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Grão de Mostarda

Padre Ivo Pedro Oro

Categoria

Poesias

O sabor da vida

Poesia: MISSÃO NA SOCIEDADE

MISSÃO NA SOCIEDADE

Ivo P. Oro

Com os pés dos que partem,

Solícitos e ligeiros,

Com os pés firmes no chão,

Vencendo os trancos rotineiros

E trancas tradicionais

Da pastoral da conservação.

 

Evangelização realizada

Com os joelhos que se dobram

Na escuta do Senhor,

Acolhendo sua Palavra,

Seu apelo ao ardor

Profético e missionário

Para tornar mais ético e solidário,

Não solitário e frenético,

Nosso mundo, em temor.

Mais do que pedir e suplicar,

Joelhos que se dobram

Na presença do Senhor,

No silêncio e humildade,

Levam a acolher e assumir,

A aderir e se engajar

Pra fazer a Sua vontade.

 

Missão vai sendo gestada

Com entranhas de misericórdia

E opção no coração:

Paixão por Jesus e seu Reino,

Pelos pobres e sofredores, compaixão.

 

Missão evangelizadora,

Concretizada com as mãos

Que se estendem e afagam

Para reerguer os caídos,

Socorrer os necessitados,

Consolar os desanimados,

Dar sentido aos sem-sentido.

 

Mãos e braços que se erguem

Clamando organização,

Ao eco do grito “Povo unido!”,

Para a luta destemida

Pela urgente libertação,

Por uma vida mais Vida,

Por um mundo mais solidário,

Justo, terno e fraterno

Mais humano e igualitário.

 

A missão na sociedade

É a razão de a Igreja existir.

Qual Jesus, fazendo do Pai a vontade:

“Eu vim para servir”.

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Poesia: SEM SENTIDO…

SEM SENTIDO…

De tudo o que foi gerado,

Intuído e enjambrado,

Nada mais profundo

E nenhum mais esperado:

O Sentido veio ao mundo.

 

Porém, rumos de existência

E existências sem rumo

Não aderem ao Sentido

Nem lhe seguem as pegadas.

Em vão derrama sua intensa luz

Iluminando suas estradas…

 

Nos olhos traves de trevas

Impedem a luz na retina.

A rotina dá o ritmo e cega

Os passos sem ritmo e rima.

Indo em tom de descompasso

Ruma-se mais e mais para baixo,

Não optando por voar acima…

 

Com Sentido, far-se-ia aposta,

Em certezas e valores.

Mas, negando sua proposta,

Enchem-se de medos e pavores.

No nada, vê-se a esperança,

No vazio existencial, a energia.

No próprio umbigo, a confiança,

E da luta tem-se alergia.

 

O mundo cambaleia a esmo

Invertendo suas versões,

Fazendo deus de si mesmo

Ao sabor das emoções.

Endeusam-se os poderes,

Sem ética e sem coerência,

À cata de competência

Num narcisismo travestido

De um sentido sem sentido.

Poesia: natal X NATAL

natal X NATAL

Quanta gente se consome

Em infindos preparativos,

Porém não sacia sua fome

E os desejos impulsivos!…

 

Muitas luzes, pisca-pisca,

Pinheirinho artificial…

E o papai noel confisca

O sentido do Natal.

 

As pessoas dão-se presentes

Mas lhes negam sua presença.

Num embrulho imponente

Pode haver indiferença.

 

Enfeites, bolas de cores,

Farta comida e bebida.

Foguetes, presépio e flores,

Mas pouco espírito e vida!…

 

Esse natal não é NATAL!
Pois quem nega na fé a cruz

Faz do Natal um carnaval,

Não ama nem acolhe Jesus.

 

Natal! Jesus Salvador

Revela o rosto divino

No pobre, humilde e sofredor,

Num fraco e simples menino.

 

O divino assume o humano

Na pequenez de criança

Pra sermos manas e manos:

Esta é a nossa esperança!

 

Deus próximo e companheiro

A nossa lógica inverteu:

Vale o ser, não o dinheiro,

No irmão se serve a Deus.

Poesia: PALMARES  RESSUSCITADO

PALMARES  RESSUSCITADO

Da janela eu avistei. Logo no cantar dos pássaros!

