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Grão de Mostarda

Padre Ivo Pedro Oro

CHAPECÓ, ALÉM DA CHAPE…

CHAPECÓ, ALÉM DA CHAPE…

Momento ímpar de emoção,

Chapecó e região, total unidade.

Jamais se vivenciou tal comunhão

Como em meio a essa consternação

Que ensinou lições de vida e saudade.

 

A tragédia na Colômbia trouxe

O testemunho dos colombianos.

Muito solidários e fraternos,

Mostram que a perda de heróis eternos

Pode nos tornar mais humanos.

 

Chapecó do desbravamento,

Dos caboclos e índios desterrados,

Mas também de acolhimento

De imigrantes e descendentes

Vindos a este chão disputado.

 

Chapecó de tragédias e desgraças

De conflitos e opressão.

Chapecó de desastres e trapaças

De universidades e de artes,

De disputas e competição.

 

Sua pujança na economia

Em setores mais diversos

É centro de contradições,

De enfrentamento e oposições

Entre os interesses adversos.

 

Grande polo industrial,

Agropecuário e comercial.

Por trás de um semblante bonito

Perdura o acirrado conflito

Entre o trabalho e o capital.

 

Da queima de sua igreja,

Abraçada então ao poder,

Passou-se à Igreja samaritana

Que promove vida mais humana

E luta pra justiça acontecer.

 

 

Chapecó do desenvolvimento

E de muita expressão de fé.

Mas também de perseguição,

De ameaças e pressões

Contra líderes e o profeta Dom José.

 

Berço de heróis anônimos

Não comemorados na história.

Quanta luta, sangue e suor

Deste povo trabalhador

Clamando por mais memória!..

 

Vertente de movimentos

Gestados neste lugar.

De participação do povo

Por cidadania e mundo novo

Em organização popular.

 

As lágrimas de comoção

Secadas nas verdes bandeiras

Da Chape sempre querida

Nos convocam a mexer na ferida

Causada por pessoas traiçoeiras.

 

A tragédia da Chape é inesquecível

– Desprezar seria um desatino.

Mas é loucura e retrocesso

Engavetar o processo

Do assassinato de Marcelino…

 

Grandes eventos se organizam,

Chapecó, festejando teu centenário…

Oxalá as vivências e emoções

Da triste tragédia e suas lições

Tornem (ainda) mais humano teu cenário…

(02.12.2016)

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Privatização da Eletrobras é “pá de cal” no setor, diz Ildo Sauer

Revista IHU online = 24 Agosto 2017

Ex-diretor da Petrobras de 2003 a 2008 e professor do Instituto de Engenharia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Ildo Sauer rechaça o plano do governo de Michel Temer de privatizar a Eletrobras.

Na noite da segunda-feira 21, a estatal anunciou ao mercado a intenção do governo de se desfazer de seu controle. Hoje, a União detém 63,2% das ações. A notícia surpreendeu o mercado, pois os papeis da empresa subiram mais de 50%. Mas não Sauer. “É um desastre continuado. Vai aprofundar os problemas e aumentar os preços.”

A entrevista é de Dimalice Nunes, publicada por CartaCapital, 24-08-2017.

Na entrevista o especialista traça um breve histórico dos fatores que levaram à desorganização do setor elétrico, alvo de diversas privatizações nos governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e garante: “não tem modelo de privatização aceitável”.

Segundo ele, o objetivo de aumentar a participação da iniciativa privada no setor é o mesmo da gestão tucana: elevar a eficiência e, de quebra, tentar acomodar o rombo das contas públicas. “O governo Fernando Henrique começou a privatizar dizendo que ia abater a dívida pública, melhorar a eficiência, a qualidade e diminuir as tarifas. A dívida pública só aumentou, as tarifas aumentaram muito acima da inflação e criamos um racionamento”, lembra Sauer.

Eis a entrevista.

Qual a primeira impressão a respeito do anúncio da possível privatização da Eletrobras?

