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Padre Ivo Pedro Oro

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Reflexão

CONVERTER-SE PARA ACOLHER A BOA NOTÍCIA DO REINO

CONVERTER-SE PARA ACOLHER A BOA NOTÍCIA DO REINO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da 3º. DOMINGO DO TEMPO COMUM (21.01.18): Mc 1,14-20

Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a periferia do país, Galileia. Era chegado seu momento de ir ao povo e anunciar não uma doutrina religiosa, mas um acontecimento: a proximidade do Reino de Deus. Esta é a Boa Notícia. E como Deus nos quer bem e está entrando em nossa vida, precisamos acreditar, mudar nosso estilo e jeito de viver, acolher Deus com seu projeto.

  1. Apaixonar-se pelo Reino

Foi assim que fez Jesus. Está chegando e está presente. Chega de viver do passado. O tempo completou-se. Deus está aí. Seria como Jesus nos dizer hoje: “Aproxima-se um tempo novo. Deus não quer deixar-nos sozinhos à frente de nossos problemas e desafios. Quer construir junto a nós uma vida mais humana. Mudai a maneira de pensar e de agir. Vivei crendo nesta boa notícia” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p.34).

Jesus não definiu o que é esse Reino. Em parábolas, deu explicações que bastam para quem é bom entendedor. Podemos dizer que Reino de Deus é a nossa vida se realizando como Deus quer, de acordo com sua vontade: “Quando Deus reina no mundo, a humanidade progride em justiça, solidariedade, compaixão, fraternidade e paz” (p.35). Esse reino deve acontecer aqui na terra, mas em plenitude na vida futura. Para Jesus isso foi o valor absoluto, verdadeira paixão. Quem aceita e entra neste projeto, enxerga a realidade como Jesus enxergava, se compadece das pessoas como Ele, doa sua vida pelos outros como Jesus fez e dedica-se para tornar nosso mundo mais humano. “Quando se trabalha nesta direção, a fé se transforma, se torna mais criativa e, sobretudo, mais evangélica e mais humana” (p.35).

  1. Conversão para acolher o Reino

Converter-se é pensar bem, revisar a vida, viver diferente, mudar de rumo. Mudar o que tranca nossa vida em nós mesmos. Libertar-nos, confiando em Deus, do nosso egoísmo, do medo, da acomodação, do “deixar para os outros” e “esperar pelos outros” para fazer algo de bom. Eliminar os hábitos e “escravidões que nos impedem de crescer de maneira sadia e harmoniosa. A conversão que não produz paz e alegria não é autêntica” (p. 37). É acolher o Reino e sua justiça. Ninguém é perfeito nem plenamente santo. Mas conversão supõe o esforço sincero de progredir nesta direção: amar os pobres, querer mais igualdade, doar a vida pelos outros, viver em comunhão, em comunidade, e frequentemente ter templo para oração e meditação. Não ter medo de parar, de fazer silêncio, de refletir na vida: O que eu estou fazendo com a vida que Deus me deu? O que preciso mudar e fazer melhor ou a mais para ser mais coerente com o Evangelho? Caso contrário, a fé fica apenas numa ideologia e não numa atitude de seguimento de Jesus, no caminho do Reino. Tenhamos a certeza: a conversão nos faz bem e nos dá alegria e paz. Podemos ir mudando nossa vida medíocre, frustrada, eternamente insatisfeita com o que temos, e infelizmente, satisfeita com o que somos.

  1. Jesus nos chama para colaborar com Ele neste Reino

Passando à beira do mar, viu Simão e André que estavam pescando. Em seguida, viu Tiago e Joao consertando as redes. Jesus os chamou, os convidou a segui-lo, a pescarem gente para o Reino. Eles deixaram tudo, sua profissão, seus apetrechos e seus parentes e seguiram a Jesus. Todos nós que recebemos a graça de ser batizados, Jesus está nos convidando e chamando. É preciso crer na melhor notícia que poderíamos receber: é possível um mundo com justiça, uma sociedade com muito mais igualdade, uma vida com amor e fraternidade. Somos colaboradores de Jesus. Chega de viver no mesmo tranco dos pagãos, dos que só pensam em si e em seus próprios interesses. Jesus faz conosco “um percurso apaixonante: viver abrindo caminhos para o reino de Deus. Ser discípulo de Jesus não é tanto aprender doutrinas quanto segui-lo em seu projeto de vida” (p.36). Escutar este chamado de segui-lo e “pescar gente para o reino” é “reavivar nossa adesão pessoal a ele, ter fé em seu projeto, identificar-nos com seu programa, reproduzir em nós suas atitudes e viver animados por sua esperança no reino de Deus” (p.36).

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SEGUIR A JESUS É CONVIVER COM ELE!…

SEGUIR A JESUS É CONVIVER COM ELE!…

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 2º. DOMINGO DO TEMPO COMUM (14.01.18): Jo 1,35-42

Domingo passado celebramos a manifestação de Jesus como Salvador de toda a humanidade, representada pelos magos. Neste segundo domingo do ano celebramos o início da atuação missionária de Jesus. Jesus tinha participado do movimento de João Batista e fora batizado por ele no Jordão, mas escolheu seguir um caminho próprio, marcado mais pelo anúncio do amor e da misericórdia do Pai do que pelo julgamento iminente. João Batista orientou dois discípulos a seguirem Jesus, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus”. E eles o seguiram.

