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Uma palavra por Lula = (Roberto Malvezzi, popular Gogó)

Uma palavra por Lula

Roberto Malvezzi (Gogó)

Desde a juventude acompanho a trajetória pública de Lula, desde as greves do ABC, na resistência à ditadura, o início do PT, sua expansão pelo Brasil. Mas, eu venho do ramo das Pastorais Sociais, das CEBs, das lutas sociais, da Teologia da Libertação, nunca fui filiado a nenhum partido. Sou do grupo que nunca vai ao poder, prefere ficar o no meio do povo.

Lula uma vez no poder, fomos os primeiros a confrontá-lo, em vista da Transposição. Ela está quase concluída, a revitalização do São Francisco, como sabíamos, não saiu do zero, exceto algumas obras de saneamento nos municípios da bacia.

Dia 24 de janeiro, ele será julgado em segunda instância. Por ser um processo mais político que jurídico, já está condenado. A prisão vai depender das circunstâncias. Parece que não será nesse primeiro momento.

Mas, no dia 24 , estará em jogo não apenas o Lula com seus erros e acertos históricos. O que tanta gente não se conforma é o caráter parcial desse julgamento, como forma de perseguição pessoal, da condenação sem provas, ignorando o princípio milenar do direito “in dubio pro reo”, com origem no direito romano, mas que é esgarçado em todo regime de exceção.  Só o fato da juíza Luciana Correa Torres de Oliveira penhorar o tal tríplex como sendo da OAS, enquanto Moro condenou Lula a nove anos por lhe atribuir a propriedade, indica o absurdo em que se meteu o judiciário brasileiro nesse caso.

Hoje – basta ouvir o diretor do filme “Snowden” – está comprovada a participação dos Estados Unidos no golpe para destruir ou se apossar de empresas competitivas que não estejam sob seu controle, como a Petrobrás e a Embraer, ou para derrubar governos que não lhes são submissos. Temos os 10% de brasileiros que apoiam Temer e o golpe, os milionários e bilionários, aquelas velhas almas colonizadas que beijam o traseiro dos estadunidenses e oprimem nosso povo.

Não precisamos citar mais esses seres humanos abjetos como Eduardo Cunha, Geddel e o papel que cumpriram nesse processo. No tangente ao desmonte do estado brasileiro o golpe já está praticamente concluído. Falta eliminar as sementes da reação.

O processo deixa transparecer claramente a moral farisaica, que “coa mosquito e engole camelo”, investigando de forma enfadonha uns recibos de aluguel, mas fazendo vistas largas às corrupções monumentais de pessoas de outros partidos, de vasto conhecimento público e com provas inequívocas.

Lula poderá sair condenado e preso, mas sua vitória sobre seus algozes já está concluída, pelas intenções de voto que o povo lhe deposita. Historicamente seus perseguidores já perderam a guerra, particularmente Dallagnol e Moro.  Acusaram, condenaram, mas não provaram, enquanto Lula está vivo no coração do povo.

O povo sabe ler a história e ela não termina no golpe.

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FRANCISCO QUER A IGREJA FORA DAS IGREJAS

FRANCISCO QUER A IGREJA FORA DAS IGREJAS

(Atenção editor: Igreja, cx alta, é a instituição. Cx baixa é a da esquina, da paróquia)

Frei Betto

Semana passada, em Nova Iguaçu (RJ), agentes pastorais, membros de Comunidades Eclesiais de Base, adeptos da Teologia da Libertação, do Movimento Fé e Política e de movimentos sociais se reuniram para aprofundar a proposta do papa Francisco de “uma Igreja em saída”.

Diminui o número de católicos no Brasil. A pesquisa Datafolha, de dezembro de 2016, comprovou redução de 9 milhões de fiéis em dois anos. Naquela data, apenas 50% dos entrevistados se autodeclararam católicos.

O papa Francisco está ciente da crise do catolicismo. Por isso, propõe uma “Igreja em saída”. Isso significa romper os muros clericalistas que amarram a Igreja aos templos; flexibilizar as leis canônicas (como admitir o recasamento de divorciados); e modificar os parâmetros ideológicos (que consideram o catolicismo conatural ao capitalismo).

Esse projeto de Francisco se choca com a “restauração identitária” ou, nas palavras do teólogo e meu primo João Batista Libanio, “volta à grande disciplina”, defendida por João Paulo II e Bento XVI. Propunham a leitura dos documentos do Concílio Vaticano II à luz do Vaticano I: predominância do Direito Canônico; Catecismo da Igreja Católica; desestímulo às Comunidades Eclesiais de Base; aceitação da liturgia tridentina; valorização dos movimentos papistas; e desconfiança diante da sociedade (tida como relativista e niilista).