Sem espanto e sem alegria. Sem alegria porque é um desastre continuado. Já vem de décadas essa postura em relação aos recursos naturais e seu aproveitamento em favor da transformação da sociedade brasileira.

Vem com a tentativa de privatizar a utilização aparelhada do sistema elétrico pelo governo de José Sarney, as tentativas de destruição do sistema elétrico nos governos de Fernando Henrique, o não resgate do sistema elétrico como deveria e como foi proposto pela campanha do governo Lula, ao continuado loteamento dos cargos do sistema elétrico pelo governo de coalizão ou cooptação, que já vem de antes, mas foi mantido.

Houve um breve interregno numa tentativa de mudar, com a presidência do Pinguelli(Luiz Pinguelli Rosa) na Eletrobras, mas ele foi demitido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que dizia que o Pinguelli não tinha senadores e o Sarney tinha.

E com a ex-presidente Dilma Rousseff aconteceu o desastre maior: ela fez a reforma do modelo do setor elétrico em 2004, mas abandonou o que foi compromissado na campanha, o resgate das empresas públicas e seu papel de garantir o abastecimento da energia no Brasil em conjunto com a iniciativa privada, vendendo a energia a um custo entre o médio e o custo marginal, usando essa diferença para ampliar os investimentos no setor e investindo em educação e saúde pública.

Quais foram os principais erros de Dilma?

O que ela fez foi destruir o valor econômico da Eletrobras para manter os privilégios dos grupos privados que vendiam energia a custos altíssimo, em leilões de natureza complexa e suspeita – leilões de reserva – e compraram muita energia térmica cara.

Ela resolveu renovar as concessões e forçar a venda da energia a um preço próximo do custo da operação e manutenção, 10 ou 12 reais o megawatt/hora mais impostos, quando os privados vendiam entre 250 ou até 1,1 mil reais megawatt/hora. Então ela usou o potencial de geração de recursos para fazer da Eletrobras uma muleta e subsidiar um sistema que não funciona.

E agora com o governo Temer?

É a pá de cal em tudo. A impressão que eu tenho é que é um bando de gangsteres ou de ratos que estão vendo o navio afundando e tentam abocanhar o resto de queijo, de riqueza, para se locupletar enquanto o navio não afunda. É importante dizer que o que esse governo está fazendo com essa ousadia, essa audácia, e ausência total de legitimidade é um acinte à democracia porque é um aprofundamento da cleptocracia. É um contraste brutal entre o que poderia ser feito e o que está sendo feito.

Essa medida foi proposta pelo Ministério da Fazenda, para cobrir o rombo das contas públicas, e pegou o mercado de surpresa. Como esse afogadilho prejudica a segurança do sistema elétrico? Há risco de desabastecimento?

Não. O fato de vender usinas ou o controle de usinas não afeta diretamente a produção de energia. Até porque a Eletrobras está completamente manietada já há muito tempo. Ela não vem sendo usada como protagonista, virou muleta auxiliar dos negócios privados.

O problema existia e está se agravando. O sistema está em risco porque estamos há muito tempo com planejamento completamente equivocado, escolha de vencedores de leilão por critérios errados, violando o interesse público e falta de contratação de capacidade suficiente.

Por isso o sistema está em risco. Mesmo com recessão continuada estamos com risco de falta de energia. Imagina se a economia estivesse crescendo? O sistema elétrico está completamente deteriorado e as medidas que o governo Temer está tomando tem como objetivo proteger os interesses de investidores do sistema financeiro que querem, num momento de fragilidade da mobilização popular, abocanhar ativos para depois revalorizar a empresa e aumentar tarifas.

O governo fala em redução das tarifas com um potencial ganho de eficiência da empresa depois de privatizada. Qual deve ser o impacto?

É um acinte à inteligência de qualquer ser racional a afirmação do ministro (ministro de Minas e EnergiaFernando Coelho Filho) de que isso vai baixar tarifa. A energia está contratada a preços aviltados para tapar a lacuna dos grandes erros dos outros contratos. Então ninguém vai comprar para operar daquele jeito, vão comprar para depois realizar uma nova manobra para reavaliar o valor e dizer que “não, essa energia está muito abaixo do mercado, precisamos dar um jeito”. Isso é histórico no Brasil no setor de energia.

