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Padre Ivo Pedro Oro

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Reflexão

PENTECOSTES: A FESTA DA CONFIANÇA

PENTECOSTES: A FESTA DA CONFIANÇA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DOMINGO DE PENTECOSTES (20.05.18): Jo 15,26-27;16,12-15

Jesus estava em clima de despedida, mas precisava garantir que os discípulos levassem adiante a missão, não se acovardando frente às perseguições. Aliás, não havia motivo para fugir da missão, pois Jesus lhes promete e garante que terão sempre a presença do Espírito Santo. Eles não estão sozinhos… Vale para nós hoje: não estamos sozinhos; com a presença do Espírito temos força para testemunhar Jesus e conhecer e defender a Verdade.

  1. O Defensor, o Espírito da Verdade

São estas as marcas, as atuações que marcam o Espírito Santo, segundo este texto do Evangelho: a) Defensor: Ele é quem, assim como um advogado defende uma causa, defende a comunidade na luta e trabalho pelo Reino, defende a causa da justiça; b) o Espírito da Verdade: o Espírito fiel ao Pai e ao Filho, que defende a Verdade, a Vida e o Caminho que é Jesus e seu projeto. Ele está também hoje acompanhando a Igreja, apesar de nossos pecados e fraquezas. É claro que sua presença não é de magia nem de impedir que haja sofrimentos e sacrifícios em nossa missão. Ele não favorece nem a preguiça, nem a “sombra e água fresca”. “É o mesmo Espírito que agiu em Jesus desde o início até sua vitória sobre a morte. Os seguidores de Jesus não têm o que temer: o Espírito dará testemunho de Jesus e os ajudará na tarefa de testemunhar. É hora de confiança e não de desespero.” (Bortolini. Como ler o Evangelho de João, p. 150). Jesus mesmo nos garantiu neste evangelho: “Vós também dareis testemunho… Ele vos conduzirá à plena verdade”.

  1. Como Jesus, testemunhas da Verdade

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade.” O mundo de hoje perdeu a preocupação com a verdade. Estamos numa sociedade de “faz-de-contas”, de fingimentos, de aparências, de embalagens… O exterior, para muitos, vale mais do que o interior, o que está por dentro, na vida do ser humano. Na comunicação, tantas vezes, o objetivo não é narrar o fato, de forma isenta e imparcial, mas arranjar determinados truques para que sejam incutidas nos ouvintes a versão que se lhes quer impor. É só olhar para a grande mídia nos últimos anos, como tem tratado a virada política, econômica, parlamentar e jurídica, a promoção de uns personagens e a crucificação de outros. Pessoas mais críticas, que buscam a verdade, não raro após ouvir ou assistir a uma notícia se questionam: Com o que estão dizendo, o que é que estão omitindo e aonde querem nos fazer chegar, ou, o que querem nos enfiar goela abaixo?…. Até em termos de práticas religiosas, a demanda de muitos não inclui a verdade, o compromisso ético, a transformação humana; apenas a busca do próprio interesse, seu bem-estar e prosperidade, seus gostos e expectativas. Se para isso for necessário utilizar-se de truques, de falsidade, de pessoas treinadas, de explicações via encosto, mau olhado e olho grande, não duvidam de lançar mão desses meios. A Verdade para tais pessoas não conta mais.

  1. Os dons e os frutos do Espírito para o bem comum

A ação do Espírito, quando a Ele nos abrimos e o acolhemos, nos renova, recria e transforma. Sua presença da comunidade cristã (1ª. Leitura – At 2,1-11) é simbolizada, como se ocorresse num momento cheio de mistério, pelos símbolos do fogo, do vento e das línguas. É por seu poder que as comunidades foram sacudidas da inércia e do medo, aqueceram seu coração com a fé no Ressuscitado e proclamaram o Evangelho em culturas e idiomas diferentes: “cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua… todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua”.

A Carta do Apóstolo Paulo aos Gálatas (2ª. Leitura, 16-25) nos propõe a vivermos não segundo a carne, o mundo, os instintos, mas de acordo com a voz e a vida do Espírito em nós. Como cristãos precisamos viver como quem renasceu em Cristo, como alguém que vive segundo o Espírito e é consagrado à Trindade. Quando se é conduzido pelo Espírito não se contenta em cumprir leis e normas, mas é o nosso ser todo voltado ao Senhor e ao seu Evangelho. Acolhendo e vivendo o Espírito, produzimos estes frutos: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência”.

Para refletir: Em minha vida pessoal, estou agindo conforme o Espírito Santo de Deus, ou me contendo de “viver como os outros”?… Qual tem sido as posturas pessoais e da comunidade em relação às mentiras, falsidades, enganações e ilusões do mundo atual?… Bem no fundo e com sinceridade: o Espírito Santo tem vez em minha vida e na vida de nossa comunidade de Igreja?…

 

 

 

 

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A FESTA DA ESPERANÇA

A FESTA DA ESPERANÇA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DOMINGO DA ASCENSÃO (13.05.18): Mc 16,15-20

Ascensão significa subir a um lugar mais alto, ou a uma posição mais elevada. Na liturgia, celebramos a glorificação de Jesus, após sua caminhada terrestre, humano no meio dos seres humanos. De imediato isto nos remete a pensar que os seres humanos de hoje também precisam ascender, atingir uma situação mais digna, uma vida melhor, em muitos aspectos e dimensões. No entanto, a sensação que temos é de que estamos na “sociedade do cansaço” (expressão do coreano Byung-Chul Han), ou num tempo de “esperança esquecida” e de “perda de horizonte” (expressões do francês J. Ellul). Para Pagola, vivemos um mundo fechado, sem futuro, sem abertura e sem horizonte: “Nunca nós, seres humanos, havíamos alcançado um nível tão elevado de bem-estar, liberdade, cultura, vida longa, tempo livre, comunicações, intercâmbios, possibilidades de desfrute e diversão… Os homens parecem cansados. Não encontram motivos para lutar por uma sociedade melhor e se defendem como podem do desencanto e da desesperança. … Um sentimento de impotência e desengano parece perpassar a alma das sociedades ocidentais. As novas gerações estão aprendendo a viver sem futuro, a atuar sem projetos, a organizar para si apenas o presente. E é cada vez maior o número dos que vivem sem um amanhã” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p.277). A festa da ascensão, com seu evangelho do “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o evangelho”, é uma resposta a essa realidade.

