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Padre Ivo Pedro Oro

Pobres pagam contas dos ricos [Fr. Betto]

CEBI ⁄ Direitos Humanos ⁄ Pobres pagam contas dos ricos [Frei Betto]

Confira o artigo de Frei Betto publicado pelo Correio da Cidadania em 24 de outubro.
Boa leitura!

Reforma da Previdência no Brasil é Robin Hood às avessas. O governo Temer quer tirar ainda mais dos pobres para poupar os ricos. Esta a conclusão dos estudos feitos pela Oxfam, conceituada instituição britânica. Apenas em 2016 o nosso país deixou de arrecadar, por falhas e omissões no recolhimento de impostos, R$ 546 bilhões!

Este o valor das isenções tributárias que o governo concedeu a determinados setores da economia, como a indústria automobilística. Graças a esse pacote de bondades, apenas em isenções fiscais os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 271 bilhões. Isso significa menos saúde, educação, saneamento, segurança etc.

Na opinião da diretora-executiva da Oxfam, Katia Maia, o Brasil precisa:

“eliminar esses benefícios e ser rígido nos controles da sonegação fiscal. A gente sabe que o Brasil deixa de arrecadar por uma sonegação grande. Também deixa de arrecadar por mecanismos (legais) que fazem com que as pessoas e empresas não paguem impostos. E ainda deixa de arrecadar com uma série de isenções fiscais para vários setores”.

O Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) estima em R$ 275 bilhões as perdas de arrecadação.

Ministério da Fazenda calcula que o rombo da Previdência em 2018 seja de R$ 202,2 bilhões. Ou seja, com a perda de receita apontada pelo relatório da Oxfam, daria para custear todas as aposentadorias e pensões e ainda sobrariam R$ 343,8 bilhões.

A cifra de R$ 546 bilhões sonegados aos cofres públicos representa 12 vezes o orçamento do Ministério da Saúde em 2016, calculado em R$ 43,3 bilhões.

O estudo cita um exemplo da chamada evasão fiscal dentro da lei. O setor de mineração usa ‘manobras’ que reduzem em até 23% o montante de tributos a ser pago aos cofres públicos.

Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo da Oxfam, ressalta que o problema do Brasil não é a elevada carga tributária, e sim o fato de não retornar à população na forma de benefícios sociais, como educação e saúde de qualidades, e ser dilapidada pelo mau uso da máquina pública.

Grajew acrescenta que “as reformas tributária e fiscal são importantes”, mas faz uma ponderação: “isso tem que ser acompanhado de justa distribuição dos recursos. Porque se continuar com a mesma distribuição, você não muda o quadro das desigualdades (sociais)”.

A Oxfam critica o fato de o Brasil ter poucas alíquotas de Imposto de Renda da Pessoa Física. Katia Maia explica:

“uma revisão das alíquotas do imposto de renda é importante. Na base tem tantas pessoas com salários tão baixos e que pagam imposto de renda. A nossa tabela está congelada há oito anos”.

A distorção tributária é tanta que, segundo o estudo, quem ganha 320 salários mínimos por mês (R$ 299,8 mil) paga a mesma alíquota efetiva (após descontos e deduções) de IR de quem ganha cinco salários mínimos (R$ 4.685).

Fonte: Artigo de Frei Betto, escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros. Publicado pelo Correio da Cidadania, 24/10/2017.

 

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TEÓLOGOS E TEÓLOGAS DA LIBERTAÇÃO LANÇAM CARTA DE APOIO AO PAPA

CEBI ⁄ Ecumenismo ⁄ Teólogos e teólogas da Libertação lançam carta de apoio ao Papa

Quarenta e seis teólogos e teólogas da Libertação de toda a América Latina lançaram um manifesto de apoio ao Papa, numa carta calorosa e que remete ao melhor da tradição teológica latino-americana.

A carta foi entregue na última sexta-feira (20) a Francisco, em Roma, pelo teólogo brasileiro Elio Gasda. No texto, os signatários solidarizam-se ao “sofrimento” do Papa pelas perseguições que sofre devido a sua postura “profética e pastoral”, “neste momento dramático da história”.

