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Reflexão

DEUS NÃO AGE PELA MERITOCRACIA DOS HOMENS

DEUS NÃO AGE PELA MERITOCRACIA DOS HOMENS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 25º. DOMINGO COMUM – dia 24/09/17: Mt 20,1-16 – DIA DA BÍBLIA

A parábola dos trabalhadores da vinha, neste Dia da Bíblia, retrata uma situação social muito sofrida daquele tempo, mas tem uma aplicação muito prática e direta na realidade de hoje. Havia muita gente sem terra e viviam como diaristas, aguardando na praça a chegada de alguém que os contratasse para uma jornada. Isso quando havia algum serviço. A parábola foi contada para explicar por que “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” no Reino de Deus. Quem deveria ter acolhido o Reino e nele ter entrado por primeiro estava se negando a fazê-lo, enquanto os afastados da religião acolhiam a Jesus prontamente. Aquele dono de terra e de parreiral – que na parábola nos lembra o amor e cuidado que Deus tem com a gente e que quer justiça e dignidade para todos – teve diversas atitudes de amor: a) contratou todos os desempregados que estavam na praça; b) foi lá pessoalmente em diversos horários; c) no fim da jornada, pagou a todos a mesma quantia combinada – o que a família precisava para viver – apesar do trabalho ter sido desigual: uns trabalharam dia inteiro, outros apenas uma hora.

  1. O modo de Deus amar

Esta é uma parábola revolucionária. Na cultura dominante em nosso mundo capitalista e individualista, acha-se normal “dar a cada um o que ele merece e só o merecido”. “Menos mal que Deus não é como nós. De seu coração de Pai, Ele sabe dar também seu amor salvador a essas pessoas que nós não sabemos amar” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 240). Quem tem menos poder aquisitivo ou é menos rico é considerado facilmente por outras pessoas como vagabundo, desorganizado, incompetente, “sem vontade”…O Pai misericordioso, que quer que nossa justiça seja maior do que a dos escribas e fariseus, age com amor a todos e amor especial aos últimos da sociedade, como fazia Jesus na sua prática de vida terrena. Ele vivia cercado de pessoas acolhidas por ele: pecadores, prostitutas, impuros, aleijados, leprosos… Deus é bondoso também com aqueles que se apresentam diante dele “sem méritos”, pois na sua lógica de amor vale o dom, a gratuidade, a partilha.

Os dons recebidos de Deus e da natureza humana e as oportunidades fornecidas pela sociedade desigual tornam as pessoas imensamente diferentes e “desniveladas”. Mas é bom saber que Deus não concorda com isso. No seu coração amoroso não funciona jamais as manias de privilégios de nosso mundo injusto. Por isso, sem olhar o que cada um “produziu”, o patrão no final da jornada deu aos últimos tanto quanto aos primeiros, pois todos precisam viver e ter dignidade. No dia em que no Brasil, em vez do modo de produção capitalista, vigorar um regime “mais socializado, mais justo e mais solidário”, certamente o salário mínimo será muito mais elevado e haverá leis que coíbem altíssimos salários, como ocorre com jogadores e com os “imaculados deuses” do nosso judiciário…

  1. O desprezo aos últimos e aos mais pobres

Quando certo governo reajustou o salário mínimo acima da inflação, para os assalariados terem ou pouco mais de dignidade e de poder de compra, a classe média e os “batalhadores remediados” estufaram o peito reclamando que era inconcebível os pobres andarem de carro e fazerem viagens de avião, bem como poder tirar uns dias de férias viajando. Quando certas medidas beneficiaram estudantes pobres para terem acesso à universidade; quando outras ajudaram as pessoas de cor a ingressarem em faculdade; quando o bolsa-família beneficiou milhões para não terem fome e seus filhos poderem ir à escola, houve quem se indignasse porque o Estado estava também aplicando recursos não somente para os ricos, como era de praxe em nosso país. Na parábola, foi a mesma coisa. Os trabalhadores da primeira hora não se queixaram de receber um salário injusto. O que os ofendeu é o senhor “tratar os últimos como a nós”. O senhor disse ao porta-voz daquele grupo: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”…

“Às vezes ficamos presos aos nossos cálculos, sem deixar Deus ser bom para todos. Não toleramos sua bondade infinita para com todos.”(p. 240). Achamos que apenas nós somos merecedores… No fundo, não queremos deixar Deus ser Deus. E não queremos que Deus tenha amor aos outros, especialmente aos mais pobres e aos últimos da sociedade. Quer dizer, somos invejosos como os trabalhadores da primeira hora da parábola…. E Deus quer que o pagamento do trabalho dê condições de dignidade para todos, e não cometer exploração em vista de aumentar os lucros.

Enquanto não entendermos que para Deus “os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”, ainda não entendemos o que é o cristianismo nem entendemos o que é seguir a Jesus Cristo.

 

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QUEM NEGA O PERDÃO RECUSA A FRATERNIDADE

QUEM NEGA O PERDÃO RECUSA A FRATERNIDADE

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 24º. DOMINGO COMUM – dia 17/09/17: Mt 18,21-35

A nossa sociedade, marcada pela competição e pelas pessoas buscando ser mais do que as outras, divulga que perdoar é favorecer os bandidos e dar asas aos criminosos. Por isso, as pessoas têm dificuldade de amar e de “perdoar o irmão que pecar contra mim”. Este evangelho nos ajuda a entender que perdoar não é aceitar injustiças e crimes, nem deixar de sentir um pouco de ira como reação inicial. Mas é preciso conviver com amor com as pessoas que nos ofendem se quisermos ser misericordiosos como o Pai que nos perdoa sempre.

