A ESPERA NA PONTE

(para mamãe, quando chegava ao final da vida)

Nasceu entre os gemidos

Do povo sofrido,

Da pobreza e sofrimento.

Cresceu sempre nutrida

Pelos tormentos

Da época e do tempo,

Pelo suor do batente.

Provou do amor a delícia da dor:

Edificou uma família.

Propagou a vida

– quinze filhos e filhas –

Com resistência e fé, na luta nascida.

Percorreu o caminho

Margeado de flores,

Atapetado de espinhos,

Sombreado de dores,

Sob o sol do carinho.

Correu muito para chegar.

Alcançou o termo

De se alçar

Ao estrado

Da vitória,

No outro lado

Do mundo, da vida,

Da própria história.

Cansada e abatida,

Bem enfraquecida,

Sentou-se à cabeceira

Da ponte

Que leva

Dona Genoveva

Ao novo horizonte.

Sumiram-lhe as forças,

Falta-lhe o ar.

Pele-e-osso,

Quase acabada,

Aguarda agora

Em que nova aurora

Venha raiar.

A pele amarrotada

Pelo tempo.

O cabelo rareado

Pelo vento.

As pernas e braços

Ressequidos no trabalho,

Desgastante e cansativo,

Permanente sofrimento.

A voz rouca e cansada

Ainda afinada

Pelo ensinamento.

Os olhos mais fundos

Divisando ao longe

A luz do outro mundo.

O peito arfando

Por tantos passos e giros,

Adivinha chegando

O derradeiro suspiro.

A alma da vida

Perpassa e permeia,

Lúcida e consciente,

O passado e o futuro

Namorando no presente.

Missão cumprida,

Percorrida a estrada.

Os frutos colhidos

Na caminhada.

Sementes de vida

Na terra plantadas.

Na última vigília

Aguarda serena

(sente-se fraca e pequena,

ela que foi sempre forte!)

Que um anjo amigo

Em seu ombro a transporte

No momento decisivo

Pela ponte da morte

Ao mundo definitivo.

Um prêmio de glória

Depois dos oitenta e um.

O divino e o humano

Partilhados em comum.

Permanente comunhão

Fraterna e filial.

Sem desengano,

Ilusão e frustração.

Encontro final

Com a Vida  Total!!!

12.09.87

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