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OS MARTÍRIOS DE HOJE E A CRUZ DE JESUS – Marcelo Barros

Os martírios de hoje e a cruz de Jesus

Marcelo Barros

No Brasil, em uma semana, tivemos o martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite da 4a feira, 14, no centro do Rio de Janeiro, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, mataram o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará.

Vivemos em tempo de martírio. Defender o projeto da Justiça e lutar pela Vida significa correr riscos e enfrentar a morte. Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas que acontecem cada dia ao martírio de Jesus que, nas suas liturgias, as Igrejas celebram.

Não deixa de ser estranho: as Igrejas afirmam que, em cada eucaristia, atualizam a doação de Jesus em sua cruz. No entanto, ao menos nos dias atuais, quem parece estar realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Na América Latina, dos anos 60 até os anos 90, milhares de pessoas deram a vida por causa da justiça, em meio às lutas sociais. Dessas, muitas se proclamavam cristãs. No dia 24 de março, celebramos a memória do martírio do bispo Oscar Romero, assassinado em El Salvador, no momento em que celebrava a ceia de Jesus. Nos anos mais recentes, esse tipo de martírio continuou ocorrendo e acontece até hoje. Diariamente, há pessoas que morrem como vítimas de injustiças estruturais que dominam o mundo e esse continente. São mártires. No entanto, parece que, atualmente, o martírio está acontecendo mais fora dos ambientes eclesiais. Isso não diminui em nada o mérito e a santidade desses irmãos e irmãs que, mesmo sem terem vinculação com a fé religiosa, dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Conforme o evangelho, Jesus afirmava que pertence a Deus não quem confessa o seu nome e sim quem realiza a sua vontade que é de justiça e vida para todos.

Lamentável é que as Igrejas celebram e pregam a doação da vida, mas ainda parecem distantes dessa consagração que tantas pessoas sem falar em Deus, vivem no dia a dia da vida, nas periferias urbanas, na luta das mulheres negras, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas e dos rios.  Do mesmo modo, é estranho que os irmãos e irmãs que, por causa de sua fé, nas últimas décadas, deram a vida pelo povo e pela justiça, muitas vezes, não contaram com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja. Mesmo Dom Oscar Romero não era bem compreendido por outros bispos e pelo Vaticano. Isso nos faz perguntar por que a Igreja que celebra a paixão de Jesus tem tanta dificuldade em se solidarizar e se inserir no martírio real que o povo sofre a cada dia, martírio que, na época de Jesus, se concretizou na cruz na qual o nosso mestre e Senhor deu a sua vida. Em primeiro lugar, essa interpelação toca no mais profundo de cada um de nós. Fere o meu coração como uma espada de dor e que chama a conversão minha e da nossa Igreja. Eu mesmo, nós, o que estamos fazendo? Será que esse distanciamento da vida real das lutas do povo, por parte de muitos eclesiásticos, vem do fato de que a teologia oficial das Igrejas ainda compreende a cruz e a morte de Jesus como um sacrifício religioso oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados? Geralmente, todos aceitam que a Páscoa do primeiro testamento foi de conteúdo claramente social e político (a libertação dos hebreus do Egito). No entanto, interpretam a Páscoa de Jesus no plano meramente espiritualista. Cristo é visto como o servo sofredor de Deus que, como dizia o profeta Isaías, tomou sobre si as nossas faltas e morreu por nossos pecados. É o Cordeiro de Deus, cordeiro da nova Páscoa que, por sua morte, nos liberta espiritualmente.

Até hoje, na maioria das Igrejas, padres e pastores ligam o motor automático e, a cada ano, repetem o mesmo discurso. No entanto, atualmente, essa forma de interpretar a fé corre o risco de apresentar Deus como uma divindade cruel que, para se reconciliar com o mundo, precisa da morte do seu próprio Filho. Além disso, essa teologia separa a morte de Jesus de tantas outras mortes violentas, a cada dia, ocorridas pela justiça e pela libertação. Se a morte de Jesus foi o sacrifício do Filho de Deus para salvar a humanidade nada tem a ver com as cruzes nossas de cada dia.

É preciso superar esse modo de compreender a fé e a Páscoa. Apesar dos evangelhos lhe emprestarem palavras que podem ser compreendidas no sentido sacrificial, parece que nem o próprio Jesus, inserido na cultura e religião hebraicas, pensava assim.  A cruz era o suplício que os romanos reservavam para os escravos rebeldes e prisioneiros políticos que lutavam contra a ordem do Império. Com essa acusação, referendada pelas autoridades religiosas, ligadas ao poder político que dominava aquela região, Jesus foi condenado a morrer na cruz.

A morte de Marielle, Anderson  e Pedro, assim como a de Oscar Romero e de tantos outros/as nos desafiam a compreender e celebrar a memória da morte de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada. No 6º Encontro Intereclesial de CEBs, em Trindade (1986), as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Cremos na ressurreição. Por isso, através da continuidade da luta, podemos, hoje,  dizer: Viva Marielle, Anderson, Pedro e todas as testemunhas do mesmo projeto pascal de Jesus.

 

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A HORA DOS LEIGOS? MAS DE QUE LEIGOS SE ESTÁ FALANDO?

A hora dos leigos? Mas de que leigos se está falando?