  1. O perdão cristão é incondicional

Pedro perguntou a Jesus se devia perdoar a alguém até sete vezes. Foi uma pergunta não mesquinha, mas de atitude generosa, está disposto a perdoar bastante. Jesus lhe responde que o perdão não tem limites: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Esta resposta significa perdoar sempre. Para Jesus, perdão não é questão de números, mas de qualidade, precisa ser permanente e total.

O Evangelho de Mateus nos convida a termos uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus. Também, pouco antes, nos desafiou a “corrigir o irmão”, primeiro a sós, depois com dois ou três, depois, se necessário, com a comunidade. Agora nos propõe um perdão incondicional, atitude de misericórdia sempre. Seu ensino é diferente dos estilos de nossa sociedade, eu julga que perdoar muito é prejudicial, que instiga o infrator a continuar, que primeiro tem que exigir reparação… Se quisermos voltar a Jesus, precisamos também viver sua atitude de perdão com generosidade e grandeza.

A parábola do rei não retrata bem a atitude de Deus. No fim, o rei se vinga, retira seu perdão que havia dado, e maltrata o servo cruel, que foi delatado por companheiros “puxa-sacos” do rei, sem fazer nada para animar o colega a uma vivência diferente. Como hoje, eles acreditavam que o mal se repara e os infratores se recuperam a custa de cadeia, de vingança e até de morte. “Às vezes pensamos ingenuamente que o mundo seria mais humano se fosse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo aos que praticam o mal.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 233). Jesus aponta para o amor ao extremo. Negar o perdão não humaniza o mundo: “Um casal sem mútua compreensão se destrói; um família sem perdão é um inferno; uma sociedade sem compaixão é desumana” (p. 234). De quem vive da misericórdia de Deus (ou nos esquecemos de que todo dia Ele se compadece de nós?…) o mínimo eu se pode esperar é o perdão.

  1. Perdoar faz bem não só a quem é perdoado, mas também a quem perdoa.

“Às vezes se esquece eu o processo de perdão faz mais bem ao ofendido, pois o liberta do mal, faz crescer sua dignidade e nobreza, dá-lhe forças para recriar sua vida e lhe permite iniciar novos projetos.” (p. 235) As palavras de Jesus – “setenta vezes sete” – “adquirem uma profundidade ainda maior para uem crê em Deus como fonte última do perdão: ‘Perdoai e sereis perdoados’” (p.235). na prática, nós somos amis humanos quando perdoamos do eu quando nos vingamos. Ao perdoar, estamos diminuindo a espiral de mal e de violência da sociedade. Com o perdão, podemos estar ajudando uma pessoa infratora e pecadora a reabilitar-se e agir de maneira melhor. A ira inicial, frente a uma ofensa recebida, pode ser uma reação quase natural. Mas é preciso erradicar de nós todo ódio e, com amor, suavizar a ira e aos poucos agir com fraternidade e bons sentimentos, afinal, somos todos irmãos e irmãs. E nenhuma pessoa pode ser reduzida e entendida apenas por erro cometido. Sempre é infinitamente maior e mais ampla.

Pra concluir, é preciso construir relações sociais de maior respeito e perdão com todos os seres humanos. Nada e falar que “precisa pena de morte”, ou “tem que enfiar todos na cadeia”, nem que “tem que matar um cara desses”. Pagola nos garante: “o perdão é necessário para conviver de maneira sadia: na família, onde os atritos da vida diária podem gerar frequentes tensões e conflitos; na amizade e no amor, onde se deve saber agir diante de possíveis humilhações, enganos e infidelidades; em múltiplas situações da vida, nas quais temos que reagir diante de agressões, injustiças e abusos. Quem não sabe perdoar, pode ficar ferido para sempre” (p. 237).

O QUE SIGNIFICA DOIS OU TRÊS SE REUNIREM EM NOME DE JESUS?

O QUE SIGNIFICA DOIS OU TRÊS SE REUNIREM EM NOME DE JESUS?

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 23º. DOMINGO COMUM – dia 10/09/17: Mt 18,15-20

Nós, cristãos e cristãs, temos como identidade a vivência do amor. Este amor precisa ser assumido como incondicional, até o extremo: amar os inimigos, oferecer a outra face a quem bate, dar a vida se for preciso. Neste domingo a Palavra nos motiva a ajudarmos nossos irmãos a se converterem, a nos reunirmos em nome de Jesus, a jamais fazermos o mal ao nosso próximo. Pra nossa justiça ser maior do que a dos escribas e fariseus, precisamos amar os inimigos e conversar com quem erra para que se reúna também em nome de Jesus. Viver o amor até as últimas consequências, afinal somos responsáveis pela evangelização, pela vida e pela salvação dos irmãos e irmãs.

  1. Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo a sós… Se não mudar, leva mais uma ou duas pessoas… Se não der ouvidos, diga-o à Igreja.

