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Padre Ivo Pedro Oro

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Reflexão

PARÁBOLA DOS TALENTOS: NÃO ENTERRAR A VIDA

PARÁBOLA DOS TALENTOS: NÃO ENTERRAR A VIDA

Uma REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 33o. DOMINGO DO TEMPO COMUM (19.11.17): Mt 25,14-30

O Papa Francisco propõe mudanças e nos pede ousadia na missão, mas muitas vezes nos acomodamos em manter o ritmo católico de sempre. Muitos têm receio de “problemas” e buscam tranquilidade. Não querem assumir compromissos e preferem ficar na folga e no seu cômodo bem-estar. Detestam quando há alguma mudança, seja na catequese seja na liturgia, ou em outras atividades, como as missões populares. Desafiar-se ao novo implica em investir mais a vida e os dons, por isso os assusta… É para nós que Jesus conta a parábola dos talentos. Um homem ia viajar para longe e deixou seus bens ao cuidado de três servos. Dois pegaram uma quantia e foram investindo e trabalhando: os bens renderam o dobro. O terceiro enterrou o talento, provavelmente por medo do senhor, e para não se incomodar com refletir, desafiar-se e trabalhar. O senhor, ao voltar, o chamou de “preguiçoso e negligente”. Pensou na sua acomodação e não nos possíveis resultados para o senhor, que na história representa Deus.

  1. Criatividade e inovação

Recebemos de Deus a vida, o tempo da existência, milhões de oportunidades, muitos e diferentes dons e potencialidades. Recebemos companhias e ajudas de variadas formas, sempre nos compartilhando a vida a cada passo. A parábola é clara: tudo isto tem que render para o Reino de nosso Senhor. É por sua graça que somos o que somos, que temos o que temos, que podemos o que podemos. Recebemos de graça para doar e doarmo-nos gratuitamente ao serviço do próximo e do Reino. Quem tem mais deve fazer render mais; quem recebeu menos pode render menos, mas tem que frutificar. Pois tudo faz parte do mistério da vida e tem como objetivo o vida do Reino. Nada que vem de Deus se destina ao mal, ao egoísmo, ao gozo individualista e vaidoso. “A mensagem de Jesus é clara. Não ao conservadorismo, sim à criatividade. Não a uma vida estéril, sim ao esforço arriscado por transformar o mundo. Não à fé enterrada sob o conformismo, sim ao seguimento comprometido com Jesus.” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 312). A mensagem sobre a mulher forte do Livro dos Provérbios também exalta sua criatividade e dedicação, os seus dons renderam em resultados para a família e para os pobres (1ª. Leitura). O maior risco não é errar por querer mudar ou abrir novos caminhos, mas sim errar por engessar o vigor da fé e do evangelho com os laços de nosso comodismo e passividade.

  1. “Fiquei com medo e escondi o teu talento no chão”

Esse servo que recebeu um talento é o tipo de muitos de nós, ou de muitas situações de nossa vida. Ele “não se sente identificado com seu senhor, nem com seus interesses. Em nenhum momento age movido pelo amor. Nem ama seu senhor, só tem medo dele. E é precisamente este medo que o leva a agir buscando sua própria segurança” (p.313). Quantas vezes fugimos da responsabilidade, mantemos improdutivos os talentos, não nos comprometemos com ações e iniciativas que ajudam a concretizar o Reino na sociedade e, ainda pior, não queremos uma Igreja atuante na sociedade para ficarmos com uma fé apenas no íntimo e no espírito, não na ação para uma “vida em abundância” para todos e todas. Se fugimos do gastar tempo e do arriscar-se pelo mundo melhor, estamos fugindo da conversão e fingindo que somos cristãos. O terceiro servo é condenado (e nós talvez também), não por ser mau, mas por seu medo e acomodação que o fizeram enterrar seu talento.

  1. A quem tem será dado mais

Precisamos entender bem a lição final tirada e anunciada por Jesus: “A todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. Vamos descartar, de cara: Jesus não está aprovando acumulação de bens e desigualdade social! A parábola se refere ao Reino de Deus. Os talentos são nossos dons e nossas condições (o que somos, o que temos e o que podemos), que precisam render de acordo com nosso Senhor. Dele recebemos, e para ele precisam frutificar. Na medida em que nos vamos envolvendo na vida da Igreja, nos aprofundando na Palavra e atuando em ações comunitárias e coletivas, mais enxergamos e mais condições temos para nos dedicar ainda mais. Aí se realiza a frase: “a quem tem será dado mais”. Se Deus nos concede seus dons é porque confia em nós. Não precisamos ter medo, nem enterrar nossa vida deixando-a estéril e inútil: “Quem só se dedica a conservar sua virtude e sua fé, corre o risco de enterrar sua vida. No final não teremos cometido grandes erros, mas também não teremos vivido” (p.315). Junto com o erro do medo está outro erro: o de pensar que está sendo fiel a Deus conservando “enterrado” seu talento. Jesus critica “a atitude conservadora de quem, com medo do risco, reduz a fé a mera autoconservação, impedindo seu crescimento e expansão” (p. 315). Nossa tarefa não é apenas “ficar numa pastoral de conservação”, manter o que se tem e o que se faz, nem apenas conservar o passado, ou como no passado. Novos tempos, novos apelos de Deus e novos chamados para novas ações!!!