  1. “O que estais procurando?”

Jesus virou-se para trás, viu os dois discípulos de João que o seguiam e perguntou: “O que estais procurando?” Esta é uma questão fundamental. As coisas não caem prontas do céu; é preciso buscar. Jesus nos questiona: o que esperais de mim? Quereis viver a vida como eu vivo?… “O que procurais?” são as primeiras palavras de Jesus, no evangelho de João, aos que o seguem. Nós também iniciamos nossa caminhada cristã por aqui: o que buscamos? Jesus e seu projeto? Ou milagres e espetáculos para satisfazer nossa curiosidade e necessidade?… É a sua vida que buscamos?… É o seu caminho que buscamos seguir? É uma vida diferente que queremos viver?… Ou queremos apenas saber de Jesus alguma coisa, mas continuar vivendo no nosso estilo e nosso ritmo?… E, se outros não cristãos nos perguntassem “onde viveis e o que há de interessante em vossa vivência cristã?”, o que responderíamos?… Jesus tinha o que mostrar e revelar, então disse: “Vinde ver”.

  1. “Mestre, onde moras?” Jesus respondeu: “Vinde ver”

Aqui está o centro do seguimento e da espiritualidade cristã: a experiência de Jesus, o encontro com ele. Se a pessoa de Jesus nos toca, vamos vivenciar esta experiência, estar com ele, viver como ele, como o fizeram os dois discípulos: “Foram ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele”. Não bastar saber algumas coisas a respeito dele, ou escutar o que outros dizem: é preciso conviver com Jesus e sintonizar com ele, senti-lo presente em nosso ser, na mente, no coração, na prática da vida. Viver com Jesus é sentir a alegria de sua presença e assimilar suas atitudes principais, de amor, misericórdia, acolhimento dos excluídos. É assim que se começa a viver a fé na vida, não apenas na mente: fazer a experiência de conviver com Jesus. E, a partir daí, começa-se a orientar a vida de modo diferente, dando uma nova, bonita e profunda direção. Pagola nos diz: “… o decisivo para ser cristão é tratar de viver como Ele vivia, ainda que seja de maneira pobre e simples. Crer no que Ele acreditou, dar importância ao que Ele dava, interessar-se por aquilo que Ele se interessou. Olhar a vida como Jesus a olhava, tratar as pessoas como Ele as tratava: escutar, acolher e acompanhar como ele o fazia” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – João, p. 42). “Quem se põe a caminho seguindo Jesus começa a recuperar a alegria e a sensibilidade para com os que sofrem. Começa a viver com mais verdade e generosidade, com mais sentido e esperança. Quando a pessoa se encontra com Jesus tem a sensação de que começa finalmente a viver a vida a partir de sua raiz, pois começa a viver a partir de um Deus bom, mais humano, mais amigo e salvador que todas as nossas teorias. Tudo começa a ser diferente.” (p. 45).

  1. “André foi logo encontrar seu irmão, Simão, e lhe disse: “Encontramos o Messias”. E o levou até Jesus.”

Muitos católicos precisam tomar consciência e coragem, perder a vergonha de falar de Jesus e de Deus. Não temer de posicionar-se pelo evangelho, quando ouvem tantas barbaridades ou veem tanta crueldade que contradiz o projeto do Senhor. Muitos calam conformando-se como se nada tivessem que ver com isso. André (palavra que na origem significa “humano”) foi instrumento para Pedro encontrar-se com Jesus e fazer a experiência de Jesus em sua vida. Será que nossa forma de viver, de agir, de falar e de ser ajuda as pessoas a fazerem seu encontro com Jesus? Ou somos amorfos, apáticos, e nada vivemos nem fazemos de testemunho de Cristo?!… Segundo Pagola, crer em Jesus não é ter uma ideia a respeito dele, mas mobilizar todo o meu mundo interior para viver uma experiência com Ele. Na relação com Jesus, não pensar nele como alguém distante e desligado, mas como uma “presença viva” na vida da gente com quem nos comunicamos frequentemente. Ir crescendo na intimidade com Ele, deixar-se seduzir por Ele, por seu mistério, captar seu Espírito que nos faz viver de modo mais humano; “intuir a força de seu amor ao ser humano, sua paixão pela vida, sua ternura para com o fraco, sua confiança total na salvação de Deus” (p.47). E para isso a leitura meditada e orante do evangelho é indispensável. Sem dedicar tempo pra isso, fazemos a escolha por fugir do encontro com Ele.

Que o “Vinde e vede!” nos impulsione a também irmos a Ele e a permanecermos com Ele. Somente assim se vive e se age como seus discípulos.

“Reis Magos”: DEUS OFERECE A SALVAÇÃO A TODOS

DEUS OFERECE A SALVAÇÃO A TODOS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (07.01.18): Mt 2,1-12

Estamos na festa da Epifania, da manifestação de Deus, em Jesus, para a salvação de todos. Ele é o Filho enviado para todos os povos e raças, sua salvação é universal. Ao longo do Antigo Testamento, muitas profecias anunciavam que um dia os povos todos haveriam de acorrer ao monte Sião e a Jerusalém, símbolos do espaço de encontro com o Deus da vida e Salvador da humanidade. Ao mesmo tempo, nossa celebração de hoje é um convite a irmos ao encontro de Deus, para perceber os seus sinais em nossa história e, independentemente das condições, cada qual contribuir para um mundo mais humano e fraterno.