Para as comunidades dos primeiros tempos, o importante era “permanecer em Cristo”, “estar com Jesus”. Por isso, mais do que a quantidade, investia-se na qualidade dos fiéis. E todos se sentiam responsáveis pela vida cristã de seus irmãos. Portanto, em caso de erro, motivados pelo amor fraterno, iam ao encontro, com toda delicadeza e misericórdia, para dialogar e motivar o faltoso a superar suas falhas na vivência da fé e do Evangelho. Primeiro, individualmente. Se não conseguia, levava testemunhas junto. Se mesmo assim, a pessoa não reconhecia e não assumia a compromisso de mudar de vida, a questão era resolvida em comunidade. Nesse caso, essa pessoa não era abandona nem excluída, mas considerada como alguém a quem era preciso reiniciar a evangelização novamente. Aqui basta lembrar como Jesus amava os pecadores, e assim os cristãos deviam amar estes que não se corrigiam. O apelo de Jesus é para “corrigir-nos e ajudar-nos mutuamente a sermos melhores, a agir com paciência e sem precipitação, aproximando-nos de maneira pessoal e amistosa de quem está agindo de maneira equivocada” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.229). Amar de verdade não é cada um ficar “na sua”. Convidar a sair do erro, a enxergar os equívocos, pode ser um verdadeiro gesto de amar de verdade. Se não se converter, diria o profeta Ezequiel, “o ímpio morrerá por própria culpa, porém tu salvarás tua vida” (Ez 33,9). “Se ele se converter, terás ganho teu irmão”, não pra ti, mas para o Reino do Senhor, para a comunidade que se reúne em seu nome.

  1. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles.”

Mas o que significa estar reunidos em nome de Jesus? Muitos vão ao culto ou à missa por obrigação, ou sem motivação. Em encontros de Igreja, muitos estão aí, passivamente, sem esforço de captar a Palavra nem de viver um momento orante. Outros se estressam com a hora, não admitem que a celebração dure mais de uma hora. E o encontro com a Palavra e a Eucaristia, na comunhão fraterna da comunidade, fica sem sentido e sem vivência. O cristão sabe que a conversão é esforço de todo dia. E quando vive o espírito de conversão permanente, “reunir-se no nome de Jesus é criar um espaço para viver a vida inteira em torno dele e a partir de seu horizonte. Um espaço espiritual bem-definido não por doutrinas, costumes ou práticas, mas pelo Espírito de Jesus, que nos faz viver como Ele viveu” (p.225). Reunir-se em seu nome é acolher sua presença e sua Palavra e atualizá-la em nossa vida, vivendo a experiência de estar com Ele e com o grupo de seus discípulos.

Reunir-se em Jesus passa pela forte vivência comunitária. Não se pode ser cristão sem viver em comunidade. Os cristãos não são avulsos nem refugiados no seu pequeno mundo familiar. São comunidade fraterna, unida, participativa, ativa e consciente. “A renovação da Igreja começa sempre no coração de dois ou três crentes que se reúnem em nome de Jesus.” (p. 225) E quando acontece e se vive reunidos “em nome de Jesus”, Jesus está em nosso meio; tudo o que pedirmos ao Pai nos será concedido e tudo o que ligarmos na terra será ligado também no céu… Veja que Jesus fala em “dois ou três” reunidos em seu nome. Não precisa “concentração de fé”, nem “missa-show”, nem grandes romarias. Basta a sinceridade da fé e da motivação de estar “reunidos em seu nome”. E não precisa haver padre junto com eles.

Portanto, isto vale para todos, vale para crianças e adolescentes do catecumenato, vale para a vida religiosa: “A primeira tarefa da Igreja é ‘reunir-se em nome de Jesus’. Alimentar sua lembrança, viver de sua presença, reatualizar sua fé em Deus, abrir hoje novos caminhos a seu Espírito. Quando falta isso, tudo corre o risco de ficar desvirtuado por nossa mediocridade” (227).

A CRUZ DOS CRISTÃOS NÃO É QUALQUER SOFRIMENTO

 

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 22º. DOMINGO COMUM – dia 03/09/17: Mt 16,21-27

Estamos na semana do Grito dos Excluídos, com o lema: “Vida em Primeiro Lugar! Por Direitos e Democracia, a Luta é Todo Dia”. Muitas manifestações acontecem pelo Brasil afora, recordando que o poder público e o Estado devem estar a serviço do bem comum, especialmente onde a vida é mais fragilizada, buscando a inclusão social. Neste ano, diante de um quadro de perda de direitos dos trabalhadores e de um verdadeiro estado de exceção (onde as leis valem para uns e não para outros, ou se as torce e retorce), o lema nos conclama a lutar pela retomada da democracia e pelos direitos.

Nossa Igreja no Brasil, através da CNBB, está pedindo que essa semana seja uma Jornada de Oração pelo Brasil e o dia 7 de setembro seja um dia de jejum. Segundo Dom Leonardo Steiner, secretário da CNBB, “Nós estamos necessitados de um novo Brasil, mais ético; de uma política mais transparente. Nós não podemos chegar a um impasse de acharmos que a política pode ser dispensada. A política é muito importante, mas do modo do comportamento de muitos políticos, ela está sendo muito rejeitada dentro do Brasil. Nós esperamos que esse dia de jejum e oração ajude a refletir essa questão em maior profundidade”.

 

  1. “Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!’ Jesus voltou-se para Pedro e disse: ‘Vai para trás, satanás! Tu és uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.”