  1. “Ide e anunciai”: é missão de todos nós

Este pedido final de Jesus, por ocasião de sua despedida, foi acolhido pelos discípulos e discípulas como uma mensagem de força e de alegria, de ânimo e de compromisso. Devem ter vibrado com isso e norteado sua atuação: “Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio de sinais que a acompanhavam”. Com eles foi assim. Mas… e hoje? O Papa Francisco insiste numa “Igreja em saída”; a CNBB nos conclama a sermos uma Igreja em estado permanente de missão; os agentes pastorais tentam “reavivar a Igreja das casas”, com nucleação e setorização; muitas iniciativas pelo mundo afora vivem as santas missões populares; e outras atitudes e formas de presença missionária… Milhões de pessoas se engajam, vibram e dão o melhor de si nesta obra do Senhor. Por outro lado, porém, tantos ou mais do que esses não admitem sair do seu “cristianismo mínimo”, de fazer somente pequenas práticas religiosas, não querem fazer mudanças na vida da Igreja e na atuação missionária, nem sair de seu mínimo de atuação na comunidade e na transformação da sociedade. Quem sabe a maioria ainda não admite refletir: Quais os caminhos que o Espírito Santo nos inspira hoje para “anunciar o evangelho a toda criatura”? E sem conversão e sem vontade firme, sem abertura ao Espírito, muitos de nós nos contentamos com o imobilismo, com o “deixar como está pra ver como é que fica”, com o medo de nos desafiar e de nos engajar. Não percebemos que deste jeito estamos sendo “freio e obstáculo cultural para que o evangelho se encarne na sociedade contemporânea” (p. 274).

  1. Confiar na boa notícia do evangelho

Quando do seu primeiro anúncio – literalmente evangelho era uma “boa notícia”. Aquele povo sofrido, escravo, desprezado e inferiorizado acolhia com alegria a notícia de que somos todos irmãos/ãs, iguais entre nós, filhos/as do mesmo Deus que Pai e Mãe, que tem amor misericordioso e nos concede vida, perdão e salvação. Hoje este anúncio será crível, mais do que por belas elaborações doutrinais, pela experiência de Jesus em sua vida e pelo testemunho de amor solidário e de atuação humanizadora dos discípulos de agora. A comunhão solidária e o aprofundamento no evangelho conquistam mais do que os discursos e as mensagens angelicais, doces e aéreas do whats app. “Precisamos sanear nossas vidas eliminando aquilo que nos esvazia de esperança. Quando nos deixamos dominar pelo desencanto, pelo pessimismo ou pela resignação, nos incapacitamos para transformar a vida e renovar a Igreja. …Só conhecem a esperança cristã aqueles que caminham seguindo os passos de Jesus. São eles os que ‘podem proclamar o evangelho a toda a criação’.” (idem, p. 276).

Que nesta Semana de Oração pela Unidade Cristã (com o lema “A mão de Deus nos une e nos liberta”) nos anime ao diálogo e vida fraterna com os cristãos de outras denominações e nos impulsione todos a realizar aquilo é o mais fundamental em nós cristãos: anunciar o evangelho a todos e a todas! Sem vivência do evangelho não haverá ascensão da nossa humanidade em nosso tempo!

 

 

VIVER O AMOR PARA ESTAR COM JESUS

VIVER O AMOR PARA ESTAR COM JESUS

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 6º. DOMINGO DA PÁSCOA (06.05.18): Jo 15,9-17

Em tom e despedida, Jesus confia aos seus discípulos os segredos para um verdadeiro seguimento. Neste evangelho Ele nos apresenta alguns traços, umas marcas essenciais da vida cristã. Como veremos, o sinal do cristão é muito mais do que fazer o sinal da cruz e ter uma medalha no pescoço. Jesus mostra com clareza como podemos ser fiéis a Ele e ao seu projeto.

  1. “Permanecei no meu amor.”

Ele não pede para vivermos uma religião, nem sermos peritos em doutrina nem sermos rigorosos cumpridores de leis. Ele pede que vivamos no seu amor, no amor com que Ele nos ama. Isto não acontece só na mente nem num mero sentimento intimista. É permanecer no seu amor, em comunhão com Ele, buscando amar como Ele amou e nos ama. Nossa relação com Deus amor não é na base do medo nem do tremor, mas da confiança e amor filial. Em seguida, mostra como se ama…

  1. “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor… Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei.”

O mais importante na vida do cristão não é a observância de dezenas de normas. Jesus fala em “guardar os seus mandamentos”, e diz que seu mandamento é “amar-nos mutuamente assim como Ele nos amou”. Ele não nos amou em palavras, mas em atitudes, dando sua vida, ajudando-nos a compreender o amor misericordioso do Pai e convertendo-nos para Deus, para o caminho da salvação. Vive-se o amor na prática, não na teoria. E, na prática, é guardar o mandamento que Ele nos propôs: vivermos no amor como irmãos e irmãs, e assim permanecermos no seu amor. “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”, assim como Ele agiu e fez por nós. Dar a vida, e não trancar e secar a energia da vida em torno dos próprios interesses e caprichos.

  1. “Eu vos disse isto para que minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena.”