Diz-se na carta: “Queremos expressar nosso apoio por dar centralidade ao grito da Terra e ao grito das vítimas do sistema anti-vida que sacrifica milhões e milhões de irmãs e irmãos empobrecidos”. E, adiante: “Como grupo, invocamos o Espírito para que siga iluminando-o e fortalecendo”.

O manifesto foi aprovado durante o Encontro Intergeracional da Teologia da Libertação – “A força dos pequenos” da rede mundial de teologia Ameríndia, que aconteceu entre 12 e 14 de outubro. A reunião foi na simbólica cidade mexicana de Puebla onde, em 1979, realizou-se a Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (a Conferência de Puebla), que marcou o primeiro embate entre a Igreja latino-americana e o papa conservador Karol Wojtyla, eleito meses antes e que praticou um governo de terror e medo.

Apesar de os bispos da região terem conseguido aprovar um documento final avançado, o encontro ocorreu sob enorme tensão – os teólogos e teólogas foram proibidos de participar como assessores, o que era inédito desde o Concílio Vaticano II, por uma ordem conjunta do Vaticano e do ultraconservador cardeal colombiano López Trujillo, então secretário-geral do CELAM (Conferência Episcopal da América Latina) e a seguir eleito presidente do órgão. Mais de 50 teólogos e teólogas viajaram a Puebla, hospedaram-se espalhados pela cidade, e mantiveram encontros clandestinos com os bispos progressistas ao longo da conferência.

O objetivo do encontro foi reunir distintas gerações de teólogos e teólogas da Libertação, desde os fundadores, como Leonardo Boff, o venezuelano Pedro Trigo, a austríaca radicada em El Salvador Marta Zechmeister e a novíssima geração, representada, entre outros, por César Kuzma (Brasil), Geraldina Céspedes Ulloa (Guatemala/República Dominicana) e Larry Madrigal (El Salvador).

Numa das sessões do encontro Marta Zechmeister, destacou o legado “dos homens e mulheres que fizeram presente o mistério da morte e da ressurreição de Jesus, colocando-se ao lado das vítimas”. Ela expôs possíveis caminhos para a agenda da Teologia da Libertação, como “as novas linguagens que permitam recuperar a força libertadora da teologia, com um novo vigor, a favor dos marginalizados”.

Fonte: A notícia é de Mauro Lopes, publicado em seu blog Caminho pra Casa, 23/10/2017. Divulgado pelo Instituto Humanitas, 24/10/2017.

O AMOR A DEUS ACIMA DE TODO NÃO SE SEPARA DO AMOR AO PRÓXIMO

O AMOR A DEUS ACIMA DE TODO NÃO SE SEPARA DO AMOR AO PRÓXIMO

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 30º. DOMINGO COMUM – dia 29/10/17: Mt 22,34-40

A Liturgia da Palavra deste domingo nos remete ao essencial da vida cristã: viver o amor. Um doutor da Lei perguntou a Jesus para o testar: “Mestre, qual é o maior mandamento?” Os escribas ensinavam e cobravam a observância de 613 mandamentos que, segundo eles, constavam na Lei. É evidente que, nessa quantia enorme, deve haver os principais e os secundários, os mais essenciais e menos, e os mais e os menos importantes mandamentos. Daí a pergunta sobre qual o “maior mandamento”. E foi muito oportuna, pois “Quando as religiões esquecem o essencial, facilmente se adentram por caminhos de mediocridade piedosa ou de casuística moral, que não só incapacitam para uma sã relação com Deus, mas podem até prejudicar gravemente as pessoas” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p.280).

  1. O amor a Deus e ao próximo

“Jesus lhe respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma e com todo o teu ser. Este é o maior e o primeiro mandamento. Mas o segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas’.” A primeira parte era rezada todo dia, ao amanhecer e ao anoitecer, pelos homens judeus: “Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”. Isto era o principal, ajudava a lembrar de Deus e viver focado nele. Jesus, porém, acrescentou “o segundo” que ninguém lhe havia perguntado: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E os coloca em pé de igualdade e inseparáveis: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. É impossível amar a Deus acima de tudo se não amar os seres humanos, especialmente os últimos da sociedade, a quem Deus tanto amar. Também não basta “focar em Deus”, ou “centrar a vida nele, buscando saber a sua vontade”: “Não é possível amar a Deus e viver esquecido das pessoas que sofrem e às quais Deus ama tanto. Não há um ‘espaço sagrado’ no qual possamos ‘entender-nos’ a sós com Deus, de costas para os outros. Um amor a Deus que esquece seus filhos e filhas é uma grande mentira” (idem, p. 280). Deus nos pede que amemos: nada é mais importante do que isso, nem mesmo a prática de uma religião. Amar o próximo é uma forma de conversão a Deus: “Vós nos acolhestes e vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro”, diz São Paulo (1Ts 1,9).