(IHU ON-LINE – 05 Março 2018)

“Diante de algumas manifestações e expressões que estamos vendo atualmente, vale lançar outra pergunta: de que leigos exatamente se fala e se espera nesta hora? Se o futuro da Igreja passa pelo viés dos leigos, como se diz, há nesta afirmação umaintenção eclesiológica, mas é necessário ficar atento para não se desviar da atenção primeira e para fazer clarear a novidade que se percebe e se propõe”, escreve Cesar Kuzma, teólogo leigo, casado e pai de dois filhos, doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde atua como professor-pesquisador do Departamento de Teologia, atual presidente daSOTER (2016-2019) e autor de livros e artigos sobre a teologia do laicato, como Leigos e Leigas, Ed. Paulus, 2009.

“Fico ofendido e chateado com algumas manifestações grosseiras e descomprometidas com uma causa verdadeira – afirma o teólogo. Onde há divisão não pode haver o Espírito. Onde há certezas não há espaço para a fé. Onde há ódio, não se pode viver o amor. Acho uma pena que em pleno Ano do Laicato tenhamos que presenciar tais atitudes e comportamentos, alimentados por uma estrutura clericalista farisaica que olha mais a lei que a pessoa”.

Eis o artigo.

A hora dos leigos? Sim, foi o que se pensou com o Concílio Vaticano II e, em 2016, o Papa Francisco resgatou esta ideia dos teólogos conciliares e disse praticamente a mesma coisa, em uma carta enviada ao Cardeal Marc Ouellet. Para o Papa, uma hora que está tardando a chegar.

No entanto, diante de algumas manifestações e expressões que estamos vendo atualmente, vale lançar outra pergunta: de que leigos exatamente se fala e se espera nesta hora? Se o futuro da Igreja passa pelo viés dos leigos, como se diz, há nesta afirmação uma intenção eclesiológica, mas é necessário ficar atento para não se desviar da atenção primeira e para fazer clarear a novidade que se percebe e se propõe. Por certo, não estamos à espera de leigos clericalistas, obsessivos e extremamente fundamentalistas, que caem num moralismo radical e inconsequente, e doutrinariamente incitam mais o ódio e a falta de comunhão eclesial, que carecem de um bom senso, desrespeitando expressões, participações e membros da mesma Igreja, recusando a intenção do Concílio que lançou esta espera, ao reafirmar, com toda a Tradição, que a Igreja é Mistério e é Povo de Deus (Lumen Gentium), e que deve estar atenta aos sinais dos tempos (Gaudium et Spes). O Concílio trouxe ao leigo autonomia e corresponsabilidade na missão, podendo este agir e atuar de um modo próprio, contudo no viver de uma koinonia e em busca de uma maturidade que se abre à ação do Espírito e se empenha em seguir os passos de Jesus, agindo no tempo e na história para fazer acontecer de modo antecipado, escatologicamente, a construção do Reino prometido e esperado.

Neste ano em que a Igreja do Brasil vive o Ano do Laicato, faz-se necessário se ater ao que se quis no Documento 105 da CNBB, que traz os leigos como sujeitos da Igreja e do Mundo. E diz isso sem cair numa separação de realidades (Igreja e Mundo), mas fundamentado pelo Vaticano II e demais documentos pós-Conciliares, entendendo o compromisso da Igreja no mundo, não como um confronto, mas como um diálogo, onde ela é mestre e pode ensinar, mas também se insere e se encarna nas realidades, e pode aprender. Isso não é um demérito da sacralidade da Igreja, mas é a percepção da nossa vulnerabilidade na história, nos fazendo lembrar que não se pode absolutizar nenhum modelo, pois somos, como Igreja, sinal e testemunhas de algo maior, que transcende a todos e cada tempo, e que nos aponta para o absoluto da nossa existência e de toda a história, onde o encontro e a experiência de fé se realizam e se consomem em Deus.

Ser sujeito eclesial, hoje, significa ser autêntico e coerente com a fé que professa (Doc. Aparecida), significa testemunhar com a própria vida em todas as realidades que se vive, buscando o encontro e o diálogo, a abertura e a mansidão, o desprendimento e a misericórdia, a alegria e o amor. Ser sujeito eclesial, hoje, não é ser conflitivo, muito menos combativo, mas é ser testemunha de uma verdade que não está nos manuais de doutrina, mas no encontro vivo com o Ressuscitado. Não é ser divisor, mas promotor de comunhão. Não é ser mestre das verdades, mas alguém atento ao mistério e disposto a sempre aprender. Não é quem acusa, mas é quem se coloca ao lado dos outros, principalmente dos pobres e daqueles que mais sofrem e são perseguidos, até mesmo pela própria fé.

A riqueza do Concílio Vaticano II e de toda a teologia do laicato que daí se decorreu é que a Igreja decide por sair das sacristias e das catedrais e parte (sai) para viver no mundo, aceitando a fraqueza da história e os limites da missão, mas entendendo que o Reino cresce pela força da ação do Espírito, jamais pela locução de um ministro ou de quem quer que seja, pois aqui, nesta terra, somos simplesmente peregrinos, servos inúteis que arriscam viver uma experiência nova e libertadora. Entende-se, também, que o Reino não é uma instituição de pedras ou de doutrinas, muito menos um boulevard de vestes e paramentos medievais que dizem muito pouco nos nossos dias, mas sim um espaço vasto de amor, justiça e paz, onde todos podem viver e se manifestar, e a harmonia prevalece, sem lágrimas e sem luto, mas numa vida que se faz nova para toda criatura. Juntamente com o Evangelho, o Concílio proclama a bem-aventurança dos pobres e dispõe uma igreja de serviço, disposta a resgatar a vida concreta e atenta aos dramas humanos. Isso não é socialismo ou comunismo, isso não é ideologia, mas é a utopia que se deve buscar a partir da experiência que fazemos na fé, alimentada na esperança e fortalecida no amor.

