UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO USO DAS RIQUEZAS (Lc 16,1-13) – 18.09.2016 – 25º. Domingo Comum.

Nos evangelhos a palavra “dinheiro” aparece poucas vezes, em geral, pronunciada por Jesus. No seu tempo, umas poucas famílias de poderosos de Jerusalém e de grandes proprietários de Tiberíades acumulavam a maioria das riquezas. Como hoje, 1% mais rico do mundo tem tanta riqueza como os outros 99% da população mundial. Jesus usa linguagem dura e direta: “dinheiro injusto”, “riquezas injustas”, “não servir ao dinheiro”… Nunca fala em “dinheiro limpo” nem em “riqueza merecida”. Sua paixão pela justiça do Pai e seu amor aos necessitados o levam a questionar toda acumulação, talvez por diversos motivos: a) a acumulação pode se dar por meio de exploração ou enganação; b) desfrutar de riqueza sem partilhar com os pobres é falta de amor; c) quem é escravo dos bens torna-se infeliz. Sobre isso, é bom conferir a 1a. Leitura (Am 8,4-7): “Ouvi isto vós que maltratais os humildes e prostrais os pobres da terra…Quando passará o sábado, para darmos pronta saída ao trigo, para diminuir as medidas, aumentar os pesos, e adulterar balanças, dominar os pobres com dinheiro e os humildes com um par de sandálias?… O Senhor jurou: ‘Nunca mais esquecerei o que eles fizeram’” …

“Não podeis servir ao dinheiro”

A afirmação principal do texto do Evangelho é a frase final: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, são antagônicos e opostos. Hoje em dia, escorados em algumas afirmações isoladas do Antigo Testamento, alguns pregam a prosperidade individual e o possuir riqueza (sabe lá com que meios) como bênção divina. Mas a palavra de Jesus, bem como a sua vida toda, deixa claro que ver a riqueza como sinal de bênção não é evangélico.

Segundo Pagola, atualmente, mais do que falar em crise religiosa por causa do secularismo ou do avanço científico, é preciso acentuar que o afastamento de Deus tem sua origem “no poder sedutor do dinheiro” e “quem se amarra no dinheiro termina afastando-se de Deus” (Caminho Aberto por Jesus – Lucas, p.266). Mais ainda, mesmo se a acumulação não fosse conseguida com injustiça, o dinheiro tem poder “de desumanizar a pessoa, separando-a do Deus vivo”; daí, “é impossível ser fiel a Deus e viver escravo do dinheiro” (p. 267).  Popularmente se diz: “dinheiro faz dinheiro”, ou, “quanto mais tem mais quer ter”. Quando se entra nessa lógica, “o dinheiro termina substituindo Deus e exigindo submissão absoluta. Nessa vida já não reina o Deus que pede solidariedade, mas o dinheiro que só busca o próprio interesse” (ibid.). Quando alguém faz do dinheiro e da riqueza o objetivo primordial de sua vida, o ser fiel a Deus e o seguir a Jesus desaparecem, ou se tornam medíocres. Porque, nesse caso, ser solidário repartindo e doando, ter tempo para Deus e promover a justiça do Reino ficam em segundo ou em último lugar.

Como é, então, servir a Deus?

Jesus quer que todos tenhamos vida em plenitude. Deus não quer o sofrimento, a menos que seja para diminuir o sofrimento do próximo. Os bens necessários à vida, mas à vida de todos(as), fazem parte do plano do Senhor. O Evangelho combate a concentração, a desigualdade e, ao ter muitas posses, a insensibilidade e fechamento em si e nos próprios interesses. Por isso, Jesus afirma: “quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes”. E explica melhor: “E eu vos digo: usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Atualmente, ficou corrente a expressão “lavar dinheiro”. Aqui Jesus é claro como a luz do meio-dia. Não dá pra ser irmão dos outros e filho(a) de Deus sendo, ao mesmo tempo, escravo do dinheiro. Seria orientar sua vida com um projeto egoísta. “Lavar” o dinheiro injusto é partilhar ajudando a quem precisa e devolver a mais de quem tirou, como fez Zaqueu. “Usar o dinheiro injusto para fazer amigos” é “romper a escravidão do ‘possuir’ que lhe tira a liberdade, para ouvir melhor as necessidades dos pobres e responder a elas” (p. 268). Nem adianta justificar-se julgando-se “pobre de espírito”, “porque quem tem alma de pobre não continua desfrutando tranquilamente seus bens enquanto ao lado dele há gente necessitada até das coisas mais elementares” (ibid.). “Jesus desmascara nossas ilusões. (…) Nós cremos que nos servimos do dinheiro. Jesus nos fala que servimos ao dinheiro. Pensamos que somos donos do nosso dinheiro, e não vemos que é o dinheiro que é nosso dono e senhor. Cremos possuir as cosias, e não nos damos conta de que as coisas nos possuem” (p.269). Mas, se com o que temos ajudamos de fato os pobres a terem mais vida e a sociedade a ser transformada, esses pobres estarão nos acolhendo na morada eterna. Eles são critérios e instrumentos de nossa salvação. O que fazemos a eles é a Jesus que o fazemos.

Agir com esperteza para fazer o bem

“Com efeito os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”, disse Jesus. Citou a parábola do administrador que ia ser despedido do emprego, por esbanjar os bens do patrão, mas arranjou uma forma de ser amparado depois. Seu senhor elogiou, não a desonestidade, mas sua agilidade em encontrar uma saída. Com efeito, essa parábola vale para os dias atuais. Se olhamos o mundo dos negócios, a organização das empresas, os esquemas de propaganda, quantas falcatruas, mutretas e manobras, desonestidades e falsidades acontecem nesses âmbitos!… Para ganhar, lucrar, passar outros para trás… como as pessoas são inteligentes, ágeis, competentes! Agora, quando se trata de tomar iniciativas para apoiar a luta por direitos e por justiça, para trabalhar na comunidade cristã, para viver a compaixão e misericórdia com os sofredores… como as pessoas são lentas, incapazes, apáticas!… Bem que Jesus falou: “Os filhos deste mundo (das trevas) são mais espertos do que os filhos da luz”. É preciso usar nossos dons e inteligência para o Reino, e usar o dinheiro injusto para promover a vida do próximo, não para acumular, comprar, consumir, e deixar as coisas dominarem nosso coração. Queremos ser recebidos nas moradas eternas? Usar os dons e o dinheiro para fazer o bem ao próximo!

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