Por meio de Jesus, a salvação é oferecida a todos

Hoje celebramos este chamamento que Deus dirige a todos, convidando-os a fazerem parte de sua vida e de seu Reino. Os magos representam todos os que, atentos aos sinais de Deus no mundo dos humanos e no universo, buscam a Ele, para adorá-lo e louvá-lo com os presentes que simbolizam o reconhecimento de sua divindade e da doação da vida por nós e para nós. Esses sábios (o evangelho não fala em “reis”) simbolizam os povos pagãos, que se convertem a Deus, por sua adesão e seguimento de Jesus. Em contrapartida, Herodes representa os que, por seu apego ao poder ou pela prática religiosa sem compromisso de amor com o ser humano e com o projeto de Deus, preferem perseguir e destruir a vida da humanidade. Este menino Jesus, aí manifestado aos magos pagãos, é verdadeiramente o Filho de Deus que veio para ser o mestre da Justiça. No cap. 25 de Mateus, veremos que os justos perguntarão: quando foi que te vimos com fome, sede, sem agasalho, doente, migrante ou preso e te ajudamos?… “Justos” aí são os que vivem concretamente o amor ao próximo e defendem a vida dos necessitados com ações e atitudes concretas de solidariedade e compaixão. Acolher, adorar a Jesus é assumir a mesma prática dele em favor da vida plena e com dignidade para todos.

Nosso presente a Jesus

Os presentes oferecidos pelos magos ao menino são simbólicos. Revelam que eles reconheceram em Jesus a divindade (incenso), sua vida ofertada e doada (mirra), e sua realeza (ouro), mas, é claro, rei que coloca seu poder a serviço da humanidade, especialmente daqueles cuja vida é fragilizada. Mesmo sendo simbólicos, esses presentes nos provocam a refletir: O que ofertamos de nós como presente ao Menino que veio acampar entre nós no Natal? Fizemos festa pra Jesus, ou fizemos festa para nós mesmos sem lembrarmos e sem celebrarmos sua presença?… E quando damos presentes a quem nos presenteia, o que vivemos de gratuidade de vida neste gesto?… No advento e no Natal ofertamos boas ações a Jesus, presente nos pobres, necessitados, excluídos de diversos tipos?… Ou damos presente e fizemos festa apenas para nós mesmos?… Vivenciamos ao menos as celebrações comunitárias e algumas doações a quem precisa de nossa ajuda de amor fraterno?

Cuidado com os Herodes…

Enquanto os magos vivem uma atitude muito humana e de reconhecimento de sua pequenez, apesar de ser sábios do oriente, o poderoso Herodes não admite baixar-se de sua altura de poder e de prestígio, nem aceita que outros tenham vida e recebam a atenção de Deus. Por isso persegue e mata. Fere seu orgulho pensar que o “verdadeiro rei dos judeus” é simples, pobre, humilde, indefeso e enraizado no poder popular, ao contrário dele que é prepotente, tirano, violento e politiqueiro. Dos moldes de Herodes não sai um rei estilo pastor, que dá a vida pelo povo. Quem aceita e adora a Jesus “descobre que a salvação não pode vir pela ação violenta do poderoso tirano, nem pela falsa religião patrocinada pelos líderes religiosos serviçais do prepotente Herodes” (Bortolini, p. 47). Os magos, guiados pela estrela, manifestaram seu desejo de adorar este novo jeito de viver o poder: dando a vida e ajudando os humildes, por amor. Só ali germina e fermenta a esperança. Os Herodes de hoje em dia são como o Herodes antigo: eliminam direitos da população, reduzem políticas públicas, favorecem os privilegiados de sempre, sustentam e reproduzem a sociedade de desigualdade e se alegram com a perseguição aos líderes populares. Para isto, basta pensar no Brasil dos últimos dois anos.

Esta festa nos faz celebrar a bondade de Deus que quer a salvação para todos. Quem aceita e adora este Deus que não exclui ninguém, também se posiciona e se esforça para oferecer essa salvação a todos, hoje, especialmente a quem mais precisa de vida com dignidade, e busca erradicar os males e escravidões em que se encontra amordaçado. Os “reis magos” mostram bondade, busca de Deus, sintonia com Jesus, seguimento da luz de Deus… Festejá-los é abraçar este mesmo caminho e sentido de vida e compromisso.

 

FELIZ ANO NOVO DEPENDE TAMBÉM DE NÓS

FELIZ ANO NOVO DEPENDE TAMBÉM DE NÓS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da Solenidade de Maria Mãe de Deus (01.01.18): Lc 2,16-21

Em 1º. de janeiro iniciamos um novo ano civil, em nosso calendário: 2018. Comumente é chamado de Dia Mundial da Paz e na liturgia, Solenidade de Maria Mãe de Deus. Celebremos com muita fé e compromisso com o Deus da Vida, para que os muitos “Feliz Ano Novo” que proferimos não sejam algo mecânico, tímido, da boca pra fora apenas.