Para o projeto de “restauração identitária”, o papel da Igreja é salvar almas. Para o de “Igreja em saída”, é libertar a humanidade da injustiça e da desigualdade. As pessoas se salvam salvando a humanidade de tudo que a impede de ser a grande família dos filhos e filhas de Deus. Daí a proposta de Francisco ao incentivar os movimentos sociais a lutar por três T: terra, teto e trabalho.

O primeiro projeto quer uma Igreja centrada na liturgia e nos sacramentos, na noção de pecado, na submissão dos leigos ao clero. Guarda nostalgia dos tempos em que a Igreja Católica ditava a moral social; merecia a reverência do Estado, que a cobria de privilégios; e, hoje, seus adeptos se sentem incomodados frente à secularização da sociedade e aos avanços da ciência e da tecnologia.

Ora, quantos jovens batizados na Igreja Católica estão hoje preocupados com a noção de pecado? Quantos temem ir para o inferno ao morrer? Quantos se preservam virgens até o casamento?

O projeto de Francisco é de uma Igreja descentrada de si e centrada nos graves desafios do mundo atual: preservação da natureza; combate à idolatria do capital; diálogo entre as nações; acolhimento dos refugiados; misericórdia às pessoas; protagonismo dos movimentos populares; centralidade evangélica nos direitos dos pobres e excluídos.

Bento XVI renunciou por reconhecer o fracasso do projeto de “restauração identitária”, ainda apoiado por expressivo número de bispos, padres e religiosas, incomodados com as orientações do papa Francisco, a quem alguns criticam abertamente.

O novo jeito de ser católico, proposto por Francisco, corresponde ao que dizia são Domingos, fundador da Ordem religiosa a que pertenço: “O trigo amontoado apodrece; espalhado, frutifica”. Sair da sacristia para a sociedade; encarar o mundo como dádiva de Deus; descobrir a presença de valores evangélicos em pessoas e situações desprovidas de fé ou religiosidade; buscar o diálogo ecumênico e inter-religioso; estar menos na Igreja para se fazer mais presente no Reino de Deus – categoria que, na boca de Jesus, se contrapunha ao reino de César, e significa o mundo no qual a paz seja fruto da justiça, e não do equilíbrio de armas.

A meta é o Reino de Deus, no qual “Deus será tudo em todos”, como prenunciou o apóstolo Paulo (I Coríntios 15,28). O caminho para atingi-lo inclui os movimentos sociais, as instituições da sociedade, as ferramentas políticas. E a Igreja funciona como “posto de gasolina” para abastecer-nos na fé e na espiritualidade capaz de nos estimular como militantes da grande utopia – o mundo que Deus quer para seus filhos e filhas viverem com dignidade, liberdade, justiça e paz.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.

 

QUINTO CENTENÁRIO DA REFORMA

QUINTO CENTENÁRIO DA REFORMA

31 DE OUTUBRO DE 2017 – Comemoramos os 500 anos da Reforma. Dia 31 de outubro do ano passado, iniciaram-se as comemorações do Quinto Centenário da Reforma Protestante. Foi em Lund, e Malmö, cidades do sul da Suécia, historicamente marcadas pela presença protestante.

A convite da Federação Luterana Mundial (FLM), o Papa Francisco esteve presente. Juntamente com o Reverendo Munib A. Younan,  bispo luterano de Jerusalém e Presidente da FLM, presidiu a celebração que aconteceu na catedral de Lund. Após a celebração, foi assinado um documento onde se afirmou que “enquanto luteranos e católicos continuam buscando a unidade, nada impede que deem o testemunho comum da alegria, da beleza e do poder transformador da fé, especialmente no serviço aos pobres, aos marginalizados e aos oprimidos”.

O documento constata também que, principalmente nos últimos 50 anos, católicos e luteranos têm-se aproximado uns dos outros através do serviço comum ao próximo. Os signatários agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, confessam e pedem perdão diante de Cristo por terem ferido a unidade visível da Igreja. Afirmam também que o passado não pode ser modificado, mas o modo de recordá-lo pode ser transformado. Tendo em conta os episódios da história, comprometem-se a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus que se tornou visível em Cristo crucificado e ressuscitado. Atestam que rezam a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo.

Pedem a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando toda forma de violência. Exortam luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher quem é estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição e defender os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo. Comprometem-se ainda a cuidar de toda a criação, reconhecendo o direito que têm as gerações futuras de gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza.

Constatam também que muitos membros das duas Igrejas anseiam por receber a Eucaristia em uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena. Reconhecem sua responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que os fiéis têm de ser um só em Cristo.

Em Malmö, num estádio, que pode acomodar até dez mil pessoas, aconteceu uma grande concentração, intitulada “Juntos na esperança”. Ali, além de muitas atrações foi assinado um acordo de cooperação entre a Caritas Internacional, organismo da Igreja católica e o World Service, organismo diaconal da Federação Luterana Mundial. Querem, com este gesto, motivar seus fiéis, e outras pessoas de boa vontade, a se engajar num serviço compassivo e amoroso ao próximo em um mundo ferido e fragmentado por conflitos, violência e destruição ecológica.