O governo FHC começou a privatizar dizendo que ia abater a dívida pública, melhorar a eficiência, a qualidade e diminuir as tarifas. A dívida pública só aumentou, as tarifas aumentaram muito acima da inflação e criamos um racionamento. E essa trajetória de aumento das tarifas acima da inflação continuou nos governos Lula e Dilma.

Falta argumentos racionais para fazer o que eles estão fazendo. É uma agressão ao sistema democrático e ao interesse público.

O que deveria ser feito para reorganizar o setor e garantir a oferta de energia com modicidade das tarifas?

São duas tarefas: uma é impedir a privatização da Eletrobras, que vai agravar tudo. A segunda é que o modelo colocado, herdado dos governos FHCLula e Dilma, precisa ser revisto. É preciso revisar o modelo de planejamento, é preciso retomar a contratação centralizada, é preciso reorganizar o setor e contratar a construção das melhores usinas.

No Brasil não faltam recursos, o maior potencial de geração de energia hoje é o eólico, que adequadamente combinado com o hidráulico poderia atender toda a demanda do Brasil até quando a população vai se estabilizar, em 2040, como o previsto pelo IBGE, em 220 milhões de habitantes, e dobrando o consumo per capita.

Não faltam recursos naturais, não falta capacidade tecnológica, não falta recursos humanos: falta organizar o sistema, geri-lo e operá-lo de acordo com o interesse público. Tem que trocar os critérios de operação. A proposta do governo Temer vai aprofundar os problemas e aumentar os preços, porque ele eleva os riscos para os agentes individuais.

O que o governo Temer está fazendo é, face ao desastre do legado do governo Dilma, aproveitar essa lacuna a considerar que o interesse público não tem mais chance. É fazer o assalto final ao que restou para gestar novos interesses que depois de constituídos irão se sobrepor e irão impor suas condições ao governo que virá. Temos de enfrentar isso com todo o vigor. Um governo sem legitimidade que quer destruir uma construção histórica de mais de meio século e um recurso natural permanente.

Ainda não há definição sobre o modelo que será usado para a venda do controle estatal da Eletrobras, mas existiria um modelo menos pior, capaz de assegurar algum nível de controle?

É não vender e restaurar a Eletrobras. Restaurá-la na sua capacidade, reorganizar sua gestão e não inventar mentiras como o aumento da eficiência e a redução das tarifas. É restaurar a gestão do interesse público para mudar o País. Não tem modelo de privatização aceitável.

Alguns envolvidos no projeto de privatização da Eletrobras fizeram parte do governo FHC na época do apagão. Há algum paralelo entre as situações?

Claro, a Elena Landau, que presidiu o conselho de administração da Eletrobras e o presidente da Eletrobras (Wilson Ferreira Júnior), um notório técnico que era serviçal do projeto tucano da privatização das empresas de São Paulo, a CPFLEletropaulo e Cesp.

Ele é definido como técnico, mas as soluções técnicas podem servir a dois interesses, ao público ou ao dos grupos econômicos e financeiros. Os que estão lá hoje participaram ativamente do racionamento do Fernando Henrique, todos eram sócios do modelo daquele tempo, vinculado à utilização das empresas estatais em favor dos grandes interesses privados e financeiros.

 

QUAL É A MISSÃO DE QUEM SE IDENTIFICA COMO SEGUIDOR DE JESUS?

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 21º. DOMINGO COMUM – dia 27/08/17: Mt 16,13-20

Jesus e os discípulos estão em Cesareia de Felipe, região pagã, próximo de onde Ele iniciou sua missão. Longe do “centro” político, econômico e religioso de seu país. Daí dessa “periferia” ele lança o questionamento e os discípulos precisam responder: “Quem a o povo diz que eu sou?” e “Vocês, quem dizem que eu sou?”.