Jesus afirmara que ia a Jerusalém, e lá ele seria perseguido, preso, crucificado – pelos detentores do poder religioso e político -, mas ressuscitaria. Os discípulos ainda queriam um Reino na base da facilidade, com êxito total, sem sofrimento. Jesus estava consciente de que, indo a Jerusalém, sempre assumindo radicalmente o projeto de Deus, sofreria rejeição e perseguição, ckmo consequência daquilo que ensinou e praticou. Ter Deus com a gente não significa que a vida será de sombra e água fresca, de sucesso e facilidade… Então Pedro o puxa de lado e o repreende, para que se desvie dessa ida a Jerusalém… Como resposta, Jesus lhe diz que assim ele é “pedra de tropeço”, e o chama de satanás. Também lhe pede a ir para trás, quer dizer, seguir a ele, não querer pôr-se na frente e decidir os seus caminhos… Quando Pedro confessa “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo”, ele é chamado e “pedra” sobre a qual se constrói a comunidade; mas, quando pensa em seguir Jesus com bem-estar e sem sofrimento, é chamado “pedra de tropeço”.

 

  1. “Jesus disse aos discípulos: ‘Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga’.”

Jesus não foca no sofrimento, foca no projeto do Pai. Aliás, fica atento sim aos sofrimentos e às lágrimas dos excluídos e rejeitados. Não busca sofrer nem quer sofrer: “Seu sofrimento é uma dor solidária, aberta aos outros, fecunda” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.210). Nem se assusta diante do seu padecimento futuro. Ele está nas mãos do Pai e confia nele… Hoje muitas pessoas têm a mania de usar demais a expressão “carregar a cruz”, ou “cada um tem sua cruz”. Não se pode chamar de “cruz” a qualquer sofrimento. Por exemplo, os que são consequências de nossos pecados e equívocos, de nossos ressentimentos e apegos não são a cruz proposta por Jesus. “Tome a sua cruz”, “é apenas o sofrimento que nos virá como consequência desse seguimento; o destino doloroso que teremos de compartilhar com Cristo, se seguirmos realmente seus passos” (p. 213).

E quando Jesus diz “renuncie a si mesmo”, não é castigar-se, nem mortificar-se de qualquer jeito, nem autodestruir-se. Mas “é não viver dependente de si próprio, esquecer-se do próprio ‘ego’, para construir a vida sobre Jesus Cristo. Libertar-nos de nós mesmos para aderir radicalmente a ele” (p.213)… E esse “carregar a cruz” não é um peso nem motivo de tristeza. É o único caminho para plena realização, esperança, alegria e salvação.

 

  1. “Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.”

 

No coração de Jesus havia “uma dupla experiência: sua identificação com os

últimos e sua confiança total no Pai” (p. 208). Por isso, é perseguido e sofre. Deixa claro que entre seus seguidores, este é o caminho: “Se seguiam seus passos, deviam também compartilhar sua paixão por Deus e sua disponibilidade total a serviço de seu reino” (p. 209). Não lhes propõe agarrar-se à sua própria vida nem fechar-se em seus próprios interesses, mas em doar-se, compartilhar, arriscar a vida de maneira generosa, pelos outros e pelo Reino. É assim que se ganha e se salva a vida. “Aquele que caminha atrás dele, mas continua aferrado às seguranças, metas e expectativas que sua vida lhe oferece, pode acabar perdendo o maior bem de todos: a vida vivida segundo o projeto de Deus” (p. 209). “Num mundo dominado pela imposição de vontades dos violentos, aqueles eu pretendem seguir Jesus devem servir aos demais em total gratuidade, a ponto de estar dispostos a morrer por eles.” (Aila Pinheiro de Andrade, Vida Pastoral, p.2) Mas, como em Jeremias, apesar do sofrimento e renúncias, sente a paixão e amor por Deus arder por dentro, e não resiste, segue em frente na missão da profecia e testemunho.

 

QUAL É A MISSÃO DE QUEM SE IDENTIFICA COMO SEGUIDOR DE JESUS?

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 21º. DOMINGO COMUM – dia 27/08/17: Mt 16,13-20

Jesus e os discípulos estão em Cesareia de Felipe, região pagã, próximo de onde Ele iniciou sua missão. Longe do “centro” político, econômico e religioso de seu país. Daí dessa “periferia” ele lança o questionamento e os discípulos precisam responder: “Quem a o povo diz que eu sou?” e “Vocês, quem dizem que eu sou?”.

  1. “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”

Naquela oportunidade as respostas se resumem mais ou menos nesta: “um grande profeta que ressuscitou e apareceu entre nós”. Mas não passava de um profeta… Jesus se apresentou como “Filho do Homem”, quer dizer, um humano e mortal, e isto complicava na cabeça do povo que esperava alguém “vindo das nuvens do céu”. Hoje em dia, mesmo sendo fundamental a compreensão que se tenha de Jesus, nosso povo ainda espalha afirmações em todas as direções. O entendimento vai desde um ser divino que se fingiu de humano até um revolucionário político. Os filmes também exploram e acentuam aspectos de Jesus, como o seu sofrimento, a dimensão afetiva, o lado glorioso, o poder de curar e outros. A compreensão do Jesus histórico, o Jesus de Nazaré, enquanto ser humano, filho de Maria e de José, trabalhador braçal, participante da sua comunidade, plenamente humano, igual a nós em tudo, menos no pecado… isso é indispensável para uma visão mais correta de Jesus. Ele viveu e participou dos sonhos do seu povo, que rezava, lutava e aguardava pela libertação e salvação do povo pobre, à espera da vinda do Messias que traria um tempo novo para a humanidade. Sua conduta era de sintonia e fidelidade ao sonho profético de um novo céu e uma nova terra, onde reinaria a justiça e o direito… Nada a ver com a imagem de um Jesus mais anjo que humano, ou mais poderoso do que “pastor com cheiro das ovelhas”.