Comentando este acontecimento, o Pastor André Birmelé, professor emérito de teologia sistemática em Estrasburgo (França), afirmou que “o fato de o Papa discursar em tal celebração é um evento extraordinário do qual ninguém ainda pode medir o verdadeiro porte eclesial. Nós só podemos agradecer a Deus e nos alegrar com esse novo passo concreto no caminho da unidade”. Além do Pastor André Birmelé, outras personalidades têm demonstrado sua alegria com a presença do Papa Francisco em Lund. Em um artigo conjunto, julgam que a presença do Papa Francisco nas comemorações que abriram o Quinto Centenário da Reforma Protestante pode significar “energia para o trabalho ecumênico em seu país e lançar sinais encorajadores de esperança para todo o mundo”. Para a canadense e bispa luterana Susan C. Johnson, a presença do Papa em Lund “é um sinal maravilhoso da obra do Espírito Santo, que continua a trabalhar entre nós, convidando-nos à unidade que Jesus Cristo proclamou para a sua Igreja”. Na opinião do teólogo valdense Paolo Ricca, “o fato de o Papa ir a Lund significa que ele considera a Reforma como um evento relevante para a história cristã em geral, também para a história do catolicismo”. É um sinal de reconciliação diante de séculos marcados por conflitos. É um gesto importante, mas não é o objetivo último da caminhada ecumênica.

Continuamos trabalhando em direção a um futuro que conduza a uma comunhão ainda maior, onde possamos entender hospitalidade eucarística uns aos outros, reconhecer a variedade de dons e ministérios existentes em nossas Igrejas e afirmar que nossas comunhões eclesiais são igualmente Corpo de Cristo, apesar das diferenças teológicas que continuam nos separando. As comemorações do Quinto Centenário da Reforma Protestante se prolongaram até hoje. (31 de outubro de 2017). É a primeira vez que semelhante celebração acontece de forma ecumênica. Nas outras vezes, os centenários da Reforma foram fonte de polêmicas entre as duas confissões. Para os luteranos foram ocasião para expressar o orgulho protestante e para os católicos, ocasião de acusar Lutero e seus seguidores de uma divisão injustificável da verdadeira Igreja e a rejeição do Evangelho de Cristo.

Em nossos dias, a situação é outra. Já temos cinquenta anos de diálogo entre católicos e luteranos.  Neste período, podemos nos conhecer melhor. Cresceu a certeza de que entre as duas Igrejas há mais coisas que unem, do que aquelas que dividem.  Já em 2013, a Comissão Internacional de Diálogo Luterano-Católica redigiu e divulgou um texto intitulado “Do Conflito à Comunhão”. Neste documento, católicos e luteranos são convidados, em primeiro lugar, a purificar e curar as memórias; em segundo lugar, a restaurar a unidade cristã, conforme a verdade do Evangelho de Jesus Cristo (Ef 4,4-6). Em 2015, foi divulgado outro texto intitulado, “Oração comum para comemorar a Reforma em 2017”. A cerimônia de Lund se inspirou neste texto. Um terceiro documento, intitulado “Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo”, foi divulgado pela Conferência dos Bispos Católicos da Alemanha e pelo Conselho da Igreja Protestante da Alemanha.  Nas palavras dos Presidentes da Conferência Episcopal alemã e do Conselho da Igreja Protestante, o documento quer ser “uma palavra comum” para orientar as celebrações que acontecerão em diversas localidades de toda a Alemanha até o dia 31 de outubro de 2017.

O tema da Semana Oração para a Unidade dos Cristãos foi também inspirado na celebração dos 500 anos. Os textos foram elaborados por um grupo ecumênico da Alemanha. Neles se agradece a Deus pelo dom da Reforma e se pede perdão pelas incompreensões, preconceitos e divisões. Gesto interessante tem sido organização do Luthergarten em Wittenberg, onde as Igrejas que têm relações ecumênicas com Igreja Luterana plantaram uma árvore. Em sequência, estas mesmas Igrejas plantaram uma segunda árvore em um lugar significativo para seus fiéis. Os católicos representados pelo cardeal Kasper plantaram uma árvore em Wittenberg e a outra foi plantada no jardim da Basílica de São Paulo fora dos muros pelo cardeal Koch.

A HOMILIA DO PAPA

Inicia citando Jo 15,4: “Permanecei em mim, que eu permaneço em vós”, tirado da parábola da videira e dos ramos. Dentro do texto cita Jo 15,5: “Sem mim, nada podeis fazer”. A unidade é obra de Deus. É ele que nos sustenta e encoraja a procurar os modos para tornar a unidade uma realidade cada vez mais evidente. Pedimos: “Senhor, com a vossa graça ajudai-nos a estar mais unidos a vós para darmos, juntos, um testemunho mais eficaz de fé, esperança e caridade”.