  1. “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”

Naquela oportunidade as respostas se resumem mais ou menos nesta: “um grande profeta que ressuscitou e apareceu entre nós”. Mas não passava de um profeta… Jesus se apresentou como “Filho do Homem”, quer dizer, um humano e mortal, e isto complicava na cabeça do povo que esperava alguém “vindo das nuvens do céu”. Hoje em dia, mesmo sendo fundamental a compreensão que se tenha de Jesus, nosso povo ainda espalha afirmações em todas as direções. O entendimento vai desde um ser divino que se fingiu de humano até um revolucionário político. Os filmes também exploram e acentuam aspectos de Jesus, como o seu sofrimento, a dimensão afetiva, o lado glorioso, o poder de curar e outros. A compreensão do Jesus histórico, o Jesus de Nazaré, enquanto ser humano, filho de Maria e de José, trabalhador braçal, participante da sua comunidade, plenamente humano, igual a nós em tudo, menos no pecado… isso é indispensável para uma visão mais correta de Jesus. Ele viveu e participou dos sonhos do seu povo, que rezava, lutava e aguardava pela libertação e salvação do povo pobre, à espera da vinda do Messias que traria um tempo novo para a humanidade. Sua conduta era de sintonia e fidelidade ao sonho profético de um novo céu e uma nova terra, onde reinaria a justiça e o direito… Nada a ver com a imagem de um Jesus mais anjo que humano, ou mais poderoso do que “pastor com cheiro das ovelhas”.

  1. “E vós, quem dizeis que eu sou?”

A resposta de Pedro – “o Cristo, Filho do deus vivo” – apresenta Jesus como o realizador da promessa messiânica, como o Deus-conosco e Salvador. Portanto, aquele que veio realizar a justiça de Deus. Jesus confirma esta confissão de Pedro e manifesta que tal compreensão não ocorre por acaso, mas por graça de Deus, pelo “meu Pai que está no céu”. E, ao Jesus dizer a Pedro “sobre esta pedra construirei a minha Igreja”, Ele está afirmando que a comunidade é construída sobre a verdadeira fé e a confissão prática dessa fé. Dizemos hoje: a fé em Jesus e a fé de Jesus, ter a mesma fé que Jesus teve, no Reino e amor misericordioso do Pai que nos quer todos e todas iguais. A comunidade cristã é uma comunidade convocada por Deus, discípula-missionária, que dá testemunho de sua fé.

  1. “Tudo o que ligares na terra será ligado no céu; tudo o que desligares na terra será desligado no céu.”

Jesus confiou à sua Igreja “as chaves do Reino de Deus”. A Igreja tem a presença de Jesus, seu poder e sua palavra, para levar adiante a mesma missão. “Quando o testemunho cristão é pleno, é o próprio Jesus quem age na comunidade, permitindo-lhe ligar e desligar”, diz Bortolini (Roteiro Homiléticos, p. 211). O Reino é levado adiante pelo testemunho e pelo anúncio, pelo diálogo e serviço. Aliás, a Igreja está a serviço, não é “proprietária do poder de Jesus”. Com sua atuação clara e coerente, fica evidente quem está ligado a Jesus e quem está desligado dele, quem é a seu favor e quem é contra Ele. E seu messianismo é de serviço, não de privilégios nem de ficar aparecendo e se esnobando, por isso pediu que “não dissessem a ninguém que Ele era o Messias”.

Concluindo, é quando nos identificamos com jesus e com sua proposta que podemos melhor confessar quem é Jesus e quem é Ele para nós. E nossa identificação com Ele move dentro de nós a força e a coragem de construirmos seu Reino, mesmo que tenhamos de “desligar” da caminhada aquilo que contradiz o seu reinado.

 

ROUBARAM A ESPERANÇA? Frei Betto

ROUBARAM A ESPERANÇA?

Frei Betto

Se você já não enxerga perspectiva de futuro, despreza políticos e a política, recolhe-se à sua esfera privada, é sinal de que lhe roubaram a esperança.

