O PROFETA JOÃO MARIA: O SANTO DOS CABOCLOS – Artigo publicano no Jornal Diocesano – set/2016

Dia 15 de setembro, dia seguinte da Exaltação da Santa Cruz, é festejado no catolicismo popular da nossa região como o dia de São João Maria. Milhares de famílias e muitas comunidades lembram-se dele, guardam sua imagem, rezam suas orações e praticam em sua honra alguns rituais. É em memória dele, da sua cruz de cedro e da Santa Cruz que a Romaria da Terra e da Água de Santa Catarina, desde 1986, acontece sempre no segundo domingo de setembro.

O santo monge

Um andarilho solitário, mas muito religioso, andou pelo  sul do Brasil, na segunda metade do século XIX e início do século XX. Na verdade, há historiadores que dizem ter existido dois monges que se chamavam João Maria. Um italiano, que chegou ao Brasil na década de 1840, Giovanni Maria D’Agostini. Outro, cujo nome verdadeiro não se sabe ao certo, conhecido como João Maria de Jesus, andou por Paraná e Santa Catarina, entre os anos de 1886 e 1908. Ambos tinham o mesmo estilo e métodos, usavam barba longa, vestes rústicas e um cajado. Aqui no oeste, entre os anos 1906 e 1908, Joao Maria andou por Chapecó, Xanxerê, Área Indígena, talvez outros municípios, e passou, com certeza, em todo lugar denominado Água Santa, pois aí há fontes de água benzidas por ele. Pedia pousada às famílias do interior (na época, todas caboclas, indígenas ou lusas), às vezes se alojando em barraco ou paiol, onde permanecia alguns dias. Ensinava remédios caseiros e umas orações, era benzedor e curandeiro, e fazia previsões de mudanças sociais que viriam ocorrer nos anos seguintes ou num futuro mais distante. Para aquela população muito religiosa, como João Maria não fazia mal algum e somente fazia e ensinava o bem, logo foi considerado um monge, um profeta e um santo, não canonizado pela Igreja oficialmente, mas popular, e com esses nomes é designado até hoje.

Relação com o Contestado

Nas suas prosas abordava também questões ligadas à política. Mesmo sem muita profundidade e clareza, era simpatizante dos federalistas (1893) e tinha saudade do regime da monarquia, pois ele e a população do interior não se adaptaram às práticas e aos costumes republicanos. Quando surgiu o conflito do Contestado, José Maria, simpatizando de João Maria, assumiu algumas posturas parecidas, por isso foi confundido com Joao Maria, ao menos, aceito como seu continuador. A situação dos caboclos na região em tal contexto de república era de perda da posse da terra e de consequente miséria e insegurança. Então, para eles e para José/João Maria, monarquia era um símbolo, era como “lei do céu que Deus deixou no mundo” para vencer as forças do diabo, para eles representado pelo regime opressor. E o profeta era visto como um messias que animava essa guerra que, segundo sua fé, tinha a presença de São Sebastião que ajudava a enfrentar as forças do exército, da polícia e do governo que expulsavam da terra os posseiros caboclos.

Ivo Pedro Oro

 

 

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