A quem não faz render para o Reino os seus dons, no julgamento ouvirá: “Jogai-o lá fora na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes”. E São Paulo afirma aos tessalonicenses: “Não somos da noite, nem das trevas. Portanto, não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios” (2ª. Leitura).

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AS JOVENS DA LÂMPADA APAGADA E OS CRISTÃOS MEDÍOCRES

AS JOVENS DA LÂMPADA APAGADA E OS CRISTÃOS MEDÍOCRES

 Uma REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 32o. DOMINGO DO TEMPO COMUM (12.11.17): Mt 25,1-13

Quando Mateus resgatou e escreveu a parábola das 10 moças – 5 se preveniram com óleo para as lâmpadas e 5 foram sem o óleo – a fé de muitos cristãos tinha esmorecido, eles haviam relaxado na vida cristã. Por isso a parábola visa a tornar mais viva a conversão e mais firme o seguimento a Jesus. É apenas uma parábola, dentro da cultura da época, falando de uma festa de casamento na qual um cortejo de dez garotas esperava e acompanhava a entrada  do noivo na sala de festa. Altas horas da noite, todas cochilaram; foram acordadas pelo grito: “O noivo está chegando! Saiam ao encontro dele!” As desprevenidas, sem o óleo da lamparina, pediram óleo às outras. Elas não o forneceram porque seria insuficiente para elas. As “desorganizadas” tiveram que sair para compra-lo. As prudentes entraram para a festa e aporta foi fechada. Ao chegarem as outras, a porta não lhes foi aberta: “Na verdade, não vos conheço!” “A parábola é simplesmente um convite a vivera adesão a Cristo de maneira responsável e lúcida, agora mesmo, antes que seja tarde. Cada um deve saber que precauções deve tomar.” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.304).

  1. Acompanhar Jesus com as lâmpadas acesas

O evangelho faz um paralelo entre os dois tipos de garotas. Provavelmente, havia nas comunidades de Mateus cristãos que assumiam pra valer o seguimento, e cristãos mornos, descuidados, negligentes. Jesus chama de “tolas” ou “sem juízo” as desprevenidas de óleo. Este óleo carregado pelas moças prudentes pode significar a atenção permanente à prática da Palavra de Deus, o seguimento responsável a Jesus, o cultivo de uma vida interior com espiritualidade e comprometimento com o Reino. Para isso, é preciso ter confiança absoluta em Deus e não no bem-estar e conforto, como mostram os sonhos de consumismo da sociedade atual. As jovens prevenidas, quando estava chegando o noivo, saíram com suas lâmpadas para iluminar o caminho, acompanha-lo e entrar com ele para a festa. Quem quer seguir verdadeiramente a Jesus, precisa ser muito vigilante, atento, preparado, pois a qualquer hora é preciso tomar posição pelo Evangelho, arregaçar as mangas e trabalhar, colocar seus dons, seu tempo e suas energias a serviço do Senhor. Mas é este o único caminho para “entrar com ele para a festa do casamento”. Deixar-se guiar pela luz do Senhor e ser luz no caminho do Senhor. Discípulos “apagados” não fazem parte do Reino e não entram na sua festa.

  1. Cristãos sem e sem esperança

As jovens “sem juízo”, desinteressadas no seu serviço, podem simbolizar uma quantidade enorme de cristãos que “constroem sua casa na areia”. Querem seguir a Jesus, mas sem levar o “óleo” consigo: pensar “ir levando” a vida de cristãos apenas como fachada, sem viver de fato com Jesus e seguir o seu caminho. Pensam que podem ser cristãos “de lâmpadas apagadas”, sem seguir sua luz. Conhecer e viver o Evangelho é o fundamento para acender suas lâmpadas. É impossível seguir Jesus sendo “discípulo apagado”. A vinda de Jesus não ocorre só no final dos tempo, mas a todo momento é hora de seu apelo, de “entrar com ele”.

“Infelizmente, hoje, “somos mestres em fazer todo tipo de cálculos e previsões para não correr riscos no futuro. Preocupamo-nos em assegurar nossa saúde e garantir nosso nível de vida; planejamos nossa aposentadoria e organizamos uma velhice tranquila para nós. Tudo isso é muito bom, mas não deixamos de ser insensatos…: todas essas seguranças fabricadas por nós são inseguras” (idem, p.306). Jesus mostra que precisamos olhar para o horizonte da “vida eterna” e ser vigilantes: “Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora”. Quem confia no Senhor e tem nele sua esperança não se basta a si mesma, não se contenta com seu conforto e bem-estar. Ao contrário, é insatisfeita. “Jesus Cristo me deixou inquieto”, canta o Pe. Zezinho. “Juventude missionária, inquieta e solidária”, canta o Zé Vicente.

Que isto nos anime a superar tanta desesperança, hoje manifesta na tristeza, na perda de confiança, no cansaço geral (cansado da vida), no estresse, no tédio, no vazio, na falta de sentido. É preciso ir ao encontro da sabedoria e amá-la. “Meditar sobre ela é a perfeição da prudência”, diz o Livro da Sabedoria (6,15). Estar vigilante aos apelos de Jesus agora para sermos um dia “arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos sempre com o Senhor”, diz a segunda leitura (1Ts 4,17).