No meio de um lindo clarão

Um homem acompanhado por  uma luz,

Seus olhos como de  uma criança

Brilhavam como a luz do sol.

Timidamente, perguntei:  por que tanto brilho nos olhos?

Eu branco. Ele negro.

E o sonho era o mesmo.

Era Zumbi.  Ressuscitado da terra

Do divino Palmares.

E num sorriso como dos lábios de Deus, ele disse:

Hoje, o atabaque sem pressa dançou.

A pedra do racismo rolou.

Negro saiu do túmulo,. Ressuscitou.

Sonhos roubados foram resgatados.

Senzala, negro de alma branca, casa grande, açoites,

Matanças cheias de sonhadores e inocentes acabou.

Olorum, o Deus negro, mandou dizer:

Dos Palmares de ontem, dos quilombos de hoje,

Das periferias que cantam a liberdade e a compaixão

Surgiram danças, abraços, sonhos e paixão.

Pois o sangue derramado de Zumbi e de tantos mártires

Fez da sentença divina a feliz libertação.

Pe. Domingos José Dias

20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra.

Poesia: BEM-AVENTURADOS DE SEMPRE…

BEM-AVENTURADOS DE SEMPRE…

            “Felizes os pobres, os misericordiosos, os que promovem a paz,

porque serão chamados filhos de Deus…” (Mt 5,1-12)

“Mas ai dos ricos, fartos, gozadores e elogiados…” (cf. Lc 6,24-26)

 

Felizes os pobres e misericordiosos,

Os perseguidos e aflitos,

Que nas dores próprias e alheias

Sofrem e ecoam os seus gritos.

Os que sempre a paz promovem;

Famintos e sedentos de justiça,

Para implantá-la se movem

E removem as cobiças.

Felizes e bem-aventurados

Os mansos e puros de coração:

Sua fé se traduz em obras,

Expressão de sua opção.

 

Mas ai dos ricos acumuladores

Já têm a sua consolação.

Ai dos que agora têm fartura,

Porque na experiência da carência

Sentirão como a miséria é tortura.

Ai dos que agora estão rindo

E dos que são por todos elogiados,

Acham-se os tais, formosos e lindos,

Pois assim eram os profetas falsos

Badalados pelos antepassados…

 

Feliz aquele que não se escandalizar

Por causa de mim.

Bem-aventurado quem, sem ver, acreditar.

Será salvo quem perseverar até o fim.

 

 

Poesia: SANTAS MISSÕES POPULARES

SANTAS MISSÕES POPULARES

Santas Missões Populares

Do povo de Deus ao povo

Com ânimo forte e novo

A toda gente e lugares.

Com alegria e coragem

Testemunhando o amor

E assim servir ao Senhor

Anunciando a sua mensagem.

 

É de Deus nossa missão,

Em sua obra trabalhamos.

Por ela nos dedicamos,

Vai ardendo o coração.

Faz-se missão com os braços,

Com as mãos e os joelhos;

São presença do evangelho

Ações, visitas e abraços.

 

De forma cristã e humana

Nós fazemos a mória

Dos 60 anos de história

Desta Igreja diocesana.

O passado relembrando,

Neste presente inseguro,

Abraçamos o futuro

O evangelho anunciando.

 

Em nosso planejamento

Nós tomamos posição:

De Jesus a fé e opção,

Em seu Reino engajamento.

Com denúncia clara e forte

Foi tempo de profecia,

E até com canto e poesia,

Contra os esquemas de morte.

 

Uma Igreja em movimento

Com compromisso e ternura,

Também ações com bravura

Pra vencer o sofrimento…

Leigas e leigos agindo

Nos serviços, ministérios,

Com o bispo e presbitério,

Vida religiosa assumindo.

 

A recordação deseja

Reavivar a nossa fé

No exemplo de Dom José,

Pastor do povo e da Igreja.

Pastoreio era o cajado,

Guiava com o evangelho

Crianças, jovens e velhos,

Tendo por todos cuidado.

 

Pastoral na realidade,

Ao ser humano concreto,

Olhar nos olhos, ter afeto,

Encontrar-se de verdade.

Ver no rosto a expressão

Do que faz sofrer e viver,

Sentir Deus em cada ser,

Conviver com compaixão.

 

Sim! “Deixemo-nos guiar,

Pela luz do Senhor!”