A fé na ressurreição gerou nos discípulos uma explosão de alegria. Ele quer nossa felicidade e alegria. Quem se compreende como amado e querido por Deus, como poderia viver seu cristianismo com tristeza? Seria uma incoerência. O Papa Francisco insiste na alegria do Evangelho e na vida cristã com alegria, senão é um contratestemunho. Que pena que muitos cristãos praticam um cristianismo “muito triste, sombrio e envelhecido” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – João, p. 225). Tal alegria é consequência de uma fé viva em Cristo salvador. Nada tem a ver com bem-estar material nem com sentimentos de paz consigo mesmo: “é uma maneira de estar na vida, um modo de entender e viver tudo, inclusive os momentos maus” (p.226). É confiar em Deus plenamente, apesar das dificuldades que a sociedade nos apronta. E mesmo que haja desafios, obstáculos e crises diversas; mesmo que haja sofrimentos nossos e dos irmãos e irmãs para compartilhar, não perdemos a alegria, pois sabemos que estamos nas mãos carinhosas e poderosos de nosso Deus, que vence a morte. Por isso, para viver a alegria não se vira as costas ao sofrimento das pessoas e do mundo. “Sem alegria é difícil amar, trabalhar, criar, viver algo grande. Sem alegria é impossível uma adesão viva a Cristo.” (ibid.) Jesus ressuscitado é nossa fonte de alegria e de paz interior: “Quem o segue de perto o sabe e, por sua vez, converte-se em fonte de alegria para os outros, pois a alegria cristã é contagiosa.” (ibid)

  1. “Já não vos chamo de servos… Eu vos chamo de amigos… Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.”

Para muitos, buscar Deus é sentir tremor. Passaram-lhes uma imagem distorcida de um Deus justiceiro, vingador, punidor, carrasco… Muitas famílias e educadores, para conseguir obediência e cumprimento de normas, de filhos e alunos, incutiram uma visão de Deus que cobra, repreende e castiga… Porém, “a fé cristã só pode ser vivida, sem trair a sua essência, como experiência positiva, confiante e feliz. …Se o percebemos só como vigilante implacável de nossa conduta, faremos qualquer coisa para afastar-nos dele. Se o experimentamos como amigo que impulsiona nossa vida, vamos buscá-lo com alegria” (p.223). Deus é amigo, companheiro, Pai-Mãe, Amor… Não somos seus escravos, mas seus filhos/as, amigos/as…

  1. “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e fruto que permaneça.”

É assim que devemos cultivar nossa autoestima: como escolhidos de Jesus. É Deus que nos deu a graça de conhecer a Jesus e de fazer parte, pelo batismo, de sua Igreja, da comunidade de seus seguidores, do povo de Deus. O mérito não é nosso. Tudo é graça. No máximo, de nossa parte, um pouco de esforço para acolher e colaborar com sua graça, pois foi Ele que nos escolheu.

Em suma, este evangelho nos propõe as marcas do ser cristão: a) permanecer no amor de Jesus; b) guardar o seu mandamento; c) corresponder ao seu amor, pois somos seus amigos e escolhidos por Ele para a sua missão; d) e na comunhão com Ele e com os irmãos/ãs sermos alegres e dar testemunho da alegria cristã. “Sem amor não daremos passos para um cristianismo mais aberto, cordial, alegre, simples e amável, onde possamos viver como ‘amigos’ de Jesus… Não saberemos como gerar alegria. Mesmo sem querer, continuamos cultivando um cristianismo triste, cheio de queixas, ressentimentos, lamentos e desgosto.” (p.222).

PERMANECER EM JESUS COMO OS RAMOS DA VIDEIRA

PERMANECER EM JESUS COMO OS RAMOS DA VIDEIRA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 5º. DOMINGO DA PÁSCOA (29.04.18): Jo 15,1-8

Muitas vezes nós, cristãos, sentimos um vazio interior. Ocupados e envolvidos por muitas coisas, vivemos numa ânsia insaciável de ter coisas, acompanhar os estilos, adquirir e desfrutar como fazem os outros. E quando isso é a busca fundamental, “o cristão pode sentir-se mais só do que nunca em seu interior, incapaz de comunicar-se vitalmente com esse Cristo em quem diz crer. Talvez a derrota mais grave do homem ocidental seja sua incapacidade de vida interior. Parece que as pessoas vivem sempre fugindo. Sempre de costas para si mesmas. Diríamos que a alma de muitos é um deserto” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – João, p. 218).

O evangelho de hoje é uma resposta para nossa vida e nossa situação. O que Jesus pediu em tom de testamento e despedida vale para nós: é preciso permanecer unidos a Ele, como ramo verde da parreira, e produzir fruto. Cristão desligado de Jesus, não dá fruto, não tem sentido. É como o ramo seco da videira.

  1. Com a seiva da videira o ramo produz fruto

A comparação é bem conhecida. Muito clara: Jesus é a videira, nós os ramos e o Pai é o viticultor. Jesus ia partir. Qual a recomendação importante para garantir a vida e a missão dos discípulos? Permanecer unidos a Ele, assim produzirão frutos: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós, se não permanecerdes em mim… Quem permanece em mim, e eu nele, dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer… se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será dado”. Sem relação vital com Jesus, não se é cristão. Viver com Ele e alimentar-se de sua seiva, de sua vida, de sua Palavra, de seu Espírito… é isso que nos mantém vivos, verdes, e nos possibilita produzir frutos. Sem Ele, somos ramos murchos, estéreis, infrutíferos. Em nós precisa correr a seiva, a vida de Jesus. Ele é a nossa fonte de vida. E nós permanecemos em Jesus se suas palavras permanecerem em nós, ou seja, se cultivamos nossa vida, nosso ser e nosso agir com a vitalidade de seus ensinamentos. É um desastre o cristão se contentar com um Jesus de “segunda mão”. Fica apenas com os conhecimentos da iniciação cristã (ou catequese) do tempo da infância e adolescência e mensagens piedosas via whats app. Foge do encontro pessoal com Jesus e da meditação frequente e direta de sua Palavra. Deste modo, como poderá produzir fruto?…