  1. “E vós, quem dizeis que eu sou?”

A resposta de Pedro – “o Cristo, Filho do deus vivo” – apresenta Jesus como o realizador da promessa messiânica, como o Deus-conosco e Salvador. Portanto, aquele que veio realizar a justiça de Deus. Jesus confirma esta confissão de Pedro e manifesta que tal compreensão não ocorre por acaso, mas por graça de Deus, pelo “meu Pai que está no céu”. E, ao Jesus dizer a Pedro “sobre esta pedra construirei a minha Igreja”, Ele está afirmando que a comunidade é construída sobre a verdadeira fé e a confissão prática dessa fé. Dizemos hoje: a fé em Jesus e a fé de Jesus, ter a mesma fé que Jesus teve, no Reino e amor misericordioso do Pai que nos quer todos e todas iguais. A comunidade cristã é uma comunidade convocada por Deus, discípula-missionária, que dá testemunho de sua fé.

  1. “Tudo o que ligares na terra será ligado no céu; tudo o que desligares na terra será desligado no céu.”

Jesus confiou à sua Igreja “as chaves do Reino de Deus”. A Igreja tem a presença de Jesus, seu poder e sua palavra, para levar adiante a mesma missão. “Quando o testemunho cristão é pleno, é o próprio Jesus quem age na comunidade, permitindo-lhe ligar e desligar”, diz Bortolini (Roteiro Homiléticos, p. 211). O Reino é levado adiante pelo testemunho e pelo anúncio, pelo diálogo e serviço. Aliás, a Igreja está a serviço, não é “proprietária do poder de Jesus”. Com sua atuação clara e coerente, fica evidente quem está ligado a Jesus e quem está desligado dele, quem é a seu favor e quem é contra Ele. E seu messianismo é de serviço, não de privilégios nem de ficar aparecendo e se esnobando, por isso pediu que “não dissessem a ninguém que Ele era o Messias”.

Concluindo, é quando nos identificamos com jesus e com sua proposta que podemos melhor confessar quem é Jesus e quem é Ele para nós. E nossa identificação com Ele move dentro de nós a força e a coragem de construirmos seu Reino, mesmo que tenhamos de “desligar” da caminhada aquilo que contradiz o seu reinado.

 

DE QUE LADO MARIA SE COLOCA? DO LADO DE DEUS E DOS POBRES

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA: dia 20/08/17: Lc 1,39-56

A visita de Maria a sua prima Isabel, a saudação entre elas, as exclamações de alegria e de louvor a Deus e a oração de Maria (Magnificat) revelam quem é a Maria Mãe do Senhor: aquela que se coloca ao lado de Deus que tem opção pelos pobres e excluídos da sociedade. Isto nos provoca a purificarmos nossa devoção a Maria neste Ano Nacional Mariano. É melhor vivenciarmos Maria com os traços e qualidades revelados na Bíblia do que aqueles que as culturas foram imaginando e criando ao longo dos tempos.

  1. O encontro das grávidas Isabel e Maria

O texto omite a presença dos maridos Zacarias e José, quer ressaltar as mulheres, que atribuem a Deus e vivenciam na fé, tanto a gravidez como o nascimento destes meninos. Elas captam, cheias de fé e do Espírito, a maravilha divina que está acontecendo nelas e no povo de Deus. A saudação traduz a alegria, e traz a paz para toda a casa. Maria aparece como portadora da salvação, porque carrega Jesus em seu ventre, e o menino João salta de alegria no ventre de Isabel, ele que seria depois o profeta precursor.

Da exclamação de Isabel, quando séculos depois cristãos inventaram a oração da Ave Maria, foi aproveitada esta frase: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. “Deus está sempre na origem da vida. As mães, portadoras de vida, são mulheres ‘benditas’ pelo Criador: o fruto de seus ventres é bendito. Maria é a ‘bendita’ por excelência: com ela nos chega Jesus, a bênção de Deus para o mundo.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus, Lucas, p. 30). Esse encontro das grávidas com fé nos chama a celebrarmos e a vivermos sempre a partir da fé no mistério de Deus encarnado em Jesus. Hoje, feliz a Igreja e felizes as famílias se vivem e transmitem a fé aos seus filhos e filhas!

  1. As marcas e qualidades de Maria

Nas palavras no texto, aparecem as marcas e as virtudes de Maria. Vejamos algumas: a) Maria é a mãe do Salvador. Isabel disse: “Quem sou eu para que me visite a mãe do meu Salvador?” Ela é abençoada por Deus entre todas as mulheres, por nos trazer Jesus, “bendito o fruto do seu ventre”. Os primeiros cristãos nunca separaram a memória de Maria da memória de Jesus. Ela é venerada por ser a Mãe do Salvador, não como milagreira. b) Maria é “aquela que acreditou”. Por isso é bem-aventurada e feliz. E creu em Deus porque soube ouvir (fiel discípula), e meditava e guardava a Palavra em seu coração. Sua fé tem tudo a ver com a Palavra que ela compreendeu e viveu. c) Maria é evangelizadora. Trouxe e ofereceu Deus para a humanidade. Evangeliza por palavras e por gestos, como os três meses de serviço voluntário à prima Isabel. d) Maria, a missionária da alegria. O anjo lhe dissera: “Alegra-te, o Senhor está contigo!”. Ela se alegra no Senhor: “meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”, rezou ela. Ela comunica no seu ser a alegria por estar em comunhão com o Senhor. E na alegria serviu a Isabel que precisava de ajuda e apoio. Outras “qualidades” de Maria podem ser lembradas: a verdadeira discípula, sua simplicidade e humildade, a disponibilidade e serviço, seu silêncio e sua comunhão com o projeto de Deus e do povo.