Sua eficácia e fulgor

Fazem reviver, recriar.

Ela torna o mundo novo

Faz das armas instrumentos,

E em vez de guerra, alimento,

Pois, Deus acompanha o povo.

 

Com um ardor bem profundo

O evangelho vivenciando,

Vamos nós testemunhando

Jesus Cristo, a luz do mundo.

A comunidade unida

É simbolizada na vela:

Com sua luz bela revela

A nossa opção pela vida.

 

Sem comodismo e preguiça,

Ser a Igreja em saída

É também cuidar da vida

Com lutas pela justiça…

É o Espírito que conduz

Neste ardor e vibração

Nossa evangelização

Sem temer renúncia e cruz.

 

Que os dons do Espírito Santo

Despertem no coração

De toda irmã e irmão,

Pelo Evangelho o encanto.

Também ternura e vigor,

Amor e sensibilidade

Aos gritos das necessidades

Do excluído e sofredor.

 

Vamos todos assumir,

Como irmãos participar.

Há tarefas, há lugar

Pra quem quer contribuir.

E que esta ação solidária

De doação e de unidade

Transforme a comunidade

A ser sempre missionária.

(set/2017)

PROFETA, POBRE E PASTOR

PROFETA, POBRE E PASTOR

 

Não apenas optou pelos pobres.

Optou pelo caminho da pobreza

para lutar com os pobres

pelo projeto deles,

destinatários do Reino.

Assim, sem nada a perder e a prendê-lo,

correu o risco de perder a vida

apenas por defendê-los.

Teria perdido a vida, isto é,

não teria valido a pena sua vida

se não tivesse o Dom José

gastado minutos,

horas, tantos anos, tudo,

por aqueles que tanto amou até o fim…

Preferiu o risco de errar, mas realizando,

do que não correr o risco,

porque aí se erra sempre.

 

Repartiu o tempo e o pão

brigou pela terra e a paz,

encontrou a paz nos conflitos

sem fugir do caminho da cruz.

Conflitou consciências tranquilas demais.

Seu tempo se multiplicou.

Meu Deus, como foi transformada

esta Igreja e a realidade

desse povo de fé

sob a voz corajosa

e profética de D. José!

 

Recusou-se a receber salário,

(na Bíblia, merecido pelo operário)

para não ser pesado ao povo

que sustenta a Igreja,

já tão acachapado por dilemas

e opressões do sistema.

Seguiu o “pacto das catacumbas”,

pois nada levaria para a tumba.

 

Limitou-se a viver na sobriedade

com tão somente um mínimo.

No Senhor estava sua segurança,

não nos bens, na extravagância,

nem mesmo na poupança.

Na sua simplicidade, roupas modestas;

sem exageros, parcos meios;

trato espontâneo e direto,

sem frescuras e rodeios,

– bastam as atrocidades do sistema

p’ra complicar a vida do povo.

 

Acolheu sempre os pobres,

mendigos e sofredores

com a mesma ternura de Jesus,

sua prática foi uma luz

contra o mundo neoliberal.

Respeitou toda a vida

com afeto fraterno e cordial

seus companheiros e companheiras

de trabalho e de lida,

na cuia e na cruz.

 

Seu gosto pela oração,

profunda mística e espiritualidade!

Não teria encontrado o pastor

forças p’ra suportar a dor

de tantos tormentos,

vindos de fora e de dentro

do humano-pecador mundo eclesial

sem o rochedo inabalável

da presença do Senhor!…

Quando eram os desafios

mais cruéis e cruciais

sua boca vomitava uns palavrões comuns

contra os inimigos do povo,

os tropeços e estorvos

na estrada dos pobres.

Mas jamais se percebeu

qualquer indício de desesperança.

Dizia frequentemente,

tendo em Deus a confiança:

“Coragem, gente, toquem pra frente!”

(23.09.14 – no lançamento dos Sermões)

 

 

CHAPECÓ, ALÉM DA CHAPE…

CHAPECÓ, ALÉM DA CHAPE…

Momento ímpar de emoção,

Chapecó e região, total unidade.

Jamais se vivenciou tal comunhão

Como em meio a essa consternação

Que ensinou lições de vida e saudade.

 

A tragédia na Colômbia trouxe

O testemunho dos colombianos.

