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Grão de Mostarda

Padre Ivo Pedro Oro

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Poesias

O sabor da vida

PROFETA, POBRE E PASTOR

PROFETA, POBRE E PASTOR

 

Não apenas optou pelos pobres.

Optou pelo caminho da pobreza

para lutar com os pobres

pelo projeto deles,

destinatários do Reino.

Assim, sem nada a perder e a prendê-lo,

correu o risco de perder a vida

apenas por defendê-los.

Teria perdido a vida, isto é,

não teria valido a pena sua vida

se não tivesse o Dom José

gastado minutos,

horas, tantos anos, tudo,

por aqueles que tanto amou até o fim…

Preferiu o risco de errar, mas realizando,

do que não correr o risco,

porque aí se erra sempre.

 

Repartiu o tempo e o pão

brigou pela terra e a paz,

encontrou a paz nos conflitos

sem fugir do caminho da cruz.

Conflitou consciências tranquilas demais.

Seu tempo se multiplicou.

Meu Deus, como foi transformada

esta Igreja e a realidade

desse povo de fé

sob a voz corajosa

e profética de D. José!

 

Recusou-se a receber salário,

(na Bíblia, merecido pelo operário)

para não ser pesado ao povo

que sustenta a Igreja,

já tão acachapado por dilemas

e opressões do sistema.

Seguiu o “pacto das catacumbas”,

pois nada levaria para a tumba.

 

Limitou-se a viver na sobriedade

com tão somente um mínimo.

No Senhor estava sua segurança,

não nos bens, na extravagância,

nem mesmo na poupança.

Na sua simplicidade, roupas modestas;

sem exageros, parcos meios;

trato espontâneo e direto,

sem frescuras e rodeios,

– bastam as atrocidades do sistema

p’ra complicar a vida do povo.

 

Acolheu sempre os pobres,

mendigos e sofredores

com a mesma ternura de Jesus,

sua prática foi uma luz

contra o mundo neoliberal.

Respeitou toda a vida

com afeto fraterno e cordial

seus companheiros e companheiras

de trabalho e de lida,

na cuia e na cruz.

 

Seu gosto pela oração,

profunda mística e espiritualidade!

Não teria encontrado o pastor

forças p’ra suportar a dor

de tantos tormentos,

vindos de fora e de dentro

do humano-pecador mundo eclesial

sem o rochedo inabalável

da presença do Senhor!…

Quando eram os desafios

mais cruéis e cruciais

sua boca vomitava uns palavrões comuns

contra os inimigos do povo,

os tropeços e estorvos

na estrada dos pobres.

Mas jamais se percebeu

qualquer indício de desesperança.

Dizia frequentemente,

tendo em Deus a confiança:

“Coragem, gente, toquem pra frente!”

(23.09.14 – no lançamento dos Sermões)

 

 

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CHAPECÓ, ALÉM DA CHAPE…

CHAPECÓ, ALÉM DA CHAPE…

Momento ímpar de emoção,

Chapecó e região, total unidade.

Jamais se vivenciou tal comunhão

Como em meio a essa consternação

Que ensinou lições de vida e saudade.

 

A tragédia na Colômbia trouxe

O testemunho dos colombianos.

Muito solidários e fraternos,

Mostram que a perda de heróis eternos

Pode nos tornar mais humanos.

 

Chapecó do desbravamento,

Dos caboclos e índios desterrados,

Mas também de acolhimento

De imigrantes e descendentes

Vindos a este chão disputado.

 

Chapecó de tragédias e desgraças

De conflitos e opressão.

Chapecó de desastres e trapaças

De universidades e de artes,

De disputas e competição.

 

Sua pujança na economia

Em setores mais diversos

É centro de contradições,

De enfrentamento e oposições

Entre os interesses adversos.

 

Grande polo industrial,

Agropecuário e comercial.

Por trás de um semblante bonito

Perdura o acirrado conflito

Entre o trabalho e o capital.

 

Da queima de sua igreja,

Abraçada então ao poder,

Passou-se à Igreja samaritana

Que promove vida mais humana

E luta pra justiça acontecer.

 

 

Chapecó do desenvolvimento

E de muita expressão de fé.

Mas também de perseguição,

De ameaças e pressões

Contra líderes e o profeta Dom José.

 

Berço de heróis anônimos

Não comemorados na história.

Quanta luta, sangue e suor

Deste povo trabalhador

Clamando por mais memória!..

 

Vertente de movimentos

Gestados neste lugar.

De participação do povo

Por cidadania e mundo novo

Em organização popular.

 

As lágrimas de comoção

Secadas nas verdes bandeiras

Da Chape sempre querida

Nos convocam a mexer na ferida

Causada por pessoas traiçoeiras.

 

A tragédia da Chape é inesquecível

– Desprezar seria um desatino.

