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QUINTO CENTENÁRIO DA REFORMA

QUINTO CENTENÁRIO DA REFORMA

31 DE OUTUBRO DE 2017 – Comemoramos os 500 anos da Reforma. Dia 31 de outubro do ano passado, iniciaram-se as comemorações do Quinto Centenário da Reforma Protestante. Foi em Lund, e Malmö, cidades do sul da Suécia, historicamente marcadas pela presença protestante.

A convite da Federação Luterana Mundial (FLM), o Papa Francisco esteve presente. Juntamente com o Reverendo Munib A. Younan,  bispo luterano de Jerusalém e Presidente da FLM, presidiu a celebração que aconteceu na catedral de Lund. Após a celebração, foi assinado um documento onde se afirmou que “enquanto luteranos e católicos continuam buscando a unidade, nada impede que deem o testemunho comum da alegria, da beleza e do poder transformador da fé, especialmente no serviço aos pobres, aos marginalizados e aos oprimidos”.

O documento constata também que, principalmente nos últimos 50 anos, católicos e luteranos têm-se aproximado uns dos outros através do serviço comum ao próximo. Os signatários agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, confessam e pedem perdão diante de Cristo por terem ferido a unidade visível da Igreja. Afirmam também que o passado não pode ser modificado, mas o modo de recordá-lo pode ser transformado. Tendo em conta os episódios da história, comprometem-se a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus que se tornou visível em Cristo crucificado e ressuscitado. Atestam que rezam a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo.

Pedem a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando toda forma de violência. Exortam luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher quem é estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição e defender os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo. Comprometem-se ainda a cuidar de toda a criação, reconhecendo o direito que têm as gerações futuras de gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza.

Constatam também que muitos membros das duas Igrejas anseiam por receber a Eucaristia em uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena. Reconhecem sua responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que os fiéis têm de ser um só em Cristo.

Em Malmö, num estádio, que pode acomodar até dez mil pessoas, aconteceu uma grande concentração, intitulada “Juntos na esperança”. Ali, além de muitas atrações foi assinado um acordo de cooperação entre a Caritas Internacional, organismo da Igreja católica e o World Service, organismo diaconal da Federação Luterana Mundial. Querem, com este gesto, motivar seus fiéis, e outras pessoas de boa vontade, a se engajar num serviço compassivo e amoroso ao próximo em um mundo ferido e fragmentado por conflitos, violência e destruição ecológica.

Comentando este acontecimento, o Pastor André Birmelé, professor emérito de teologia sistemática em Estrasburgo (França), afirmou que “o fato de o Papa discursar em tal celebração é um evento extraordinário do qual ninguém ainda pode medir o verdadeiro porte eclesial. Nós só podemos agradecer a Deus e nos alegrar com esse novo passo concreto no caminho da unidade”. Além do Pastor André Birmelé, outras personalidades têm demonstrado sua alegria com a presença do Papa Francisco em Lund. Em um artigo conjunto, julgam que a presença do Papa Francisco nas comemorações que abriram o Quinto Centenário da Reforma Protestante pode significar “energia para o trabalho ecumênico em seu país e lançar sinais encorajadores de esperança para todo o mundo”. Para a canadense e bispa luterana Susan C. Johnson, a presença do Papa em Lund “é um sinal maravilhoso da obra do Espírito Santo, que continua a trabalhar entre nós, convidando-nos à unidade que Jesus Cristo proclamou para a sua Igreja”. Na opinião do teólogo valdense Paolo Ricca, “o fato de o Papa ir a Lund significa que ele considera a Reforma como um evento relevante para a história cristã em geral, também para a história do catolicismo”. É um sinal de reconciliação diante de séculos marcados por conflitos. É um gesto importante, mas não é o objetivo último da caminhada ecumênica.

Continuamos trabalhando em direção a um futuro que conduza a uma comunhão ainda maior, onde possamos entender hospitalidade eucarística uns aos outros, reconhecer a variedade de dons e ministérios existentes em nossas Igrejas e afirmar que nossas comunhões eclesiais são igualmente Corpo de Cristo, apesar das diferenças teológicas que continuam nos separando. As comemorações do Quinto Centenário da Reforma Protestante se prolongaram até hoje. (31 de outubro de 2017). É a primeira vez que semelhante celebração acontece de forma ecumênica. Nas outras vezes, os centenários da Reforma foram fonte de polêmicas entre as duas confissões. Para os luteranos foram ocasião para expressar o orgulho protestante e para os católicos, ocasião de acusar Lutero e seus seguidores de uma divisão injustificável da verdadeira Igreja e a rejeição do Evangelho de Cristo.