  1. Ramo seco não produz fruto

Jesus nos diz: “O Pai corta todo ramo que em mim não dá fruto… Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora como o ramo e secará; será ajuntado, jogado no fogo e queimado”. É uma imagem contundente. Quem é discípulo/a de Jesus, fique unido a Ele e viva de sua vida, de sua força, de sua Palavra. Sem comunhão com Ele e sem paixão pelo seu Evangelho vamos nos tornando raquíticos, perdendo a força, secando. Perdemos a razão de ser Igreja e de ser cristãos, pois não produzimos frutos, somos apenas galhos “pra número”, não para produzir as obras que dão glória ao Pai: “Meu Pai será glorificado, se derdes muito fruto e vos tornardes meus discípulos”. Como o viticultor espera uva dos ramos da parreira, Deus Pai espera boas ações e atitudes de amor e misericórdia de nós cristãos. Esta é a glória do Pai: produzirmos fruto, na prática, na vivência, na atuação. Não “da boca pra fora” nem apenas no sentimento.

Aí está o essencial de nossa fé e do seguimento de Jesus: “Todos somos ‘ramos’. Só Jesus é a ‘verdadeira videira’. O decisivo nestes momentos é ‘permanecer nele’: aplicar toda a nossa atenção ao Evangelho; alimentar em nossos grupos, redes, comunidades e paróquias o contato vivo com ele; não afastar-nos de seu projeto. … Ele nos transmite seu amor ao mundo, vai nos apaixonando por seu projeto e infundindo em nós seu Espírito” (p.216). Sem a união profunda com Jesus nossa fé torna-se seca, não anima nossa vida. Essa fé “converte-se em confissão verbal vazia de conteúdo e de experiência viva. …incapacidade de continuar crescendo no amor e fraternidade com todos, inibição e passividade para lutar arriscadamente pela justiça, falta de criatividade evangélica” (cf. p. 218).

Para refletir: Estamos sendo ramos vivos e verdes que produzem os frutos na vida prática para Deus ser glorificado? Ou somos ramos que estão secando, desligados da videira Jesus, prontos para ser cortados e jogados ao fogo?… Será que nem a Boa Notícia de que somos ramos de Jesus Videira nos anima e nos alegra a permanecermos sempre bem unidos a Ele e em sua Palavra?…

 

 

OUVIR E SEGUIR O PASTOR QUE NOS DÁ A VIDA

OUVIR E SEGUIR O PASTOR QUE NOS DÁ A VIDA

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 4º. DOMINGO DA PÁSCOA (22.04.18): Jo 10,11-18

No nosso dia a dia, a quem seguimos mesmo? Quem tem influência no rumo de nossa existência? Nossos valores e estilos de vida são conforme a prática e o evangelho de Jesus, ou são conforme a publicidade e as ondas da mídia?… No fundo e em geral, as pessoas são “levadas” pelos ventos dos padrões da sociedade, veiculados pelos meios de comunicação: o modo de vestir, aquilo que se come, que se bebe, a música que se ouve, até expressões de linguagem. Pior, eles “impõem os hábitos, os costumes, as ideias, os valores, o estilo de vida e a conduta que deve adotar” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – João, p.152). Neste embalo segundo a moda, as pessoas “buscam sua pequena felicidade, esforçando-se para adquirir aqueles objetos, ideias e comportamentos que lhes são ditados de fora” (p.153). Esforçando-nos por “viver como todo mundo”, dirigidos de fora segundo interesses alheios, já não ouvimos a voz que vem de dentro, do profundo de nosso eu, nem a voz de Deus que ressoa em nós e nos clamores que emergem da sociedade.

O evangelho deste domingo é uma resposta clara a esta situação. Só Jesus é o “guia definitivo do ser humano. Só com ele podemos aprender a viver. …descobrindo dia a dia qual é a maneira mais humana de viver” (ibid.). Esta é a boa notícia de hoje: Jesus é nosso bom pastor, dá a vida por nós; e se escutamos sua voz e o seguimos, teremos a vida verdadeira.

  1. O que este texto de evangelho nos diz?

Ele é claro e direto. Não precisa exercícios de interpretação. Jesus diz que ele é o Bom Pastor, ou seja, alguém que se preocupa conosco, não abandona nem esquece suas ovelhas, sempre atento às mais fracas e doentes. Não é exatamente isto que ele sempre viveu?… Muito diferente dos mercenários, que trabalham só por dinheiro. Viveu com amor e compaixão, dando ajuda e dando sua vida. Por isso, ele diz: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”. Jesus “ama a todos com amor de bom pastor que não foge do perigo, mas que dá sua vida para salvar o rebanho” (p. 148). Um pastor naquela época tinha muita proximidade com suas ovelhas, conhecimento profundo. Que pena que muitos cristãos hoje têm com Cristo uma relação muito distante, superficial, vaga e aérea! “Precisamos conhecer uma experiência mais viva e íntima. Não cremos que ele cuida de nós. Esquecemos que podemos recorrer a Ele…” (ibid.). E se o aceitamos como nosso verdadeiro pastor, nós ouvimos a sua voz e o seguimos. Ele vai cuidando de nós e nos conduzindo, respeitando nossos passos e nossas condições, mas sempre garantindo nossa defesa, sustento e segurança. Ele nos dá a vida eterna. Em nossa vida precisamos buscar o Ressuscitado, o Bom Pastor “no amor, não na letra morta; na autenticidade, não nas aparências; na verdade, não nos tópicos; na criatividade, não na passividade e inércia; na luz, não na escuridão das segundas intenções; no silêncio interior, não na agitação superficial” (p. 151).