Se já não suporta o noticiário, acredita que a espécie humana deu errado e todas as libertações resultam em opressões, saiba que lhe roubaram a esperança.

Se destila ódio nas redes digitais, desconfia de todos que proferem discursos sobre ética e preservação do meio ambiente, e confia apenas em sua conta bancária, esteja certo, roubaram-lhe a esperança.

Se não curte mais sonhos de um futuro melhor, não injeta utopia na veia e não assume seu protagonismo como cidadão, preferindo se isolar em sua redoma de cristal, é sinal de que lhe roubaram a esperança.

Os amigos de Jó tudo argumentaram para que ele abdicasse da esperança. Como teimava em mantê-la acesa se havia perdido terras, riquezas e família? Jó não introjetou a culpa, não jogou sobre os ombros de outrem os males que o afligiam, não abominou os revezes que o acometeram.

Reza o poema de Franz Wright, inspirado na prece da poeta persa Rabi’a al-Adawiyya, “Deus, se pronuncio meu amor por você por medo do inferno, incinere-me nele; / se pronuncio meu amor por ansiar pelo paraíso, feche-o em minha face. / Mas se com você eu falo apenas porque você existe, pare / de esconder de mim sua / infinita beleza.”

Nessa gratuidade da fé, da esperança e do amor é que Jó se sentiu recompensado ao contemplar a infinita beleza: “Te conhecia só por ouvir dizer. Mas, agora, meus olhos te viram” (42,5).

Como escreveu Spinoza em seu “Tratado teológico político”, “um povo livre se guia pela esperança mais do que pelo medo; o que está oprimido se guia mais pelo medo do que pela esperança. Um almeja cultivar a sua vida. O outro, suportar o opressor. Ao primeiro, eu chamo livre. Ao segundo, chamo servo.”

Você, como eu, é vítima de promessas que se transformaram em ilusões que desembocaram em frustrações. Nem por isso admito que me roubem a esperança.

O segredo? Simples. Não me prendo ao aqui e agora. Olho as contradições do passado, marcado por retrocessos e avanços. Quantas batalhas perdidas resultaram em guerras vitoriosas? E quantos imperadores, senhores da vida e da morte, dos Césares a Átila, o huno; de Napoleão a Hitler; acabaram enxovalhados pela história?

Encaro o futuro em longo prazo. Sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.

Não creio em discursos nem amarro a minha esperança no paraquedas de algum avatar que promete salvação em curto prazo. Exijo programas e projetos, e julgo seus portadores por critérios rígidos. Procuro conhecer-lhes a vida pregressa, o compromisso com os movimentos sociais, sua ética e valores.

Sei que o futuro será o que fizermos no presente. Não espero milagres. Arregaço as mangas, convicto de que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

A esperança é uma virtude teologal. A fé crê; o amor acolhe; a esperança constrói. Assim como o caminho se faz ao caminhar, a esperança se tece como o alvorecer no poema de João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece a manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro: de outro galo / que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzam / os fios de sol de seus gritos de galo / para que a manhã, desde uma tela tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos.”

Gosto do verbo esperançar – estender o fio de Ariadne que nos conduz a todos para fora do labirinto. É um esforço coletivo, uma ação comunitária, um mutirão que nos irmana na certeza de que de dentro da pedra corre o filete de água que forma o córrego, faz o riacho, vira rio e rasga a terra, rega campos, alimenta ribeirinhos, até se somar ao leito do oceano.

Como diz Mário Quintana em “Das utopias”, “Se as coisas são inatingíveis… ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os caminhos, se não fora / A mágica presença das estrelas!”

Frei Betto é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Anfiteatro), entre outros livros.

 

CNBB estimula Jornada de Oração e Jejum pelo Brasil por ocasião do Dia da Pátria

REVISTA IHU ON-LINE = 16 Agosto 2017

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) convida a todos para uma Jornada de Oração pelo Brasil, a ser realizada nas comunidades, paróquias, dioceses e regionais do país, de 1º a 7 de setembro próximo. Os bispos decidiram mobilizar os cristãos, por meio da oração, após a análise da realidade brasileira feita na última reunião do Conselho Episcopal Pastoral da entidade, dias 10 e 11 de agosto.