Em nossos dias, a situação é outra. Já temos cinquenta anos de diálogo entre católicos e luteranos.  Neste período, podemos nos conhecer melhor. Cresceu a certeza de que entre as duas Igrejas há mais coisas que unem, do que aquelas que dividem.  Já em 2013, a Comissão Internacional de Diálogo Luterano-Católica redigiu e divulgou um texto intitulado “Do Conflito à Comunhão”. Neste documento, católicos e luteranos são convidados, em primeiro lugar, a purificar e curar as memórias; em segundo lugar, a restaurar a unidade cristã, conforme a verdade do Evangelho de Jesus Cristo (Ef 4,4-6). Em 2015, foi divulgado outro texto intitulado, “Oração comum para comemorar a Reforma em 2017”. A cerimônia de Lund se inspirou neste texto. Um terceiro documento, intitulado “Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo”, foi divulgado pela Conferência dos Bispos Católicos da Alemanha e pelo Conselho da Igreja Protestante da Alemanha.  Nas palavras dos Presidentes da Conferência Episcopal alemã e do Conselho da Igreja Protestante, o documento quer ser “uma palavra comum” para orientar as celebrações que acontecerão em diversas localidades de toda a Alemanha até o dia 31 de outubro de 2017.

O tema da Semana Oração para a Unidade dos Cristãos foi também inspirado na celebração dos 500 anos. Os textos foram elaborados por um grupo ecumênico da Alemanha. Neles se agradece a Deus pelo dom da Reforma e se pede perdão pelas incompreensões, preconceitos e divisões. Gesto interessante tem sido organização do Luthergarten em Wittenberg, onde as Igrejas que têm relações ecumênicas com Igreja Luterana plantaram uma árvore. Em sequência, estas mesmas Igrejas plantaram uma segunda árvore em um lugar significativo para seus fiéis. Os católicos representados pelo cardeal Kasper plantaram uma árvore em Wittenberg e a outra foi plantada no jardim da Basílica de São Paulo fora dos muros pelo cardeal Koch.

A HOMILIA DO PAPA

Inicia citando Jo 15,4: “Permanecei em mim, que eu permaneço em vós”, tirado da parábola da videira e dos ramos. Dentro do texto cita Jo 15,5: “Sem mim, nada podeis fazer”. A unidade é obra de Deus. É ele que nos sustenta e encoraja a procurar os modos para tornar a unidade uma realidade cada vez mais evidente. Pedimos: “Senhor, com a vossa graça ajudai-nos a estar mais unidos a vós para darmos, juntos, um testemunho mais eficaz de fé, esperança e caridade”.

A celebração é também um momento adequado para dar graças a Deus pelo esforço de muitos irmãos e irmãs, de diferentes comunidades eclesiais, que não se resignaram com a divisão, mas mantiveram viva a esperança da reconciliação entre todos os que creem no único Senhor. Nós também não podemos nos resignar com a divisão. Com a celebração do quinto centenário temos a oportunidade de superar controvérsias e mal-entendidos que frequentemente  impediram de nos compreendermos uns aos outros. Devemos olhar, com amor e honestidade, o nosso passado, reconhecer o erro e pedir perdão.

É preciso também reconhecer que a divisão foi provocada mais pelos homens do poder do que pelo povo fiel. OutrO pressuposto em nossa leitura do passado deve ser o de que de ambos os lados havia uma vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé. Nós cristãos seremos testemunhas credíveis da misericórdia, na medida em que o perdão, a renovação e a reconciliação forem uma experiência diária entre nós.  Juntos, podemos anunciar e manifestar, de forma concreta e com alegria, a misericórdia de Deus, defendendo e servindo a dignidade de cada pessoa. Sem este serviço ao mundo e no mundo, a fé cristã é incompleta.

A Reforma deu-nos a possibilidade compreender melhor alguns aspectos da nossa fé. Contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja. O conceito “só por graça” recorda-nos que Deus tem sempre a iniciativa. A doutrina da justificação exprime a essência da existência humana diante de Deus. Com esse olhar ao passado, não pretendemos fazer uma correção inviável do que aconteceu, mas contar essa história de maneira diferente. Sem dúvida a separação foi uma fonte imensa de sofrimento e incompreensões; mas ao mesmo tempo levou-nos a tomar consciência sinceramente de que, sem ele, nada podemos fazer.

 

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Pobres pagam contas dos ricos [Fr. Betto]

CEBI ⁄ Direitos Humanos ⁄ Pobres pagam contas dos ricos [Frei Betto]

Confira o artigo de Frei Betto publicado pelo Correio da Cidadania em 24 de outubro.
Boa leitura!

Reforma da Previdência no Brasil é Robin Hood às avessas. O governo Temer quer tirar ainda mais dos pobres para poupar os ricos. Esta a conclusão dos estudos feitos pela Oxfam, conceituada instituição britânica. Apenas em 2016 o nosso país deixou de arrecadar, por falhas e omissões no recolhimento de impostos, R$ 546 bilhões!

Este o valor das isenções tributárias que o governo concedeu a determinados setores da economia, como a indústria automobilística. Graças a esse pacote de bondades, apenas em isenções fiscais os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 271 bilhões. Isso significa menos saúde, educação, saneamento, segurança etc.

Na opinião da diretora-executiva da Oxfam, Katia Maia, o Brasil precisa:

“eliminar esses benefícios e ser rígido nos controles da sonegação fiscal. A gente sabe que o Brasil deixa de arrecadar por uma sonegação grande. Também deixa de arrecadar por mecanismos (legais) que fazem com que as pessoas e empresas não paguem impostos. E ainda deixa de arrecadar com uma série de isenções fiscais para vários setores”.

O Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) estima em R$ 275 bilhões as perdas de arrecadação.

