PAIXÃO DE JESUS: DEUS SOFRE EM TODO SER HUMANO

DOMINGO DE RAMOS (08 e 09/04) – UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO de Mt 27,11-54

Neste domingo refletimos sobre a paixão e morte de Jesus. Jesus não morreu de morte natural, na velhice, ele foi morto. O assassinato de Jesus inclui violências de diversas ordens: julgamento injusto, acusações falsas, momentos dramáticos de tortura, liberação de um assassino, suplícios diversos, carregamento da cruz, deboches dos algozes e gozadores e crucificação. Jesus, apesar da hora dramática e de toda a dor, não manifestou revolta, nem agiu como um “coitado”. Foi forte e valente, respondeu com um silêncio marcante, e clamou pela presença do Pai.

A força na fraqueza

Os insultos ecoaram no Calvário: “Se és Filho de Deus, desce da cruz!… Ele salvou a outros e a si mesmo não pode salvar. … Desça agora da cruz e acreditaremos nele. …Pôs sua confiança em Deus, que Deus o livre agora se é que o ama”. E outros no mesmo estilo. Revelam que “cada um salve-se a si mesmo”, “cada um por si”. Jesus não retrucou com uma palavra sequer. Sua resposta foi o silêncio: “Um silêncio que é respeito aos que o desprezam e, sobretudo, compaixão e amor” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 328).

Entretanto, rompe o silêncio para falar com o Pai: “Meu Deu, meu Deus, por que me abandonaste?” Não foi uma oração de pedido ao Pai que o libertasse da cruz e dessa hora. Pede que o Pai esteja junto, sensível ao seu lado, que não fique escondido e que não o abandone. “Deus não é um ser poderoso e triunfante, tranquilo e feliz, alheio ao sofrimento humano, mas um Deus calado, impotente e humilhado que sofre conosco a dor, a escuridão, e até a própria morte.” (p. 328). O silêncio do Pai não era abandono, era a hora de Deus, era a hora da força de Deus. Nesse aparente abandono, Deus Trindade revela todo seu amor pela humanidade. É hora de graça, de entrega, de doação, de amor infinito. Aí, no aparente abandono, revela-se, sem estardalhaço e sem marketing de mídia, um Deus vencedor da morte. Em vez de abandono, era a hora de Deus tirando vida da própria morte, ressuscitando aquele que foi morto por fidelidade ao Pai e por amor total por nós. “Se o grão de trigo não morre, fica só…”; se Jesus fugisse ou descesse da cruz, teríamos um Deus que não conhece nosso sofrimento e, por isso, não nos entenderia, um Deus que “estaria noutra”… São Paulo e os primeiros cristãos vão insistir mais tarde de que aí estava a plenitude de Deus: “Em Cristo estava Deus reconciliando o mundo consigo” (2 Cor 5,19). Mas Deus sofre com Jesus na cruz e isto é prova de que Deus está em comunhão com aqueles que se encontram humilhados e crucificados pela sociedade e pela história.

A cruz nos ensina e nos chama

Pela cruz Deus, ou melhor, pelo amor de Deus no gesto da cruz, Ele salva e liberta o ser humano, no passado e no presente. Pagola diz que a cruz nos revela, especialmente, estes três aspectos seguintes. A) Revela que é “importante tomar sobre si o pecado”. Sempre combatendo contra as injustiças e todo o mal, procurando erradicá-los. Mas há momentos em que o combate ao mal nos leva a assumir o mal e a dor: “Só aqueles que se comprometem até sofrer o mal em sua própria carne humanizam o mundo” (id., p. 330). B) Revela que é o amor que redime da crueldade. Somente com ele poderemos chegar a ser verdadeiramente humanos. Na cruz, aprendemos que somos redimidos por Cristo que ama até o fim. C) A cruz revela que é a verdade que redime da mentira. É preciso que haja vontade de verdade, querer ser verdadeiros, sem meias-verdades, e muito menos com mentiras e hipocrisias. Jesus dá testemunho da verdade até o fim. Os que buscam a verdade acima dos próprios interesses – “a verdade nos libertará” – humanizam o mundo… (id. p.330-331)

A cruz de Jesus nos chama a carregar nossa cruz do seguimento autêntico, sendo cristãos de verdade, inteiros, não pela metade, muito menos cristãos do “mínimo”. “O seguimento a Jesus não é algo teórico ou abstrato. Significa seguir seus passos, comprometer-nos como Ele a ‘humanizar a vida”, e viver assim contribuindo para que, pouco a pouco, vá se tornando realidade seu projeto de um mundo onde reine Deus e sua justiça. Isto quer dizer que nós seguidores de Jesus somos chamados a pôr verdade onde há mentira, a introduzir justiça onde há abusos e crueldade com os mais fracos, a reclamar compaixão onde há indiferença diante dos que sofrem. E isto exige formar comunidades onde se viva o projeto de Jesus, com seu espírito e suas atitudes.” (id., p. 331)

Na Semana Santa, não basta compadecer-se de Jesus crucificado, é preciso ter compaixão dos crucificados de hoje e ser solidários com todos que sofrem.

 

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