  1. Amor é paixão por Deus e compaixão pelos humanos

Em nossa Igreja não temos seiscentas normas a cumprir, mas tantas vezes nos detemos aferrados a orientações conjunturais e não ficamos no essencial: “Vai, vende o que tens, ajuda os pobres…” (Mc 10…); “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35); “Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês” (Jo 15,12).

Vejamos o que Pagola nos anima a viver: “Que religião seria aquela em que a fome dos desnutridos ou o excesso dos satisfeitos não provocasse nenhuma pergunta nem preocupação aos crentes? Não estão desencaminhados aqueles que resumem a religião de Jesus em ‘paixão por Deus e compaixão pela humanidade’” (p. 281). Nós cristãos temos que amar, porque estamos em Deus e “Deus é amor” (1Jo 4,8) “Quem ama a Deus e se sabe amado por Ele com amor infinito, aprende a olhar-se, estimar-se e cuidar-se com verdadeiro amor” (p.282), e “a única postura humana diante de qualquer pessoa que encontramos na vida é amá-la”, pois “a pessoa é humana quando sabe viver amando a Deus e a seu próximo” (p.283). E acrescenta Pagola: “A falta de amor vai fazendo do ser humano um solitário, um ser sempre atarefado e nunca satisfeito. A falta de amor vai desumanizando nossos esforços e lutas para obter determinados objetivos políticos e sociais. (…) E, se nos falta amor, falta-nos tudo. Perdemos nossas raízes. Abandonamos a fonte mais importante de vida e felicidade” (p. 283-284). “Ser cristão não é sentir-se bem nem mal, mas sentir os que vivem mal, pensar nos que sofrem e reagir diante de sua impotência, sem refugiar-nos em nosso próprio bem-estar. (…) Não basta perguntar-nos se cremos em Deus ou o amamos. Temos de perguntar-nos se amamos como irmãos aqueles que sofrem.” (p. 285).

O caminho do amor foi o proposto por Deus já ao antigo povo: “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro… Não faças mal algum à viúva nem ao órfão. Se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei o seu clamor…Se emprestares dinheiro… não cobres juros. Se tomares como penhor o manto…deverás devolvê-lo antes do pôr-do-sol…Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso”, meditamos na 1ª. leitura (Ex 22,20-26). Quer dizer, as orientações e normas já no Antigo Testamento eram no sentido de defender os pobres, os estrangeiros, os coitados, de promover a vida. Exatamente o contrário da maioria das lei aprovadas pelo Congresso Nacional brasileiro nos últimos tempos, que buscam dar mais privilégios aos grandes, reduzir as multas de empresários (que poderiam ter pago as dívidas e não pagaram) e de eliminar direitos e reduzir políticas públicas que amparam os que mais precisam.

 

 

APA FRANCISCO: “ANTE A ESCANDALOSA CORRUPÇÃO E OS ENORMES PROBLEMAS SOCIAIS, O BRASIL PRECISA QUE SEUS PADRES SEJAM SINAL DE ESPERANÇA”

PAPA FRANCISCO: “ANTE A ESCANDALOSA CORRUPÇÃO E OS ENORMES PROBLEMAS SOCIAIS, O BRASIL PRECISA QUE SEUS PADRES SEJAM SINAL DE ESPERANÇA”

IHU = 23 Outubro 2017

 

“Neste momento difícil da sua história, em que tantas pessoas parecem ter perdido a esperança num futuro melhor diante dos enormes problemas sociais e da escandalosa corrupção, o Brasil precisa que os seus padres sejam um sinal de esperança. Os brasileiros precisam ver um clero unido, fraterno e solidário, em que os padres enfrentam juntos os obstáculos, sem deixar-se levar pela tentação do protagonismo ou do carreirismo. Tenho a certeza de que o Brasil vai superar a sua crise, e confio que vocês serão protagonistas desta superação”, afirmou o Papa Francisco, na manhã de hoje, 21 de outubro, no Vaticano, ao receber em audiência a Comunidade do Pontifício Colégio Pio Brasileiro de Roma, por ocasião dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