A celebração é também um momento adequado para dar graças a Deus pelo esforço de muitos irmãos e irmãs, de diferentes comunidades eclesiais, que não se resignaram com a divisão, mas mantiveram viva a esperança da reconciliação entre todos os que creem no único Senhor. Nós também não podemos nos resignar com a divisão. Com a celebração do quinto centenário temos a oportunidade de superar controvérsias e mal-entendidos que frequentemente  impediram de nos compreendermos uns aos outros. Devemos olhar, com amor e honestidade, o nosso passado, reconhecer o erro e pedir perdão.

É preciso também reconhecer que a divisão foi provocada mais pelos homens do poder do que pelo povo fiel. OutrO pressuposto em nossa leitura do passado deve ser o de que de ambos os lados havia uma vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé. Nós cristãos seremos testemunhas credíveis da misericórdia, na medida em que o perdão, a renovação e a reconciliação forem uma experiência diária entre nós.  Juntos, podemos anunciar e manifestar, de forma concreta e com alegria, a misericórdia de Deus, defendendo e servindo a dignidade de cada pessoa. Sem este serviço ao mundo e no mundo, a fé cristã é incompleta.

A Reforma deu-nos a possibilidade compreender melhor alguns aspectos da nossa fé. Contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja. O conceito “só por graça” recorda-nos que Deus tem sempre a iniciativa. A doutrina da justificação exprime a essência da existência humana diante de Deus. Com esse olhar ao passado, não pretendemos fazer uma correção inviável do que aconteceu, mas contar essa história de maneira diferente. Sem dúvida a separação foi uma fonte imensa de sofrimento e incompreensões; mas ao mesmo tempo levou-nos a tomar consciência sinceramente de que, sem ele, nada podemos fazer.

 

Pobres pagam contas dos ricos [Fr. Betto]

CEBI ⁄ Direitos Humanos ⁄ Pobres pagam contas dos ricos [Frei Betto]

Confira o artigo de Frei Betto publicado pelo Correio da Cidadania em 24 de outubro.
Boa leitura!

Reforma da Previdência no Brasil é Robin Hood às avessas. O governo Temer quer tirar ainda mais dos pobres para poupar os ricos. Esta a conclusão dos estudos feitos pela Oxfam, conceituada instituição britânica. Apenas em 2016 o nosso país deixou de arrecadar, por falhas e omissões no recolhimento de impostos, R$ 546 bilhões!

Este o valor das isenções tributárias que o governo concedeu a determinados setores da economia, como a indústria automobilística. Graças a esse pacote de bondades, apenas em isenções fiscais os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 271 bilhões. Isso significa menos saúde, educação, saneamento, segurança etc.

Na opinião da diretora-executiva da Oxfam, Katia Maia, o Brasil precisa:

“eliminar esses benefícios e ser rígido nos controles da sonegação fiscal. A gente sabe que o Brasil deixa de arrecadar por uma sonegação grande. Também deixa de arrecadar por mecanismos (legais) que fazem com que as pessoas e empresas não paguem impostos. E ainda deixa de arrecadar com uma série de isenções fiscais para vários setores”.

O Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) estima em R$ 275 bilhões as perdas de arrecadação.

Ministério da Fazenda calcula que o rombo da Previdência em 2018 seja de R$ 202,2 bilhões. Ou seja, com a perda de receita apontada pelo relatório da Oxfam, daria para custear todas as aposentadorias e pensões e ainda sobrariam R$ 343,8 bilhões.

A cifra de R$ 546 bilhões sonegados aos cofres públicos representa 12 vezes o orçamento do Ministério da Saúde em 2016, calculado em R$ 43,3 bilhões.

O estudo cita um exemplo da chamada evasão fiscal dentro da lei. O setor de mineração usa ‘manobras’ que reduzem em até 23% o montante de tributos a ser pago aos cofres públicos.

Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo da Oxfam, ressalta que o problema do Brasil não é a elevada carga tributária, e sim o fato de não retornar à população na forma de benefícios sociais, como educação e saúde de qualidades, e ser dilapidada pelo mau uso da máquina pública.

Grajew acrescenta que “as reformas tributária e fiscal são importantes”, mas faz uma ponderação: “isso tem que ser acompanhado de justa distribuição dos recursos. Porque se continuar com a mesma distribuição, você não muda o quadro das desigualdades (sociais)”.

A Oxfam critica o fato de o Brasil ter poucas alíquotas de Imposto de Renda da Pessoa Física. Katia Maia explica:

“uma revisão das alíquotas do imposto de renda é importante. Na base tem tantas pessoas com salários tão baixos e que pagam imposto de renda. A nossa tabela está congelada há oito anos”.

A distorção tributária é tanta que, segundo o estudo, quem ganha 320 salários mínimos por mês (R$ 299,8 mil) paga a mesma alíquota efetiva (após descontos e deduções) de IR de quem ganha cinco salários mínimos (R$ 4.685).