Esta intenção do Concílio foi recepcionada na América Latina e aqui se atualizou em uma nova linguagem, adaptada à realidade e garantindo a essência. Pensou-se uma Igreja protagonista, profética e sensível ao Continente, marcado por uma colonização massacrante, dominação estrangeira, ditaduras militares e exploração humana. Nesta Igreja os leigos foram chamados ao protagonismo e receberam de seus pastores o apoio para empreender um jeito novo, um novo canto, por vezes oprimido e por vezes festeiro, mas rico na fé que existe e insiste em se manter acesa, mesmo diante de tamanha pobreza e opressão. Este é um lado da Igreja da América Latina e é um lado da visão do laicato que se tem, sem qualquer pretensão de ser um único modelo. A Igreja torna-se una na diversidade e a variedade de rostos e carismas torna a sua identidade ainda mais bela.

Por esta razão, digo que fico ofendido e chateado com algumas manifestações grosseiras e descomprometidas com uma causa verdadeira. Onde há divisão não pode haver o Espírito. Onde há certezas não há espaço para a fé. Onde há ódio, não se pode viver o amor. Acho uma pena que em pleno Ano do Laicato tenhamos que presenciar tais atitudes e comportamentos, alimentados por uma estrutura clericalista farisaicaque olha mais a lei que a pessoa. Que falta faz o frescor do Evangelho, que tem um fardo leve e um jugo suave! É impossível sustentar a fé só de doutrina e não se vive um novo ethos cristão em cima de um moralismo desatento ao íntimo humano e ao olhar social, naquilo que gritam homens e mulheres e naquilo que grita a terra. Deste modo, faz-se necessário voltar-se a Jesus, ao homem do Evangelho, ao filho de Maria e José, ao carpinteiro da vila, ao amigo de Pedro e Tiago, aquele que nos olha nos olhos e nos chama pelo nome, e cuja ação nos desconcerta e nos destrói na razão. Olhar fixamente a Jesus nos fará perceber que ele foi sujeito em seu tempo, estando mais atento às pessoas que a Lei, amando a Deus e fazendo reconhecer este amor no dom de si mesmo ao outro, de quem se fez próximo.

É a hora dos leigos? Sim, é a hora! É a hora de um povo que fala, que reza, que luta, trabalha e professa. É o povo de Deus, transformando esta terra!

Que o olhar atento a Jesus de Nazaré nos mostre o caminho e que a comunhão nos fortaleça, sempre!

 

A esperança não pode morrer (L. BOFF)

A esperança não pode morrer

                                                  Leonardo Boff

Apesar de toda a alegria do carnaval passado em quase todas as cidades de nosso país, há um manto de tristeza e desamparo que se pode ler nos rostos da maioria que encontramos nas ruas das grandes cidades, como o Rio e São Paulo,  entre outras.

É que politicamente o golpe parlamentar-jurídico-mediático (e hoje sabemos apoiado pelos órgãos de segurança dos USA) nos fechou o horizonte. Ninguém pode nos dizer para onde vamos. O que aponta de forma inegável é o aumento da violência com um número de vítimas que se igualam e até superam as regiões de guerra. E ainda sofremos uma intervenção military no Rio de Janeiro.

Se bem observarmos, vivemos dentro de uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas, agora o são mais ainda pelos cortes dos programas sociais que o atual governo de Estado de exceção impôs a milhares de famílias.

Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. E não se diga que foram as políticas dos governos do PT. Essas nos tiraram do mapa. A aplicação rigorosa do neoliberalismo mais radical  pela nova classe dirigente instalada no Estado, está produzindo fome e miséria. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram  submetidas.

As discussões dos vários organismos,  responsáveis pela segurança, nunca vão à raiz da questão. O real problema que não querem abordar reside na nefasta desigualdade social, vale dizer, na injustiça social, histórica e estrutural  sobre a qual está construída a nossa sociedade. A desigualdade social cresce quanto mais se concentra a renda e quanto mais avança o agronegócio sobre terras indígenas e dos povos da floresta e quanto mais se fazem cortes na educação, na saúde e na segurança.

Ou se faz justiça social neste país, que implica reformas: a  agrária, a tributária, a política e a do sistema de segurança, ou nunca superaremos a violência. Ela tenderá a crescer em todo o país.

Se um dia, é o que tememos, a marginália das grandes periferias abandonadas  se rebelarem, por causa da fome e da miséria e decidirem assaltar supermercados e invadir os centros urbanos, poderá produzir um “bogotaço” brasileiro como ocorreu nos meados do século passado em Bogotá, destruindo, por semanas a fio,  quase tudo que se via pela frente.

Estimo que as elites do atraso, apoiadas por uma mídia  conservadora, por uma justiça fraca, para não dizer cúmplice, e pelo aparato policial do Estado, reocupado por elas, poderão usar de grande violência, sem  resolver mas agravando a situação.

Nesse quadro, como ainda alimentar a esperança de que o Brasil tem jeito e que podemos criar uma sociedade menos malvada, no dizer Paulo Freire?

Bem disse o bispo profético, o ancião Dom Pedro Casaldáliga lá dos fundos do Araguaia matogrossense: portadores de esperança são aqueles que caminham e se empenham para superar situações de barbárie. Estas mudanças nunca virão de cima, nem do atual stablishment, virão de baixo, dos movimentos sociais organizados e com parcelas de partidos comprometidos com o bem-estar do povo.

