Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR: dia 06/08/17: Mt 17,1-9

Pode parecer surpreendente, mas no catolicismo tradicional popular, com predomínio da população luso-brasileira, há séculos, no dia da Transfiguração do Senhor, nossos caboclos celebram e comemoram o dia do Senhor Bom Jesus da Coluna. Eles, cuja vida é cheia de sofrimentos, dores e tribulações, identificaram-se mais com o Jesus sofredor do que com o Jesus da transfiguração que, à primeira vista, aparece como glorioso. Mas não é bem isso que este evangelho revela.

  1. A simbologia do texto

Mateus tem como foco do seu evangelho que Jesus é Mestre da Justiça que veio realizar o Reino. Ele veio dar cumprimento e pleno sentido à Lei e às profecias. Por isso, o encontro na montanha com Moisés e Elias revela que “a transfiguração de Jesus serve para mostrar que ele é o novo Moisés, o Servo de Javé e o Profeta por meio do qual chega a nós o Reino da Justiça” (Bortolini, Roteiros Homiléticos, p. 61). Significado de algumas expressões e símbolos:

– “Seis dias depois” = lembra o sexto dia da criação, em que Deus criou o ser humano, homem e mulher, viu que tudo era muito bom e, depois, descansou. Aqui, revela que, em Cristo, está a realização daquilo que Deus planejou para o mundo e para nós.

– “uma alta montanha” = a montanha, ao povo da Bíblia, era lugar de revelação e de encontro com Deus. Moisés e Elias encontraram-se e falaram com Deus no monte Sinai. Aqui Jesus revela o rosto e a grandeza de Deus, diferente da montanha onde Jesus foi tentado, que era lugar da idolatria.

– “seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a luz” = sinal do triunfo da justiça de Deus. O rosto brilhante de Jesus significa que ele é maior do que Moisés e Elias. Afinal, Jesus é o rosto brilhante do Pai. Agora, falando com Jesus está-se falando diretamente com Deus.

– “três tendas, uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias” (proposta de Pedro) = Para Pedro, os três estão no mesmo nível de igualdade. Moisés e Elias são símbolos da Lei e das Profecias. Jesus veio e cumpriu o verdadeiro sentido da Lei e nos dá a nova lei. Ele é a realização das profecias. Portanto, maior do que Elias e Moisés.

  1. No Filho amado, somos servos e filhos amados do Pai

“Uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: ‘Este é o meu filho amado, no qual pus todo meu agrado. Escutai-o.’” Proclamado Filho querido, o Pai nos pede para escutá-lo. Não há outro caminho para o Reino da Justiça. O profeta Isaías disse que “o meu escolhido”, “o Servo”, defenderia o direito e cumpriria a justiça entregando a própria vida (cf. Is 42,1). Escutar o Filho amado, para nós hoje, é “criar espaço para que o clamor de tantos seres humanos seja atendido” (p.63).

Os discípulos reagem com medo e espanto: “ficaram muito assustados e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: ‘Levantai-vos e não tenhais medo’… Quando desciam da montanha, ordenou-lhes: ‘Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos’”. Cair com o rosto por terra é comum na Bíblia entre os que recebem uma grande revelação. Jesus lhes dá coragem: “Ao abrir  os olhos não viram mais ninguém, somente Jesus”. Quando abrimos os olhos do coração e da fé, “constatamos que o grande anúncio é a pessoa de Jesus que comunica o projeto do Pai”. O anúncio leva em conta Jesus revelado como Rei, Servo e Profeta, que deve passar pela morte para chegar à ressurreição. Por isso, é hora de os discípulos descerem da montanha – visão privilegiada de Deus – e escutar e praticar o que Ele ensina. Arregaçar as mangas e com Jesus assumir a cruz, para chegar à grande gloriosa revelação de Deus. E é por isso também que os caboclos não estão errados ao celebrar o sofrimento de Jesus amarrado à coluna e açoitado. Primeiro temos que enfrentar e viver a vida de servo, como Jesus, se quisermos realizar o “como é bom estarmos aqui!” na manifestação radiante de Deus.

Reflitamos com Bortolini: “A transfiguração de Jesus é sinal de sua ressurreição, vencendo a morte e a sociedade. violenta que o matou. Ela se torna, assim, anúncio da vitória da justiça sobre a injustiça. Nada nem ninguém poderão deter o projeto de Deus, que é liberdade e vida para toda criatura” (p. 63). Com Jesus, e vivendo seu Evangelho, podemos contribuir muito na transfiguração de nossa vida e de nossa socedade.

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