NA EUCARISTIA ESTÁ TAMBÉM O SANGUE DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS

UMA REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA (13.04.2017)

 Introdução

Na Quinta-Feira Santa celebramos a instituição da Eucaristia.  O Evangelho de João não relata, como os sinóticos, a instituição. Descreve que, reunindo-se para a ceia, com os discípulos (certamente havia discípulas também), Jesus realizou um gesto profundamente eucarístico (Jo 13,1-17). Tirou o manto, cingiu-se com uma toalha, pôs água numa bacia e lavou os pés dos discípulos. Quer dizer, em vez de narrar a instituição da Eucaristia, João mostrou como se vive a Eucaristia na prática: vivendo o serviço fraterno aos irmãos e irmãs, fazendo-se o último, colocando-se e doando sua vida em favor dos outros. E, a partir do gesto, deu-lhes o ensinamento: “Vocês dizem que eu sou o Mestre e Senhor. E vocês têm razão; eu sou mesmo. Pois bem, eu que sou o Mestre e Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior do que o Senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática”.

Eucaristia: vida doada e entregue

A vida humana tem seu pleno sentido quando é colocada a serviço da vida do povo e do planeta, especialmente de quem mais precisa de amor e de vida verdadeira. Jesus viveu servindo, doando-se, entregando-se. E fez do pão e do vinho o grande sinal desta entrega suprema e definitiva: “Isto é o meu corpo, que será entregue por vós”; “Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por muitos, para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim”. Antes de consagrar o pão e o vinho, na santa missa faz-se a apresentação dos dons: “Bendito sejais, Senhor Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano, que agora vos apresentamos e para nós se vai tornar pão da vida”; e “Bendito sejais, Senhor Deus do universo, pelo vinho que recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho humano, que agora vos apresentamos e para nós se vai tronar vinho da salvação”. Nesse trabalho humano está, possivelmente, o salário necessário para realizar-se ou apenas sobreviver (para muitos, minguado e com sabor de exploração), e a expectativa longínqua de futura aposentadoria. Mas está, com certeza e de modo geral, principalmente o suor, a fadiga, a insegurança, a tensão, a submissão, o sangue, o cumprimento de metas, as lesões por esforço repetitivo, a entrega da própria vida e, por que não dizer, a morte prematura.

Vida e sangue dos trabalhadores e trabalhadoras

Como vimos, na matéria do sacramento da eucaristia, pão e vinho, está a vida e o sangue dos trabalhadores e trabalhadoras. Vida doada, como a vida de Jesus. Na doação de sua vida, Jesus sofreu as consequências do autoritarismo, da injustiça, da perseguição, da rejeição do Reino e do Filho de Deus. A vida doada, derramada e gasta da maioria dos trabalhadores não acontece, primeiramente, para salvação e redenção. É vida sacrificada, geralmente, em consequência de injustiças e exploração, e, como está acontecendo agora, resultado de desrespeito descarado, como a corrosão dos seus direitos e a precarização das condições de trabalho (reforma trabalhista e terceirização) e insegurança quanto ao futuro, pois poderá ficar sem aposentadoria (reforma da Previdência).

O corpo entregue e o sangue derramado não acontecem somente na fabricação do pão e no vinho, mas em todo o mercado de trabalho, sobretudo quando os direitos são demolidos. Foram milhões de trabalhadores e trabalhadoras que foram sacrificados, no passado, por defenderem o trabalho e exigirem direitos aos humanos que vendem a força de trabalho. Agora, para atender interesses de uma minoria, já privilegiada, desmancha-se a conquista do passado, sem preocupação com a vida de milhões, que têm na sua força e capacidade de trabalho a única ferramenta para a sobrevivência. Em vista do lucro de uns poucos; em vista de propagar a previdência privada; e para não mexer nos ditames e dogmas do Deus Capital e Deus Mercado, milhões de vidas humanas vão para o sacrifício. Isto é o meu corpo entregue… Este é o meu sangue derramado… “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mt 25,40)

Jesus despojou-se e lavou os pés dos outros. Mostrou que é este o caminho da verdadeira felicidade. É feliz quem põe sua vida a serviço, como dizia aquele canto: “Quem vive para si, empobrece seu viver; quem doar a própria vida, vida nova há de colher”. E Jesus nos garante, ao final do lava-pés (não do “lava-jato”): “Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática”.

 

 

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