BEM-AVENTURADOS E FELIZES: SERÁ QUE NÓS SOMOS ???  

BEM-AVENTURADOS E FELIZES: SERÁ QUE NÓS SOMOS ???

 Uma REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS (05.11.2017): Mt 5,1-12.

O Evangelho deste domingo trata das bem-aventuranças que anunciam a dinâmica do Reino de Deus. Elas nos trazem presentes nove ensina­mentos de Jesus que através de sua vivência, palavras e ações mostram o caminho certo para a verdadeira e plena felicidade. Pelo batismo re­cebemos a identidade de cristãos, de pertença ao Reino de Deus e da santidade que devemos descobrir e valorizar em cada um de nós. Somos chamados à vida e à santidade. Ser santo não é fazer milagre nem viver sempre rezando. Ser santo é viver bem no caminho do Senhor, sobretudo orientar sua vida pela prática do amor fraterno, defesa da justiça e igualdade e da promoção da vida das pessoas fragilizadas e do Planeta.

No Evangelho, algumas bem-aventu­ranças são uma condição de sofrimento pela causa do Reino e de exclusão social: os mansos (subjugados), os que têm fome e sede de justiça (que sofrem injustiças), os aflitos (por situações diversas de sofrimentos), os perseguidos por causa da justiça. Outras bem-aventuranças são  um esforço para viver no caminho do Senhor: bem-aventurados os pobres em espírito (desapegados, não fazem dos bens materiais o centro da sua vida), os misericordio­sos (que têm compaixão dos que sofrem), os puros de co­ração (não os maldosos e maliciosos), os que constroem a paz (promovem a paz social e relações pacíficas)… “Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insul­tarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.” Bem-aventurados hoje os cristãos que não desanimam nem “entregam as fichas” diante das formas atuais e sutis de perseguição que são a indiferença, a desconsideração, o desprezo, as críticas e a falta de colaboração… Pois, “deles e delas é o Reino de Deus.

 

Esta felicidade proposta pelo Reino de Deus é muito diferente – pra não dizer oposta – da felicidade que o capitalismo nos propõe. Vejamos algumas das promessas de felicidade incutidas nas pessoas pela sociedade consumista. Aí, felizes são os que acumulam, que aumentam o capital. No capitalismo feliz é quem vive em festas e farras, banquetes e diversões. NO modo de produção capitalista felizes são os donos de imensas áreas de terra. Os noticiários e reportagens, ultimamente, mostraram a alegria e a felicidade de quem comprou voto no Congresso com uso de dinheiro público, alegrando-se por cometer injustiças e continuar dominando sobre o povo. A sociedade de consumo e individualismo declara felizes os egoístas, fechados apenas em seus próprios interesses, os que fazem do bem-estar e do conforto o sentido central de sua vida e a grande busca de sua existência. Na proposta de felicidade capitalista, em que o financeiro é o valor supremo, felizes são os desonestos, os sarcásticos, debochadores, falsos, perversos e cínicos. Alcançam sua aparente felicidade, tantas vezes com “jeitinho”, propinas, safadezas, desrespeito ao povo e, quase sempre, de formas violentas. Para os poderosos, perseguir quem luta pelo bem do povo, e eliminar ou condenar quem defendo o poder popular é sua suprema felicidade e máxima vitória.

Tudo isto, exatamente o contrário do que Jesus propõe, não apenas para alguns mais loucos ou ousados pelo Reino, mas a todos e todas os batizados. Como se observa, viver as bem-aventuranças não se faz apenas no espírito ou no sentimento. Elas são vividas na prática, nas relações nossas com as pessoas, com Deus, com os pobres, com a comunidade, e, especialmente, na forma evangélica de usarmos nossos bens e coisas materiais.
Que todos os santos e santas, que viveram as bem-aven­turanças e experimentaram já na terra a vida em Deus, intercedam por cada um e cada uma de nós. E que seu testemunho bonito de vida nos encoraje a também sermos mais santos.

 

 

 

 

 

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS NOSSOS FALECIDOS (02.11.17)

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS NOSSOS FALECIDOS/AS (02.11.17)

UMA REFLEXÃO SOBRE AS LEITURAS BÍBLICAS

A comemoração de todos os finados é para todos nós um dia de saudade e de amor. Trazemos presentes nossos entes queridos que nos deixaram. Com belo e salutar sentimento relembramos sua vida entre nós, os momentos de amor, de ternura e de auxílio na caminhada da vida. Agradecemos a Deus a vida deles conosco e todo o bem que, por sua graça, conseguiram realizar. Reaprendemos com o testemunho de suas virtudes e o bem que realizaram, e com isso nos fortalecemos. Renovamos nosso sentido de viver para Deus e de não nos afastarmos de seu caminho. Enfim, Dia dos Finados para nós é dia de vida. Tudo fala da vida, desde as flores, a liturgia, os sentimentos cultivados, até o aprofundamento da Palavra que nos propõe a crer na ressurreição e na vida. Para o cristão, morrer é viver. E encontrar-se com Cristo, vencedor da morte, é encher-se de vida, e desde já saborear da plenitude da vida eterna.