A informação é publicada por Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, 16-08-2017.

Dia de Oração e Jejum sugerido é o dia 7 de setembro, data que marca a Independência do Brasil. Além da carta, enviada a todos os bispos brasileiros, foi enviada também uma oração (confira abaixo), a mesma enviada por ocasião da celebração de Corpus Christi, com uma pequena adaptação na última prece.

Segundo o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, a Jornada de Oração é uma oportunidade para que os cristãos e pessoas de boa vontade que querem um Brasil melhor, mais fraterno e não dividido se unam.

“Nós estamos necessitados de um novo Brasil, mais ético; de uma política mais transparente. Nós não podemos chegar a um impasse de acharmos que a política pode ser dispensada. A política é muito importante, mas do modo do comportamento de muitos políticos, ela está sendo muito rejeitada dentro do Brasil. Nós esperamos que esse dia de jejum e oração ajude a refletir essa questão em maior profundidade.”

Um dos trechos da oração, encaminhada a todos os bispos do país pelo Consep, pede:

“Ajudai-nos a construir um país justo e fraterno. Que todos estejamos atentos às necessidades das pessoas mais fragilizadas e indefesas! Que o diálogo e o respeito vençam o ódio e os conflitos! Que as barreiras sejam superadas por meio do encontro e da reconciliação! Que a política esteja, de fato, a serviço da pessoa e da sociedade e não dos interesses pessoais, partidários e de grupos”.

 

Veja a íntegra da oração:

 

Jornada de oração pelo Brasil

Semana da Pátria – 1º a 07 de setembro de 2017

07 de setembro – dia da Pátria: Vida em primeiro lugar

“A paz é o nome de Deus” (Papa Francisco)

 

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!
Vivemos um momento triste, marcado por injustiças e violência. Para construirmos a justiça e a paz, em nosso país, necessitamos muito do vosso amor misericordioso, que nunca se cansa de perdoar.
Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!
Estamos indignados, diante de tanta corrupção e violência que espalham morte e insegurança. Pedimos perdão e conversão. Nós cremos no vosso amor misericordioso que nos ajuda a vencer as causas dos graves problemas do País: injustiça e desigualdade, ambição de poder e ganância, exploração e desprezo pela vida humana.
Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!
Ajudai-nos a construir um país justo e fraterno. Que todos estejamos atentos às necessidades das pessoas mais fragilizadas e indefesas! Que o diálogo e o respeito vençam o ódio e os conflitos! Que as barreiras sejam superadas por meio do encontro e da reconciliação! Que a política esteja, de fato, a serviço da pessoa e da sociedade e não dos interesses pessoais, partidários e de grupos.
Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!
Vosso Filho, Jesus, nos ensinou: “Pedi e recebereis”. Por isso, nós vos pedimos confiantes: fazei que nós, brasileiros e brasileiras, sejamos agentes da paz, iluminados pela Palavra e alimentados pela Eucaristia.
Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!
Vosso filho Jesus está no meio de nós, trazendo-nos esperança e força para caminhar. A comunhão eucarística seja fonte de comunhão fraterna e de paz, em nossas comunidades, nas famílias e nas ruas.
Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!
Neste ano em que celebramos os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, queremos seguir o exemplo de Maria, permanecendo unidos a Jesus Cristo, que convosco vive, na unidade do Espírito Santo.
Amém!

(Pai nosso! Ave, Maria! Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!)

 

Veja a íntegra da carta:

 

Brasília-DF, 10 de agosto de 2017 = SG – Nº. 0500/17

Prezado irmão no episcopado,
Unidos para servir!

Vivemos um momento difícil e de apreensão no Brasil. A realidade econômica, política, ética vem acompanhada de violência e desesperança.