Ministério da Fazenda calcula que o rombo da Previdência em 2018 seja de R$ 202,2 bilhões. Ou seja, com a perda de receita apontada pelo relatório da Oxfam, daria para custear todas as aposentadorias e pensões e ainda sobrariam R$ 343,8 bilhões.

A cifra de R$ 546 bilhões sonegados aos cofres públicos representa 12 vezes o orçamento do Ministério da Saúde em 2016, calculado em R$ 43,3 bilhões.

O estudo cita um exemplo da chamada evasão fiscal dentro da lei. O setor de mineração usa ‘manobras’ que reduzem em até 23% o montante de tributos a ser pago aos cofres públicos.

Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo da Oxfam, ressalta que o problema do Brasil não é a elevada carga tributária, e sim o fato de não retornar à população na forma de benefícios sociais, como educação e saúde de qualidades, e ser dilapidada pelo mau uso da máquina pública.

Grajew acrescenta que “as reformas tributária e fiscal são importantes”, mas faz uma ponderação: “isso tem que ser acompanhado de justa distribuição dos recursos. Porque se continuar com a mesma distribuição, você não muda o quadro das desigualdades (sociais)”.

A Oxfam critica o fato de o Brasil ter poucas alíquotas de Imposto de Renda da Pessoa Física. Katia Maia explica:

“uma revisão das alíquotas do imposto de renda é importante. Na base tem tantas pessoas com salários tão baixos e que pagam imposto de renda. A nossa tabela está congelada há oito anos”.

A distorção tributária é tanta que, segundo o estudo, quem ganha 320 salários mínimos por mês (R$ 299,8 mil) paga a mesma alíquota efetiva (após descontos e deduções) de IR de quem ganha cinco salários mínimos (R$ 4.685).

Fonte: Artigo de Frei Betto, escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros. Publicado pelo Correio da Cidadania, 24/10/2017.

 

A crise do padre: o que compete ao ministério?

A crise do padre: o que compete ao ministério?

IHU – 19 Outubro 2017

Prossegue a rica reflexão que dom Francesco Cosentino está desenvolvendo, publicada por Settimana News sobre o tema da crise do padre, 16-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

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No caminho do Che (Marcelo Barros)

No caminho do Che

Marcelo Barros

No contexto social e político que, atualmente, vivemos no Brasil e em toda a América Latina, é importante lembrarmos que nesse 07 de outubro se completaram 50 anos do martírio do comandante Ernesto Che Guevara.  Vale a pena refletir que importância essa memória tem para nós e para a luta pacífica por um mundo de mais justiça e igualdade eco-social.

No tempo da ditadura militar brasileira e especialmente ao acompanhar as primeiras etapas do MST nos acampamentos de Ronda Alta, RS e no Bico do Papagaio, eu e outros companheiros tivemos de, não poucas vezes, arriscar a segurança pessoal e a própria vida. Eu e muitos de nós fomos detidos e sofremos pressões e ameaças. Em alguns casos, perseguições. Mas, isso não nos dá o direito de julgar eticamente a luta do Che Guevara, Camilo Torres e de outros companheiros que deram a vida no enfrentamento armado às ditaduras do nosso continente. Já em 1967, mesmo ano em que o Che Guevara era assassinado, o papa Paulo VI, ao deixar claro que a insurreição revolucionária, armada e violenta não deve ser o caminho dos cristãos, fez uma ressalva importante. Escreveu: “a não ser em caso de ditadura evidente e prolongada” (Cf. Encíclica O desenvolvimento dos povos, n. 31). Qualquer pessoa que analise a realidade latino-americana sabe que é exatamente esse o caso de nossos países, nos quais se prolonga indefinidamente uma mais do que cruel ditadura econômica e social, exercida pela elite que, desde o tempo da colônia se apodera da terra e dos bens que, na mesma encíclica, o papa declara serem bens comuns, de direito de todas as pessoas (P. P. 30).

Naqueles anos da segunda metade dos anos 60, a Bolívia vivia uma ditadura militar cruel e sanguinária, como tantas outras patrocinadas pelo império norte-americano. Até hoje, Vallegrande é uma cidade perdida, no vale dos Andes que lhe dá o nome. Açoitada pelos ventos frios que vem da cordilheira, até hoje, a pequena cidade se mantém isolada entre caminhos de terra que desanimam qualquer viajante menos afoito. La Higuera, povoado de cem habitantes, 60 km adiante e em uma montanha mais alta, foi o local do martírio do Che. Ali se encontra o Grupo Escolar onde o Che foi preso e sumariamente executado.  Hoje, essa casa é um museu comunal.

Basta percorrer a região para perceber que a miséria e o abandono do povo continua igual ou pior. Em meio às imensas montanhas de pedra e areia, se erguem uma ou outra casinha de lavrador. Mais adiante, mesmo se não se vê capim naquele areal, algumas poucas vacas pastam. Ainda hoje, é difícil imaginar que alguém possa viver ali.

A população de traços indígenas traz na memória os tempos nos quais militares os torturavam para que revelassem onde estavam os subversivos perigosos. Para não arriscar a vida desse povo simples, o Che evitou contatos, a não ser cuidar dos doentes quando recorriam a ele como médico. Mesmo arriscando sua segurança, ele nunca deixava de exercer o seu compromisso de médico dos pobres que ele amava.