  1. Há pastores, e há pastores…

Jesus fez questão de apresentar-se como “o bom pastor”. No Antigo Testamento, entendia-se que “Javé é o meu pastor, nada me falta”. E muitos outros textos falam de seu pastoreio. Muitos líderes, como Moisés e Davi, foram considerados pastores. Com o passar do tempo, o título de pastor foi atribuído aos governantes, chefes do povo. Aí apareceram as críticas severas dos profetas contra os maus pastores: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos, não curam a ovelha doente, não fortalecem a fraca, não procuram a perdida, e se aproveitam das ovelhas gordas…” (cf. Ez 34,2-4). E Deus promete que, um dia, Ele mesmo vai pastorear o seu rebanho. Em Jesus esta profecia se realizou… Que ensinamento importante para as lideranças e para todos os cristãos! Seguir Jesus Bom Pastor é esforçarmo-nos ao máximo para termos também nós atitudes de pastor. Conviver, ir ao encontro, cuidar dos sofredores, garantir a vida, defender dos lobos da sociedade, evitar que os ladrões assaltem as ovelhas e destrocem o rebanho… Quando um pastor se preocupa mais consigo mesmo e com sua riqueza do que com o rebanho, é então um “mercenário”, não pastor. Isto vale para líderes religiosos de igrejas e religiões, vale para animadores/as de comunidades cristãs, mas vale também para lideranças políticas, sociais e judiciárias. Quando o “faturar”, o prestígio, o poder, a acumulação de capital e a fama estiverem acima do bem comum, são mercenários, ladrões, assaltantes e lobos…

Para concluir, meditemos com Pagola: “Seguir a Jesus como Bom Pastor é interiorizar as atitudes fundamentais que Ele viveu, e esforçar-nos para vivê-las hoje a partir de nossa própria originalidade, prosseguindo a tarefa de construir o Reino de Deus que Ele começou. Mas, enquanto a meditação for substituída pela televisão, o silêncio interior pelo ruído e o seguimento da própria consciência pela submissão cega à moda, será difícil escutarmos a voz do Bom Pastor que pode ajudar-nos a viver no meio desta ‘sociedade do consumo’ que consome seus consumidores” (p. 153).

 

 

SOMOS TESTEMUNHAS DO CRUCIFICADO RESSUSCITADO  

 

SOMOS TESTEMUNHAS DO CRUCIFICADO RESSUSCITADO

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 3º. DOMINGO DA PÁSCOA (15.04.18): Lc 24,35-48

Neste tempo pascal, e em todo o tempo, somos enviados a dar testemunho de que Jesus está vivo em nós, no meio de nós e na história do seu povo. Porém, a fé cristã que deveria ter seu fundamento na experiência de Jesus Ressuscitado, passa por diversos obstáculos e tipos variados. Alguns são fanáticos: sua fé não acolhe ninguém, não se deixa questionar e aprofundar, é muito fechada. Outros são céticos: com sua fé “descrente”, na prática nada esperam e nada creem no Deus Pai e Mãe, nem na vida. Outros são indiferentes: não querem saber do verdadeiro sentido da vida, mas apenas do seu pragmatismo na busca de segurança, bem-estar e dinheiro. Outros se entendem “proprietários da fé”: vivem no ritmo rotineiro uma fé de “costume”. Outros têm uma fé infantil: não conseguem atualizar sua fé e sua prática, permanecem com alguns elementos catequéticos da iniciação cristã, sem  experiência pessoal de Deus. “Em todas estas atitudes falta o mais essencial da fé cristã: o encontro pessoal com Cristo. A experiência de caminhar pela vida acompanhados por alguém vivo, com quem podemos contar e a quem podemos nos confiar. Só ele pode nos fazer viver, amar e esperar apesar de nossos erros, fracassos e pecados.”(Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Lucas, p.370.  Neste evangelho, aprendemos que a fé verdadeira surge com nosso encontro pessoal com Jesus, que caminha conosco, e nos faz suas testemunhas.

  1. Crer em Jesus e viver com Ele

No relato de Lucas, os discípulos de Emaús estavam contando a caminhada com Jesus. Então, Ele apareceu no meio dos discípulos reunidos. Entre eles havia de tudo: assustados, com medo, preocupados, com dúvidas no coração. Jesus lhes deseja a paz, mostra suas mãos e pés, deixa-se tocar e come com eles. Em seguida, explica as Escrituras para entenderem que a morte e ressurreição deviam acontecer. E no final acentua o que é o centro do cristianismo: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”.

Ainda temos uma fé muito mental, na cabeça. Difícil é sentir e ter certeza de que Ele está caminhando conosco. Na medida em que nos encontramos e caminhamos com Ele, vamos sentindo Jesus que nos transforma por dentro e nosso ser começa a ser a vivência de seu evangelho, dos seus valores e proposta do Reino. Mas sempre em comunhão com ele e com os irmãos e irmãs. Ele quer que sejamos testemunhas dele, falando a partir da nossa experiência de encontro com Ele e pregando em seu nome. “A presença de Jesus não transforma de maneira mágica os discípulos. …A fé em Cristo ressuscitado não nasce em nós de maneira automática e segura. Ela vai despertando em nosso coração de forma frágil e humilde. … é um processo que às vezes pode durar anos. O importante é nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Reservar-lhe muito mais lugar em cada um de nós e em nossas comunidades cristãs” (p. 366). É a partir desta experiência da presença/encontro com o Ressuscitado que podemos ser testemunhas verdadeiras: “O mundo de hoje não precisa de mais palavras, teorias e discursos. Precisa de mais vida, esperança, sentido e amor. São necessárias testemunhas, mais que defensores da fé. Crentes que nos possam ensinar a viver de outra maneira, porque eles próprios estão aprendendo a viver de Jesus” (p. 368).