O Papa chamou a atenção para a ‘doença’ do ‘academicismo’ e a tentação de fazer dos estudos um mero meio de engrandecimento pessoal e alertou para que os padres não se deixem “levar pela tentação do protagonismo ou do carreirismo”. “Por favor, pediu Francisco, não se esqueçam que antes de serem mestres e doutores, vocês são e devem permanecer padres, pastores do povo de Deus!”

 

Eis o texto.

Queridos irmãos e irmãs,

Recebo-lhes hoje, por ocasião dos trezentos anos do achado da veneranda Imagem de Nossa Senhora Aparecida. Agradeço o Cardeal Sérgio da Rocha, Presidente da CNBB, pelas palavras amáveis que me dirigiu, em nome de toda a Comunidade presbiteral do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, juntamente com as religiosas e funcionários que colaboram para fazer dessa casa “um pedacinho do Brasil em Roma”.

Como é importante sentir-se num ambiente acolhedor, quando estamos longe e com saudades da nossa terra! Isso ajuda a superar as dificuldades para adaptar-se a uma realidade onde a atividade pastoral não é mais o centro do dia-a-dia. Vocês já não são mais párocos ou vigários, mas padres estudantes. E, essa nova condição pode trazer o perigo de gerar um desequilíbrio entre os quatro pilares que sustentam a vida de um presbítero: a dimensão espiritual, a dimensão acadêmica, a dimensão humana e a dimensão pastoral. Evidentemente, neste período concreto da vida de vocês, a dimensão acadêmica vem acentuada. Contudo, isso não pode significar um descuido das outras dimensões.

É preciso cuidar da vida espiritual: a Missa diária, a oração quotidiana, a lectio divina, a oração pessoal com o Senhor, a recitação do terço. Também a dimensão pastoral deve ser cuidada: na medida do possível, é saudável e recomendável desenvolver algum tipo de atividade apostólica.

E, pensando na dimensão humana, é preciso, acima de tudo, evitar que, diante de um certo vazio ligado à solidão, por não ter mais a consolação do povo de Deus, como quando estavam nas suas dioceses, acabe-se perdendo a perspectiva eclesial e missionária dos estudos. Isso abre a porta para algumas “doenças” que podem afetar o padre estudante, como por exemplo o “academicismo” e a tentação de fazer dos estudos um mero meio de engrandecimento pessoal. Em ambos os casos acaba-se por sufocar a fé que temos a missão de guardar, como pedia São Paulo à Timóteo: «Guarda o depósito que te foi confiado. Evita as conversas frívolas de coisas vãs e as contradições da falsa ciência. Alguns por segui-las, se transviaram da fé» (1Tm 6, 20-21). Por favor, não se esqueçam que antes de serem mestres e doutores, vocês são e devem permanecer padres, pastores do povo de Deus!

(…)

Queridos sacerdotes, o povo de Deus gosta e precisa de ver que seus padres se amam e vivem como irmãos, ainda mais pensando no Brasil e nos desafios tanto de âmbito religioso como no social que lhes esperam ao retorno. De fato, neste momento difícil da sua história, em que tantas pessoas parecem ter perdido a esperança num futuro melhor diante dos enormes problemas sociais e da escandalosa corrupção, o Brasil precisa que os seus padres sejam um sinal de esperança. Os brasileiros precisam ver um clero unido, fraterno e solidário, em que os padres enfrentam juntos os obstáculos, sem deixar-se levar pela tentação do protagonismo ou do carreirismo. Tenho a certeza de que o Brasil vai superar a sua crise, e confio que vocês serão protagonistas desta superação.

Para isso, contem sempre com uma ajuda particular: a ajuda da Nossa Mãe do Céu, a quem vocês brasileiros chamam de Nossa Senhora Aparecida. (…)  Que Ela, Rainha do Colégio Pio Brasileiro, ajude a fazer desta comunidade uma escola de fraternidade, transformando cada um de vocês em um fermento de unidade para as suas Dioceses, pois a “diocesanidade” do sacerdote secular se alimenta diretamente da experiência da fraternidade entre os presbíteros. E, para confirmar esses votos, concedo de coração à direção, alunos, religiosas e aos funcionários juntamente com suas famílias, a Bênção Apostólica, pedindo também que, por favor, não deixem de rezar por mim. Obrigado.