Até hoje, é difícil compreender como o Comandante poderia imaginar que sua presença nestas paragens isoladas e cumes quase intransponíveis iria suscitar grupos de resistência à ditadura boliviana e assim incendiar o mundo com a revolução da justiça. Só mesmo uma fé imensa na dignidade humana pode explicar sua fé na vitória de uma campanha como aquela, com tão pouca gente e tão poucos recursos. Como ele escreveu: “Luto porque creio na vocação dos povos oprimidos para a liberdade”. Ele acreditava que a causa da justiça jamais seria apagada e acabaria vencendo. Por isso, ele e seus poucos companheiros  arriscaram e deram a vida nessa luta. Foram abandonados na montanha e entregues aos militares bolivianos. Esses, assessorados por norte-americanos da CIA, prenderam todos e os mataram, alguns em combate e outros, como o próprio Che, em um assassinato frio e banal.

Há 10 anos, na comemoração dos 40 anos do martírio do Che, Dom Tomás Balduíno, eu e um pequeno grupo internacional ligado ao MST, fomos a Valle Grande. Ali nos reunimos na velha lavanderia coletiva, onde há o tanque sobre o qual colocaram o corpo do Che, nu, sujo e ferido de balas. Deixaram-no ali exposto para humilhar os revolucionários e amedrontar o povo. Mulheres  pobres cobriram o corpo com um lençol e o cercaram de velas. Como as discípulas de Jesus ao descer da cruz o corpo do Senhor. Até hoje, o tanque de pedra está  coberto de inscrições e recados com nomes de pessoas que saúdam o Che ou pedem a graça de reviver seu espírito. Parece o túmulo de um  dos antigos mártires cristãos, no qual as pessoas vinham orar para serem fieis no testemunho. Ali, celebramos um culto macro-ecumênico que nos abasteceu da paixão pelos pobres, pelos quais o Che deu a vida. Como a cruz de Jesus, a morte do mártir tem um apelo de vida e de vitória.

Ao se declarar não crente, o Che se revelou mais espiritual do que se tivesse sido adepto de alguma religião. Sua dimensão evangélica se manifesta na universalidade de sua doação pela humanidade. Um poema de sua autoria mostra isso. O título é: “Poema para Cristo”. Diz assim: “Cristo, te amo. Não porque desceste de uma estrela, mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas e angústias e chaves para abrir as portas fechadas da luz. Sim, tu me ensinaste que o homem é Deus, um pobre Deus crucificado como tu. E aquele que está à tua esquerda no Gólgota, o mau ladrão, também é um deus. Cristo, te amo”. (Che Guevara, Nandahuauzu, Bolívia, outubro de 1967).

 

A festa da nossa caminhada humana [Marcelo Barros]

CEBI ⁄ Espiritualidade ⁄ A festa da nossa caminhada humana [Marcelo Barros]

Essa semana é marcada por dois acontecimentos que, à primeira vista, parecem ter nenhuma relação, mas, de fato, estão profundamente ligados. A ONU considera o 02 de outubro como o “Dia Internacional das Pessoas Sem-Teto”. No mundo atual, 250 milhões de seres humanos são empobrecidos e excluídos dos seus direitos básicos por uma elite social cruel e impiedosa que domina o mundo.

Obrigados por guerras assassinas ou pela fome provocada pelos impérios do mundo, uma multidão de migrantes e refugiados buscam desesperadamente salvar as vidas suas e de suas famílias nas fronteiras de países que não os acolhem ou recebem muito mal. No Brasil, os dados da ONU falam em 33 milhões de brasileiros sem moradia, dos quais 24 milhões de sem-teto sobrevivem em meio a nossas cidades.

O outro evento que marca essa semana é religioso. A partir dessa quarta-feira à noite, as comunidades judaicas celebram a Festa das Tendas (Sukkot). Durante oito dias, em toda casa judaica, as pessoas armam uma barraca improvisada como uma tenda no jardim. Nela, devem viver durante o período da festa. É o modo de recordar o tempo em que os hebreus peregrinaram pelo deserto, conduzidos por Deus, em busca da terra prometida. A festa das Tendas lembra que todos somos peregrinos/as.

Na base da fé está a esperança da libertação e a luta para que a terra seja chão de irmandade para toda humanidade.

A respeito dessa festa, diz o Zohar, livro sagrado da Cabala:

“Durante todo o Sukkot, as pessoas devem estar felizes em se alegrar de diversas formas”.

Pode parecer estranho um livro religioso pretender ordenar alguém a ser feliz. É que, na Bíblia, Deus revelou o seu projeto de um mundo de paz e justiça habitado por uma humanidade de irmãos e irmãs em comunhão com todo o universo. Procurar ser feliz e fazer os outros viverem com alegria e na paz, é atender a esse apelo de Deus. A festa das Tendas recorda a todo crente essa responsabilidade.

Atualmente, vivemos no Brasil um tempo de conflitos sociais e políticos. Os mais pobres, organizados em movimentos sociais, viram um governo constitucional ser derrubado e um bando de aventureiros nada recomendáveis se apoderarem do país. A alienação, pregada pelos grandes meios de comunicação interessados na deseducação do povo, fomenta um clima de grande intolerância. A tentação mais frequente é a do desânimo em relação ao futuro.

