UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 16º. DOMINGO COMUM: dia 23/07/17: Mt 13,24-43 (ou 13,24-30)

Olhando para esta sociedade que está nos impregnando de desejos e atitudes de consumo, de prazeres e distrações, de acomodação e isolamento, ficamos quase duvidando de que o Reino de Deus possa transformar esse mundo. No fundo de nosso imaginário ainda estamos, como muitos no tempo de Jesus, sonhando que o Reino venha como algo espetacular, com grandes e bonitas concentrações, com shows de milagres mágicos e aplausos vibrantes das multidões. É para nós que Jesus, neste fim de semana, nos dirige as parábolas da mostarda, do fermento e do trigo misturado ao joio. Entendê-las, ajuda a compreender que Deus age diferentemente do que queremos e que o Reino não dá espetáculo.

  1. Um homem semeou boa semente em seu campo. Veio o inimigo e semeou o joio… Se arrancarem o joio agora, arrancarão também o trigo… Deixem que os dois cresçam juntos até a colheita… Aí, colham primeiro o joio e queimem; depois recolham o trigo no meu celeiro.

Assim é o reino de Deus. O bem e o mal estão meio misturados. Tanto na sociedade como nas pessoas, dentro de nós também. Não adianta fazer julgamento e achar que, de um lado, estão somente os bons e que aí há só santidade; e, de outro lado, somente o mal e os maus, tudo é pecado e corrupção. Quando nos saciamos com boa dose de humildade, tomamos consciência de que o joio dentro de nós nos impede de querer arrasar o joio que seriam os outros. A parábola nos exorta à paciência, mas também à firmeza. Na vida e no mundo há de tudo. Mas não “é tudo a mesma coisa”. Um dia, a foicinha vai cortar e as mãos ágeis de Deus (tomara!) vão nos separar e recolher para o seu celeiro!

  1. O Reino é como um grão de mostarda que um homem semeia em sua terra. É a menor das sementes. Quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se uma árvore, de modo que em seus ramos os passarinhos vêm fazer ninhos.

A vida é muito mais do que as aparências e os fenômenos. A ação de Deus pode estar escondida e não se encaixar em nossos esquemas e pretensões. Ele age por dentro da história do nosso mundo e da nossa vida, sem alarde, discretamente. Aos poucos, com o tempo, poderemos ver o resultado aparecendo. Como os galileus tinham dificuldade de ver em Jesus o Reino chegando e presente, em sua simplicidade e humanidade, Ele lhes propôs a comparação do grão de mostarda. Naquela semente miúda, menor do que a cabeça de um alfinete, há um potencial e força enorme. Daí surge uma árvore de três metros de altura. O Reino de Deus não é um “cedro do Líbano”, com copada frondosa; é como uma semente pequena e insignificante. Assim somos nós que em Igreja buscamos ser sinal e instrumento desse Reino: insignificantes, modestos. O importante é que nesse grão há um potencial, uma força extraordinária. Se nosso testemunho for genuíno, verdadeiro, o Reino será grande e poderá abrigar gentes de todas as raças e condições. “Deus não está no êxito, no poder ou na superioridade. Para descobrir sua presença salvadora, devemos estar atentos ao pequeno, ao comum e cotidiano. A vida náo é só aquilo que se vê. É muito mais. Assim pensava Jesus.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.161)

 

  1. O reino é semelhante ao fermento que uma mulher pegou e misturou com três medidas de farinha, e tudo ficou fermentado.

Cremos que sem enxergar espetáculos, o Reino está aí fermentando a história, mesmo no Brasil turbulento e complicado de agora. Deus não impõe o seu reinado, ele é dom e vai agindo quase de modo imperceptível. Como a mulher, com cuidado e sabedoria, com ação maternal Deus vai introduzindo na dose certa o fermento do Reino, através dos cristãos e cristãs e de tantos que estão abertos ao seu mistério e ao mistério da grandiosidade da vida humana. E a massa humana lentamente vai sendo transformada. É maravilhoso saber que, avesso ao prestígio e ao show midiático, Deus atua a partir de dentro, de modo oculto e silencioso. Às vezes, com nossa ação e nosso ser, introduzindo nas relações sociais “sua verdade, sua justiça e seu amor de maneira simples, mas com força transformadora” (p.162).

 

Anúncios