O Papa Francisco ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, cunhou três expressões resumidas nos três T: terra para as pessoas produzirem, teto para se abrigarem  e trabalho para ganharem sua vida.

Lançou um desafio: não esperem nada de cima, pois virá sempre mais do mesmo; sejam vocês mesmos os profetas do novo, organizem a produção solidária, especialmente a orgânica, reinventem a democracia.  E sigam estes três pontos fundamentais: a economia para a vida e não para o mercado; a justiça social sem a qual não haverá paz; e o cuidado com a Casa Comum sem a qual nenhum projeto terá sentido.

A esperança nasce deste compromisso de transformação. A esperança aqui deve ser pensada na linha do que nos ensinou o grande filósofo alemão Ernst Bloch que formulou “o princípio esperança”. Quer dizer, a esperança não é uma virtude entre outras tantas. Ela é muito mais: é o motor de todas elas, é a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaiado; é a coragem de sonhar um outro mundo possível e necessário; é a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que nunca nos deixam parados nas conquistas alcançadas ou quando derrotados, nos fazem levantar para retomarmos a caminhada. A esperança se mostra no fazimento, no compromisso de transformação, na ousadia de superar obstáculos e enfrentar os grupos de opressores. Essa esperança não pode morrer nunca.

 

Leonardo Boff é teólogo, filosofo e escritor e escreu: Brasil: concluir a refundação  ou prolongar a dependência? a sair pela Vozes.

Uma palavra por Lula = (Roberto Malvezzi, popular Gogó)

Uma palavra por Lula

Roberto Malvezzi (Gogó)

Desde a juventude acompanho a trajetória pública de Lula, desde as greves do ABC, na resistência à ditadura, o início do PT, sua expansão pelo Brasil. Mas, eu venho do ramo das Pastorais Sociais, das CEBs, das lutas sociais, da Teologia da Libertação, nunca fui filiado a nenhum partido. Sou do grupo que nunca vai ao poder, prefere ficar o no meio do povo.

Lula uma vez no poder, fomos os primeiros a confrontá-lo, em vista da Transposição. Ela está quase concluída, a revitalização do São Francisco, como sabíamos, não saiu do zero, exceto algumas obras de saneamento nos municípios da bacia.

Dia 24 de janeiro, ele será julgado em segunda instância. Por ser um processo mais político que jurídico, já está condenado. A prisão vai depender das circunstâncias. Parece que não será nesse primeiro momento.

Mas, no dia 24 , estará em jogo não apenas o Lula com seus erros e acertos históricos. O que tanta gente não se conforma é o caráter parcial desse julgamento, como forma de perseguição pessoal, da condenação sem provas, ignorando o princípio milenar do direito “in dubio pro reo”, com origem no direito romano, mas que é esgarçado em todo regime de exceção.  Só o fato da juíza Luciana Correa Torres de Oliveira penhorar o tal tríplex como sendo da OAS, enquanto Moro condenou Lula a nove anos por lhe atribuir a propriedade, indica o absurdo em que se meteu o judiciário brasileiro nesse caso.

Hoje – basta ouvir o diretor do filme “Snowden” – está comprovada a participação dos Estados Unidos no golpe para destruir ou se apossar de empresas competitivas que não estejam sob seu controle, como a Petrobrás e a Embraer, ou para derrubar governos que não lhes são submissos. Temos os 10% de brasileiros que apoiam Temer e o golpe, os milionários e bilionários, aquelas velhas almas colonizadas que beijam o traseiro dos estadunidenses e oprimem nosso povo.

Não precisamos citar mais esses seres humanos abjetos como Eduardo Cunha, Geddel e o papel que cumpriram nesse processo. No tangente ao desmonte do estado brasileiro o golpe já está praticamente concluído. Falta eliminar as sementes da reação.

O processo deixa transparecer claramente a moral farisaica, que “coa mosquito e engole camelo”, investigando de forma enfadonha uns recibos de aluguel, mas fazendo vistas largas às corrupções monumentais de pessoas de outros partidos, de vasto conhecimento público e com provas inequívocas.

Lula poderá sair condenado e preso, mas sua vitória sobre seus algozes já está concluída, pelas intenções de voto que o povo lhe deposita. Historicamente seus perseguidores já perderam a guerra, particularmente Dallagnol e Moro.  Acusaram, condenaram, mas não provaram, enquanto Lula está vivo no coração do povo.

O povo sabe ler a história e ela não termina no golpe.

FRANCISCO QUER A IGREJA FORA DAS IGREJAS

FRANCISCO QUER A IGREJA FORA DAS IGREJAS

(Atenção editor: Igreja, cx alta, é a instituição. Cx baixa é a da esquina, da paróquia)

Frei Betto

Semana passada, em Nova Iguaçu (RJ), agentes pastorais, membros de Comunidades Eclesiais de Base, adeptos da Teologia da Libertação, do Movimento Fé e Política e de movimentos sociais se reuniram para aprofundar a proposta do papa Francisco de “uma Igreja em saída”.

Diminui o número de católicos no Brasil. A pesquisa Datafolha, de dezembro de 2016, comprovou redução de 9 milhões de fiéis em dois anos. Naquela data, apenas 50% dos entrevistados se autodeclararam católicos.

O papa Francisco está ciente da crise do catolicismo. Por isso, propõe uma “Igreja em saída”. Isso significa romper os muros clericalistas que amarram a Igreja aos templos; flexibilizar as leis canônicas (como admitir o recasamento de divorciados); e modificar os parâmetros ideológicos (que consideram o catolicismo conatural ao capitalismo).