Nesse contexto, precisamos de uma grande celebração das Tendas, como festa da esperança. Aceitamos retomar uma espiritualidade do deserto como treinamento para um tempo novo de justiça ao qual Deus nos convoca. O Brasil pode se orgulhar do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em muitas de nossas cidades, ele tem contribuído para organizar a população sem teto e chama a atenção de toda a sociedade para o grave atentado aos direitos humanos, sofridos pelos irmãos e irmãs que vivem sem habitação.

Seja qual for sua pertença religiosa ou mesmo que você não tenha nenhuma, se coloque com os migrantesrefugiados e sem-teto nessa caminhada das tendas para uma terra de justiça e partilha fraterna centrada no amor.

E creia: onde houver esse amor solidário, aí está o Espírito que recria de felicidade a sua vida e a de todo o universo.

Fonte: Texto enviado pela Assessora do autor, Clara Sugizaki, 02/10/2017.

 

Liturgia: Papa Francisco apresenta a sua interpretação sobre o Vaticano

Liturgia: Papa Francisco apresenta a sua interpretação sobre o Vaticano

REVISTA IHU Online (parte)

Papa deixa a tradução dos textos litúrgicos para as Conferências Episcopais

Enquanto o Papa Francisco estava na Colômbia, no sábado, o Vaticano emitiu um novo documento legal em seu nome, que transfere a parte do leão do controle sobre a tradução de textos para uso no culto católico às conferências episcopais locais, afastando-a do Vaticano. Com efeito, esse foi o sinal mais claro até hoje de como Francisco se posiciona nos debates sobre o que deu errado depois do Vaticano II, especialmente sobre a questão da colegialidade.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 10-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um documento legal emitido sob a sua autoridade pessoal, alterando o cânone 838 do Código de Direito Canônico… Um maior controle sobre o processo de tradução de textos para uso no culto católico nas línguas vernáculas em todo o mundo será conferido às conferências locais dos bispos, e não mais ao Vaticano e, especificamente, à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do Vaticano.

… O documento limita o papel do Vaticano no fim do processo, quando uma conferência episcopal submete uma tradução proposta para aprovação. A Congregação para o Culto Divino não vai mais submeter uma extensa lista de emendas necessárias ao texto nessa fase; em vez disso, ela simplesmente dirá “sim” ou “não”. Dado que, na maioria dos casos, Roma não quer atrasar uma tradução inteira, muitos observadores acreditam que, agora, é mais provável que, independentemente do que os bispos decidirem no fim, será isso que o Vaticano vai aceitar.

Sejamos claros: imediatamente, essa decisão [de Francisco] não significa muito. Quando os católicos forem à missa hoje, as orações serão exatamente as mesmas do domingo passado. Ao longo do tempo, no entanto, ela poderia ter implicações significativas para a aparência e o som do culto católico.

É bem sabido que o Papa Francisco, apesar de levar a missa e os outros sacramentos da Igreja muito a sério, não é muito afeito aos detalhes dos debates litúrgicos. Ele não é o Papa Emérito Bento XVI, para quem a liturgia é uma profunda paixão pessoal.

Nos últimos 30 anos, mais ou menos, houve duas narrativas dominantes sobre as consequências do Vaticano II entre os católicos. Uma sustenta que a implementação do Concílio ficou um pouco louca nos anos 1960, 1970 e 1980, e o que João Paulo II e Bento XVI fizeram, foi fornecer algumas necessárias correções de rota, orientando a Igreja de volta àquilo que esse grupo vê como o “verdadeiro” espírito do Vaticano II.

A outra narrativa postula que as decisões do Vaticano II foram um choque grande demais para o sistema vaticano e que a velha guarda contando os segundos, à espera do momento certo para começar a voltar a fazer as coisas como eram antes. Esse momento chegou, dizem eles, com João Paulo II e Bento XVI, e, como resultado, os elementos críticos da promessa do Vaticano II foram ou paralisados ou totalmente revertidos.

Provavelmente, se você perguntasse ao próprio Francisco, ele lhe diria que não engole completamente nenhuma dessas narrativas (aliás, veremos se alguém vai lhe perguntar isso mais tarde nesse domingo, durante a costumeira coletiva de imprensa no voo de volta para Roma a partir da Colômbia).

Mesmo assim, Francisco passou a maior parte da sua carreira como bispo local na distante Argentina (isto é, distante de Roma) e, de vez em quando, expressava a sua frustração com aquilo que ele via como uma tomada de decisão obtusa e opaca no Vaticano. Uma vez, eu ouvi um prelado estadunidense de alto nível dizer: “Por que diabos eles me fizeram um bispo, em primeiro lugar, se eles não confiam em mim para gerir o meu próprio quintal?”. E não é difícil imaginar o então cardeal Jorge Mario Bergoglio ecoando o mesmo sentimento.

Vale ressaltar, também, que, no sábado, quando o motu proprio foi publicado, o Papa Francisco estava em Medellin, na Colômbia. Em 1968, essa cidade sediou um encontro do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), que é lembrado como uma das viradas decisivas do abraço da América Latina à “opção pelos pobres” como um princípio fundamental da doutrina social católica.