Mas é loucura e retrocesso

Engavetar o processo

Do assassinato de Marcelino…

 

Grandes eventos se organizam,

Chapecó, festejando teu centenário…

Oxalá as vivências e emoções

Da triste tragédia e suas lições

Tornem (ainda) mais humano teu cenário…

(02.12.2016)

Poesia: HÁ FAMÍLIAS E HÁ FAMÍLIAS…

HÁ FAMÍLIAS E HÁ FAMÍLIAS…

Ivo Pedro Oro

Família, berço de vida,

Berço de fé e de amor,

Quando educa com vigor,

Não por vereda perdida…

Para a família, a saída

Com cuidado e paciência

É educar com diligência

Para autênticos valores,

Não nas ondas e sabores

Dos ventos e turbulências.

 

Se cultivar a semente

Da fé, para a vida educa;

Mas, se o vazio, deseduca,

Desumaniza o vivente…

A fé impulsiona a gente,

Qual mostarda genuína,

Mesmo sendo pequenina

Potencializa e transforma,

Destrói montanhas, mas forma,

Faz diferença e ilumina.

 

Que pena! Muitas famílias

Entre os seus membros vivem

– No tempinho em que convivem –

Acolhida, ajuda e partilha.

Mas cada qual, como uma ilha,

Fechado à comunidade,

Não abraça a caridade,

Aos outros é indiferente,

Insensível, concorrente,

Faz de seu eu sua verdade.

 

Estas reduzem o amor

A egoísmo familiar.

O seu bem particular

Não buscam jamais transpor…

Estas cercas de torpor

Limitam o repartir

E impedem o investir

Para a verdadeira fonte:

O mais humano horizonte

É conviver e servir.

 

 

 

 

Sem ter da fé força e luz

Apequenam a grandeza

De abrir sua porta e sua mesa

Aos excluídos, Jesus.

O fechamento os induz

A ser desumanidade,

Limitar a dignidade

Às ilusões do cotidiano

Rotineiro e desumano,

Sem compaixão e piedade.

 

Vagueando sem objetivo,

Esvaem-se como o fumo,

Não tendo o porquê e o rumo,

Sem norte e sem motivo…

Seguem estilo nocivo

– Parece inacreditável –

Nada digno e saudável,

Estão aí vegetando,

Se tratando e embalando

Qual produto descartável.

 

Vamos unir forças, gente,

Retomando com ardor

Pra ser escola de amor

Cada família presente…

É inadiável e urgente

Acolher e dialogar,

Diferenças respeitar,

Conviver com fraternura,

Mútuo serviço e doçura:

VIVER É COMPARTILHAR!

 

Poesia: SERVIDOR: HUMANO DIVINO

“Quem perde sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.” (Mt 16,25)

 

Assim como age o Deus da vida

Comigo e com toda humanidade,

A entrega em oferenda é a medida,

Servindo com plena liberdade.

 

Não tenho posse de ninguém,

Nem sou de alguém propriedade.

A existência me chama a ir além:

Minha vida ser plena gratuidade.

 

De todos e todas procuro ser

Simples e humilde servidor.

Fujo de elogios e do aparecer,

Me conforta viver só por amor.

 

Ainda que haja cruz e calvário,

Indiferenças ou armadilhas,

Prossigo qual inútil operário

Acreditando até o fim na partilha.

 

Não me diminuo ao dividir;

No Reino o maior se faz pequenino,

Cresce o dom ao doar-se e repartir

Ser para os outros faz o humano divino.

(Ivo Pedro Oro – 30/07/2017)

 

 

SÃO CRISTÓVÃO!…

SÃO CRISTÓVÃO!…

São Cristóvão, venerado

Como santo padroeiro,

É do século terceiro

E em Canaã foi criado…

Popular e prestigiado,

Muitas lendas e histórias

Reavivaram na memória

Este mártir, homem forte,

Que foi conduzido à morte,

Tendo na fé sua vitória…

 

Conta-se que transportava

Ao outro lado do rio,

Sem temer perigo e frio,

Quem passar necessitava.

Quando um menino levava

Sentiu pesada sua cruz.

Todo aquele que conduz

Um carro ou caminhão,

Com segurança e atenção,

Pode carregar Jesus.

 

Quando há amor no coração

Leva-se Cristo nos braços,

Vai vivendo, passo a passo,

A fé, a oração e a ação.

São Cristóvão, proteção

Pedimos aos motoristas,

Motoqueiros e ciclistas…

Que tenham bênção divina

Que protege e ilumina,

E os defende em suas pistas.

 

Que Deus ajude a entender

Que é bênção correr menos,

Estar atento e sereno

E os sinais obedecer…

O carro não deve ser

Um meio de exibição

Nem arma de destruição.

Dirigir com mais prudência,

Com cuidado e paciência,

É bênção de proteção.

(publicado no JD em julho/2015)

POESIA: A SEMENTE DA PALAVRA

A lavoura espera a semente!

Mas que semente?

A semente, que lançada,

à terra desce e apodrece,

germina e cresce,

é ceifada

e dá muito fruto.

A terra está esperando

bem lavrada e adubada

para não ficar sem nada,

sem sentido de existir,

que um dia, de repente,

uma oportuna semente

ali venha cair.

Pois, de que vale a preparação,

o cuidado, a adubação,

o arado e a enxada,

se a terra não for cultivada?!