  1. Do lado dos pobres, contra os opressores

Sua oração, inspirada no louvor de Ana (1Sm 2,1-10), deixa claro que Maria deseja, reza e luta para que o projeto de Deus se concretize. Isto está em sua mente e em seu coração. Inicialmente ela louva e bendiz a Deus por ter olhado por ela e por aquilo que nela realiza. Depois reza a ação de Deus que toma partido diante do mundo injustiçado e desigual: “Ele dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”. Maria agradece a Deus por Ele não optar pelos soberbos, poderosos e ricos… E sim pelos humildes, famintos e simples.

Hoje venerar verdadeiramente a Maria implica não em pedir milagres, libertações e proteções diversas. Mas, sim, em honrá-la por aquilo que ela foi e viveu, sobretudo pelo testemunho bonito de seguimento de Jesus e fidelidade ao projeto do Pai. Honrá-la vivenciando o testemunho e exemplo que ela nos deixa. Assim, com Maria seguimos a Jesus e nos dirigimos a Deus.

E neste mês vocacional, rezemos e bendigamos a Deus pelas religiosas e religiosos que, como Maria, assumem radicalmente a vivência do Evangelho, dando testemunho de entrega total a Ele e ao eeu Reino. Parabéns, religiosas e religiosos!

 

 

NOSSO MEDO DOS VENTOS E DAS ONDAS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 19º. DOMINGO COMUM: dia 13/08/17:

Mt 14,22-33

Jesus sempre alertou e encorajou seus discípulos sobre as perseguições, dificuldades e adversidades que encontrariam na sua missão. Ao escrever o Evangelho, Mateus tem em mente a realidade de suas comunidades, atravessando inúmeras dificuldades no “mar da vida”, e vai “recriando” as falas de Jesus de um jeito que as ajude a superar “os medos” e “a pouca fé”. É como nós hoje: estamos com medo! Medo de confiar em Deus e no Reino, medo de assumir e viver pra valer o Evangelho, medo de nos doar à comunidade, medo da perda de católicos, medo de que a maioria da juventude não venha a participar da igreja, medo de que o Brasil entre num verdadeiro atraso na justiça e nos direitos. Este evangelho nos pede a tomar posição: pela coragem, que nos anima a enfrentar, e não pelo medo que nos paralisa.

  1. Nossa situação parece desesperadora

A linguagem bíblica retrata com uma simbologia forte. Os discípulos estavam “sós” (sem Jesus), nas trevas da “noite”, no meio do mar (longe da margem, pouca segurança), o vento era contrário (dificultava ir adiante, fazia retroceder), as ondas sacudiam o barco… Assim era “a situação daquelas comunidades cristãs ameaçadas de fora pela hostilidade, e tentadas de dentro pelo medo e pouca fé. Não é esta também a situação de hoje?” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 184). No começo da madrugada Jesus se aproxima caminhando sobre as águas. O medo impede de os discípulos reconhecerem a presença de Jesus, próximo deles; ao contrário, sua falta de fé faz ver “um fantasma”. “Os medos são o maior obstáculo para reconhecer, amar e seguir a Jesus como Filho de Deus que nos acompanha e salva na crise.” (p.18)

  1. “Coragem! Sou Eu, não tenhais medo!”

A presença de Jesus e nossa confiança e certeza de que é nele que nossa vida tem sentido, rumo e segurança, nos transmitem força e confiança no Pai. Pedro aparece aí como modelo de “entrega confiante”, mas também de “medo e fraqueza”. Ao caminhar sobre as águas indo ao encontro de Jesus, quando esquece a Palavra de Jesus (“Vem!”) e fixa o pensamento nas forças do mal, começa a afundar. Pagola afirma que na Igreja hoje é meio parecido: “Temos medo do desprestígio, da perda de poder e de sermos rejeitados pela sociedade. Temos medo uns dos outros: a hierarquia endurece sua linguagem, os teólogos perdem a liberdade, os pastores preferem não correr riscos, os fiéis olham o futuro com temor. No fundo desses medos, existe quase sempre medo de Jesus, pouca fé nele, resistência a seguir seus passos” (p.184). É para nós que ele reclama: “Pessoas de pouca fé! Por que estão duvidando?” Quando se acredita e segue verdadeiramente a Jesus, então provamos a segurança de sua Palavra, a felicidade de fazer parte de seu grupo, a beleza de participar do Reino e o quanto é gostoso não viver para si nem fechado  nos sonhos rasteiros de nossa sociedade materialista e consumista, ao contrário: jogar a vida num ideal mais alto, buscando e gerando a vida para todos e todas.

