UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 12º. DOMINGO COMUM: dia 25/06/17: Mt 10,26-33

Os cristãos sentiam na pele as contrariedades e as perseguições, por causa de sua fé e do testemunho de Jesus e pela atuação em favor do Reino de Deus. Sabiam que o discípulo não estava acima do Mestre e que quem quisesse segui-lo também deveria carregar a cruz… Por isso, o evangelho insiste nesta atitude: não ter medo, confiar no Pai, continuar anunciando, sem se calar, e dar testemunho sempre.

  1. “Não tenhais medo dos homens…”.

Se tiver medo, o discípulo fica paralisado. Contar com Jesus e ter a experiência de Deus como Pai, senti-lo presente, isto dá coragem, faz reagir e reanima as forças. Quantas passagens mostram Jesus libertando as pessoas do medo! Naquela época, havia o terror do poder do Império, as ameaças dos mestres da Lei, as cobranças dos sacerdotes e até a imagem de um Deus juiz cheio de ira. Tudo isto criava uma situação de medo e de pavor… Hoje, muitos se sentem inseguros na sua vida, no seu ganho e no seu capital (medo de empobrecer); assustados com as crises política e econômica (medo da conjuntura); tensos diante da necessidade de assumir posições e tomar iniciativas (medo do que dizem e falta de liberdade interior). Há pessoas que sofrem o medo em segredo. E o sociólogo Baumann diz que estamos numa “sociedade do medo”. “O medo causa dano, muito dano. Onde cresce o medo, perde-se Deus de vista e se afoga a bondade que há no coração das pessoas. A vida se apaga, a alegria desaparece” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.121).

Diante de medo, as pessoas assumem atitudes diversas: uns se atiram no consumo de mais mercadorias ou em diversões e prazeres a qualquer custo, porque assim esquecem os problemas e o que nos desafia; outros tombam na resignação, passividade e desencanto com a vida, deixando tudo como está; outros ainda sentem o gosto rançoso do passado e torcem pela volta dos militares ao poder, das liturgias da Idade Média, das relações autoritárias e centralizadoras… Jesus nos pede “Não tenhais medo dos homens”, “dos que matam o corpo”, e não ter medo porque “até os cabelos de nossa cabeça estão todos contados” pelo Pai, que nos acompanha e cuida de nós muito mais do que dos pardais. Com isso Jesus está nos encorajando para a criatividade e a liberdade, e para retomarmos ações e inciativas nas quais sentimos já o gosto do mundo novo que queremos para todos.

  1. “Dizei à luz do dia o que vos digo na escuridão, e proclamai de cima dos telhados o que vos digo ao pé do ouvido”… “Porque não há nada encoberto que não venha a ser revelado”… “Todo aquele que der testemunho de mim diante dos outros, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus.”

O encontro, a comunhão com Jesus nos faz sentirmos confiança. Deus está dentro da história humana e no universo. Por mais que as forças do mal e os poderes do mundo constituam, tantas vezes, um forte anti-reino, Deus pode fazer surgir o bem do próprio mal, encontrar um caminho correto pelas vias tortuosas da sociedade. Deus não nos abandona jamais. “Esta fé firme em Deus não leva à evasão ou à passividade. Traduz-se, pelo contrário, em coragem para tomar decisões e assumir responsabilidades. Leva a enfrentar riscos e aceitar sacrifícios para ser fiel a si mesmo e à própria dignidade. O verdadeiro crente não se caracteriza pela covardia, pela resignação, mas pela audácia e criatividade.” (p. 123-124).  Mesmo encontrando forças contrárias, o cristão sabe que, mais cedo ou mais tarde, a perseguição do anti-reino chega: pelas ameaças, pelas línguas fofoqueiras, pela indiferença, pela omissão, pelos braços cruzados para não apoiar, por deixar tudo como está. “O ser humano precisa encontrar uma esperança definitiva e uma força que dê sentido à sua luta diária. Precisa descobrir uma ação para viver, uma confiança para morrer”, diz Pagola (p.125). E terá a certeza de que, na prestação de contas diante de Deus, conta com Jesus: “Eu darei testemunho dele diante do Pai que está nos céus”.

Confiemos em Deus como se tudo dependesse dele e, ao mesmo tempo, lutemos, fazendo todo o possível, como se tudo dependesse de nós. E Deus agirá a partir de dentro de nós e a partir do povo organizado, em vista da vida com dignidade e da justiça.

 

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