1ª. Leitura: Jó 19,1.23-27

Mesmo em situação de extremo sofrimento, Jó não perde nem a fé nem a esperança: “Eu sei que o meu redentor está vivo, e se levantará sobre o pó”. Ele crê em Deus vivo, não num deus-enfeite, num deus-pronto-socorro, nem num deus-desligado/desconectado da humanidade. Por isso afirma: “Depois que tiverem destruído essa minha pele, na minha carne verei Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão”. Para ele, quando for destruído nosso corpo e acabada a vida terrena, veremos Deus face a face, nosso ser se encontra com Deus, “e desfeito nosso corpo mortal, nos é dado nos céus um corpo imperecível”, rezamos no prefácio deste dia.

Evangelho: Jo 6,37-40

Após a grande partilha do pão, Jesus discorre sobre a vida verdadeira e sobre o plano de vida e de amor do projeto de Deus. Jesus vai afirmar que ele “é o pão da vida”, “o pão vivo descido do céu”; também que “quem comer deste pão viverá eternamente”. O texto desta liturgia mostra que “Jesus é o doador da vida. Ele não rejeita ninguém, pois cumpre a vontade do Pai que o enviou. E a vontade do Pai, expressa nas ações de Jesus, é que a vida seja abundante para todos, uma vida que supera a própria morte” (Bortolini, Como Ler o Evangelho de João, p. 76). Duas vezes o evangelho fala em ressurreição “no último dia”. Não entendamos que último dia seja nossa ressurreição no último dia, quando acabar o mundo, ou a humanidade. “O último dia, no evangelho de João, é o dia da ressurreição, tempo que se prolonga indefinidamente desde que Jesus venceu a morte. Na ressurreição de Jesus todos nós já ressuscitamos para a vida. E mesmo que tenhamos de morrer, a morte não terá a última palavra sobre nós.” (ibid.)

2ª. Leitura: Rm 5,5-11

São Paulo anima os romanos e a nós a vivermos na esperança. Ela se fundamenta no amor de Cristo. Quando no mundo é muito difícil alguém morrer por um homem justo ou por uma pessoa de bem, Jesus Cristo “morreu pelos ímpios”. Daí nossa esperança. E diz ainda: “Deus demonstrou seu amor para conosco porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores”. É por Cristo que somos justificados e salvos, reconciliados com Deus, por meio da morte e da ressurreição de Jesus.

Celebremos, pois, este dia sem nenhum exagero, nem nos sentimentos nem na frieza. Façamos nossa memória e liturgia celebrando a vida dos que partiram. Demos graças ao Senhor Deus da vida pela vida que concedeu a eles e a elas, pelo testemunho que nos deixaram e, especialmente, pelos momentos de vida, de afeto e de ações que conosco viveram e realizaram. Deus seja louvado, pela vida de nossos finados!

 

O AMOR A DEUS ACIMA DE TODO NÃO SE SEPARA DO AMOR AO PRÓXIMO

O AMOR A DEUS ACIMA DE TODO NÃO SE SEPARA DO AMOR AO PRÓXIMO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 30º. DOMINGO COMUM – dia 29/10/17: Mt 22,34-40

A Liturgia da Palavra deste domingo nos remete ao essencial da vida cristã: viver o amor. Um doutor da Lei perguntou a Jesus para o testar: “Mestre, qual é o maior mandamento?” Os escribas ensinavam e cobravam a observância de 613 mandamentos que, segundo eles, constavam na Lei. É evidente que, nessa quantia enorme, deve haver os principais e os secundários, os mais essenciais e menos, e os mais e os menos importantes mandamentos. Daí a pergunta sobre qual o “maior mandamento”. E foi muito oportuna, pois “Quando as religiões esquecem o essencial, facilmente se adentram por caminhos de mediocridade piedosa ou de casuística moral, que não só incapacitam para uma sã relação com Deus, mas podem até prejudicar gravemente as pessoas” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.280).

  1. O amor a Deus e ao próximo

“Jesus lhe respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma e com todo o teu ser. Este é o maior e o primeiro mandamento. Mas o segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas’.” A primeira parte era rezada todo dia, ao amanhecer e ao anoitecer, pelos homens judeus: “Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”. Isto era o principal, ajudava a lembrar de Deus e viver focado nele. Jesus, porém, acrescentou “o segundo” que ninguém lhe havia perguntado: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E os coloca em pé de igualdade e inseparáveis: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. É impossível amar a Deus acima de tudo se não amar os seres humanos, especialmente os últimos da sociedade, a quem Deus tanto amar. Também não basta “focar em Deus”, ou “centrar a vida nele, buscando saber a sua vontade”: “Não é possível amar a Deus e viver esquecido das pessoas que sofrem e às quais Deus ama tanto. Não há um ‘espaço sagrado’ no qual possamos ‘entender-nos’ a sós com Deus, de costas para os outros. Um amor a Deus que esquece seus filhos e filhas é uma grande mentira” (idem, p. 280). Deus nos pede que amemos: nada é mais importante do que isso, nem mesmo a prática de uma religião. Amar o próximo é uma forma de conversão a Deus: “Vós nos acolhestes e vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro”, diz São Paulo (1Ts 1,9).

  1. Amor é paixão por Deus e compaixão pelos humanos

Em nossa Igreja não temos seiscentas normas a cumprir, mas tantas vezes nos detemos aferrados a orientações conjunturais e não ficamos no essencial: “Vai, vende o que tens, ajuda os pobres…” (Mc 10…); “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35); “Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês” (Jo 15,12).