  1. A ressurreição das vítimas

Ao aparecer aos discípulos, Jesus lhes disse: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!… E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés”. Ele mostra suas chagas da crucificação. “Deus não ressuscitou alguém qualquer: ressuscitou um crucificado. …ressuscitou alguém que anunciou um Pai que ama os pobres e perdoa os pecadores; alguém que se solidarizou com as vítimas; alguém que, ao encontrar-se pessoalmente com a perseguição e rejeição, manteve até o final sua confiança em Deus” (p.370). Isto nos ensina que a ressurreição de Jesus faz justiça as seres humanos que são vítimas, que o “ser de Deus” – Deus das vítimas – faz justiça aos injustiçados da sociedade. Deus tem poder sobre o poder da morte, sua justiça triunfa sobre os injustos e sobre as injustiças do nosso mundo. Assim este evangelho é boa notícia. A ressurreição de Jesus é a reação de Deus ao que o poder e os poderosos da sociedade fizeram com seu Filho, como diz Pedro: “Vós o entregastes… Vós rejeitastes o Santo e o Justo… Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (cf. At 3,13-16 – 1ª. Leitura). Onde os humanos espalham destruição e morte, Deus semeia ressurreição e vida nova. Deus se identifica com aquele que sofre, compartilha com o destino das vítimas. Os sofredores não estão abandonados, ao contrário, Deus está presente e solidário em seu sofrimento, e seus sofrimentos terminarão em ressurreição. Deus é ressuscitador das vítimas.

O que isto diz para o Brasil de hoje?… Há vítimas da sociedade, da cultura, do poder econômico, da política e, quem sabe, até da Justiça, perseguidos e execrados. É só abrir os olhos e enxergar sem preconceito que facilmente podemos ver pessoas e segmentos sociais linchados pela mídia e pelo ódio de classe. “São muitas as vítimas que continuam sofrendo hoje, maltratadas pela vida ou crucificadas injustamente. O cristão sabe que Deus está nesse sofrimento. Conhece também sua última palavra. Por isso, seu compromisso é claro: defender as vítimas, lutar contra todo poder que mata e desumaniza, esperar a vitória final da justiça de Deus.” (id., p.371).

QUEM CRÊ NO RESSUSCITADO VIVE DE MODO DIFERENTE

QUEM CRÊ NO RESSUSCITADO VIVE DE MODO DIFERENTE

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 2º. DOMINGO DA PÁSCOA (08.04.18): Jo 20,19-31

Crer na ressurreição de Jesus não pode ser apenas uma ideia na cabeça ou uma doutrina ensinada e decorada. Crer na ressurreição não pode ser só um conhecimento de algo do passado. Neste tempo pascal, à luz do Evangelho e da prática dos discípulos e discípulas, precisamos ter um encontro com o Ressuscitado e, a partir desta experiência vivida, dar um rumo coerente para nossa existência.

  1. Com a presença do Ressuscitado os discípulos se transformam

João narra o encontro com Jesus no primeiro dia da semana. Estavam fechados, cheios de medo dos judeus que haviam assassinado Jesus. Sentiram e viram Jesus lhes desejando a paz, dando-lhes seu Espírito e enviando-os para a missão. Ou seja, porque acreditavam na presença dele, eles se reuniam sempre no primeiro dia da semana, para partir o pão e reviver sua Palavra. A certeza de sua presença lhes deu vida, alegria e paz: “Só quando veem Jesus ressuscitado no meio deles, os discípulos se transformam. Recuperam a paz, seus medos desaparecem, enchem-se de uma alegria desconhecida, notam o sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai” (O Caminho Aberto por Jesus – João, p. 255).

Jesus Ressuscitado continua na Igreja que se reúne e nos discípulos que o anunciam e são instrumentos do seu reino. No entanto, nossos cristãos quase não o sentem, não o encontram, não creem na sua presença dentro deles nem no meio deles. Falta a quase todos nós uma experiência mais viva e uma fé mais profunda, que nos impulsione, nos transforme e nos torne novos homens e novas mulheres. Quem crê no Ressuscitado, de fato, assume uma vivência diferente das pessoas que não creem e dos que, acreditando, preferem e querem viver sem Deus. Seguidores e seguidoras do Ressuscitado “possuem uma sensibilidade especial para ouvir, buscar, recordar e aplicar o Evangelho de Jesus. São os espaços mais sãos e vivos da Igreja” (ibid.).

  1. Aprender a conviver com Jesus Ressuscitado

Os discípulos, após a morte e ressurreição, não mais o tinham presente em carne e osso como antes. Foram aprendendo a encontrá-lo e reconhecê-lo nas pessoas, nos fatos, na comunidade reunida, na fração do pão, nas dores suportadas, nas doenças e injustiças vencidas e nas conquistas alcançadas. Aprender como viver na fé e da fé; como encher-se do Espírito, escutá-lo e  viver com sua força; como recordar os ensinamentos de Jesus e atualizar seus gestos e suas opções. Assim deve acontecer conosco. Pois Jesus soprou sobre os discípulos e disse: “A paz esteja convosco… Recebei o Espírito Santo… Como o Pai me enviou, eu também vos envio”. No hoje da nossa história, precisamos encontrar as atitudes, as ações, os modos de ser, de pensar e de agir, para testemunhar o Ressuscitado e levar adiante o seu evangelho e a sua missão. Temos que nos transformar como Tomé.

  1. Desligados da comunidade, nossa fé enfraquece

Tomé é o exemplo do cristão desligado da comunidade que, retornando, se converte. Quanta gente precisa “ver para crer” ainda hoje em dia! A vida em comunidade verdadeiramente cristã torna os seus membros participantes mais fortalecidos na fé, mais firmes no amor, mais em comunhão com Deus Trindade e com os irmãos e irmãs, e convictos de encontrar-se com o Ressuscitado. Tomé, no primeiro fato, não estava presente na comunidade reunida no primeiro dia da semana (no Dia do Senhor). Na segunda vez, estava presente e participante. Então sentiu e reconheceu que ali estava o Ressuscitado presente. Não precisou tocar em Jesus, “pôr o dedo nas chagas nem a mão no lado aberto pela lança”. Tomé transformou-se, pela fé no Ressuscitado, num exemplo de quem crê profundamente. É dele a belíssima confissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.