Conselho Permanente, ao refletir o momento vivido, pediu que a Presidência enviasse carta ao irmão, sugerindo um Dia de jejum e oração pelo Brasil. Pediu igualmente que fosse enviada uma oração que pudesse ser rezada nas comunidades e famílias.

O dia de oração e jejum sugerido é o dia 7 de setembro próximo. A oração que enviamos também em anexo é a mesma que rezamos no dia de Corpus Christi. Houve uma adaptação na última prece.

Convidamos o irmão a incentivar a participação das comunidades e famílias no Dia de Jejum e oração pelo Brasil.

Em Cristo, unidos para servir,

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília – DF 
Presidente da CNBB

Dom Murilo S. R. Krieger
Arcebispo de São Salvador
Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília – DF
Secretário-Geral da CNBB

 

DE QUE LADO MARIA SE COLOCA? DO LADO DE DEUS E DOS POBRES

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO da SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA: dia 20/08/17: Lc 1,39-56

A visita de Maria a sua prima Isabel, a saudação entre elas, as exclamações de alegria e de louvor a Deus e a oração de Maria (Magnificat) revelam quem é a Maria Mãe do Senhor: aquela que se coloca ao lado de Deus que tem opção pelos pobres e excluídos da sociedade. Isto nos provoca a purificarmos nossa devoção a Maria neste Ano Nacional Mariano. É melhor vivenciarmos Maria com os traços e qualidades revelados na Bíblia do que aqueles que as culturas foram imaginando e criando ao longo dos tempos.

  1. O encontro das grávidas Isabel e Maria

O texto omite a presença dos maridos Zacarias e José, quer ressaltar as mulheres, que atribuem a Deus e vivenciam na fé, tanto a gravidez como o nascimento destes meninos. Elas captam, cheias de fé e do Espírito, a maravilha divina que está acontecendo nelas e no povo de Deus. A saudação traduz a alegria, e traz a paz para toda a casa. Maria aparece como portadora da salvação, porque carrega Jesus em seu ventre, e o menino João salta de alegria no ventre de Isabel, ele que seria depois o profeta precursor.

Da exclamação de Isabel, quando séculos depois cristãos inventaram a oração da Ave Maria, foi aproveitada esta frase: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. “Deus está sempre na origem da vida. As mães, portadoras de vida, são mulheres ‘benditas’ pelo Criador: o fruto de seus ventres é bendito. Maria é a ‘bendita’ por excelência: com ela nos chega Jesus, a bênção de Deus para o mundo.” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus, Lucas, p. 30). Esse encontro das grávidas com fé nos chama a celebrarmos e a vivermos sempre a partir da fé no mistério de Deus encarnado em Jesus. Hoje, feliz a Igreja e felizes as famílias se vivem e transmitem a fé aos seus filhos e filhas!

  1. As marcas e qualidades de Maria

Nas palavras no texto, aparecem as marcas e as virtudes de Maria. Vejamos algumas: a) Maria é a mãe do Salvador. Isabel disse: “Quem sou eu para que me visite a mãe do meu Salvador?” Ela é abençoada por Deus entre todas as mulheres, por nos trazer Jesus, “bendito o fruto do seu ventre”. Os primeiros cristãos nunca separaram a memória de Maria da memória de Jesus. Ela é venerada por ser a Mãe do Salvador, não como milagreira. b) Maria é “aquela que acreditou”. Por isso é bem-aventurada e feliz. E creu em Deus porque soube ouvir (fiel discípula), e meditava e guardava a Palavra em seu coração. Sua fé tem tudo a ver com a Palavra que ela compreendeu e viveu. c) Maria é evangelizadora. Trouxe e ofereceu Deus para a humanidade. Evangeliza por palavras e por gestos, como os três meses de serviço voluntário à prima Isabel. d) Maria, a missionária da alegria. O anjo lhe dissera: “Alegra-te, o Senhor está contigo!”. Ela se alegra no Senhor: “meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”, rezou ela. Ela comunica no seu ser a alegria por estar em comunhão com o Senhor. E na alegria serviu a Isabel que precisava de ajuda e apoio. Outras “qualidades” de Maria podem ser lembradas: a verdadeira discípula, sua simplicidade e humildade, a disponibilidade e serviço, seu silêncio e sua comunhão com o projeto de Deus e do povo.