Vejamos o que Pagola nos anima a viver: “Que religião seria aquela em que a fome dos desnutridos ou o excesso dos satisfeitos não provocasse nenhuma pergunta nem preocupação aos crentes? Não estão desencaminhados aqueles que resumem a religião de Jesus em ‘paixão por Deus e compaixão pela humanidade’” (p. 281). Nós cristãos temos que amar, porque estamos em Deus e “Deus é amor” (1Jo 4,8) “Quem ama a Deus e se sabe amado por Ele com amor infinito, aprende a olhar-se, estimar-se e cuidar-se com verdadeiro amor” (p.282), e “a única postura humana diante de qualquer pessoa que encontramos na vida é amá-la”, pois “a pessoa é humana quando sabe viver amando a Deus e a seu próximo” (p.283). E acrescenta Pagola: “A falta de amor vai fazendo do ser humano um solitário, um ser sempre atarefado e nunca satisfeito. A falta de amor vai desumanizando nossos esforços e lutas para obter determinados objetivos políticos e sociais. (…) E, se nos falta amor, falta-nos tudo. Perdemos nossas raízes. Abandonamos a fonte mais importante de vida e felicidade” (p. 283-284). “Ser cristão não é sentir-se bem nem mal, mas sentir os que vivem mal, pensar nos que sofrem e reagir diante de sua impotência, sem refugiar-nos em nosso próprio bem-estar. (…) Não basta perguntar-nos se cremos em Deus ou o amamos. Temos de perguntar-nos se amamos como irmãos aqueles que sofrem.” (p. 285).

O caminho do amor foi o proposto por Deus já ao antigo povo: “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro… Não faças mal algum à viúva nem ao órfão. Se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei o seu clamor…Se emprestares dinheiro… não cobres juros. Se tomares como penhor o manto…deverás devolvê-lo antes do pôr-do-sol…Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso”, meditamos na 1ª. leitura (Ex 22,20-26). Quer dizer, as orientações e normas já no Antigo Testamento eram no sentido de defender os pobres, os estrangeiros, os coitados, de promover a vida. Exatamente o contrário da maioria das lei aprovadas pelo Congresso Nacional brasileiro nos últimos tempos, que buscam dar mais privilégios aos grandes, reduzir as multas de empresários (que poderiam ter pago as dívidas e não pagaram) e de eliminar direitos e reduzir políticas públicas que amparam os que mais precisam.

 

 

“DAR A DEUS O QUE É DE DEUS”: O POVO PERTENCE A DEUS, NÃO AOS GOVERNANTES IMPERADORES

“DAR A DEUS O QUE É DE DEUS”: O POVO PERTENCE A DEUS, NÃO AOS GOVERNANTES IMPERADORES

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 29º. DOMINGO COMUM – dia 22/10/17: Mt 22,15-22

Neste Dia Mundial das Missões, Jesus nos ensina que “César” não é Deus, e que o povo não é de César. Uma frase bíblica decorada e sempre distorcida e mal empregada na política brasileira é esta: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Usam para dizer que Deus e a religião não têm nada a ver com política e que a política é guiada pelos políticos profissionais.

  1. Os fariseus e herodianos fizeram um plano para apanhar Jesus. Mandaram discípulos deles a perguntar-lhe: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. (…) Dize-nos, pois, o que pensas: ‘É lícito ou não pagar o imposto a César?’ Conhecendo a malícia deles, Jesus falou: ‘Por que me testais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do imposto’. Eles lhe apresentaram um denário. Jesus perguntou: ‘De quem é essa imagem e inscrição?’ Eles responderam: ‘De César’”.

Líderes de partidos diferentes, e contrários em alguns pontos, se uniram para armar uma emboscada. (Como ocorre no Brasil, contra interesses populares.) Chegaram elogiando Jesus, como muitos falsos discursos de governante de plantão. Puseram Jesus “entre a faca e a parede”; perguntam se era lícito pagar o imposto ao imperador. Se ele respondesse Não, seria denunciado por eles ao império; se dissesse Sim, seria taxado como inimigo do povo pobre. O imposto era uma verdadeira extorsão: em torno de 46% dos produtos agrícolas, pecuários e artesanais. E o pior: praticamente sem nenhum retorno. O império não praticava nenhuma política pública de saúde, educação, assistência social e previdenciária. Os pobres ficavam à mercê das ações pessoais de caridade, ou pequeno retorno do dízimo, nada do Império… Jesus pediu que mostrassem a moeda. Esta tinha a imagem do imperador, onde estava escrito: “César Tibério, filho do venerável e divino Augusto” e, atrás, “Pontífice Máximo”. Aí, duas questões: a) A frase qualifica o imperador como Deus, o que Jesus não aceita; b) Jesus está consciente de que “a Javé pertence a terra e tudo o que ela contém, o mundo e os que nele habitam” (Sl 24,1). O ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, pertence a Ele, não ao imperador. Quem está enrolado no sistema do império, que cumpra suas obrigações. Mas o povo, especialmente os pobres, merece respeito, porque é imagem de Deus e a Ele pertence, “deles é o Reino de Deus”.