Fonte: Artigo de Frei Betto, escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros. Publicado pelo Correio da Cidadania, 24/10/2017.

 

A crise do padre: o que compete ao ministério?

A crise do padre: o que compete ao ministério?

IHU – 19 Outubro 2017

Prossegue a rica reflexão que dom Francesco Cosentino está desenvolvendo, publicada por Settimana News sobre o tema da crise do padre, 16-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

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No caminho do Che (Marcelo Barros)

No caminho do Che

Marcelo Barros

No contexto social e político que, atualmente, vivemos no Brasil e em toda a América Latina, é importante lembrarmos que nesse 07 de outubro se completaram 50 anos do martírio do comandante Ernesto Che Guevara.  Vale a pena refletir que importância essa memória tem para nós e para a luta pacífica por um mundo de mais justiça e igualdade eco-social.

No tempo da ditadura militar brasileira e especialmente ao acompanhar as primeiras etapas do MST nos acampamentos de Ronda Alta, RS e no Bico do Papagaio, eu e outros companheiros tivemos de, não poucas vezes, arriscar a segurança pessoal e a própria vida. Eu e muitos de nós fomos detidos e sofremos pressões e ameaças. Em alguns casos, perseguições. Mas, isso não nos dá o direito de julgar eticamente a luta do Che Guevara, Camilo Torres e de outros companheiros que deram a vida no enfrentamento armado às ditaduras do nosso continente. Já em 1967, mesmo ano em que o Che Guevara era assassinado, o papa Paulo VI, ao deixar claro que a insurreição revolucionária, armada e violenta não deve ser o caminho dos cristãos, fez uma ressalva importante. Escreveu: “a não ser em caso de ditadura evidente e prolongada” (Cf. Encíclica O desenvolvimento dos povos, n. 31). Qualquer pessoa que analise a realidade latino-americana sabe que é exatamente esse o caso de nossos países, nos quais se prolonga indefinidamente uma mais do que cruel ditadura econômica e social, exercida pela elite que, desde o tempo da colônia se apodera da terra e dos bens que, na mesma encíclica, o papa declara serem bens comuns, de direito de todas as pessoas (P. P. 30).

Naqueles anos da segunda metade dos anos 60, a Bolívia vivia uma ditadura militar cruel e sanguinária, como tantas outras patrocinadas pelo império norte-americano. Até hoje, Vallegrande é uma cidade perdida, no vale dos Andes que lhe dá o nome. Açoitada pelos ventos frios que vem da cordilheira, até hoje, a pequena cidade se mantém isolada entre caminhos de terra que desanimam qualquer viajante menos afoito. La Higuera, povoado de cem habitantes, 60 km adiante e em uma montanha mais alta, foi o local do martírio do Che. Ali se encontra o Grupo Escolar onde o Che foi preso e sumariamente executado.  Hoje, essa casa é um museu comunal.

Basta percorrer a região para perceber que a miséria e o abandono do povo continua igual ou pior. Em meio às imensas montanhas de pedra e areia, se erguem uma ou outra casinha de lavrador. Mais adiante, mesmo se não se vê capim naquele areal, algumas poucas vacas pastam. Ainda hoje, é difícil imaginar que alguém possa viver ali.

A população de traços indígenas traz na memória os tempos nos quais militares os torturavam para que revelassem onde estavam os subversivos perigosos. Para não arriscar a vida desse povo simples, o Che evitou contatos, a não ser cuidar dos doentes quando recorriam a ele como médico. Mesmo arriscando sua segurança, ele nunca deixava de exercer o seu compromisso de médico dos pobres que ele amava.

Até hoje, é difícil compreender como o Comandante poderia imaginar que sua presença nestas paragens isoladas e cumes quase intransponíveis iria suscitar grupos de resistência à ditadura boliviana e assim incendiar o mundo com a revolução da justiça. Só mesmo uma fé imensa na dignidade humana pode explicar sua fé na vitória de uma campanha como aquela, com tão pouca gente e tão poucos recursos. Como ele escreveu: “Luto porque creio na vocação dos povos oprimidos para a liberdade”. Ele acreditava que a causa da justiça jamais seria apagada e acabaria vencendo. Por isso, ele e seus poucos companheiros  arriscaram e deram a vida nessa luta. Foram abandonados na montanha e entregues aos militares bolivianos. Esses, assessorados por norte-americanos da CIA, prenderam todos e os mataram, alguns em combate e outros, como o próprio Che, em um assassinato frio e banal.