Ao longo dos anos, Francisco esteve profundamente envolvido com o Celam, ele acredita nele apaixonadamente e provavelmente sorriu diante do fato de que o seu gesto de colegialidade foi feito no dia em que ele estava pisando em um solo considerado como sagrado para os maiores defensores do Celam.

No fundo, essa medida será vista como uma revanche pelos liberais que insistiram, durante as guerras litúrgicas, que era ultrajante que as decisões fossem feitas a milhares de quilômetros de distância, em Roma, em vez de serem feitas pelos bispos que conhecem a situação local. E como um revés pelos tradicionalistas, que aprenderam a ver as conferências episcopais como o problema, e o Vaticano, como a solução.

Não importa onde alguém se posicione nessa disputa, esse sábado trouxe o exemplo mais claro até hoje de que o pêndulo agora está balançando forte na direção oposta daquela em que se encontrava com os dois últimos papas.

E, apenas para antecipar as críticas, sim, eu captei a imponente ironia aqui – Francisco fez esse gesto de colegialidade mediante um exercício de poder papal nu e cru. No entanto, em sua mente, sem dúvida, ele fez isso não por capricho pessoal, mas em nome dos bispos locais de todas as partes, assim como em nome daquilo que ele vê como o legado do Concílio Vaticano II.

 

GRITO DOS EXCLUÍDOS – Frei Betto

GRITO DOS EXCLUÍDOS = Frei Betto

Há décadas o 7 de setembro, data da independência do Brasil em relação à coroa portuguesa, é comemorado pelas pastorais sociais de Igrejas cristãs e movimentos sociais de nosso país como o dia do Grito dos Excluídos.

Os temas variam de ano a ano, embora haja íntima conexão entre eles. Este ano é a democracia e a defesa dos direitos dos trabalhadores, que no Brasil andam capengas. Somos governados por um executivo que retrocede direitos historicamente conquistados, e cujas principais figuras estão convocadas a sentar no banco dos réus e responder pelos graves crimes de que são acusados.

Somos governados por um legislativo que majoritariamente atua de costas para os seus eleitores, já que 95% da população desaprova o governo Temer e 81% considera que o presidente deveria responder pelos crimes que lhe pesam aos ombros perante a suprema corte do país.

Somos governados por um judiciário que se agarra como carrapato às mais aberrantes mordomias, recebe vultosos salários engordados por penduricalhos, e pratica com frequência o nepotismo (parentes e amigos não merecem cadeia).

A democracia brasileira exclui o acesso de todos ao bem-estar, já que temos 14 milhões de desempregados, 60 milhões de pessoas endividadas e 63 milhões de trabalhadores que ganham por mês menos de dois salários mínimos, dos quais 47 milhões ficam com menos de um.

Nossa economia não prioriza a inclusão social, e sim o crescimento do PIB. Prefere a especulação à produção. A exclusão econômica e social faz do Brasil uma das nações mais desiguais do mundo. Nas relações pessoais, a exclusão se manifesta no racismo, no machismo, na homofobia, e esta modalidade demoníaca que consiste em discriminar e agredir quem abraça uma prática religiosa diferente da minha.

A exclusão se estende até mesmo à natureza, vilipendiada em função dos interesses do capital, como o comprova o desmatamento da Amazônia, a poluição de nossos rios e mares, a impunidade de graves crimes ambientais como o provocado pela Samarco no Vale do Rio Doce.

Há muitas formas de exclusão. A social, que retalha a população em classes objetivamente antagônicas; a cultural, indiferente às expressões artísticas das esferas populares; a semântica, que por ofensas introduz a divergência onde deveria haver apenas diferença.

Hoje, muitos europeus se sentem incomodados com a chegada de refugiados cujos países, durante décadas, foram saqueados e oprimidos pelas potências europeias. Trump promete erguer um muro entre o seu país e o México, sem admitir que a extensão territorial dos EUA resulta da anexação do Texas, em 1845 e, logo em seguida, do Novo México e da Califórnia.

Que tipo de gente eu não suporto? A resposta a esta pergunta aponta quem são aqueles que excluo ou apoio quem os exclui. Há exclusões violentas, como as praticadas pelos adeptos da Ku Klux Klan e os assassinos de homossexuais; exclusões preconceituosas, como a de brancos que se julgam superiores aos indígenas; e a autoexclusão de quem cruza os braços ou se entrega à apatia e à indiferença diante de crises como a que o Brasil atravessa.

O protótipo da prática da não exclusão ou da solidária inclusão, sem nenhuma atitude de preconceito ou discriminação, foi Jesus de Nazaré. Acolheu o cego, o coxo, o hanseniano, e proclamou que todo ser humano é templo vivo de Deus. Acolheu o centurião romano que professava o paganismo; a samaritana que tivera cinco maridos e, agora, vivia com um sexto homem; a prostituta que lhe perfumou os pés e os enxugou com os cabelos.

Jesus acolheu pecadores e enfermos, ricos como Zaqueu e pobres como Bartimeu, o cego que mendigava à entrada de Jericó. Não acolheu, contudo, os promotores da exclusão, como os religiosos moralistas; o governador Herodes Antipas, corrupto e assassino; o homem rico que se recusou a partilhar seus bens com os necessitados.