  1. “Então Jesus lhes disse: ‘Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”

Em outras palavras Jesus afirma: “Pagai a César o que é de César, mas dai a Deus o que é de Deus”. Ou seja, “dar a Deus o que é de Deus” significa que os humanos (imagem de Deus) nunca devem estar submetidos a um imperador ou ditador, nem a governo de exceção: “Os pobres são de Deus; os pequenos são seus filhos prediletos; o Reino de Deus lhes pertence. Ninguém deve abusar deles” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 272). Com esta resposta, Jesus mostra: a) que não está a serviço nem bajulando o império; b) que não concorda que os pobres, que o povo pague esse tributo; c) que o povo pertence a Deus, por isso, que não seja oprimido pelos “imperadores” que organizam as leis em função de si próprios. Como afirma Isaías (1ª leitura), falando em nome de Deus: “Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus” (Is 45,5).

Portanto, nós seguidores de Jesus “devemos resistir para que ninguém, perto ou longe de nós, seja sacrificado a nenhum poder político, econômico, religioso ou eclesiástico. Os humilhados pelos poderosos são de Deus. De ninguém mais” (idem, p. 273). Nenhum governo tem direito à vida e dignidade dos cidadãos. Ao contrário, ele é que deve submeter-se ao serviço do povo e da construção da cidadania. Em grande parte, o que verificamos no Brasil atual é praticamente o contrário…Sejamos todos missionários e missionárias pela nossa palavra, pela nossa vivência, pelo nosso testemunho e ações. Também pela doação em dinheiro para contribuir nas obras missionárias da Igreja. Que a Alegria do Evangelho nos ajude a sermos uma Igreja em saída!…Sejamos como os tessalonicenses (2ª leitura): “Recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 1,3).

 

 

 

 

DEUS NÃO ESTÁ EM CRISE: CONVIDA A TODOS PARA O BANQUETE DE VIDA PLENA

DEUS NÃO ESTÁ EM CRISE: CONVIDA A TODOS PARA O BANQUETE DE VIDA PLENA

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 28º. DOMINGO COMUM – dia 15/10/17: Mt 22,1-14

Deus quer para nós vida com alegria, felicidade e salvação. Jesus retrata isso na parábola do banquete. O rei representa Deus; o seu filho representa Jesus; os primeiros convidados são as lideranças religiosas e políticas do povo; e os enviados para convidar são os profetas e mensageiros. Deus prepara uma festa (= vida com justiça e alegria) para todos seus filhos e filhas, na qual estejamos sentados ao seu lado, numa grande fraternidade, nos banqueteando da gostosa vida plena. Mas a parábola revela que nós, seres humanos, atendemos outros convites e arranjamos desculpas para recusar o convite que Deus, amorosamente, nos faz.

  1. As desculpas e recusas

“Os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram”, diz a parábola. Como hoje é difícil ouvir o convite de Deus a participar do seu reino, de ter tempo, energia e recursos para a sua missão! Recusamos, muitas vezes conscientemente, ou indiferentes, ou até com agressividade. A parábola ressalta o motivo da “lavoura” e dos negócios. Sem dúvida, o envolvimento com o trabalho, a produção capitalista absorve atenção, tempo e investimento, e Deus acaba ficando geralmente em último lugar. Na sociedade capitalista, dizia Karl Marx, “acumular, acumular: nisto consiste a lei e os profetas”. E como dizia Max Weber, aí as pessoas “carecem de ouvidos para o religioso”. Em vez do convite de Deus e de participar do seu Reino, hoje, para a maioria das pessoas, “a felicidade está em ter mais, comprar mais, possuir mais coisas e mais segurança. (…) Outros buscam o gozo imediato e individualista: sexo, droga, diversão, jantares de fim de semana; é preciso fugir dos problemas; refugiar-se no prazer do presente. Há ainda os que se entregam ao cuidado do corpo: o importante é manter-se em forma, ser jovem, não envelhecer nunca” (Pagola. O Caminho aberto por Jesus – Mateus, p. 267). E vão respondendo não ao convite do banquete da vida plena e verdadeira.

  1. O convite de Deus é para todos

“O rei disse aos empregados: a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes. (…) E a sala da festa ficou cheia de convidados”, continua a parábola. Jesus mostrava na prática que todos são convidados. Ele fazia refeição junto com excluídos, pobres, pecadores, os “fora da lei” daquela época. O desejo de Deus é que esta festa já aconteça agora, em nosso mundo atual: a vida sendo uma imensa confraternização entre todos, na igualdade, na justiça, nos direitos respeitados, com condições de vida digna, as necessidades básicas sendo atendidas, enfim, a sociedade tendo vida de irmãos e irmãs, com paz e alegria. Como estamos ainda longe deste sonho de Deus! Temos ainda um longo caminho a percorrer, embora, olhando bem, vemos sinais de vivência e de luta para isso em nossas comunidades e nos movimentos populares. Mas tenhamos claro: a plenitude desta festa será no mundo futuro, quando haverá um novo céu e uma nova terra. As pessoas se dizem em crise, as religiões talvez estejam em crise, mas Deus não está em crise, ele tem seus caminhos e seus métodos para fazer chegar seu convite a todas as pessoas que estão nas “encruzilhadas da vida”, nas “periferias existenciais”, onde os rostos humanos revelam o rosto sofrido de Deus hoje. Os que têm condições e deveriam ser os primeiros a participar do banquete recusam o convite de Deus. Mas o seu Reino não vai parar: o convite chega então às encruzilhadas, aos últimos da sociedade. Como afirma Pagola, “satisfeitos com o nosso bem-estar, surdos a tudo que não seja nosso próprio interesse, achamos que não precisamos de Deus” (p.265), e nos acostumamos a viver sem a esperança última e mais profunda.