  1. O Senhor do tempo é solidário conosco

Para que brote do coração precisamos sentir este novo tempo como uma graça de Deus, mas também como um compromisso nosso de tornar este 2018 de fato um novo ano, com mais vida e luta pela paz, pelo direito, pela defesa da vida fragilizada, com mais amor aos pobres. Neste ano, apesar das muitas expectativas, as classes trabalhadoras e os pobres em geral, pelo conhecimento da conjuntura econômica e política, sabem que este ano “viveremos tempos difíceis”, como me disse o Teori em janeiro de 2016. “Deus quer que nosso país seja repleto de sua bênção, nação plenamente fraterna e justa, pois esse é o projeto de Deus. Maria, cuja solenidade hoje celebramos, nos ensina a discernir a presença de Deus em nossa história. De fato, ele sempre se mostrou solidário com os anseios do seu povo, coroando de êxito suas lutas. Mas é em Jesus que essa solidariedade tomou forma definitiva. E é por meio dele, nascido de Maria, que podemos ter a certeza de que o futuro será melhor. Contudo não bastam votos e boas intenções. A proposta de Jesus é exigente e envolve todas as pessoas de boa vontade. Quem se compromete com ele se torna promotor da paz e construtor de uma nova sociedade.” (Bortolini, Roteiros Homiléticos, p. 40).

  1. O rosto de Jesus revela Deus solidário e salvador

Os pastores foram às pressas, “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Tendo-o visto, contaram  o que o anjo lhes anunciara sobre o menino. E todos os que ouviam os pastores ficavam maravilhados com aquilo que contavam”. A revelação aos pastores e sua visita já mostram a opção de Deus. O nascimento de Jesus naquela situação revela a postura de Deus em nossa história: não escolhe os grandes, prefere os pequenos e aqueles que defendem os pequenos, humildes e oprimidos: “Nasceu excluído para os excluídos” (idem, p.42). Esses pastores nada têm de romântico como as imagens dos pastores no presépio. Eram malvistos, detestados, marginalizados, por ocuparem com seus rebanhos os terrenos de outros, de propriedade alheia. Mas Deus não tem ódio nem discrimina. Escolhe-os para contemplarem a maravilha da vinda do Salvador e anunciarem o prodígio, “a boa notícia para todo o povo”.

  1. Maria, solidária com Deus solidário

O evangelho diz: “Maria conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração”. Ela soube perceber e distinguir os fatos de Deus na vida do povo e na história. Meditar é ir a fundo, não apenas sabê-los, e sim compreender o que significam e o que Deus nos interpela e nos ensina por meio deles. Conservar no coração é interpretar os acontecimentos, tanto os mais claros como os mais obscuros. Deus sempre tem algo a nos dizer através deles. Ela percebeu e se alegrou com a presença solidária de Deus que em Jesus veio ao encontro do seu povo, para instaurar seu reino e iniciar um novo tempo, uma nova sociedade. Pelo seu engajamento na missão que se perceberá durante sua vida nas décadas seguintes, ela compreendeu que era preciso ser missionária e solidária com a missão de Jesus em favor dos empobrecidos, em seu projeto de um reino diferente.

O Papa Francisco em sua mensagem para este dia, “Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz”, afirma: “Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental. Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas (…), bem como recursos que são sempre limitados. Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar, estabelecendo medidas práticas (…). Os governantes têm uma responsabilidade precisa para com as próprias comunidades, devendo assegurar os seus justos direitos e desenvolvimento harmônico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir”.

Invoquemos a bênção para todos e todas, com as palavras da 1ª. leitura (Nm 6,22-27): “Javé o abençoe e o guarde! Javé lhe mostre seu rosto brilhante e tenha piedade de você! Que seu olhar se volte para você e lhe conceda a paz!” Façamos nossa parte para que, em 2018, nosso Brasil e nosso mundo sejam melhores!

FELIZ E ABENÇOADO ANO DE 2018!

A FAMÍLIA FIEL A DEUS GERA O HUMANO DIVINO!…

A FAMÍLIA FIEL A DEUS GERA O HUMANO DIVINO!…

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da festa da SAGRADA FAMÍLIA (31.12.17): Lc 2,22-40

Muitos pensam que a instituição família está em crise. Ela sofreu transformações, ao longo dos tempos, especialmente com as mudanças socioculturais das últimas décadas. Provavelmente mudaram mais os valores e o modo de ser família nos últimos anos do antes em mil. Esta crise não significa que seja seu fim. Ao contrário, desta crise a família pode se recriar em valores e vivências mais profundas… Celebrar a festa da Sagrada Família não é endeusar um modelo de família. É aprendermos do testemunho de Maria, José e Jesus pistas e passos para enfrentar as situações de hoje, louvar a Deus pela opção e exemplo da família de Nazaré, e suplicar sua intercessão para uma vida familiar mais saudável.

  1. José e Maria são fiéis a sua fé

Maria e José levaram Jesus ao templo, primeiro filho menino da família, no 40º. dia, para apresentá-lo e consagrá-lo ao Senhor. Foram oferecer o sacrifício, conforme estabelecia a Lei, para eles que eram pobres, um par de rolas ou dois pombinhos. Podemos não entender hoje o significado de tais ritos, mas aprendemos que esta Família não brincava com as coisas sagradas nem com as práticas de sua fé. Vivia sua “religião” com seriedade e firmeza. Não era um “faz-de-contas”. Quando se encontra sentido na vida de fé, pratica-se, sem fingimento.