 

A crise do padre: o que compete ao ministério?

A crise do padre: o que compete ao ministério?

IHU – 19 Outubro 2017

Prossegue a rica reflexão que dom Francesco Cosentino está desenvolvendo, publicada por Settimana News sobre o tema da crise do padre, 16-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

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“DAR A DEUS O QUE É DE DEUS”: O POVO PERTENCE A DEUS, NÃO AOS GOVERNANTES IMPERADORES

“DAR A DEUS O QUE É DE DEUS”: O POVO PERTENCE A DEUS, NÃO AOS GOVERNANTES IMPERADORES

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 29º. DOMINGO COMUM – dia 22/10/17: Mt 22,15-22

Neste Dia Mundial das Missões, Jesus nos ensina que “César” não é Deus, e que o povo não é de César. Uma frase bíblica decorada e sempre distorcida e mal empregada na política brasileira é esta: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Usam para dizer que Deus e a religião não têm nada a ver com política e que a política é guiada pelos políticos profissionais.

  1. Os fariseus e herodianos fizeram um plano para apanhar Jesus. Mandaram discípulos deles a perguntar-lhe: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. (…) Dize-nos, pois, o que pensas: ‘É lícito ou não pagar o imposto a César?’ Conhecendo a malícia deles, Jesus falou: ‘Por que me testais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do imposto’. Eles lhe apresentaram um denário. Jesus perguntou: ‘De quem é essa imagem e inscrição?’ Eles responderam: ‘De César’”.

Líderes de partidos diferentes, e contrários em alguns pontos, se uniram para armar uma emboscada. (Como ocorre no Brasil, contra interesses populares.) Chegaram elogiando Jesus, como muitos falsos discursos de governante de plantão. Puseram Jesus “entre a faca e a parede”; perguntam se era lícito pagar o imposto ao imperador. Se ele respondesse Não, seria denunciado por eles ao império; se dissesse Sim, seria taxado como inimigo do povo pobre. O imposto era uma verdadeira extorsão: em torno de 46% dos produtos agrícolas, pecuários e artesanais. E o pior: praticamente sem nenhum retorno. O império não praticava nenhuma política pública de saúde, educação, assistência social e previdenciária. Os pobres ficavam à mercê das ações pessoais de caridade, ou pequeno retorno do dízimo, nada do Império… Jesus pediu que mostrassem a moeda. Esta tinha a imagem do imperador, onde estava escrito: “César Tibério, filho do venerável e divino Augusto” e, atrás, “Pontífice Máximo”. Aí, duas questões: a) A frase qualifica o imperador como Deus, o que Jesus não aceita; b) Jesus está consciente de que “a Javé pertence a terra e tudo o que ela contém, o mundo e os que nele habitam” (Sl 24,1). O ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, pertence a Ele, não ao imperador. Quem está enrolado no sistema do império, que cumpra suas obrigações. Mas o povo, especialmente os pobres, merece respeito, porque é imagem de Deus e a Ele pertence, “deles é o Reino de Deus”.

  1. “Então Jesus lhes disse: ‘Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”

Em outras palavras Jesus afirma: “Pagai a César o que é de César, mas dai a Deus o que é de Deus”. Ou seja, “dar a Deus o que é de Deus” significa que os humanos (imagem de Deus) nunca devem estar submetidos a um imperador ou ditador, nem a governo de exceção: “Os pobres são de Deus; os pequenos são seus filhos prediletos; o Reino de Deus lhes pertence. Ninguém deve abusar deles” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 272). Com esta resposta, Jesus mostra: a) que não está a serviço nem bajulando o império; b) que não concorda que os pobres, que o povo pague esse tributo; c) que o povo pertence a Deus, por isso, que não seja oprimido pelos “imperadores” que organizam as leis em função de si próprios. Como afirma Isaías (1ª leitura), falando em nome de Deus: “Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus” (Is 45,5).