Esse projeto de Francisco se choca com a “restauração identitária” ou, nas palavras do teólogo e meu primo João Batista Libanio, “volta à grande disciplina”, defendida por João Paulo II e Bento XVI. Propunham a leitura dos documentos do Concílio Vaticano II à luz do Vaticano I: predominância do Direito Canônico; Catecismo da Igreja Católica; desestímulo às Comunidades Eclesiais de Base; aceitação da liturgia tridentina; valorização dos movimentos papistas; e desconfiança diante da sociedade (tida como relativista e niilista).

Para o projeto de “restauração identitária”, o papel da Igreja é salvar almas. Para o de “Igreja em saída”, é libertar a humanidade da injustiça e da desigualdade. As pessoas se salvam salvando a humanidade de tudo que a impede de ser a grande família dos filhos e filhas de Deus. Daí a proposta de Francisco ao incentivar os movimentos sociais a lutar por três T: terra, teto e trabalho.

O primeiro projeto quer uma Igreja centrada na liturgia e nos sacramentos, na noção de pecado, na submissão dos leigos ao clero. Guarda nostalgia dos tempos em que a Igreja Católica ditava a moral social; merecia a reverência do Estado, que a cobria de privilégios; e, hoje, seus adeptos se sentem incomodados frente à secularização da sociedade e aos avanços da ciência e da tecnologia.

Ora, quantos jovens batizados na Igreja Católica estão hoje preocupados com a noção de pecado? Quantos temem ir para o inferno ao morrer? Quantos se preservam virgens até o casamento?

O projeto de Francisco é de uma Igreja descentrada de si e centrada nos graves desafios do mundo atual: preservação da natureza; combate à idolatria do capital; diálogo entre as nações; acolhimento dos refugiados; misericórdia às pessoas; protagonismo dos movimentos populares; centralidade evangélica nos direitos dos pobres e excluídos.

Bento XVI renunciou por reconhecer o fracasso do projeto de “restauração identitária”, ainda apoiado por expressivo número de bispos, padres e religiosas, incomodados com as orientações do papa Francisco, a quem alguns criticam abertamente.

O novo jeito de ser católico, proposto por Francisco, corresponde ao que dizia são Domingos, fundador da Ordem religiosa a que pertenço: “O trigo amontoado apodrece; espalhado, frutifica”. Sair da sacristia para a sociedade; encarar o mundo como dádiva de Deus; descobrir a presença de valores evangélicos em pessoas e situações desprovidas de fé ou religiosidade; buscar o diálogo ecumênico e inter-religioso; estar menos na Igreja para se fazer mais presente no Reino de Deus – categoria que, na boca de Jesus, se contrapunha ao reino de César, e significa o mundo no qual a paz seja fruto da justiça, e não do equilíbrio de armas.

A meta é o Reino de Deus, no qual “Deus será tudo em todos”, como prenunciou o apóstolo Paulo (I Coríntios 15,28). O caminho para atingi-lo inclui os movimentos sociais, as instituições da sociedade, as ferramentas políticas. E a Igreja funciona como “posto de gasolina” para abastecer-nos na fé e na espiritualidade capaz de nos estimular como militantes da grande utopia – o mundo que Deus quer para seus filhos e filhas viverem com dignidade, liberdade, justiça e paz.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.

 

QUINTO CENTENÁRIO DA REFORMA

QUINTO CENTENÁRIO DA REFORMA

31 DE OUTUBRO DE 2017 – Comemoramos os 500 anos da Reforma. Dia 31 de outubro do ano passado, iniciaram-se as comemorações do Quinto Centenário da Reforma Protestante. Foi em Lund, e Malmö, cidades do sul da Suécia, historicamente marcadas pela presença protestante.

A convite da Federação Luterana Mundial (FLM), o Papa Francisco esteve presente. Juntamente com o Reverendo Munib A. Younan,  bispo luterano de Jerusalém e Presidente da FLM, presidiu a celebração que aconteceu na catedral de Lund. Após a celebração, foi assinado um documento onde se afirmou que “enquanto luteranos e católicos continuam buscando a unidade, nada impede que deem o testemunho comum da alegria, da beleza e do poder transformador da fé, especialmente no serviço aos pobres, aos marginalizados e aos oprimidos”.

O documento constata também que, principalmente nos últimos 50 anos, católicos e luteranos têm-se aproximado uns dos outros através do serviço comum ao próximo. Os signatários agradecidos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma, confessam e pedem perdão diante de Cristo por terem ferido a unidade visível da Igreja. Afirmam também que o passado não pode ser modificado, mas o modo de recordá-lo pode ser transformado. Tendo em conta os episódios da história, comprometem-se a testemunhar juntos a graça misericordiosa de Deus que se tornou visível em Cristo crucificado e ressuscitado. Atestam que rezam a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo.

Pedem a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando toda forma de violência. Exortam luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher quem é estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição e defender os direitos dos refugiados e de quantos procuram asilo. Comprometem-se ainda a cuidar de toda a criação, reconhecendo o direito que têm as gerações futuras de gozar do mundo, obra de Deus, em todo o seu potencial e beleza.

Constatam também que muitos membros das duas Igrejas anseiam por receber a Eucaristia em uma única Mesa como expressão concreta da unidade plena. Reconhecem sua responsabilidade pastoral comum de dar resposta à sede e fome espirituais que os fiéis têm de ser um só em Cristo.