  1. Jesus é luz e salvação

No templo estavam duas pessoas idosas: o justo e piedoso Simeão e a profetisa Ana. Simeão, com o menino nos braços, agradeceu a Deus: “porque meus olhos viram a tua salvação que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória  do teu povo Israel”. Estas palavras revelam que Jesus vem resgatar Israel e salvar a humanidade toda. Ele veio para ser nossa luz e nossa salvação. Este é o objetivo de sua vida: iluminar e salvar. É nele que encontramos luz, sentido e direção para nossa vida; bem como salvação e libertação daquilo que contradiz o projeto de Deus… Ana também louvou ao Senhor. Reconhecendo em Jesus o cumprimento das promessas messiânicas – as boas notícias não podem ser sufocadas -: “falava do menino a todos que esperavam a libertação de Jerusalém”.

  1. Jesus é sinal de contradição

Simeão disse a Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição”. Na linha dos profetas, Jesus vai anunciar e denunciar. Sua firmeza na Palavra do Pai será boa notícia aos pobres e sofredores que anseiam pela chegada do Salvador. Mas atrairá a rejeição e perseguição daqueles que não aceitam a mudança da sociedade e das práticas religiosas discriminatórias, justamente por lhes desmascarar a hipocrisia. “Jesus é um alvo de contradição, porque contra ele se chocarão os interesses dos que mantêm uma sociedade dividida entre ricos e pobres, exploradores e explorados” (Bortolini. Roteiros Homiléticos, p.289).

  1. O menino crescia e se tornava forte

O Evangelho conclui: “O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele”. Vivendo em família e na comunidade de gente pobre e sofredora, em Nazaré, o menino crescia em sabedoria e graça, não apenas em tamanho físico. Na vivência de fé e na luta do povo pobre, a reflexão e a experiência vão se acumulando e a sabedoria vai crescendo, sempre na firmeza da graça do Senhor.

Concluindo, relembremos uma mensagem do Papa Francisco sobre a família:  “Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença”.

HOJE NASCEU UM SALVADOR PARA VOCÊS!…

HOJE NASCEU UM SALVADOR PARA VOCÊS!…

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da Noite de NATAL (24.12.17): Lc 2,1-14

 Vivemos uma ambígua caminhada em tempo de advento, de barulhos, papais noéis, busca sôfrega de comer e de beber, práticas de troca de presentes sem doar-se e sem fazer-se presente à vida dos outros, pisca-piscas e luzes que, embora bonitas, desviam as atenções para a parafernália exterior do consumismo, dificultando a interiorização e a celebração vivenciada na fé e na vida, bem como as iniciativas de solidariedade e de promoção humana. Por outro lado, em muitos há um esforço sincero de ir ao encontro de Deus que vem ao encontro da humanidade. Quanta gente, quantos grupos de reflexão, quantas comunidades cristãs e outros grupos realizaram gestos e assumiram atitudes mais coerentes com aquilo que o personagem que dá sentido ao Natal – Jesus – veio nos ensinar e viver entre nós.

  1. Uma boa notícia aos pastores e ao povo

Disse um mensageiro aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”.  O nascimento de Jesus foi verdadeiramente uma boa notícia. Há dois mil anos, o evangelista Lucas não faz uma reportagem de como foi o nascimento de Jesus. Faz uma releitura teológica, de fé. Mostra que, ao nascer, Deus cumpre as promessas. Chegou um tempo de valorização dos seres humanos, com mais igualdade, e não a “lei das selvas”, a “lei do mais forte”. Uma proposta de viver o amor e a misericórdia, não o “olho por olho e dente por dente”. A prática de relação amorosa com Deus, que é Pai e bondoso, e não um Deus distante, intermediado por sacerdotes e funcionários do templo. Um Deus que conclama para a vida doada e compartilhada, não o fechamento egoísta em vista da derrota do próximo. Um Deus que se faz pobre, humilde, entre os humildes e simples, não um Deus nas alturas, poderoso, onipotente e irado, aplacado à custa de sacrifícios.

  1. Uma boa notícia para os pobres

Com Jesus que nasce entre os pobres e animais, na periferia, Lucas ensina que Jesus veio para amar e salvar, não para ter prestígio e privilégios. Os excluídos, miseráveis, com deficiências, doentes e desprezados reconheceram neste Menino a libertação acontecendo. Até que enfim havia a perspectiva de alguém que aproximava Deus de suas vidas e serem considerados felizes, filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs de todos, e o principal, preferidos pelo amor de Deus e podendo ser salvos… O evangelho narra o “decreto de recenseamento”, para agilizar a arrecadação de impostos e, assim, explorar mais o povo. Enquanto os poderosos se preocupam com isso, Deus entra em nossa história não por eles, mas pelos pequenos e pobres: por um filho de migrantes marginalizados. Assim se cumpre a profecia de Isaías, que previa a chegada de um tempo de luz, de alegria e de felicidade; o jugo que oprimia o povo, a carga pesada nos seus ombros, isto tudo seria destroçado; não haveria mais botas de tropa de assalto e os trajes manchados de sangue seriam queimados (cf. Isaías, 9, 1-6– 1ª. leitura). Tudo isto porque:  “foi-nos dado um filho… Ele irá consolidar o seu reinado em  justiça e santidade, e a paz não terá fim…”