Portanto, nós seguidores de Jesus “devemos resistir para que ninguém, perto ou longe de nós, seja sacrificado a nenhum poder político, econômico, religioso ou eclesiástico. Os humilhados pelos poderosos são de Deus. De ninguém mais” (idem, p. 273). Nenhum governo tem direito à vida e dignidade dos cidadãos. Ao contrário, ele é que deve submeter-se ao serviço do povo e da construção da cidadania. Em grande parte, o que verificamos no Brasil atual é praticamente o contrário…Sejamos todos missionários e missionárias pela nossa palavra, pela nossa vivência, pelo nosso testemunho e ações. Também pela doação em dinheiro para contribuir nas obras missionárias da Igreja. Que a Alegria do Evangelho nos ajude a sermos uma Igreja em saída!…Sejamos como os tessalonicenses (2ª leitura): “Recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 1,3).

 

 

 

 

Papa Francisco convoca Sínodo para a região panamazônica

Papa Francisco convoca Sínodo para a região panamazônica

IHU online – 16 Outubro 2017

Ao término da Santa Missa com o rito de canonização dos Bem-aventurados André de Soveral e Ambrósio Francisco FerroMateus Moreira e 27 companheiros mártires; CristoforoAntonio e GiovanniFaustino Míguez e Angelo de Acri, celebrada no átrio da basílica vaticana, o Santo Padre Francisco guiou a oração do Ângelus com os fiéis e os peregrinos presentes na Praça de São Pedro.

O principal objetivo do Sínodo é, segundo o Papa, “identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de grande importância para o nosso planeta”.

Na mensagem o Papa Francisco também recordou que  nesta terça-feira, “será o Dia da Rejeição da Miséria. A miséria não é uma fatalidade: ela tem causas que devem ser reconhecidas e removidas, para honrar a dignidade de tantos irmãos e irmãs”.

Estas foram as palavras do papa na introdução da oração mariana.

A nota foi publicada por Santa Sé, 15-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Queridos irmãos e irmãs,

Ao término desta celebração, saúdo cordialmente a todos vocês, que, de vários países, vieram prestar homenagem aos novos santos. Um pensamento deferente vai particularmente às delegações oficiais do BrasilFrançaItáliaMéxicoOrdem de Malta e Espanha. Que o exemplo e a intercessão dessas luminosas testemunhas do Evangelho nos acompanhem no nosso caminho e nos ajudem a promover sempre relações fraternas e solidárias, pelo bem da Igreja e da sociedade.

Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, além da voz de diversos pastores e fiéis de outras partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região panamazônica, que será realizada em Roma no mês de outubro de 2019.

O principal objetivo dessa convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de grande importância para o nosso planeta.

Que os novos santos intercedam por esse evento eclesial, para que, no respeito à beleza da criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e, por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz.

Recordo também que, depois de amanhã [terça-feira], será o Dia da Rejeição da Miséria. A miséria não é uma fatalidade: ela tem causas que devem ser reconhecidas e removidas, para honrar a dignidade de tantos irmãos e irmãs, a exemplo dos santos.

E agora nos dirijamos em oração à Virgem Maria.

Angelus Domini…

 

DEUS NÃO ESTÁ EM CRISE: CONVIDA A TODOS PARA O BANQUETE DE VIDA PLENA

DEUS NÃO ESTÁ EM CRISE: CONVIDA A TODOS PARA O BANQUETE DE VIDA PLENA

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 28º. DOMINGO COMUM – dia 15/10/17: Mt 22,1-14

Deus quer para nós vida com alegria, felicidade e salvação. Jesus retrata isso na parábola do banquete. O rei representa Deus; o seu filho representa Jesus; os primeiros convidados são as lideranças religiosas e políticas do povo; e os enviados para convidar são os profetas e mensageiros. Deus prepara uma festa (= vida com justiça e alegria) para todos seus filhos e filhas, na qual estejamos sentados ao seu lado, numa grande fraternidade, nos banqueteando da gostosa vida plena. Mas a parábola revela que nós, seres humanos, atendemos outros convites e arranjamos desculpas para recusar o convite que Deus, amorosamente, nos faz.