Data cívica, o 7 de setembro mereceria ser a festa de uma democracia inclusiva, na qual o desfile das forças armadas fosse substituído por uma grande manifestação cívica das forças amadas.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

Privatização da Eletrobras é “pá de cal” no setor, diz Ildo Sauer

Revista IHU online = 24 Agosto 2017

Ex-diretor da Petrobras de 2003 a 2008 e professor do Instituto de Engenharia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Ildo Sauer rechaça o plano do governo de Michel Temer de privatizar a Eletrobras.

Na noite da segunda-feira 21, a estatal anunciou ao mercado a intenção do governo de se desfazer de seu controle. Hoje, a União detém 63,2% das ações. A notícia surpreendeu o mercado, pois os papeis da empresa subiram mais de 50%. Mas não Sauer. “É um desastre continuado. Vai aprofundar os problemas e aumentar os preços.”

A entrevista é de Dimalice Nunes, publicada por CartaCapital, 24-08-2017.

Na entrevista o especialista traça um breve histórico dos fatores que levaram à desorganização do setor elétrico, alvo de diversas privatizações nos governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e garante: “não tem modelo de privatização aceitável”.

Segundo ele, o objetivo de aumentar a participação da iniciativa privada no setor é o mesmo da gestão tucana: elevar a eficiência e, de quebra, tentar acomodar o rombo das contas públicas. “O governo Fernando Henrique começou a privatizar dizendo que ia abater a dívida pública, melhorar a eficiência, a qualidade e diminuir as tarifas. A dívida pública só aumentou, as tarifas aumentaram muito acima da inflação e criamos um racionamento”, lembra Sauer.

Eis a entrevista.

Qual a primeira impressão a respeito do anúncio da possível privatização da Eletrobras?

Sem espanto e sem alegria. Sem alegria porque é um desastre continuado. Já vem de décadas essa postura em relação aos recursos naturais e seu aproveitamento em favor da transformação da sociedade brasileira.

Vem com a tentativa de privatizar a utilização aparelhada do sistema elétrico pelo governo de José Sarney, as tentativas de destruição do sistema elétrico nos governos de Fernando Henrique, o não resgate do sistema elétrico como deveria e como foi proposto pela campanha do governo Lula, ao continuado loteamento dos cargos do sistema elétrico pelo governo de coalizão ou cooptação, que já vem de antes, mas foi mantido.

Houve um breve interregno numa tentativa de mudar, com a presidência do Pinguelli(Luiz Pinguelli Rosa) na Eletrobras, mas ele foi demitido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que dizia que o Pinguelli não tinha senadores e o Sarney tinha.

E com a ex-presidente Dilma Rousseff aconteceu o desastre maior: ela fez a reforma do modelo do setor elétrico em 2004, mas abandonou o que foi compromissado na campanha, o resgate das empresas públicas e seu papel de garantir o abastecimento da energia no Brasil em conjunto com a iniciativa privada, vendendo a energia a um custo entre o médio e o custo marginal, usando essa diferença para ampliar os investimentos no setor e investindo em educação e saúde pública.

Quais foram os principais erros de Dilma?

O que ela fez foi destruir o valor econômico da Eletrobras para manter os privilégios dos grupos privados que vendiam energia a custos altíssimo, em leilões de natureza complexa e suspeita – leilões de reserva – e compraram muita energia térmica cara.

Ela resolveu renovar as concessões e forçar a venda da energia a um preço próximo do custo da operação e manutenção, 10 ou 12 reais o megawatt/hora mais impostos, quando os privados vendiam entre 250 ou até 1,1 mil reais megawatt/hora. Então ela usou o potencial de geração de recursos para fazer da Eletrobras uma muleta e subsidiar um sistema que não funciona.

E agora com o governo Temer?

É a pá de cal em tudo. A impressão que eu tenho é que é um bando de gangsteres ou de ratos que estão vendo o navio afundando e tentam abocanhar o resto de queijo, de riqueza, para se locupletar enquanto o navio não afunda. É importante dizer que o que esse governo está fazendo com essa ousadia, essa audácia, e ausência total de legitimidade é um acinte à democracia porque é um aprofundamento da cleptocracia. É um contraste brutal entre o que poderia ser feito e o que está sendo feito.

Essa medida foi proposta pelo Ministério da Fazenda, para cobrir o rombo das contas públicas, e pegou o mercado de surpresa. Como esse afogadilho prejudica a segurança do sistema elétrico? Há risco de desabastecimento?

Não. O fato de vender usinas ou o controle de usinas não afeta diretamente a produção de energia. Até porque a Eletrobras está completamente manietada já há muito tempo. Ela não vem sendo usada como protagonista, virou muleta auxiliar dos negócios privados.

O problema existia e está se agravando. O sistema está em risco porque estamos há muito tempo com planejamento completamente equivocado, escolha de vencedores de leilão por critérios errados, violando o interesse público e falta de contratação de capacidade suficiente.

Por isso o sistema está em risco. Mesmo com recessão continuada estamos com risco de falta de energia. Imagina se a economia estivesse crescendo? O sistema elétrico está completamente deteriorado e as medidas que o governo Temer está tomando tem como objetivo proteger os interesses de investidores do sistema financeiro que querem, num momento de fragilidade da mobilização popular, abocanhar ativos para depois revalorizar a empresa e aumentar tarifas.