  1. Uma boa notícia para nós hoje

O Natal hoje deve ser igualmente uma boa notícia. Mas, enquanto se traduz em festas e consumo de mercadorias, sem vivenciar nas liturgias a fé em Jesus que está presente no humano e no real da vida do nosso povo, nós ficamos ainda num Natal de sentimento e de prazeres, sem alegria verdadeira, e um Natal assim ainda não é boa notícia para desempregados, desassistidos da Saúde, jovens sem poder de estudar, migrantes e outros sofredores. A boa notícia para muitos é festa e festa! Mas, para nós, que vivemos da fé, vejamos o que o poeta Pe. Domingos Dias Bouzada nos diz em parte de seu poema O MENINO ESPERADO:

“Jesus continua nascendo cada vez que vivemos o amor.

Jesus nasce em cada abraço de amigo e irmão.

Jesus nasce em cada beijo apaixonado.

Jesus nasce em cada família que vive a experiência de Deus.

Jesus nasce em cada sonho de criança realizado.

Jesus nasce em cada coração solidário.

Jesus nasce em cada luta pelos direitos dos trabalhadores/as e dos aposentados.

Jesus nasce em cada jovem que se recupera das drogas.

Jesus nasce em cada cidade que cuida com carinho dos seus filhos.

Jesus nasce no coração dos empresários que agem de forma justa e solidária.

Jesus nasce na cidade que valoriza as políticas públicas de inclusão social.

Jesus nasce onde a vida está em primeiro lugar.

Jesus nasce na cidade que proporciona vida digna para todos seus filhos/as.

Jesus nasce onde a política não é instrumento de corrupção, desvio do dinheiro público, mas luta pelo bem comum.

Jesus nasce em cada filho que respeita seus pais, em cada estudante que respeita seus professores, em cada profissional que cuida do outro como se fosse Deus cuidando de você.

Jesus nasce quando o brilhar das luzes da cidade une corações, igrejas, religiões, etnias, cooperativas, movimentos, partidos e associações para lutarmos por uma terra sem males para salvamos a vida da humanidade e do nosso planeta, casa comum de todos nós.

Neste Natal vamos consumir, vamos consumir: alegria, paz no coração, paz em nossa cidade, honestidade em abundância, misericórdia e justiça social.

Deixemo-nos guiar pela Luz do Senhor!  E num gesto carinhoso que enxuga lágrimas, aproxima corações, familiares, amigos e corações apaixonados, vamos oferecer um abraço de luz e esperança para quem está do nosso lado, desejando UM SANTO, ILUMINADO E FELIZ NATAL. FELIZ NATAL, FELIZ NATAL.”

ELE SERÁ DEUS CONOSCO

ELE SERÁ DEUS CONOSCO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 4o. DOMINGO do ADVENTO (24.12.17): Lc 1,26-38

Neste 4º. domingo do advento, refletimos e rezamos o evangelho da anunciação. Já no anúncio do anjo fica claro que o Messias vem na contramão da sociedade e da lógica dos poderes daquele tempo (como seria na de hoje também). Entremos de coração e de vida prática na mensagem deste evangelho que nos motiva a dizer sim a Deus e acolher, como Maria, Jesus que chega para nos engajar na dinâmica do seu Reino. Ele é o Deus-Conosco. Em Jesus temos o rosto de Deus e quem é Deus para nós.

  1. Um contexto inesperado

Vejamos o que diz e o que nos ensina o contexto do anúncio do nascimento do messias. O anjo não vai a Jerusalém, mas a Nazaré, povoado insignificante nas montanhas. O anúncio não acontece no Templo, mas numa casa pobre, de uma aldeia. Não é feito a um homem importante, mas a uma adolescente/jovem humilde. O filho que vai nascer não tem um pai famoso no mundo, mas é filho de uma virgem, por obra do Espírito de Deus: “Nasce como fruto do Amor de Deus a toda a humanidade. Jesus não é um presente que Maria e José nos dão. É um presente que Deus nos dá” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Lucas, p. 23). Estes aspectos já predizem que a prática de Jesus vai priorizar os humildes e pequenos das periferias, convivendo com as pessoas que trabalham e sofrem. Deus se faz carne/humanidade, para estar presente nos seres humanos, não nos templos. Vai defender e promover a dignidade das mulheres, fazendo-as suas discípulas e apóstolas.

  1. O anúncio do anjo nos ensina muito

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo… Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.” A primeira coisa que Deus nos diz é “alegra-te”. Estamos com Ele, não podemos jamais perder a alegria de viver. A fonte da alegria é esta: “o Senhor está contigo”. Quando estamos convictos de que não estamos sozinhos, ao contrário, de que Deus nos acompanha, nos ajuda e nos ama, sempre vamos nos sentir interiormente felizes e alegres. Msmo que haja dificuldades e obstáculos, nós os enfrentamos com uma força interior maior e com esperança mais firme. Por isso, o anjo diz a Maria: “Não tenhas medo!” Estando com Deus, temos mais coragem e disposição de agir e de lutar, não nos acomodamos nem desanimamos. Pois, Deus está conosco, então não há razão para temer. Quando estamos a temer, a vida fica sufocada a nossas energias paralisadas. Maria ouviu e nós também ouvimos: “encontraste graça diante de Deus”. É Deus que nos sustenta com sua graça. Tudo o que somos e temos, é por sua graça. É ela que nos sustenta e nos anima na caminhada da vida.