O tempo pascal os cristãos vivem com muita alegria, com intensa participação na vida da comunidade, com esperança acesa e com profunda união. São capazes de grandes doações e partilhas. “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. …tudo entre eles era posto em comum. …davam testemunho da ressurreição do Senhor jesus. Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro… Depois era distribuído conforme a necessidade de cada um.” (At ,32-35 – 1a. leitura)

Para refletir: Sentimos a alegria de viver em Cristo? Nossa vida se renovou e transformou com a quaresma, semana santa e Páscoa? Acreditamos na promessa de Jesus: “Felizes os que creram sem ter visto”?…Ou, na prática, preferimos não seguir o Ressuscitado?…

ESTA É UMA NOITE SANTA: É A PÁSCOA DA LIBERTAÇÃO!

ESTA É UMA NOITE SANTA: É A PÁSCOA DA LIBERTAÇÃO!

 UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA VIGÍLIA PASCAL (31.03.18): Mc 16,1-7 

Os ritos do fogo, da luz e da água nos ajudam a penetrar no significado profundo que tem para a vida do cristão a Ressurreição de Jesus. O fogo novo lembra a força misteriosa que purifica e gera nova criação. É símbolo do próprio Deus. A água batismal nos faz celebrar nossa identidade cristã: pelo Batismo todos renascemos para o Senhor. A luz nos coloca em sintonia com a luz do Senhor, que dissipa nossas trevas e clareia os caminhos que Jesus traçou para nós.

A 2ª. leitura (Gn 22,1-18) mostra a obediência total de Abraão ao Senhor. Por isso é abençoado: ele e sua descendência serão uma bênção para todos os povos e nações. Mas este Deus da Bíblia não quer a destruição dos humanos, o sangue derramado não lhe é agradável: Ele quer vida e paz, seu projeto se realizando. A 3ª. leitura (Ex 14,15-15,1) traz à celebração a história da humanidade que se afasta de Deus, pelo pecado, pela escolha de decidir contra o ensinamento divino. Vem a escravidão e a morte. Deus não abandona a humanidade, mas a recria. Chamou o povo hebreu, um povo que vivia à margem, através de Abraão. O povo caiu na escravidão do Egito, mas maravilhosamente o Senhor o libertou. É a noite da libertação, a Páscoa dos judeus, que prefigura a Páscoa dos cristãos, pelo sangue e ressurreição de Jesus. (Mais leituras são proclamadas nesta noite…)

O Novo Testamento nos fala da Páscoa de Jesus. O texto da Carta de Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11) mostra que o batismo nos mergulha neste mistério da Páscoa de Jesus, nos faz membros do novo Povo de Deus, com a obrigação de trabalharmos por um mundo novo, de homens novos e mulheres novas. Diz São Paulo: “Pelo batismo, o velho homem que está em nós foi crucificado”. E “se morremos com Cristo, consideremo-nos mortos para o pecado, mas vivos para Cristo e para o projeto de Deus”.

O evangelho (Mc 16,1-7) narra a Ressurreição de Jesus, na noite da Páscoa.  Mostra, sobretudo, dois pontos essenciais:

  1. As mulheres foram as primeiras testemunhas e anunciadoras da Boa Nova da Ressurreição. “Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo….Quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada.” Hoje as mulheres são, mais ou menos, 75% das lideranças de nossa Igreja, nas pastorais e comunidades. O DAp reconhece a importância da mulher na Igreja, mas denuncia a omissão dos homens: O homem deve sentir-se enviado pela Igreja à missão, para dar testemunho como discípulo e missionário, “no entanto, em não poucos casos, infelizmente, termina renunciando a essa responsabilidade e delegando-a às mulheres ou esposas” (DAp 460). Que a coragem dessas mulheres que testemunharam a Ressurreição de Jesus, desperte nos homens a consciência de que religião é para homem também, e que ninguém tem o direito de dispensar Deus de sua vida… Será que, atualmente, mulheres e homens cristãos têm, pelo menos, consciência de que ser cristão é ser discípulo/a missionário/a?… Suas vidas anunciam e demonstram que creem em Jesus Ressuscitado presente na sua vida e na história de seu povo?….
  2. No Evangelho ouvimos o jovem vestido de branco: “Nas vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! … Ide, dizei aos discípulos e a Pedro que ele irá a vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito”. Ou seja: Vamos fazer a experiência de Cristo Ressuscitado no meio dos vivos! No meio dos pobres (nas Galileias da nossa vida e do nosso Brasil)… Como o Evangelho mostra, Jesus Ressuscitado estava com os discípulos de Emaus, com a comunidade reunida no primeiro dia da semana, com o povo reunido… O sepulcro vazio já não interessa como lugar de encontro com Jesus; o morto do túmulo está vivo nos irmãos e irmãs na pobreza da Galileia. “O lugar do encontro não é num passado concluído, mas num futuro novo; não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. … Somos convidados pelo evangelista a continuar o seguimento de Jesus, se quisermos encontrá-lo ressuscitado. … a continuidade do projeto de Jesus é que vai fazer com que o vejamos vivo, ressuscitado” (Balancin. Como Ler o Evangelho de Marcos, p. 178-179). Hoje encontramos o Ressuscitado no próximo que precisa de nossa presença e solidariedade e na comunidade cristã que se reúne para ouvir a Palavra e celebrar sua caminhada, em todo aquele/a que leva adiante o seu reino de justiça.

Vamos viver a Páscoa!

