema opressor, excludente, que favorece apenas um pequeno grupo, não podemos nos acomodar num puro patriotismo romântico e passivo, somos chamados para uma cidadania ativa, crítica, geradora de uma sociedade mais justa e fraterna, onde todos tenham vez e voz, principalmente aqueles que nunca tiveram, os excluídos do sistema, as minorias empurradas violentamente para a periferia do esquecimento, do anonimato, da miséria que desumaniza e mata.

Mas quem são esses excluídos que se encontram à margem da sociedade hoje, que gritam por independência, por um lugar ao sol, por vida?  São os operários assalariados, forçados a vender sua mão de obra para enriquecer a uns poucos; são os indígenas expulsos de seus territórios, confinados em aldeias onde se veem obrigados a renunciar seus costumes e tradições para sobreviver nas cidades; são os migrantes, que não podem exercer o seu direito a não ter que migrar para buscar o sustento para si e para os seus; são as mulheres que exercem uma dupla jornada de trabalho e mesmo assim são menos valorizadas que os homens; enfim, são os milhões de brasileiros e brasileiras sem teto, sem liberdade, sem terra, sem cidadania, sem direitos.

Por isso, cada dia 7 de setembro quer ser também um dia de consciência, de luta, de profetismo, de gritar a favor da vida e de um outro mundo mais humano. Neste ano, o Grito dos Excluídos coloca em destaque a vida, com o tema: Vida em primeiro lugar; e o lema: Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata.

Como a Igreja Católica participou desde o início do Grito dos Excluídos, esse ano estamos na 22ª edição, ela desempenha um papel importante, ao dar forma e visibilidade a esse grito que brota do povo e dos sofrimentos sentidos cada dia pelos excluídos. Somos chamados como Igreja a unir nossa voz e nossa força neste grito profético e de compromisso com a causa dos excluídos. Grito que tem uma participação ampla, aberta e plural, onde estão envolvidos dezenas de instituições, movimentos sociais e mobilizações diversas.

Como Igreja convidamos todos os fiéis, de maneira especial, na semana da pátria, no dia 7 de setembro de cada ano, a ouvirem o grito dos marginalizados pelo sistema opressor, a voltarem o olhar para os mais pobres e esquecidos, a aproximarem-se e estenderem a mão para os menos favorecidos, a encontrarem em cada rosto que sofre o próprio rosto de Cristo.

Que esta semana da pátria seja para todos nós um momento de reflexão e de ação transformadora. Que o nosso grito se torne um brado retumbante, que assusta, faz despertar, que seja um grito de indignação capaz de romper as barreiras do comodismo e da indiferença diante do sofrimento do outro. Gritemos todos juntos, mostremos nossa repulsa diante das injustiças, da exclusão degradante e da morte. Que a fé nos impulsione para atos proféticos de denúncia e de anúncio de um outro mundo possível, de um mundo mais humano e fraterno, onde a vida seja respeitada e esteja em primeiro lugar.

Elias de Nardi

Coordenador da Pastoral do Migrante

 

 

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