  1. Nossa comunidade aprende com Maria

Maria, que responde ao anjo “eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”, é modelo para toda a Igreja e para nós discípulos e discípulas. Sigamos com Pagola as lições do exemplo de Maria: “Dela aprendemos a ser mais fiéis a Jesus e ao seu evangelho”. Podemos ser uma Igreja com ‘ternura maternal’, que promove mais calor humano nas relações e acolhe a cada um a cada uma. Uma Igreja que “proclama com alegria a grandeza de Deus e sua misericórdia” e “se transforma em sinal de esperança por sua capacidade de transmitir a vida”. Precisamos ser “uma Igreja que não tem respostas para tudo, mas que busca com confiança a verdade e o amor, aberta ao diálogo com os que não se fecham para o bem”. Uma “Igreja humilde como Maria, sempre à escuta do Senhor… mais preocupada em comunicar o Evangelho de Jesus do que em ter tudo bem definido”. “Uma Igreja que anuncia a hora da mulher e promove com prazer sua dignidade, responsabilidade e criatividade feminina.” (p.26-27).

Vamos refletir: Jesus que chega é o Deus-Conosco. Nosso Natal será Natal de Jesus ou será natal do papai noel, do consumo de enfeites e coisas, dos presentes sem nos doarmos como presença?…

COMO JOÃO BATISTA, SEJAMOS TESTEMUNHAS DA LUZ

COMO JOÃO BATISTA, SEJAMOS TESTEMUNHAS DA LUZ

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 3o. DOMINGO do ADVENTO (17.12.17): Jo 1,6-8.19-28

Em nossa caminhada de espera vigilante, de ida ao encontro do Senhor que neste Natal vem ao nosso encontro, a Palavra nos apresenta o profeta percursor – João – aquele que veio para ser testemunha da luz. Pobre, humilde e desapegado, vai ao deserto, onde não há poluição dos ruídos do mundo da comunicação, mas apenas pode ser ouvidas as perguntas essenciais que emergem do interior do ser humano. A exemplo de João, neste tempo favorável, tiremos tempo para os desertos de silêncio e de oração, confrontando nossa vida e revisando nossos caminhos, para que o Natal nos coloque em sintonia com Jesus. E muito cuidado! Porque a onda de Papai Noel pode matar Jesus, nada acontecendo de testemunho de sua presença e de sua vida.

  1. “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.”

João disse que “no meio de vós está alguém que vós não conheceis”. A Igreja e mundo de hoje precisam de testemunhas. Não só de pregadores, comunicadores, malabaristas do sagrado. A maioria das pessoas ficam ao redor de seus projetos e interesses, e Jesus fica em segundo (ou último?) plano. Testemunhar Jesus é vibrar por Ele, deixar-se atrair por Ele, animar sua fé e sua vida com a presença de Jesus. Cristão sem a marca de Jesus, sem compromisso com seu projeto, não “veio para dar testemunho da luz”, mas das trevas. Afunda-se no estilo e no ritmo da sociedade do consumismo e do progresso.  Precisamos de testemunhas que, no seu ser e no seu agir, transmitam a confiança no Pai e motivem as pessoas a desafiarem-se pelo serviço ao Reino. Testemunhas que sejam luz, reflexo da luz de Jesus.

  1. “João disse: ‘Eu sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.”

Ele não trouxe uma doutrina formulada nos detalhes. Apenas preferiu despertar confiança em Deus e conclamar à conversão, ao batismo para remissão dos pecados. O deserto é um lugar simbólico. A solidão e o silêncio fazem a pessoa viver do seu interior, das profundezas de seu ser. Aí a gente pode abrir-se ao mistério de Deus, vivo em nós e na história do mundo, e mudar radicalmente a vida. Não vale a pena viver o advento e Natal apenas nas exterioridades fantásticas e bonitas, temperados por um sentimentalismo vago, calmante dos questionamentos que britam da voz de Deus e do clamor dos necessitados. “Aplainar  o caminho” , hoje é abrir novos caminhos, condizentes com o Evangelho. Tornar retos e planos os caminhas da sociedade, cheios de altos e baixos, de desigualdades e falcatruas, pois senão, não estamos acolhendo Jesus que vem anunciar a misericórdia e o amor do Pai. “Existem tantos homens e mulheres que se dizem ‘cristãos’, mas não dão lugar a Jesus em seu coração. Não o conhecem nem vibram com Ele,… Para eles, Jesus é uma figura inerte e apagada. Está mudo. Não lhes diz nada especial que dê ânimo à sua vida, Sua existência não traz a marca de Jesus” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – João, p.28).

  1. “O Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.”