  1. “Tu és o Filho de Deus”, não um fantasma

Diz o evangelho que, quando Jesus e Pedro entraram no barco, o vento se acalmou. É na presença dele que somos fortes na fé e nos enchemos de coragem. Quanto mais afastados, mais ficamos ao sabor dos ventos e das ondas da sociedade, e menos confiança e menos capacidade de enfrentar as adversidades. Outra coisa. Enquanto não acreditamos no seu ensinamento, ficamos numa fé superficial e nossa vida cristã não passa de um “faz-de-contas”. Há crentes em Deus que veem fantasma no Papa Francisco e ficam com medo, porque ele acolhe a todos, especialmente os refugiados e desprezados, e quer que todos tenham trabalho, terra e teto (“os três T”). Outros veem fantasma quando nossos bispos ou congregações se posicionam contra as reformas do governo que estão tirando os direitos dos trabalhadores e recuando um século em termos de garantias no mundo do trabalho. Outros veem fantasma quando lideranças cristãs e de movimentos populares vão às ruas para tentar impedir os desmandos e podridões nos poderes desta república… Mas Jesus nos alerta e nos garante: “Coragem! Sou eu, não tenhais medo!”… Tomara que, como os discípulos, também nos prostremos diante dele, reconhecendo-o como Filho de Deus e nosso Salvador, e não mais temamos os ventos e as ondas de hoje em dia!… Afinal, “Crer é viver apoiando-nos em Deus, esperar confiantemente nele, numa atitude de entrega absoluta, de confiança e fidelidade” (p. 189).

DIA DA TRANSFIGURAÇÃO E DO SENHOR BOM JESUS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR: dia 06/08/17: Mt 17,1-9

Pode parecer surpreendente, mas no catolicismo tradicional popular, com predomínio da população luso-brasileira, há séculos, no dia da Transfiguração do Senhor, nossos caboclos celebram e comemoram o dia do Senhor Bom Jesus da Coluna. Eles, cuja vida é cheia de sofrimentos, dores e tribulações, identificaram-se mais com o Jesus sofredor do que com o Jesus da transfiguração que, à primeira vista, aparece como glorioso. Mas não é bem isso que este evangelho revela.

  1. A simbologia do texto

Mateus tem como foco do seu evangelho que Jesus é Mestre da Justiça que veio realizar o Reino. Ele veio dar cumprimento e pleno sentido à Lei e às profecias. Por isso, o encontro na montanha com Moisés e Elias revela que “a transfiguração de Jesus serve para mostrar que ele é o novo Moisés, o Servo de Javé e o Profeta por meio do qual chega a nós o Reino da Justiça” (Bortolini, Roteiros Homiléticos, p. 61). Significado de algumas expressões e símbolos:

– “Seis dias depois” = lembra o sexto dia da criação, em que Deus criou o ser humano, homem e mulher, viu que tudo era muito bom e, depois, descansou. Aqui, revela que, em Cristo, está a realização daquilo que Deus planejou para o mundo e para nós.

– “uma alta montanha” = a montanha, ao povo da Bíblia, era lugar de revelação e de encontro com Deus. Moisés e Elias encontraram-se e falaram com Deus no monte Sinai. Aqui Jesus revela o rosto e a grandeza de Deus, diferente da montanha onde Jesus foi tentado, que era lugar da idolatria.

– “seu rosto brilhou como o sol e suas roupas ficaram brancas como a luz” = sinal do triunfo da justiça de Deus. O rosto brilhante de Jesus significa que ele é maior do que Moisés e Elias. Afinal, Jesus é o rosto brilhante do Pai. Agora, falando com Jesus está-se falando diretamente com Deus.

– “três tendas, uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias” (proposta de Pedro) = Para Pedro, os três estão no mesmo nível de igualdade. Moisés e Elias são símbolos da Lei e das Profecias. Jesus veio e cumpriu o verdadeiro sentido da Lei e nos dá a nova lei. Ele é a realização das profecias. Portanto, maior do que Elias e Moisés.

  1. No Filho amado, somos servos e filhos amados do Pai

“Uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: ‘Este é o meu filho amado, no qual pus todo meu agrado. Escutai-o.’” Proclamado Filho querido, o Pai nos pede para escutá-lo. Não há outro caminho para o Reino da Justiça. O profeta Isaías disse que “o meu escolhido”, “o Servo”, defenderia o direito e cumpriria a justiça entregando a própria vida (cf. Is 42,1). Escutar o Filho amado, para nós hoje, é “criar espaço para que o clamor de tantos seres humanos seja atendido” (p.63).

Os discípulos reagem com medo e espanto: “ficaram muito assustados e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: ‘Levantai-vos e não tenhais medo’… Quando desciam da montanha, ordenou-lhes: ‘Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos’”. Cair com o rosto por terra é comum na Bíblia entre os que recebem uma grande revelação. Jesus lhes dá coragem: “Ao abrir  os olhos não viram mais ninguém, somente Jesus”. Quando abrimos os olhos do coração e da fé, “constatamos que o grande anúncio é a pessoa de Jesus que comunica o projeto do Pai”. O anúncio leva em conta Jesus revelado como Rei, Servo e Profeta, que deve passar pela morte para chegar à ressurreição. Por isso, é hora de os discípulos descerem da montanha – visão privilegiada de Deus – e escutar e praticar o que Ele ensina. Arregaçar as mangas e com Jesus assumir a cruz, para chegar à grande gloriosa revelação de Deus. E é por isso também que os caboclos não estão errados ao celebrar o sofrimento de Jesus amarrado à coluna e açoitado. Primeiro temos que enfrentar e viver a vida de servo, como Jesus, se quisermos realizar o “como é bom estarmos aqui!” na manifestação radiante de Deus.