Em Malmö, num estádio, que pode acomodar até dez mil pessoas, aconteceu uma grande concentração, intitulada “Juntos na esperança”. Ali, além de muitas atrações foi assinado um acordo de cooperação entre a Caritas Internacional, organismo da Igreja católica e o World Service, organismo diaconal da Federação Luterana Mundial. Querem, com este gesto, motivar seus fiéis, e outras pessoas de boa vontade, a se engajar num serviço compassivo e amoroso ao próximo em um mundo ferido e fragmentado por conflitos, violência e destruição ecológica.

Comentando este acontecimento, o Pastor André Birmelé, professor emérito de teologia sistemática em Estrasburgo (França), afirmou que “o fato de o Papa discursar em tal celebração é um evento extraordinário do qual ninguém ainda pode medir o verdadeiro porte eclesial. Nós só podemos agradecer a Deus e nos alegrar com esse novo passo concreto no caminho da unidade”. Além do Pastor André Birmelé, outras personalidades têm demonstrado sua alegria com a presença do Papa Francisco em Lund. Em um artigo conjunto, julgam que a presença do Papa Francisco nas comemorações que abriram o Quinto Centenário da Reforma Protestante pode significar “energia para o trabalho ecumênico em seu país e lançar sinais encorajadores de esperança para todo o mundo”. Para a canadense e bispa luterana Susan C. Johnson, a presença do Papa em Lund “é um sinal maravilhoso da obra do Espírito Santo, que continua a trabalhar entre nós, convidando-nos à unidade que Jesus Cristo proclamou para a sua Igreja”. Na opinião do teólogo valdense Paolo Ricca, “o fato de o Papa ir a Lund significa que ele considera a Reforma como um evento relevante para a história cristã em geral, também para a história do catolicismo”. É um sinal de reconciliação diante de séculos marcados por conflitos. É um gesto importante, mas não é o objetivo último da caminhada ecumênica.

Continuamos trabalhando em direção a um futuro que conduza a uma comunhão ainda maior, onde possamos entender hospitalidade eucarística uns aos outros, reconhecer a variedade de dons e ministérios existentes em nossas Igrejas e afirmar que nossas comunhões eclesiais são igualmente Corpo de Cristo, apesar das diferenças teológicas que continuam nos separando. As comemorações do Quinto Centenário da Reforma Protestante se prolongaram até hoje. (31 de outubro de 2017). É a primeira vez que semelhante celebração acontece de forma ecumênica. Nas outras vezes, os centenários da Reforma foram fonte de polêmicas entre as duas confissões. Para os luteranos foram ocasião para expressar o orgulho protestante e para os católicos, ocasião de acusar Lutero e seus seguidores de uma divisão injustificável da verdadeira Igreja e a rejeição do Evangelho de Cristo.

Em nossos dias, a situação é outra. Já temos cinquenta anos de diálogo entre católicos e luteranos.  Neste período, podemos nos conhecer melhor. Cresceu a certeza de que entre as duas Igrejas há mais coisas que unem, do que aquelas que dividem.  Já em 2013, a Comissão Internacional de Diálogo Luterano-Católica redigiu e divulgou um texto intitulado “Do Conflito à Comunhão”. Neste documento, católicos e luteranos são convidados, em primeiro lugar, a purificar e curar as memórias; em segundo lugar, a restaurar a unidade cristã, conforme a verdade do Evangelho de Jesus Cristo (Ef 4,4-6). Em 2015, foi divulgado outro texto intitulado, “Oração comum para comemorar a Reforma em 2017”. A cerimônia de Lund se inspirou neste texto. Um terceiro documento, intitulado “Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo”, foi divulgado pela Conferência dos Bispos Católicos da Alemanha e pelo Conselho da Igreja Protestante da Alemanha.  Nas palavras dos Presidentes da Conferência Episcopal alemã e do Conselho da Igreja Protestante, o documento quer ser “uma palavra comum” para orientar as celebrações que acontecerão em diversas localidades de toda a Alemanha até o dia 31 de outubro de 2017.

O tema da Semana Oração para a Unidade dos Cristãos foi também inspirado na celebração dos 500 anos. Os textos foram elaborados por um grupo ecumênico da Alemanha. Neles se agradece a Deus pelo dom da Reforma e se pede perdão pelas incompreensões, preconceitos e divisões. Gesto interessante tem sido organização do Luthergarten em Wittenberg, onde as Igrejas que têm relações ecumênicas com Igreja Luterana plantaram uma árvore. Em sequência, estas mesmas Igrejas plantaram uma segunda árvore em um lugar significativo para seus fiéis. Os católicos representados pelo cardeal Kasper plantaram uma árvore em Wittenberg e a outra foi plantada no jardim da Basílica de São Paulo fora dos muros pelo cardeal Koch.

A HOMILIA DO PAPA

Inicia citando Jo 15,4: “Permanecei em mim, que eu permaneço em vós”, tirado da parábola da videira e dos ramos. Dentro do texto cita Jo 15,5: “Sem mim, nada podeis fazer”. A unidade é obra de Deus. É ele que nos sustenta e encoraja a procurar os modos para tornar a unidade uma realidade cada vez mais evidente. Pedimos: “Senhor, com a vossa graça ajudai-nos a estar mais unidos a vós para darmos, juntos, um testemunho mais eficaz de fé, esperança e caridade”.