Há 10 anos, na comemoração dos 40 anos do martírio do Che, Dom Tomás Balduíno, eu e um pequeno grupo internacional ligado ao MST, fomos a Valle Grande. Ali nos reunimos na velha lavanderia coletiva, onde há o tanque sobre o qual colocaram o corpo do Che, nu, sujo e ferido de balas. Deixaram-no ali exposto para humilhar os revolucionários e amedrontar o povo. Mulheres  pobres cobriram o corpo com um lençol e o cercaram de velas. Como as discípulas de Jesus ao descer da cruz o corpo do Senhor. Até hoje, o tanque de pedra está  coberto de inscrições e recados com nomes de pessoas que saúdam o Che ou pedem a graça de reviver seu espírito. Parece o túmulo de um  dos antigos mártires cristãos, no qual as pessoas vinham orar para serem fieis no testemunho. Ali, celebramos um culto macro-ecumênico que nos abasteceu da paixão pelos pobres, pelos quais o Che deu a vida. Como a cruz de Jesus, a morte do mártir tem um apelo de vida e de vitória.

Ao se declarar não crente, o Che se revelou mais espiritual do que se tivesse sido adepto de alguma religião. Sua dimensão evangélica se manifesta na universalidade de sua doação pela humanidade. Um poema de sua autoria mostra isso. O título é: “Poema para Cristo”. Diz assim: “Cristo, te amo. Não porque desceste de uma estrela, mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas e angústias e chaves para abrir as portas fechadas da luz. Sim, tu me ensinaste que o homem é Deus, um pobre Deus crucificado como tu. E aquele que está à tua esquerda no Gólgota, o mau ladrão, também é um deus. Cristo, te amo”. (Che Guevara, Nandahuauzu, Bolívia, outubro de 1967).

 

A festa da nossa caminhada humana [Marcelo Barros]

CEBI ⁄ Espiritualidade ⁄ A festa da nossa caminhada humana [Marcelo Barros]

Essa semana é marcada por dois acontecimentos que, à primeira vista, parecem ter nenhuma relação, mas, de fato, estão profundamente ligados. A ONU considera o 02 de outubro como o “Dia Internacional das Pessoas Sem-Teto”. No mundo atual, 250 milhões de seres humanos são empobrecidos e excluídos dos seus direitos básicos por uma elite social cruel e impiedosa que domina o mundo.

Obrigados por guerras assassinas ou pela fome provocada pelos impérios do mundo, uma multidão de migrantes e refugiados buscam desesperadamente salvar as vidas suas e de suas famílias nas fronteiras de países que não os acolhem ou recebem muito mal. No Brasil, os dados da ONU falam em 33 milhões de brasileiros sem moradia, dos quais 24 milhões de sem-teto sobrevivem em meio a nossas cidades.

O outro evento que marca essa semana é religioso. A partir dessa quarta-feira à noite, as comunidades judaicas celebram a Festa das Tendas (Sukkot). Durante oito dias, em toda casa judaica, as pessoas armam uma barraca improvisada como uma tenda no jardim. Nela, devem viver durante o período da festa. É o modo de recordar o tempo em que os hebreus peregrinaram pelo deserto, conduzidos por Deus, em busca da terra prometida. A festa das Tendas lembra que todos somos peregrinos/as.

Na base da fé está a esperança da libertação e a luta para que a terra seja chão de irmandade para toda humanidade.

A respeito dessa festa, diz o Zohar, livro sagrado da Cabala:

“Durante todo o Sukkot, as pessoas devem estar felizes em se alegrar de diversas formas”.

Pode parecer estranho um livro religioso pretender ordenar alguém a ser feliz. É que, na Bíblia, Deus revelou o seu projeto de um mundo de paz e justiça habitado por uma humanidade de irmãos e irmãs em comunhão com todo o universo. Procurar ser feliz e fazer os outros viverem com alegria e na paz, é atender a esse apelo de Deus. A festa das Tendas recorda a todo crente essa responsabilidade.

Atualmente, vivemos no Brasil um tempo de conflitos sociais e políticos. Os mais pobres, organizados em movimentos sociais, viram um governo constitucional ser derrubado e um bando de aventureiros nada recomendáveis se apoderarem do país. A alienação, pregada pelos grandes meios de comunicação interessados na deseducação do povo, fomenta um clima de grande intolerância. A tentação mais frequente é a do desânimo em relação ao futuro.

Nesse contexto, precisamos de uma grande celebração das Tendas, como festa da esperança. Aceitamos retomar uma espiritualidade do deserto como treinamento para um tempo novo de justiça ao qual Deus nos convoca. O Brasil pode se orgulhar do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em muitas de nossas cidades, ele tem contribuído para organizar a população sem teto e chama a atenção de toda a sociedade para o grave atentado aos direitos humanos, sofridos pelos irmãos e irmãs que vivem sem habitação.

Seja qual for sua pertença religiosa ou mesmo que você não tenha nenhuma, se coloque com os migrantesrefugiados e sem-teto nessa caminhada das tendas para uma terra de justiça e partilha fraterna centrada no amor.

E creia: onde houver esse amor solidário, aí está o Espírito que recria de felicidade a sua vida e a de todo o universo.