Reflitamos com Bortolini: “A transfiguração de Jesus é sinal de sua ressurreição, vencendo a morte e a sociedade. violenta que o matou. Ela se torna, assim, anúncio da vitória da justiça sobre a injustiça. Nada nem ninguém poderão deter o projeto de Deus, que é liberdade e vida para toda criatura” (p. 63). Com Jesus, e vivendo seu Evangelho, podemos contribuir muito na transfiguração de nossa vida e de nossa socedade.

LIVRAR-SE DE MUITAS COISAS PARA INVESTIR EM DEUS E NO SEU REINO

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 17º. DOMINGO COMUM: dia 30/07/17: Mt 13,44-52

Temos neste domingo mais três parábolas do Reino: o tesouro escondido no campo, a pérola preciosa e a rede que apanha de tudo. A última é semelhante à do joio e trigo. Fixemos nossa atenção nas duas primeiras. Jesus quer despertar nos ouvintes que há um tesouro escondido na vida que, quando encontrado, proporciona imensa alegria e por ele vale a pena vender tudo o mais, para só investir nele. É encontrar Deus, é descobrir o Reino e entrar nele.

  1. O tesouro e pérola

Disse Jesus: “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Quem o encontra, o mantém escondido e, cheio de alegria, vai vender tudo o que tem e compra esse terreno. O Reino dos Céus também é semelhante a um comerciante à procura de boas pérolas. Achando uma preciosa, vende tudo o que tem e a compra”.

De cara, as parábolas nos mostram que, se descobrimos a riqueza do Reino de Deus, tudo o resto se torna relativo. Podemos e devemos nos desfazer das outras coisas, ocupações e preocupações. Quem o encontra enche-se de alegria. Nada é fonte de maior felicidade e de verdadeira alegria e realização. As coisas nos deixam sempre insaciáveis. O Reino nos plenifica. Encontrar o Reino, que é dom de Deus, pode acontecer quase por acaso. Na parábola do tesouro, o homem não estava à procura disso. Já na do comerciante sim: ele estava “à procura de boas pérolas”. Podemos encontrar o Reino dedicando-nos à sua procura, mas também encontrá-lo gratuitamente pelos fatos e circunstâncias da vida. Nesse caso, também exige atenção e empenho quando se descobre onde ele está.

Jesus comunica aí a sua experiência de Deus Pai e do valor do Reino. E vai dar a vida por ele. Nada o detém nessa busca e entrega. Quando os cristãos não descobrem a beleza e o valor de viver com Deus e assumir o seu Reino, a vida cristã deles se torna um tédio, marasmo, uma rotina enjoada e sem graça. Ao contrário, como mostra o Papa Francisco, seguir Jesus, anunciar e viver o evangelho e estar em comunhão com Deus-Trindade são fontes de profunda alegria e vibração. Quem não se realiza ao perceber que ajuda a fazer outros felizes, que com sua presença e atuação o mundo e as pessoas se tornam mais humanas, e que compartilhando a vida nosso interior e nossa existência se renovam?! Não há jeito, porém, de fazer essa experiência sem rompermos com algumas parafernálias e quinquilharias que carregamos costumeiramente. Quantos ficam apostando no supérfluo e nas bijuterias e não querem “vender” nada para comprar a pérola mais valiosa!

  1. A alegria de encontrar o Reino

“Buscar Deus não gera tristeza nem amargura; ao contrário, gera alegria e paz, porque a pessoa começa a descobrir onde está a verdadeira felicidade”, afirma o teólogo Pagola (O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 170). Este caminho de buscar de Deus cada um deve fazê-lo. Podemos seguir auxílios de orientadores espirituais, mas não cai pronto do céu. Cada qual precisa percorrê-lo. Para encontrar a pérola, convém pôr-se na estrada, dar passos, construindo o caminho. Não bastam reflexões teológicas nem debates doutrinais. É mais “coisa de Deus”, coisa do coração. A oração, a atitude de busca e a consciência de que Deus está na vida e na história, especialmente, dos irmãos pobres e sofridos, são meios que nos favorecem para enxergar, sentir, ouvir e tocar Deus, ter a experiência de compartilhar momentos de vida com Ele. Outra coisa. Antes de encontrar Deus precisa encontrar-se consigo mesmo. Tarefa um tanto difícil no mundo atual, entrar no próprio “coração” e entender nossas buscas, sentidos e decisões, o que queremos mesmo fazer com nossos dons e nossa vida. No fundo no fundo, minha vida se direciona para Deus, ou se direciona e termina em mim mesmo? Quando buscamos sinceramente a Deus e nos tornamos “discípulos do Reino”, disse Jesus que somos “como um pai de família que tira do baú do seu tesouro coisas novas e velhas”.

Para concluir, meditemos com Pagola: “Mais do que nunca precisamos rezar, fazer silêncio, livrar-se de tanta pressa e superficialidade, deter-nos diante de Deus, abrir-nos com mais sinceridade e confiança a seu mistério insondável. Não se pode ser cristão por nascimento, mas por uma decisão que se alimenta na experiência pessoal de cada um” (p. 173).

 

 

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