O profeta Isaías anuncia que virá alguém para renovar o mundo e transformar a humanidade: “O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade aos que estão presos; para proclamar o tempo da graça do Senhor” (Is 61,1-2). Este foi o programa de vida e de missão de Jesus. Para ele, ter o espírito do Senhor e sentir-se enviado, era comprometer-se com um mundo de justiça e compaixão com os necessitados, com últimos da sociedade. O Apóstolo Paulo nos pede, neste tempo, que fiquemos alerta, no espírito de Deus: “Não apagueis o espírito! Não desprezeis as profecias, mas examinai tudo e guardai  o que for bom. Afastai-vos de toda espécie de maldade” (1Ts 5,19-22).

Vivamos este tempo de confronto com a Palavra de Deus. É vivenda Palavra e do seu brilho sendo luz que, de fato, nos preparamos para no Natal acolher Jesus.

 

CRISTÃOS SONOLENTOS, DESPERTAI E VIGIAI!…

CRISTÃOS SONOLENTOS, DESPERTAI E VIGIAI!…

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 1o. DOMINGO do ADVENTO (03.12.17): Mc 13,33-37

As primeiras comunidades cristãs pensavam que a segunda vinda de Jesus ocorresse logo. Estavam ansiosas por essa vinda e encontro com Jesus. Mas o tempo ia passando, e esse dia não chegava. E o pior: o entusiasmo da fé ia esmorecendo e o ardor missionário se apagando. Algumas comunidades caíam na indiferença, apenas “iam levando” a vida e amornando sua fé. Por isso, os evangelhos alertam bastante para não cair na sonolência, distração, esquecimento dos compromissos e na indiferença. A ordem insistente é esta: vigiai, ficai alerta, despertai.

É neste sentido que também nós devemos entender o evangelho deste 1º. Domingo do Advento. Jesus, que vem no Natal e a todo o momento em nossa vida, nos quer encontrar atuantes, participantes, acordados, comprometidos com seu evangelho e seu Reino, e responsáveis por nossas tarefas e compromissos.

  1. Comunidade sonolenta

A nossa fé está bem viva, ou esmoreceu? Nossa comunidade tem ardor missionário? Tem aprofundamento bíblico e tem trabalhos sociais? Ou reduzimos nossa vida cristã a uma celebração, que desejamos o mais rápida possível? Sentimos em nós o rosto de Jesus que nos chama e convoca a segui-lo? Com sinceridade, nossa comunidade está bem desperta, ou está envolvida em sonolência, rotina e ilusões? Queremos mudanças que nos animem à esperança, ou pomos nossa segurança no “ritmo da mesmice”?…

É para hoje e para nós o alerta de Jesus: “Vigiai!” Estamos mergulhados em problemas sociais e ambientais de muitos tipos. Mas está difícil de acordarmos para iniciativas e ações coletivas que transformem nosso mundo. Parece que isso não provoca “nenhuma mudança profunda na vida pessoal dos indivíduos. Apenas medo e busca de segurança. Cada um trata de desfrutar ao máximo seu pequeno bem-estar. (…) No fundo não queremos saber nada de um mundo novo, só pensamos em nossa segurança. (…) Não deveriam as comunidades cristãs ser um lugar privilegiado para as pessoas aprenderem a viver despertas, sem fechar os olhos, sem fugir do mundo, sem pretender amar a Deus de costas para os que sofrem?” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 251). O profeta Isaías já anunciava: “Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos” (64,4); “Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (64,7). É hora de acordarmos para viver a vida que o Senhor nos propõe.

  1. Acordar a esperança adormecida

Vamos ter três semanas de tempo de advento para sacudir e acordar nossos corações, mentes e vontades, nossa energia, vergonha e brio. Não podemos ficar embriagados pela civilização do consumo, pelo endeusamento do bem-estar e conforto, pelo apetite insaciável de distrações, prazeres e ilusões. Deus, mesmo sem ter viajado nem se escondido, “deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados (que somos nós), distribuindo a cada um sua tarefa”, diz Jesus no evangelho. É hora de reagir e de agir. Chega de acomodação, passividade e indiferença. E isto vale não só para os animadores/as cristãos. Vale para todos: “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”

A Igreja tem a responsabilidade da esperança. O teólogo Pagola diz: “Antes que ‘lugar de culto’ ou ‘instância moral’, a Igreja precisa entender-se a si mesma e viver como ‘comunidade da esperança’” (p.254). Para isso, de início precisam duas atitudes: a) olhar a realidade com novo olhar, não como faz a mídia – “Não deixar que se apague em nós o gosto pela vida e o desejo do que é bom. Aprender a viver com o coração e amar as pessoas procurando seu bem. Não ceder à indiferença. Viver com paixão a pequena aventura de cada dia. Não desinteressar-nos dos problemas das pessoas: sofrer com os que sofrem e alegrar-nos com os que se alegram” (p.252). b) dar mais importância aos pequenos gestos humanos do dia a dia – “Eu não posso mudar o mundo. Mas posso fazer que junto a mim a vida seja mais amável e suportável, que as pessoas ‘respirem’ e se sintam menos sozinhas e mais acompanhadas” (ibid.).

Vamos ao encontro de Jesus, neste advento, como nos ensina São Paulo: “Não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo. É ele também que vos dará perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim…” (1Cor 1,7-8). Que ninguém festeje o Natal sem vivê-lo com ações de solidariedade e sem celebrá-lo em comunidade!…

 

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