Fonte: Texto enviado pela Assessora do autor, Clara Sugizaki, 02/10/2017.

 

Liturgia: Papa Francisco apresenta a sua interpretação sobre o Vaticano

Liturgia: Papa Francisco apresenta a sua interpretação sobre o Vaticano

REVISTA IHU Online (parte)

Papa deixa a tradução dos textos litúrgicos para as Conferências Episcopais

Enquanto o Papa Francisco estava na Colômbia, no sábado, o Vaticano emitiu um novo documento legal em seu nome, que transfere a parte do leão do controle sobre a tradução de textos para uso no culto católico às conferências episcopais locais, afastando-a do Vaticano. Com efeito, esse foi o sinal mais claro até hoje de como Francisco se posiciona nos debates sobre o que deu errado depois do Vaticano II, especialmente sobre a questão da colegialidade.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 10-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um documento legal emitido sob a sua autoridade pessoal, alterando o cânone 838 do Código de Direito Canônico… Um maior controle sobre o processo de tradução de textos para uso no culto católico nas línguas vernáculas em todo o mundo será conferido às conferências locais dos bispos, e não mais ao Vaticano e, especificamente, à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do Vaticano.

… O documento limita o papel do Vaticano no fim do processo, quando uma conferência episcopal submete uma tradução proposta para aprovação. A Congregação para o Culto Divino não vai mais submeter uma extensa lista de emendas necessárias ao texto nessa fase; em vez disso, ela simplesmente dirá “sim” ou “não”. Dado que, na maioria dos casos, Roma não quer atrasar uma tradução inteira, muitos observadores acreditam que, agora, é mais provável que, independentemente do que os bispos decidirem no fim, será isso que o Vaticano vai aceitar.

Sejamos claros: imediatamente, essa decisão [de Francisco] não significa muito. Quando os católicos forem à missa hoje, as orações serão exatamente as mesmas do domingo passado. Ao longo do tempo, no entanto, ela poderia ter implicações significativas para a aparência e o som do culto católico.

É bem sabido que o Papa Francisco, apesar de levar a missa e os outros sacramentos da Igreja muito a sério, não é muito afeito aos detalhes dos debates litúrgicos. Ele não é o Papa Emérito Bento XVI, para quem a liturgia é uma profunda paixão pessoal.

Nos últimos 30 anos, mais ou menos, houve duas narrativas dominantes sobre as consequências do Vaticano II entre os católicos. Uma sustenta que a implementação do Concílio ficou um pouco louca nos anos 1960, 1970 e 1980, e o que João Paulo II e Bento XVI fizeram, foi fornecer algumas necessárias correções de rota, orientando a Igreja de volta àquilo que esse grupo vê como o “verdadeiro” espírito do Vaticano II.

A outra narrativa postula que as decisões do Vaticano II foram um choque grande demais para o sistema vaticano e que a velha guarda contando os segundos, à espera do momento certo para começar a voltar a fazer as coisas como eram antes. Esse momento chegou, dizem eles, com João Paulo II e Bento XVI, e, como resultado, os elementos críticos da promessa do Vaticano II foram ou paralisados ou totalmente revertidos.

Provavelmente, se você perguntasse ao próprio Francisco, ele lhe diria que não engole completamente nenhuma dessas narrativas (aliás, veremos se alguém vai lhe perguntar isso mais tarde nesse domingo, durante a costumeira coletiva de imprensa no voo de volta para Roma a partir da Colômbia).

Mesmo assim, Francisco passou a maior parte da sua carreira como bispo local na distante Argentina (isto é, distante de Roma) e, de vez em quando, expressava a sua frustração com aquilo que ele via como uma tomada de decisão obtusa e opaca no Vaticano. Uma vez, eu ouvi um prelado estadunidense de alto nível dizer: “Por que diabos eles me fizeram um bispo, em primeiro lugar, se eles não confiam em mim para gerir o meu próprio quintal?”. E não é difícil imaginar o então cardeal Jorge Mario Bergoglio ecoando o mesmo sentimento.

Vale ressaltar, também, que, no sábado, quando o motu proprio foi publicado, o Papa Francisco estava em Medellin, na Colômbia. Em 1968, essa cidade sediou um encontro do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), que é lembrado como uma das viradas decisivas do abraço da América Latina à “opção pelos pobres” como um princípio fundamental da doutrina social católica.

Ao longo dos anos, Francisco esteve profundamente envolvido com o Celam, ele acredita nele apaixonadamente e provavelmente sorriu diante do fato de que o seu gesto de colegialidade foi feito no dia em que ele estava pisando em um solo considerado como sagrado para os maiores defensores do Celam.

No fundo, essa medida será vista como uma revanche pelos liberais que insistiram, durante as guerras litúrgicas, que era ultrajante que as decisões fossem feitas a milhares de quilômetros de distância, em Roma, em vez de serem feitas pelos bispos que conhecem a situação local. E como um revés pelos tradicionalistas, que aprenderam a ver as conferências episcopais como o problema, e o Vaticano, como a solução.