  1. As desculpas e recusas

“Os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram”, diz a parábola. Como hoje é difícil ouvir o convite de Deus a participar do seu reino, de ter tempo, energia e recursos para a sua missão! Recusamos, muitas vezes conscientemente, ou indiferentes, ou até com agressividade. A parábola ressalta o motivo da “lavoura” e dos negócios. Sem dúvida, o envolvimento com o trabalho, a produção capitalista absorve atenção, tempo e investimento, e Deus acaba ficando geralmente em último lugar. Na sociedade capitalista, dizia Karl Marx, “acumular, acumular: nisto consiste a lei e os profetas”. E como dizia Max Weber, aí as pessoas “carecem de ouvidos para o religioso”. Em vez do convite de Deus e de participar do seu Reino, hoje, para a maioria das pessoas, “a felicidade está em ter mais, comprar mais, possuir mais coisas e mais segurança. (…) Outros buscam o gozo imediato e individualista: sexo, droga, diversão, jantares de fim de semana; é preciso fugir dos problemas; refugiar-se no prazer do presente. Há ainda os que se entregam ao cuidado do corpo: o importante é manter-se em forma, ser jovem, não envelhecer nunca” (Pagola. O Caminho aberto por Jesus – Mateus, p. 267). E vão respondendo não ao convite do banquete da vida plena e verdadeira.

  1. O convite de Deus é para todos

“O rei disse aos empregados: a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes. (…) E a sala da festa ficou cheia de convidados”, continua a parábola. Jesus mostrava na prática que todos são convidados. Ele fazia refeição junto com excluídos, pobres, pecadores, os “fora da lei” daquela época. O desejo de Deus é que esta festa já aconteça agora, em nosso mundo atual: a vida sendo uma imensa confraternização entre todos, na igualdade, na justiça, nos direitos respeitados, com condições de vida digna, as necessidades básicas sendo atendidas, enfim, a sociedade tendo vida de irmãos e irmãs, com paz e alegria. Como estamos ainda longe deste sonho de Deus! Temos ainda um longo caminho a percorrer, embora, olhando bem, vemos sinais de vivência e de luta para isso em nossas comunidades e nos movimentos populares. Mas tenhamos claro: a plenitude desta festa será no mundo futuro, quando haverá um novo céu e uma nova terra. As pessoas se dizem em crise, as religiões talvez estejam em crise, mas Deus não está em crise, ele tem seus caminhos e seus métodos para fazer chegar seu convite a todas as pessoas que estão nas “encruzilhadas da vida”, nas “periferias existenciais”, onde os rostos humanos revelam o rosto sofrido de Deus hoje. Os que têm condições e deveriam ser os primeiros a participar do banquete recusam o convite de Deus. Mas o seu Reino não vai parar: o convite chega então às encruzilhadas, aos últimos da sociedade. Como afirma Pagola, “satisfeitos com o nosso bem-estar, surdos a tudo que não seja nosso próprio interesse, achamos que não precisamos de Deus” (p.265), e nos acostumamos a viver sem a esperança última e mais profunda.

Deus, porém, continua a oferecer “um banquete de deliciosas comidas, com vinhos puros e finos”, e quer eliminar “para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra de seu povo”, diz Isaias na 1ª. leitura (Is. 25,6-10ª). As relações interpessoais e sociais dependem de nós, como afirma São Paulo, na 2ª. leitura: “Aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. Tudo posso naquele que me dá força” (Fil 4,12-14.19-20).

Para atender o convite e participar do banquete do Senhor, digamos sim ao seu chamado e sejamos todos missionários e missionárias. E, no próximo fim de semana, ajudemos a obra missionária de Deus com nossa contribuição na coleta das missões.

 

MÃE APARECIDA, AJUDE-NOS A SERMOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS

MÃE APARECIDA, AJUDE-NOS A SERMOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da Solenidade de N. Sra. da CONCEIÇÃO APARECIDA – 12/10/17 – Jo 2,1-11

Estamos encerrando o Ano Mariano. Tivemos a oportunidade de vivenciar intensamente nossa devoção a Maria, de venerá-la de forma sincera, não interesseira, e seguindo seu testemunho de mulher que acolhe a Palavra e a guarda sem seu coração. Foi um ano para celebrar, fazer memória e agradecer. Comemoramos hoje os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas águas do rio Paraíba do Sul. Os pescadores pobres tiveram uma experiência de insucesso: não haviam pescado nada. Mas, perseveraram no trabalho, encontraram a imagem e pescaram grande quantidade. Tornaram-se missionários, partilhando com os vizinhos a graça recebida. Esta é uma lição sobre a missão da Igreja no mundo: “O resultado do trabalho pastoral não se assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor”, como diz o Papa Francisco.
A aparição da imagem já revela a opção de Deus e de Maria pelos pobres: “Com ela identificam-se todos os que são oprimidos e postos à margem em nosso país. Além do mais, ela quis aparecer negra, identificando-se, assim, com os escravos de ontem e de hoje” (Bortolini, José. Roteiros Homiléticos, p. 779).