Muito solidários e fraternos,

Mostram que a perda de heróis eternos

Pode nos tornar mais humanos.

 

Chapecó do desbravamento,

Dos caboclos e índios desterrados,

Mas também de acolhimento

De imigrantes e descendentes

Vindos a este chão disputado.

 

Chapecó de tragédias e desgraças

De conflitos e opressão.

Chapecó de desastres e trapaças

De universidades e de artes,

De disputas e competição.

 

Sua pujança na economia

Em setores mais diversos

É centro de contradições,

De enfrentamento e oposições

Entre os interesses adversos.

 

Grande polo industrial,

Agropecuário e comercial.

Por trás de um semblante bonito

Perdura o acirrado conflito

Entre o trabalho e o capital.

 

Da queima de sua igreja,

Abraçada então ao poder,

Passou-se à Igreja samaritana

Que promove vida mais humana

E luta pra justiça acontecer.

 

 

Chapecó do desenvolvimento

E de muita expressão de fé.

Mas também de perseguição,

De ameaças e pressões

Contra líderes e o profeta Dom José.

 

Berço de heróis anônimos

Não comemorados na história.

Quanta luta, sangue e suor

Deste povo trabalhador

Clamando por mais memória!..

 

Vertente de movimentos

Gestados neste lugar.

De participação do povo

Por cidadania e mundo novo

Em organização popular.

 

As lágrimas de comoção

Secadas nas verdes bandeiras

Da Chape sempre querida

Nos convocam a mexer na ferida

Causada por pessoas traiçoeiras.

 

A tragédia da Chape é inesquecível

– Desprezar seria um desatino.

Mas é loucura e retrocesso

Engavetar o processo

Do assassinato de Marcelino…

 

Grandes eventos se organizam,

Chapecó, festejando teu centenário…

Oxalá as vivências e emoções

Da triste tragédia e suas lições

Tornem (ainda) mais humano teu cenário…

(02.12.2016)

Poesia: HÁ FAMÍLIAS E HÁ FAMÍLIAS…

HÁ FAMÍLIAS E HÁ FAMÍLIAS…

Ivo Pedro Oro

Família, berço de vida,

Berço de fé e de amor,

Quando educa com vigor,

Não por vereda perdida…

Para a família, a saída

Com cuidado e paciência

É educar com diligência

Para autênticos valores,

Não nas ondas e sabores

Dos ventos e turbulências.

 

Se cultivar a semente

Da fé, para a vida educa;

Mas, se o vazio, deseduca,

Desumaniza o vivente…

A fé impulsiona a gente,

Qual mostarda genuína,

Mesmo sendo pequenina

Potencializa e transforma,

Destrói montanhas, mas forma,

Faz diferença e ilumina.

 

Que pena! Muitas famílias

Entre os seus membros vivem

– No tempinho em que convivem –

Acolhida, ajuda e partilha.

Mas cada qual, como uma ilha,

Fechado à comunidade,

Não abraça a caridade,

Aos outros é indiferente,

Insensível, concorrente,

Faz de seu eu sua verdade.

 

Estas reduzem o amor

A egoísmo familiar.

O seu bem particular

Não buscam jamais transpor…

Estas cercas de torpor

Limitam o repartir

E impedem o investir

Para a verdadeira fonte:

O mais humano horizonte

É conviver e servir.

 

 

 

 

Sem ter da fé força e luz

Apequenam a grandeza

De abrir sua porta e sua mesa

Aos excluídos, Jesus.

O fechamento os induz

A ser desumanidade,

Limitar a dignidade

Às ilusões do cotidiano

Rotineiro e desumano,

Sem compaixão e piedade.

 

Vagueando sem objetivo,

Esvaem-se como o fumo,

Não tendo o porquê e o rumo,

Sem norte e sem motivo…

Seguem estilo nocivo

– Parece inacreditável –

Nada digno e saudável,

Estão aí vegetando,

Se tratando e embalando

Qual produto descartável.

 

Vamos unir forças, gente,

Retomando com ardor

Pra ser escola de amor

Cada família presente…

É inadiável e urgente

Acolher e dialogar,

Diferenças respeitar,

Conviver com fraternura,

Mútuo serviço e doçura:

VIVER É COMPARTILHAR!

 

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