Deus, porém, continua a oferecer “um banquete de deliciosas comidas, com vinhos puros e finos”, e quer eliminar “para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra de seu povo”, diz Isaias na 1ª. leitura (Is. 25,6-10ª). As relações interpessoais e sociais dependem de nós, como afirma São Paulo, na 2ª. leitura: “Aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. Tudo posso naquele que me dá força” (Fil 4,12-14.19-20).

Para atender o convite e participar do banquete do Senhor, digamos sim ao seu chamado e sejamos todos missionários e missionárias. E, no próximo fim de semana, ajudemos a obra missionária de Deus com nossa contribuição na coleta das missões.

 

MÃE APARECIDA, AJUDE-NOS A SERMOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS

MÃE APARECIDA, AJUDE-NOS A SERMOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da Solenidade de N. Sra. da CONCEIÇÃO APARECIDA – 12/10/17 – Jo 2,1-11

Estamos encerrando o Ano Mariano. Tivemos a oportunidade de vivenciar intensamente nossa devoção a Maria, de venerá-la de forma sincera, não interesseira, e seguindo seu testemunho de mulher que acolhe a Palavra e a guarda sem seu coração. Foi um ano para celebrar, fazer memória e agradecer. Comemoramos hoje os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas águas do rio Paraíba do Sul. Os pescadores pobres tiveram uma experiência de insucesso: não haviam pescado nada. Mas, perseveraram no trabalho, encontraram a imagem e pescaram grande quantidade. Tornaram-se missionários, partilhando com os vizinhos a graça recebida. Esta é uma lição sobre a missão da Igreja no mundo: “O resultado do trabalho pastoral não se assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor”, como diz o Papa Francisco.
A aparição da imagem já revela a opção de Deus e de Maria pelos pobres: “Com ela identificam-se todos os que são oprimidos e postos à margem em nosso país. Além do mais, ela quis aparecer negra, identificando-se, assim, com os escravos de ontem e de hoje” (Bortolini, José. Roteiros Homiléticos, p. 779).

  1. A simbologia das bodas de Caná

João não fala em milagres. Fala em sinais, e este em Caná foi o primeiro sinal realizado por Jesus. Sinal revelador de que Jesus dá a vida, por amor e até as últimas consequências. João o descreve em linguagem repleta de símbolos. No “sexto dia”: lembra o dia da criação do homem e da mulher. Aqui sugere que com Jesus inicia uma nova humanidade. As “seis talhas de pedra vazias”: pedra lembra as tábuas da Lei, dos mandamentos; seis eram as festas judaicas relatadas no evangelho de João; “destinadas à purificação” – mostra um relacionamento difícil com Deus distante; não filial, com amor e misericórdia; “vazias” – o conteúdo daquelas práticas é ineficaz, não torna nosso encontro com Deus uma festa; as “bodas” sugerem que em Cristo se estabelece uma aliança de amor de Deus conosco; o “noivo verdadeiro” desta união é Jesus e a “noiva”, que nem é citada no texto, somos nós – humanidade – na medida em que estivermos profundamente unidos a Jesus, numa aliança verdadeira: “Esse relacionamento íntimo tem como única razão de ser o amor total e a fidelidade plena, representados pelo vinho novo e abundante que o Messias-esposo oferece” (id., p. 782).

  1. Maria olha por nós e nos encaminha a Jesus

O Evangelho diz que a “mãe de Jesus estava lá”, possivelmente fosse parente ou amiga dos que promoviam a festa. Há duas frases pronunciadas por Maria neste relato. A primeira é a dita a Jesus: “Eles não têm mais vinho”. Vinho era sinal da alegria e do amor conjugal. Se falta esse amor, como o vinho na festa, precisa ser recriado pelo Messias. Quem sabe, junto de Deus, a padroeira do Brasil esteja dizendo: “Eles não têm mais sentido de vida”; “eles e elas estão perdendo a esperança”; “as pessoas não têm mais o vinho da alegria e do amor fraterno”; “as famílias perderam o gosto do diálogo e da convivência”; “os pobres do Brasil perderam direitos e não têm mais governo preocupado com o bem comum”; “as comunidades não têm mais o gosto da alegria do Evangelho e da liturgia”… A outra frase de Maria foi dita aos serventes: “Fazei tudo o que Jesus disser”. Somente com a obediência a Jesus e seguindo sua palavra poderemos fazer acontecer a vida nova e o novo mundo com os quais tanto sonhamos. Sem Ele, a vida da humanidade jamais terá a alegria e a abundância como “uma festa de casamento”. Maria não chama atenção para si. Ela sabe que o centro de nossa vida é Jesus.