  1. A simbologia das bodas de Caná

João não fala em milagres. Fala em sinais, e este em Caná foi o primeiro sinal realizado por Jesus. Sinal revelador de que Jesus dá a vida, por amor e até as últimas consequências. João o descreve em linguagem repleta de símbolos. No “sexto dia”: lembra o dia da criação do homem e da mulher. Aqui sugere que com Jesus inicia uma nova humanidade. As “seis talhas de pedra vazias”: pedra lembra as tábuas da Lei, dos mandamentos; seis eram as festas judaicas relatadas no evangelho de João; “destinadas à purificação” – mostra um relacionamento difícil com Deus distante; não filial, com amor e misericórdia; “vazias” – o conteúdo daquelas práticas é ineficaz, não torna nosso encontro com Deus uma festa; as “bodas” sugerem que em Cristo se estabelece uma aliança de amor de Deus conosco; o “noivo verdadeiro” desta união é Jesus e a “noiva”, que nem é citada no texto, somos nós – humanidade – na medida em que estivermos profundamente unidos a Jesus, numa aliança verdadeira: “Esse relacionamento íntimo tem como única razão de ser o amor total e a fidelidade plena, representados pelo vinho novo e abundante que o Messias-esposo oferece” (id., p. 782).

  1. Maria olha por nós e nos encaminha a Jesus

O Evangelho diz que a “mãe de Jesus estava lá”, possivelmente fosse parente ou amiga dos que promoviam a festa. Há duas frases pronunciadas por Maria neste relato. A primeira é a dita a Jesus: “Eles não têm mais vinho”. Vinho era sinal da alegria e do amor conjugal. Se falta esse amor, como o vinho na festa, precisa ser recriado pelo Messias. Quem sabe, junto de Deus, a padroeira do Brasil esteja dizendo: “Eles não têm mais sentido de vida”; “eles e elas estão perdendo a esperança”; “as pessoas não têm mais o vinho da alegria e do amor fraterno”; “as famílias perderam o gosto do diálogo e da convivência”; “os pobres do Brasil perderam direitos e não têm mais governo preocupado com o bem comum”; “as comunidades não têm mais o gosto da alegria do Evangelho e da liturgia”… A outra frase de Maria foi dita aos serventes: “Fazei tudo o que Jesus disser”. Somente com a obediência a Jesus e seguindo sua palavra poderemos fazer acontecer a vida nova e o novo mundo com os quais tanto sonhamos. Sem Ele, a vida da humanidade jamais terá a alegria e a abundância como “uma festa de casamento”. Maria não chama atenção para si. Ela sabe que o centro de nossa vida é Jesus.

A primeira leitura (Est 5,1-2;7,2b-3) mostra Ester encantando o rei que a autoriza a fazer um pedido. Ela revela seu desejo de ela e o povo viverem: “concede-me a vida, e a vida de meu povo – eis o meu desejo!”. Ela é prefigura de Maria, que também quer vida para o povo brasileiro, e não concentração nas mãos de alguns e miséria e sofrimento para a maioria.

A segunda leitura (Ap12,1.5.13ª.15-16ª) mostra o Dragão (símbolo do Império Romano) querendo devorar o filho (a nova vida, o povo em comunidades) gerada pela mulher (Igreja). Esse Dragão “representa as forças opressoras e de morte que se encarnam em pessoas e arranjos sociais, dificultando o testemunho das comunidades proféticas, procurando devorar os frutos das mesmas” (id., p. 783). Que a nossa Igreja siga sempre o exemplo de Maria, gerando mais vida ao povo em suas pastorais e comunidades, e assim construir o Reino de Deus.

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