A celebração é também um momento adequado para dar graças a Deus pelo esforço de muitos irmãos e irmãs, de diferentes comunidades eclesiais, que não se resignaram com a divisão, mas mantiveram viva a esperança da reconciliação entre todos os que creem no único Senhor. Nós também não podemos nos resignar com a divisão. Com a celebração do quinto centenário temos a oportunidade de superar controvérsias e mal-entendidos que frequentemente  impediram de nos compreendermos uns aos outros. Devemos olhar, com amor e honestidade, o nosso passado, reconhecer o erro e pedir perdão.

É preciso também reconhecer que a divisão foi provocada mais pelos homens do poder do que pelo povo fiel. OutrO pressuposto em nossa leitura do passado deve ser o de que de ambos os lados havia uma vontade sincera de professar e defender a verdadeira fé. Nós cristãos seremos testemunhas credíveis da misericórdia, na medida em que o perdão, a renovação e a reconciliação forem uma experiência diária entre nós.  Juntos, podemos anunciar e manifestar, de forma concreta e com alegria, a misericórdia de Deus, defendendo e servindo a dignidade de cada pessoa. Sem este serviço ao mundo e no mundo, a fé cristã é incompleta.

A Reforma deu-nos a possibilidade compreender melhor alguns aspectos da nossa fé. Contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja. O conceito “só por graça” recorda-nos que Deus tem sempre a iniciativa. A doutrina da justificação exprime a essência da existência humana diante de Deus. Com esse olhar ao passado, não pretendemos fazer uma correção inviável do que aconteceu, mas contar essa história de maneira diferente. Sem dúvida a separação foi uma fonte imensa de sofrimento e incompreensões; mas ao mesmo tempo levou-nos a tomar consciência sinceramente de que, sem ele, nada podemos fazer.

 

Pobres pagam contas dos ricos [Fr. Betto]

CEBI ⁄ Direitos Humanos ⁄ Pobres pagam contas dos ricos [Frei Betto]

Confira o artigo de Frei Betto publicado pelo Correio da Cidadania em 24 de outubro.
Boa leitura!

Reforma da Previdência no Brasil é Robin Hood às avessas. O governo Temer quer tirar ainda mais dos pobres para poupar os ricos. Esta a conclusão dos estudos feitos pela Oxfam, conceituada instituição britânica. Apenas em 2016 o nosso país deixou de arrecadar, por falhas e omissões no recolhimento de impostos, R$ 546 bilhões!

Este o valor das isenções tributárias que o governo concedeu a determinados setores da economia, como a indústria automobilística. Graças a esse pacote de bondades, apenas em isenções fiscais os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 271 bilhões. Isso significa menos saúde, educação, saneamento, segurança etc.

Na opinião da diretora-executiva da Oxfam, Katia Maia, o Brasil precisa:

“eliminar esses benefícios e ser rígido nos controles da sonegação fiscal. A gente sabe que o Brasil deixa de arrecadar por uma sonegação grande. Também deixa de arrecadar por mecanismos (legais) que fazem com que as pessoas e empresas não paguem impostos. E ainda deixa de arrecadar com uma série de isenções fiscais para vários setores”.

O Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) estima em R$ 275 bilhões as perdas de arrecadação.

Ministério da Fazenda calcula que o rombo da Previdência em 2018 seja de R$ 202,2 bilhões. Ou seja, com a perda de receita apontada pelo relatório da Oxfam, daria para custear todas as aposentadorias e pensões e ainda sobrariam R$ 343,8 bilhões.

A cifra de R$ 546 bilhões sonegados aos cofres públicos representa 12 vezes o orçamento do Ministério da Saúde em 2016, calculado em R$ 43,3 bilhões.

O estudo cita um exemplo da chamada evasão fiscal dentro da lei. O setor de mineração usa ‘manobras’ que reduzem em até 23% o montante de tributos a ser pago aos cofres públicos.

Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo da Oxfam, ressalta que o problema do Brasil não é a elevada carga tributária, e sim o fato de não retornar à população na forma de benefícios sociais, como educação e saúde de qualidades, e ser dilapidada pelo mau uso da máquina pública.

Grajew acrescenta que “as reformas tributária e fiscal são importantes”, mas faz uma ponderação: “isso tem que ser acompanhado de justa distribuição dos recursos. Porque se continuar com a mesma distribuição, você não muda o quadro das desigualdades (sociais)”.

A Oxfam critica o fato de o Brasil ter poucas alíquotas de Imposto de Renda da Pessoa Física. Katia Maia explica:

“uma revisão das alíquotas do imposto de renda é importante. Na base tem tantas pessoas com salários tão baixos e que pagam imposto de renda. A nossa tabela está congelada há oito anos”.

A distorção tributária é tanta que, segundo o estudo, quem ganha 320 salários mínimos por mês (R$ 299,8 mil) paga a mesma alíquota efetiva (após descontos e deduções) de IR de quem ganha cinco salários mínimos (R$ 4.685).

Fonte: Artigo de Frei Betto, escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros. Publicado pelo Correio da Cidadania, 24/10/2017.

 

A crise do padre: o que compete ao ministério?

A crise do padre: o que compete ao ministério?

IHU – 19 Outubro 2017

Prossegue a rica reflexão que dom Francesco Cosentino está desenvolvendo, publicada por Settimana News sobre o tema da crise do padre, 16-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

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No caminho do Che (Marcelo Barros)

No caminho do Che

Marcelo Barros

No contexto social e político que, atualmente, vivemos no Brasil e em toda a América Latina, é importante lembrarmos que nesse 07 de outubro se completaram 50 anos do martírio do comandante Ernesto Che Guevara.  Vale a pena refletir que importância essa memória tem para nós e para a luta pacífica por um mundo de mais justiça e igualdade eco-social.