De que adianta essa lavoura,

ser tão fértil e tão boa,

e até mesmo preparada,

se tiver de ficar à toa?

De que valem tantos terrenos,

planos, grandes ou pequenos,

Ocupados por capim?…

De que valeria esta terra

se não fosse plantada

existindo só por nada

e em nada ter seu fim?

 

A humanidade vai andando

à toa e se acabando,

sem rumo, sem sorte,

como a terra vazia,

que espera a semente

que há de chegar um dia.

Muita vida sem sentido!

Muita gente sem estrada!

É como a lavoura,

lavrada e preparada

em que cresce só capim

ou existe aí por nada.

O coração de muita gente

é vazio e seco

como a terra nua.

e em outros também,

por falta de boa semente,

cresce em quantia

o capim e toda a peste

que nasce e aí floresce

que suga até secar

q fertilidade dos corações

e a vida dos cristãos.

Lança a palavra,

do sentido da existência,

para os velhos, jovens e crianças.

lança a semente

do amor e da esperança

no coração vazio da gente.

Para que essa terra se encha

de plantas de paz e carinho,

de flores de dignidade e alegria,

de frutos de justiça e amor,

de sentido e caminho.

Semeia,

semeia a boa semente

para que toda essa gente

descubra sua vocação,

e que pode ser boa terra.

A semente, uma vez lançada,

nascida e cultivada,

cresce e prolifera…

Ivo Pedro Oro

Poesia: OS ESPERANÇOSOS (Bertold Brecht)

Os Esperançosos

Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!

Poesia: QUANDO RAIAR A JUSTIÇA

QUANDO RAIAR A JUSTIÇA


O Judiciário vai conceder

a quem quer que seja

o direito de responder,

especialmente na Veja,

e em toda a mídia, em notas,

a contestação de suas lorotas.

 

No Supremo as sentenças e lidas

não vestirão cor política,

nem ficará o dito pelo não dito,

e não haverá veredicto

com dois pesos e duas medidas.

Suas votações e decisões

não serão por conveniências

nem por escusas pressões,

nem por medo da inconveniência

das midiáticas repercussões.

 

O Ministério Público denunciará

também partidos e políticos da direita,

suas falcatruas e improbidades,

seus desvios e suas maldades.

Estar com ela, de mãos dadas,

não significa que seja imaculada.

 

A Polícia Federal exercerá sua função

com ética, isenta e imparcial,

e, sem ninguém lhe molhar a mão,

a todos investigará de modo igual.

 

A Justiça vai investigar e julgar

a entreguista tucana privataria

e fazer da dívida a auditoria…

Revelar quem faturou ilicitamente

quando o Brasil dobrou as pernas

ao FMI, em dívidas eternas,

e às multinacionais, quase por nada,

deu as estatais de mão beijada!…

 

Quando raiar  a JUSTIÇA de fato

os atores da “Lava Jato”

não mais nos farão de bobos,

e depoimentos e delações em sigilo

não serão compartilhadas com a Globo.

E a remuneração superior ao teto constitucional

os quase deuses da justiça vão devolver.

E auxílio moradia, e outros e mais outros,

eles vão pedir pra não receber…

 

Quando raiar a justiça

Dissipam-se as trevas

Do golpe e da cobiça.

(2017)

No Dia do Índio, poesia: DE ESMOLEIRO A HERDEIRO DO REINO

DE ESMOLEIRO A HERDEIRO DO REINO

 

Naman, já foste acolhido

Por pessoas queridas

E por seres mais queridos

No Reino eterno de vida!

 

Pobre e pequeno indiozinho

Em Chapecó na rua atropelado.

Na internet vibram cainhos:

“Esmoleiro a menos pedindo trocados”.

 

Irmã Delminda te antecedeu,

Naman, por apenas um mês.

Ela que sempre teu povo acolheu

Te acolhe agora mais outra vez.

 

Que Deus conforte a família

Do frágil e pequeno Naman,

Com quem vive da plenitude a partilha,

Agora, sem morte e sem amanhã.

 

Naman não foi esmoleiro maldito,

Seu jeito de viver não era “ao léu”.

Ele é um pobre de espírito e aflito:

Bendito, “é deles o Reino dos céus”.

 

Pretensos superiores, inconsequentes,

Por aí campeiam às mancheias,

Vibram ferozes com acidentes

E com a dor da morte alheia.

 

Que Deus tenha misericórdia

Desses escassos desalmados,

No ensimesmamento e discórdia,

E na mediocridade acorrentados.

 

Deus perdoe os de pífia grandeza

Que se julgam acima e muito mais..

Uma cultura superior à outra é torpeza,

Visão curta, de que somos desiguais.

 

Que o Deus das profundezes e alturas

Ajude os experts da desumanização

A evacuarem o engano de postura

De seu petrificado coração.

 

Esquecem que no humano tempo

De passagem na via terrestre,

O culto do amor e o bem são o templo

Que eleva à pátria celeste.

Ivo Pedro Oro (fev/2017)

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