UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 31º. Domingo Comum – 30.10.2016 = Lc 19,1-10

O encontro do rico Zaqueu com Jesus nos faz lembrar que hoje há segmentos da Igreja e da sociedade em geral que estranham e rejeitam as posturas assumidas pelo Papa Francisco. Em nossa região, ainda há cristãos que “engolem seco” quando ouvem na igreja a expressão “opção preferencial pelos pobres”, ou quando ouvem um apelo para ajudar a Casa da Acolhida, os migrantes ou os sem-terra acampados… Como o evangelho frequentemente mostra Jesus acolhendo e ajudando os pobres, ou realizando gesto de partilha, sempre há incomodados que se sentem ameaçados nos seus interesses e benesses. O relato deste evangelho mostra que Jesus vai ao encontro também dos ricos, mas, para salvá-los, vai provocar a mudança na vida deles.

O curioso Zaqueu e o missionário Jesus

Zaqueu não era qualquer um. Era “chefe dos cobradores de impostos e muito rico”, portanto de posição social destacada. Mas por lidar com dinheiro, estar a serviço do Império e cometer atos de corrupção era tido por toda Jericó como um pecador. Porém, ele tinha um desejo: “ver quem era Jesus”. Alguns fatores dificultavam: a multidão e sua baixa estatura. O desejo o move e desafia, não fica resignado e estático: “foi correndo na frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por aí”… Mas Jesus também está à sua procura e quer o encontro com ele: “Olhou para cima e lhe disse: ‘Zaqueu, desça rápido, porque hoje quero ficar em sua casa’. Ele desceu depressa, e o recebeu com alegria”. Jesus olhou para ele, chamou-o pelo nome e facilitou o encontro para a escuta, o diálogo e a convivência. Jesus agiu como missionário e profeta da compaixão, não como homem da Lei e da instituição que cobra observância. “Não parece preocupado com a moral, mas com o sofrimento concreto de cada pessoa. Não é visto obcecado em defender sua doutrina, mas atento a quem não consegue viver de maneira sadia” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Lucas, p.313). Ele procura e vai ao encontro, o pior que pode acontecer é a semente se perder, receber um não, e ser rejeitado. Mas este encontro vai reorientar a vida do homem Zaqueu. Este é o objetivo da vinda de Jesus: gerar vida em plenitude, “procurar e salvar o que estava perdido”.

Jesus veio salvar os perdidos, então salva o rico

Jesus, pode-se até dizer, aproxima-se de todos  – ricos e pobres, grandes e pequenos – mas de maneiras diferentes. Dos ricos, quando se aproxima, como ocorreu com Zaqueu, é para salvá-los das suas riquezas. Zaqueu o recebeu em casa com alegria. Após este encontro, sua vida não será mais a mesma. Lucas não fala dos tipos de comida nem de bebidas (como fariam as reportagens de hoje), nem descreve como foi o encontro. Fala, sim, da transformação e mudança radical de Zaqueu: “Senhor, vou dar a metade de meus bens aos pobres, e se roubei de alguém, vou lhe devolver quatro vezes mais”. Ao encontrar-se com Jesus, que defende a justiça e ama os pobres, Zaqueu entende que o importante não é acumular, mas sim compartilhar, por isso decide dar metade dos seus bens aos pobres. Descobre que precisa fazer justiça para aquelas pessoas de quem ele roubou e então se compromete a restituir um valor muito maior. Só então Jesus proclama: “Hoje a salvação chegou a esta casa”. Não era possível saber quem é Jesus e conviver com ele, e continuar fechado na sua riqueza, e pior, roubando e não ajudando os pobres. “Ao rico não se oferece outro caminho de salvação senão o de compartilhar o que possui com os pobres que dele precisam. É o único ‘investimento rentável do ponto de vista cristão’ que ele pode fazer com seus bens” (idem, p.311). Como afirma Pagola, “Não é possível um mundo mais fraterno se os ricos não mudarem de atitude e não aceitarem reduzir seus bens em benefício dos empobrecidos pelo atual sistema econômico” (idem). Como se vê, Jesus quer salvar os ricos, mas o caminho é este.

Para finalizar, meditemos neste apelo do Pagola: “Mais cedo ou mais tarde, todos nós corremos o risco de ‘instalar-nos’ na vida, renunciando a qualquer aspiração de viver com mais qualidade humana. Todos nós precisamos saber que um encontro mais autêntico com Jesus pode tornar nossa vida mais humana e solidária” (p. 313).

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