No tempo da ditadura militar brasileira e especialmente ao acompanhar as primeiras etapas do MST nos acampamentos de Ronda Alta, RS e no Bico do Papagaio, eu e outros companheiros tivemos de, não poucas vezes, arriscar a segurança pessoal e a própria vida. Eu e muitos de nós fomos detidos e sofremos pressões e ameaças. Em alguns casos, perseguições. Mas, isso não nos dá o direito de julgar eticamente a luta do Che Guevara, Camilo Torres e de outros companheiros que deram a vida no enfrentamento armado às ditaduras do nosso continente. Já em 1967, mesmo ano em que o Che Guevara era assassinado, o papa Paulo VI, ao deixar claro que a insurreição revolucionária, armada e violenta não deve ser o caminho dos cristãos, fez uma ressalva importante. Escreveu: “a não ser em caso de ditadura evidente e prolongada” (Cf. Encíclica O desenvolvimento dos povos, n. 31). Qualquer pessoa que analise a realidade latino-americana sabe que é exatamente esse o caso de nossos países, nos quais se prolonga indefinidamente uma mais do que cruel ditadura econômica e social, exercida pela elite que, desde o tempo da colônia se apodera da terra e dos bens que, na mesma encíclica, o papa declara serem bens comuns, de direito de todas as pessoas (P. P. 30).

Naqueles anos da segunda metade dos anos 60, a Bolívia vivia uma ditadura militar cruel e sanguinária, como tantas outras patrocinadas pelo império norte-americano. Até hoje, Vallegrande é uma cidade perdida, no vale dos Andes que lhe dá o nome. Açoitada pelos ventos frios que vem da cordilheira, até hoje, a pequena cidade se mantém isolada entre caminhos de terra que desanimam qualquer viajante menos afoito. La Higuera, povoado de cem habitantes, 60 km adiante e em uma montanha mais alta, foi o local do martírio do Che. Ali se encontra o Grupo Escolar onde o Che foi preso e sumariamente executado.  Hoje, essa casa é um museu comunal.

Basta percorrer a região para perceber que a miséria e o abandono do povo continua igual ou pior. Em meio às imensas montanhas de pedra e areia, se erguem uma ou outra casinha de lavrador. Mais adiante, mesmo se não se vê capim naquele areal, algumas poucas vacas pastam. Ainda hoje, é difícil imaginar que alguém possa viver ali.

A população de traços indígenas traz na memória os tempos nos quais militares os torturavam para que revelassem onde estavam os subversivos perigosos. Para não arriscar a vida desse povo simples, o Che evitou contatos, a não ser cuidar dos doentes quando recorriam a ele como médico. Mesmo arriscando sua segurança, ele nunca deixava de exercer o seu compromisso de médico dos pobres que ele amava.

Até hoje, é difícil compreender como o Comandante poderia imaginar que sua presença nestas paragens isoladas e cumes quase intransponíveis iria suscitar grupos de resistência à ditadura boliviana e assim incendiar o mundo com a revolução da justiça. Só mesmo uma fé imensa na dignidade humana pode explicar sua fé na vitória de uma campanha como aquela, com tão pouca gente e tão poucos recursos. Como ele escreveu: “Luto porque creio na vocação dos povos oprimidos para a liberdade”. Ele acreditava que a causa da justiça jamais seria apagada e acabaria vencendo. Por isso, ele e seus poucos companheiros  arriscaram e deram a vida nessa luta. Foram abandonados na montanha e entregues aos militares bolivianos. Esses, assessorados por norte-americanos da CIA, prenderam todos e os mataram, alguns em combate e outros, como o próprio Che, em um assassinato frio e banal.

Há 10 anos, na comemoração dos 40 anos do martírio do Che, Dom Tomás Balduíno, eu e um pequeno grupo internacional ligado ao MST, fomos a Valle Grande. Ali nos reunimos na velha lavanderia coletiva, onde há o tanque sobre o qual colocaram o corpo do Che, nu, sujo e ferido de balas. Deixaram-no ali exposto para humilhar os revolucionários e amedrontar o povo. Mulheres  pobres cobriram o corpo com um lençol e o cercaram de velas. Como as discípulas de Jesus ao descer da cruz o corpo do Senhor. Até hoje, o tanque de pedra está  coberto de inscrições e recados com nomes de pessoas que saúdam o Che ou pedem a graça de reviver seu espírito. Parece o túmulo de um  dos antigos mártires cristãos, no qual as pessoas vinham orar para serem fieis no testemunho. Ali, celebramos um culto macro-ecumênico que nos abasteceu da paixão pelos pobres, pelos quais o Che deu a vida. Como a cruz de Jesus, a morte do mártir tem um apelo de vida e de vitória.

Ao se declarar não crente, o Che se revelou mais espiritual do que se tivesse sido adepto de alguma religião. Sua dimensão evangélica se manifesta na universalidade de sua doação pela humanidade. Um poema de sua autoria mostra isso. O título é: “Poema para Cristo”. Diz assim: “Cristo, te amo. Não porque desceste de uma estrela, mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas e angústias e chaves para abrir as portas fechadas da luz. Sim, tu me ensinaste que o homem é Deus, um pobre Deus crucificado como tu. E aquele que está à tua esquerda no Gólgota, o mau ladrão, também é um deus. Cristo, te amo”. (Che Guevara, Nandahuauzu, Bolívia, outubro de 1967).

 

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