Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 22º. DOMINGO COMUM – dia 03/09/17: Mt 16,21-27

Estamos na semana do Grito dos Excluídos, com o lema: “Vida em Primeiro Lugar! Por Direitos e Democracia, a Luta é Todo Dia”. Muitas manifestações acontecem pelo Brasil afora, recordando que o poder público e o Estado devem estar a serviço do bem comum, especialmente onde a vida é mais fragilizada, buscando a inclusão social. Neste ano, diante de um quadro de perda de direitos dos trabalhadores e de um verdadeiro estado de exceção (onde as leis valem para uns e não para outros, ou se as torce e retorce), o lema nos conclama a lutar pela retomada da democracia e pelos direitos.

Nossa Igreja no Brasil, através da CNBB, está pedindo que essa semana seja uma Jornada de Oração pelo Brasil e o dia 7 de setembro seja um dia de jejum. Segundo Dom Leonardo Steiner, secretário da CNBB, “Nós estamos necessitados de um novo Brasil, mais ético; de uma política mais transparente. Nós não podemos chegar a um impasse de acharmos que a política pode ser dispensada. A política é muito importante, mas do modo do comportamento de muitos políticos, ela está sendo muito rejeitada dentro do Brasil. Nós esperamos que esse dia de jejum e oração ajude a refletir essa questão em maior profundidade”.

 

  1. “Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!’ Jesus voltou-se para Pedro e disse: ‘Vai para trás, satanás! Tu és uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.”

Jesus afirmara que ia a Jerusalém, e lá ele seria perseguido, preso, crucificado – pelos detentores do poder religioso e político -, mas ressuscitaria. Os discípulos ainda queriam um Reino na base da facilidade, com êxito total, sem sofrimento. Jesus estava consciente de que, indo a Jerusalém, sempre assumindo radicalmente o projeto de Deus, sofreria rejeição e perseguição, ckmo consequência daquilo que ensinou e praticou. Ter Deus com a gente não significa que a vida será de sombra e água fresca, de sucesso e facilidade… Então Pedro o puxa de lado e o repreende, para que se desvie dessa ida a Jerusalém… Como resposta, Jesus lhe diz que assim ele é “pedra de tropeço”, e o chama de satanás. Também lhe pede a ir para trás, quer dizer, seguir a ele, não querer pôr-se na frente e decidir os seus caminhos… Quando Pedro confessa “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo”, ele é chamado e “pedra” sobre a qual se constrói a comunidade; mas, quando pensa em seguir Jesus com bem-estar e sem sofrimento, é chamado “pedra de tropeço”.

 

  1. “Jesus disse aos discípulos: ‘Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga’.”

Jesus não foca no sofrimento, foca no projeto do Pai. Aliás, fica atento sim aos sofrimentos e às lágrimas dos excluídos e rejeitados. Não busca sofrer nem quer sofrer: “Seu sofrimento é uma dor solidária, aberta aos outros, fecunda” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.210). Nem se assusta diante do seu padecimento futuro. Ele está nas mãos do Pai e confia nele… Hoje muitas pessoas têm a mania de usar demais a expressão “carregar a cruz”, ou “cada um tem sua cruz”. Não se pode chamar de “cruz” a qualquer sofrimento. Por exemplo, os que são consequências de nossos pecados e equívocos, de nossos ressentimentos e apegos não são a cruz proposta por Jesus. “Tome a sua cruz”, “é apenas o sofrimento que nos virá como consequência desse seguimento; o destino doloroso que teremos de compartilhar com Cristo, se seguirmos realmente seus passos” (p. 213).

E quando Jesus diz “renuncie a si mesmo”, não é castigar-se, nem mortificar-se de qualquer jeito, nem autodestruir-se. Mas “é não viver dependente de si próprio, esquecer-se do próprio ‘ego’, para construir a vida sobre Jesus Cristo. Libertar-nos de nós mesmos para aderir radicalmente a ele” (p.213)… E esse “carregar a cruz” não é um peso nem motivo de tristeza. É o único caminho para plena realização, esperança, alegria e salvação.

 

  1. “Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.”

 

No coração de Jesus havia “uma dupla experiência: sua identificação com os

últimos e sua confiança total no Pai” (p. 208). Por isso, é perseguido e sofre. Deixa claro que entre seus seguidores, este é o caminho: “Se seguiam seus passos, deviam também compartilhar sua paixão por Deus e sua disponibilidade total a serviço de seu reino” (p. 209). Não lhes propõe agarrar-se à sua própria vida nem fechar-se em seus próprios interesses, mas em doar-se, compartilhar, arriscar a vida de maneira generosa, pelos outros e pelo Reino. É assim que se ganha e se salva a vida. “Aquele que caminha atrás dele, mas continua aferrado às seguranças, metas e expectativas que sua vida lhe oferece, pode acabar perdendo o maior bem de todos: a vida vivida segundo o projeto de Deus” (p. 209). “Num mundo dominado pela imposição de vontades dos violentos, aqueles eu pretendem seguir Jesus devem servir aos demais em total gratuidade, a ponto de estar dispostos a morrer por eles.” (Aila Pinheiro de Andrade, Vida Pastoral, p.2) Mas, como em Jeremias, apesar do sofrimento e renúncias, sente a paixão e amor por Deus arder por dentro, e não resiste, segue em frente na missão da profecia e testemunho.

 

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