  • O mundo novo começou com a Ressurreição de Jesus. Páscoa não é apenas um fato passado. É um processo histórico não concluído, que continua com nossa atuação e nosso testemunho.
  • Trabalhemos para que essa transformação aconteça na história da humanidade. Que haja Páscoa nas condições de vida do povo e no modo da sociedade organizar a economia, que esta esteja a serviço da vida.
  • Façamos acontecer Páscoa nas famílias, tendo tempo para a Palavra de Deus. Assim, as famílias serão berços de vida e de fé, não somente de conhecimentos e de progresso material.
  • Testemunhemos a Ressurreição na vida da comunidade cristã. Participemos da comunidade, assumamos serviços, lideranças, as missões populares… Colaboremos para que os trabalhos pastorais da Igreja possam anunciar muito forte ao mundo que: Jesus está vivo dentro de nós e no meio de nós. Acreditemos na ressurreição. Tenhamos esperança! Lutemos contra os mecanismos e ideologias de morte! Acreditemos na vida, pois, em Cristo, a vida venceu a morte.

Desejo de coração a todos vocês, que prestigiam e apoiam as reflexões do  Grão de Mostarda, uma Feliz e Santa Páscoa !!!

6ª. FEIRA SANTA: QUEM VIVE O AMOR MAIOR É PRESO E CONDENADO À MORTE

6ª. FEIRA SANTA: QUEM VIVE O AMOR MAIOR É PRESO E CONDENADO À MORTE

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DIA DA PAIXÃO (30.03.18): Jo 18,1-19,42

Nesta narrativa da Paixão e Morte, elaborada pela comunidade de João, temos alguns destaques muito significativos. Não é possível aqui neste pequeno espaço comentar muitos aspectos do sofrimento, condenação e morte. Selecionamos dois que sobressaem neste texto.

  1. Jesus: é condenado por dar testemunho da verdade e defender os pequenos

Depois de ser levado a Anás, depois a Caifás, sumos sacerdotes, lhe deram bofetadas e fizeram acusações falsas e deboches de vários tipos. Depois o levaram ao “governador” Pôncio Pilatos, houve um diálogo entre eles, sob a acusação de Ele ser “reis dos judeus”. Ali, depois de açoitado, recebeu o flagelo da ironia cretina: o trajaram com as coisas que lembravam os reis. Puseram uma coroa de espinhos na cabeça, os soldados o vestiram com um manto vermelho, puseram um caniço na sua mão como cetro, ajoelhavam-se diante dele e, com sarcasmo, o saudavam gritando: Salve o rei dos judeus!.. No diálogo com Pilatos, Jesus esclareceu: “O meu reino não é deste mundo… Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Deixou claro que não pretendia ocupar o lugar de Pilatos nem de César Tibério, pois não é deste tipo de reis. Seu reinado não se baseia na desigualdade e injustiça, nem no poder opressor e repressor. Mas veio ao mundo para dar testemunho da verdade (será mártir da verdade). Seu reinado se baseia no amor infinito de Deus pelo mundo e pelos excluídos, um reino de justiça e de paz.

Como tinham medo das repercussões políticas dos gestos de Jesus (entrada  espetacular em Jerusalém, expulsão dos comerciantes do Templo, ser um profeta corajoso formando seguidores…) , podia repercutir mal diante do imperador romano, mesmo Jesus não tendo armas nem organizar um movimento para um levante contra o poder estabelecido. O Sinédrio sentia que era preciso “manter a ordem”. Então, diante da pressão popular e de sua insegurança pessoal, decidiu pelo castigo mais horrível da época: a crucificação. Jesus é assassinado porque o reino de Deus defendido por Ele “põe em questão ao mesmo tempo toda aquela armação de Roma e do sistema do templo. (…) Jesus estorva. Invoca Deus para defender a vida dos últimos. (…)Ele defende os mais esquecidos do Império; Pilatos protege os interesses de Roma. O Deus de Jesus pensa nos últimos; os deuses do Império protegem a pax romana (exército). (…)  No fundo Jesus é crucificado porque sua atuação e sua mensagem sacodem pela raiz esse sistema organizado a serviço dos mais poderosos do Império romano e da religião do templo” (Pagola. Jesus – aproximação histórica, p. 463). Quanta semelhança com o contexto brasileiro de hoje e quanta lição para nós cristãos!…

  1. Jesus dá a vida por amor

Condenado injustamente pelos homens do poder econômico, político e religioso, Jesus sofre e se angustia como todo ser humano em horas trágicas, mas vai até o fim sem trair o projeto do Pai e sem deixar de nos amar até as últimas consequências. Com ele, na cruz estavam aqueles e aquelas pelos quais ele viveu e gastou sua vida; os aleijados, as crianças, as mulheres, os impuros, os pecadores, os doentes, os marginalizados, enfim todos os excluídos, os empobrecidos e sofredores. Com Ele na cruz estão os crucificados de hoje: os doentes, os sem-assistência, os que não têm acesso à terra, ao estudo e ao emprego, os que sofrem exclusões diversas, os desprezados e odiados, bem como os que sofrem por lutarem pela paz e pela dignidade dos seres humanos… Na cruz, ainda, Jesus entrega sua mãe a João, que nos representa, para ser nossa mãe, e Mãe da Igreja. Sua morte confirma “o que foi sua vida inteira: confiança total num Deus que não exclui ninguém de seu perdão” (id., p. 267).  Mas Jesus Crucificado deu e dá a vida hoje “acolhendo os pecadores e excluídos, mesmo que sua atuação cause irritação no templo. (…) oferecendo ‘salvação’ aos que sofrem o mal e a enfermidade: dará ‘acolhida’ aos que são excluídos pela sociedade e pela religião; dará o ‘perdão’ gratuito de Deus a pecadores e pessoas perdidas, incapazes de voltar à sua amizade. (…) Por isso, a cruz nos atrai a nós cristãos. (…) porque em sua crucificação vemos o serviço último de Jesus ao projeto do Pai e o gesto supremo de Deus entregando seu Filho por amor a humanidade inteira” (id., 267). É Deus acolhendo e salvando na cruz de Jesus os crucificados de hoje em nossa história social, religiosa, econômica e política.

 

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