A primeira leitura (Est 5,1-2;7,2b-3) mostra Ester encantando o rei que a autoriza a fazer um pedido. Ela revela seu desejo de ela e o povo viverem: “concede-me a vida, e a vida de meu povo – eis o meu desejo!”. Ela é prefigura de Maria, que também quer vida para o povo brasileiro, e não concentração nas mãos de alguns e miséria e sofrimento para a maioria.

A segunda leitura (Ap12,1.5.13ª.15-16ª) mostra o Dragão (símbolo do Império Romano) querendo devorar o filho (a nova vida, o povo em comunidades) gerada pela mulher (Igreja). Esse Dragão “representa as forças opressoras e de morte que se encarnam em pessoas e arranjos sociais, dificultando o testemunho das comunidades proféticas, procurando devorar os frutos das mesmas” (id., p. 783). Que a nossa Igreja siga sempre o exemplo de Maria, gerando mais vida ao povo em suas pastorais e comunidades, e assim construir o Reino de Deus.

A VINHA TEM QUE PRODUZIR FRUTOS

A VINHA TEM QUE PRODUZIR FRUTOS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 27º. DOMINGO COMUM – dia 08/10/17: Mt 21,33-43

Neste segundo domingo do mês missionário, a parábola dos cuidadores da vinha nos desafia a cuidar e cultivar bem da obra de Deus. Deus espera colher frutos do Reino de Deus, os frutos que combinam com seu plano de amor e de vida para todos.

  1. Uma parábola dura e profética

Estamos diante de uma parábola, dirigida aos líderes religiosos daquele tempo, mas que pode ser muito bem aplicada a nós cristãos hoje. Um senhor arrenda uma vinha a lavradores. No tempo da colheita eles se recusam a dar ao dono a parte dos frutos que ele espera. Pior, vão matando os enviados do senhor para receber a sua parte. E, quando envia seu filho, esse é assassinado por eles. Jesus lhes pergunta: “Quando chegar o dono da vinha, o que fará ele com esses lavradores? Eles respondem: ‘fará perecer de morte horrível os malfeitores e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe entreguem os frutos a seu tempo’. Então Jesus lhes diz: (…) ‘O Reino de Deus será tirado de vós e será dado a um povo que produza os devidos frutos’”.

  1. Produzir fruto no pomar do Senhor

Os líderes religiosos no tempo dos profetas, os rejeitaram, maltrataram e até os mataram, como se relata na parábola. Não acolheram os enviados do Senhor. Deus não pôde colher uma humanidade repleta de bondade, misericórdia e justiça. E, quando veio o Filho do Senhor, o perseguiram, condenaram injustamente e o crucificaram. “Na ‘vinha do Senhor’ não há lugar para os que não trazem fruto.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.256). Quanta gente ocupa lugar na igreja, até em coordenações e serviços pastorais e missionários, fazendo-se de donos da vinha, como na parábola, negando de apresentar a Deus os frutos da sua obra, ou impedindo-a de produzir! O povo pertence a Deus, e o mundo também. Ninguém é dono do povo nem da Igreja. Nem a Igreja é proprietária do Reino. “Ninguém deve sentir-se proprietário de sua verdade nem de seu espírito. (…) O Reino de Deus está no ‘povo que produz frutos’ de justiça, compaixão e defesa dos últimos” (p. 257). Aqui somos apenas “lavradores” na vinha do Senhor, servidores do seu Reino. A vinha, ou a lavoura de Deus precisa produzir os frutos. Se nós não a cuidarmos adequadamente, será entregue àqueles que amam a justiça e o direito, a compaixão pelos últimos, o amor e a misericórdia.

  1. Não calar nem perseguir os enviados do Senhor

Como ocorreu no tempo de Jesus, e antes também, pode ocorreu hoje no cristianismo: as perseguições para calar os profetas, os enviados autênticos de Deus. Mesmo quem está no cristianismo, em posição ou função de destaque, não pode extinguir o Espírito nem, como diz a parábola, “pegaram o filho do patrão, arrastaram-no para fora da vinha e o mataram”. É preciso que o Evangelho produza frutos nos corações e nas relações sociais, nas relações de poder e de produção – justiça, igualdade, verdade, respeito aos direitos – e, para isso, a prática de Jesus e os clamores que sobem do povo sofrido devem contar muito mais do que estruturas caducas e pastoral de conservação. “Deus não é propriedade de ninguém. Sua vinha pertence só a Ele. E, se a Igreja não produz os frutos que Ele espera, Deus continuará abrindo novos caminhos de salvação.” (p. 259).

Finalizando, reflitamos com Pagola: “Nossa sociedade ocidental quase não produz ‘frutos do Reino de Deus’: solidariedade, fraternidade, serviço mútuo, justiça para os mais desfavorecidos e perdão. (…) Não é o momento de lamentar-se esterilmente. A criação de uma sociedade nova só será possível se os estímulos do lucro, poder e domínio forem substituídos pelos da solidariedade e da fraternidade” (p. 261). E, em face aos frutos amargos ou não produção dos frutos esperados por Deus, não se pode jamais atribuir a Ele a culpa dessa situação. Jamais nos falta condições nem a sua graça. Como diz Isaías: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” (Is 5,4). Também precisamos agir como nos orienta o apóstolo Paulo: “ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso…” (Fl 5,8). Assim, vamos nos desafiando a sermos todos missionários e missionárias. O cristão: ou é missionário ou não é cristão!…

 

 

 

 

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