Não importa onde alguém se posicione nessa disputa, esse sábado trouxe o exemplo mais claro até hoje de que o pêndulo agora está balançando forte na direção oposta daquela em que se encontrava com os dois últimos papas.

E, apenas para antecipar as críticas, sim, eu captei a imponente ironia aqui – Francisco fez esse gesto de colegialidade mediante um exercício de poder papal nu e cru. No entanto, em sua mente, sem dúvida, ele fez isso não por capricho pessoal, mas em nome dos bispos locais de todas as partes, assim como em nome daquilo que ele vê como o legado do Concílio Vaticano II.

 

GRITO DOS EXCLUÍDOS – Frei Betto

GRITO DOS EXCLUÍDOS = Frei Betto

Há décadas o 7 de setembro, data da independência do Brasil em relação à coroa portuguesa, é comemorado pelas pastorais sociais de Igrejas cristãs e movimentos sociais de nosso país como o dia do Grito dos Excluídos.

Os temas variam de ano a ano, embora haja íntima conexão entre eles. Este ano é a democracia e a defesa dos direitos dos trabalhadores, que no Brasil andam capengas. Somos governados por um executivo que retrocede direitos historicamente conquistados, e cujas principais figuras estão convocadas a sentar no banco dos réus e responder pelos graves crimes de que são acusados.

Somos governados por um legislativo que majoritariamente atua de costas para os seus eleitores, já que 95% da população desaprova o governo Temer e 81% considera que o presidente deveria responder pelos crimes que lhe pesam aos ombros perante a suprema corte do país.

Somos governados por um judiciário que se agarra como carrapato às mais aberrantes mordomias, recebe vultosos salários engordados por penduricalhos, e pratica com frequência o nepotismo (parentes e amigos não merecem cadeia).

A democracia brasileira exclui o acesso de todos ao bem-estar, já que temos 14 milhões de desempregados, 60 milhões de pessoas endividadas e 63 milhões de trabalhadores que ganham por mês menos de dois salários mínimos, dos quais 47 milhões ficam com menos de um.

Nossa economia não prioriza a inclusão social, e sim o crescimento do PIB. Prefere a especulação à produção. A exclusão econômica e social faz do Brasil uma das nações mais desiguais do mundo. Nas relações pessoais, a exclusão se manifesta no racismo, no machismo, na homofobia, e esta modalidade demoníaca que consiste em discriminar e agredir quem abraça uma prática religiosa diferente da minha.

A exclusão se estende até mesmo à natureza, vilipendiada em função dos interesses do capital, como o comprova o desmatamento da Amazônia, a poluição de nossos rios e mares, a impunidade de graves crimes ambientais como o provocado pela Samarco no Vale do Rio Doce.

Há muitas formas de exclusão. A social, que retalha a população em classes objetivamente antagônicas; a cultural, indiferente às expressões artísticas das esferas populares; a semântica, que por ofensas introduz a divergência onde deveria haver apenas diferença.

Hoje, muitos europeus se sentem incomodados com a chegada de refugiados cujos países, durante décadas, foram saqueados e oprimidos pelas potências europeias. Trump promete erguer um muro entre o seu país e o México, sem admitir que a extensão territorial dos EUA resulta da anexação do Texas, em 1845 e, logo em seguida, do Novo México e da Califórnia.

Que tipo de gente eu não suporto? A resposta a esta pergunta aponta quem são aqueles que excluo ou apoio quem os exclui. Há exclusões violentas, como as praticadas pelos adeptos da Ku Klux Klan e os assassinos de homossexuais; exclusões preconceituosas, como a de brancos que se julgam superiores aos indígenas; e a autoexclusão de quem cruza os braços ou se entrega à apatia e à indiferença diante de crises como a que o Brasil atravessa.

O protótipo da prática da não exclusão ou da solidária inclusão, sem nenhuma atitude de preconceito ou discriminação, foi Jesus de Nazaré. Acolheu o cego, o coxo, o hanseniano, e proclamou que todo ser humano é templo vivo de Deus. Acolheu o centurião romano que professava o paganismo; a samaritana que tivera cinco maridos e, agora, vivia com um sexto homem; a prostituta que lhe perfumou os pés e os enxugou com os cabelos.

Jesus acolheu pecadores e enfermos, ricos como Zaqueu e pobres como Bartimeu, o cego que mendigava à entrada de Jericó. Não acolheu, contudo, os promotores da exclusão, como os religiosos moralistas; o governador Herodes Antipas, corrupto e assassino; o homem rico que se recusou a partilhar seus bens com os necessitados.

Data cívica, o 7 de setembro mereceria ser a festa de uma democracia inclusiva, na qual o desfile das forças armadas fosse substituído por uma grande manifestação cívica das forças amadas.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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