O governo fala em redução das tarifas com um potencial ganho de eficiência da empresa depois de privatizada. Qual deve ser o impacto?

É um acinte à inteligência de qualquer ser racional a afirmação do ministro (ministro de Minas e EnergiaFernando Coelho Filho) de que isso vai baixar tarifa. A energia está contratada a preços aviltados para tapar a lacuna dos grandes erros dos outros contratos. Então ninguém vai comprar para operar daquele jeito, vão comprar para depois realizar uma nova manobra para reavaliar o valor e dizer que “não, essa energia está muito abaixo do mercado, precisamos dar um jeito”. Isso é histórico no Brasil no setor de energia.

O governo FHC começou a privatizar dizendo que ia abater a dívida pública, melhorar a eficiência, a qualidade e diminuir as tarifas. A dívida pública só aumentou, as tarifas aumentaram muito acima da inflação e criamos um racionamento. E essa trajetória de aumento das tarifas acima da inflação continuou nos governos Lula e Dilma.

Falta argumentos racionais para fazer o que eles estão fazendo. É uma agressão ao sistema democrático e ao interesse público.

O que deveria ser feito para reorganizar o setor e garantir a oferta de energia com modicidade das tarifas?

São duas tarefas: uma é impedir a privatização da Eletrobras, que vai agravar tudo. A segunda é que o modelo colocado, herdado dos governos FHCLula e Dilma, precisa ser revisto. É preciso revisar o modelo de planejamento, é preciso retomar a contratação centralizada, é preciso reorganizar o setor e contratar a construção das melhores usinas.

No Brasil não faltam recursos, o maior potencial de geração de energia hoje é o eólico, que adequadamente combinado com o hidráulico poderia atender toda a demanda do Brasil até quando a população vai se estabilizar, em 2040, como o previsto pelo IBGE, em 220 milhões de habitantes, e dobrando o consumo per capita.

Não faltam recursos naturais, não falta capacidade tecnológica, não falta recursos humanos: falta organizar o sistema, geri-lo e operá-lo de acordo com o interesse público. Tem que trocar os critérios de operação. A proposta do governo Temer vai aprofundar os problemas e aumentar os preços, porque ele eleva os riscos para os agentes individuais.

O que o governo Temer está fazendo é, face ao desastre do legado do governo Dilma, aproveitar essa lacuna a considerar que o interesse público não tem mais chance. É fazer o assalto final ao que restou para gestar novos interesses que depois de constituídos irão se sobrepor e irão impor suas condições ao governo que virá. Temos de enfrentar isso com todo o vigor. Um governo sem legitimidade que quer destruir uma construção histórica de mais de meio século e um recurso natural permanente.

Ainda não há definição sobre o modelo que será usado para a venda do controle estatal da Eletrobras, mas existiria um modelo menos pior, capaz de assegurar algum nível de controle?

É não vender e restaurar a Eletrobras. Restaurá-la na sua capacidade, reorganizar sua gestão e não inventar mentiras como o aumento da eficiência e a redução das tarifas. É restaurar a gestão do interesse público para mudar o País. Não tem modelo de privatização aceitável.

Alguns envolvidos no projeto de privatização da Eletrobras fizeram parte do governo FHC na época do apagão. Há algum paralelo entre as situações?

Claro, a Elena Landau, que presidiu o conselho de administração da Eletrobras e o presidente da Eletrobras (Wilson Ferreira Júnior), um notório técnico que era serviçal do projeto tucano da privatização das empresas de São Paulo, a CPFLEletropaulo e Cesp.

Ele é definido como técnico, mas as soluções técnicas podem servir a dois interesses, ao público ou ao dos grupos econômicos e financeiros. Os que estão lá hoje participaram ativamente do racionamento do Fernando Henrique, todos eram sócios do modelo daquele tempo, vinculado à utilização das empresas estatais em favor dos grandes interesses privados e financeiros.

 

O grito dos franciscanos e franciscanas do Brasil: “dirão que é comunismo, mas é Evangelho”

O grito dos franciscanos e franciscanas do Brasil: “dirão que é comunismo, mas é Evangelho” (SGeral – Publicado em 7 de agosto de 2017)

Franciscanos e franciscanas no Capítulo Nacional das Esteiras, em Aparecida

Um encontro histórico dos franciscanos e franciscanas de todo o Brasil proclamou em carta aprovada por unanimidade neste domingo (6) a adesão incondicional ao papado de Francisco e definiu como missão: “participar da reconstrução da Igreja com o Papa Francisco e reconstruir o Brasil em ruínas”. Trata-se de uma citação de um dos momentos mais conhecidos e cruciais da trajetória de São Francisco que, em 1205, na abandonada igreja de São Damião, em Assis, ao contemplar um crucifixo ouviu o que lhe parece uma mensagem direta: “Não vês como está a minha Igreja? Está em ruínas. Vai, e reconstrói a minha Igreja”. O mantra do encontro, repetido por quase todos os palestrantes e nas homilias durante as missas foi: voltar a Assis –retomar o espírito original de São Francisco.

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