  1. Do lado dos pobres, contra os opressores

Sua oração, inspirada no louvor de Ana (1Sm 2,1-10), deixa claro que Maria deseja, reza e luta para que o projeto de Deus se concretize. Isto está em sua mente e em seu coração. Inicialmente ela louva e bendiz a Deus por ter olhado por ela e por aquilo que nela realiza. Depois reza a ação de Deus que toma partido diante do mundo injustiçado e desigual: “Ele dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”. Maria agradece a Deus por Ele não optar pelos soberbos, poderosos e ricos… E sim pelos humildes, famintos e simples.

Hoje venerar verdadeiramente a Maria implica não em pedir milagres, libertações e proteções diversas. Mas, sim, em honrá-la por aquilo que ela foi e viveu, sobretudo pelo testemunho bonito de seguimento de Jesus e fidelidade ao projeto do Pai. Honrá-la vivenciando o testemunho e exemplo que ela nos deixa. Assim, com Maria seguimos a Jesus e nos dirigimos a Deus.

E neste mês vocacional, rezemos e bendigamos a Deus pelas religiosas e religiosos que, como Maria, assumem radicalmente a vivência do Evangelho, dando testemunho de entrega total a Ele e ao eeu Reino. Parabéns, religiosas e religiosos!

 

 

”São Romero”: papa viajará a El Salvador para canonização

REVISTA IHU ON-LINE –  15 Agosto 2017

O primeiro cardeal da história de El SalvadorGregorio Rosa Chávez, informou nessa segunda-feira, em seu perfil no Facebook, que o Papa Francisco lhe confirmou a sua intenção de ir ao país centro-americano “para a possível canonização do nosso bem-aventurado” Dom Oscar Arnulfo Romero. “Darei mais informações nos próximos dias. Deus o abençoe”, acrescenta Rosa Chávez.

A reportagem foi publicada por La Repubblica, 14-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O anúncio chega às vésperas do aniversário, nesta terça-feira, festa da Assunção, dos 100 anos do nascimento de Dom Romero, um dos mais célebres mártires do último século, morto ao altar no dia 24 de março de 1980 em San Salvador, cidade da qual era arcebispo, pelos esquadrões da morte, enquanto celebrava a missa na capela do Hospital da Divina Providência.

Quem atirou, para silenciar a voz de um prelado que, cotidianamente, condenava a repressão do seu povo cometida pelo regime, foi um assassino mandado por Roberto D’Aubuisson, líder do partido nacionalista conservador Arena (Aliança Republicana Nacionalista).

Na homiliaRomero tinha reiterado a sua denúncia contra o governo de El Salvador, que atualizava cotidianamente os mapas dos campos minados enviando crianças na frente, que ficavam dilaceradas pelas explosões. E, no dia anterior, 23 de março, ele havia convidado abertamente os oficiais e todas as forças armadas a não executarem as ordens, se contrários à moral humana.

No funeral presidido nos dias seguintes por Dom Ernesto Corripio y Ahumada, então arcebispo de Cidade do México, o Exército salvadorenho também abriu fogo contra os fiéis, fazendo um massacre.

Nestes dias, inúmeras celebrações e publicações no mundo (incluindo um verdadeiro caderno especial no L’Osservatore Romano) recordam o centenário do nascimento do bispo-mártir, beatificado no dia 23 de maio de 2015, depois de uma causa que ficou por muito tempo parada devido à oposição de prelados não apenas sul-americanos, que temiam a manipulação política da canonização de Romero, especialmente por parte das forças de esquerda latino-americanas, e desbloqueada, primeiro, por Bento XVI e, depois, com o ato final do Papa Francisco, primeiro papa sul-americano da história.

Nas comemorações em El Salvador, participará, em nome do papa, o enviado especial cardeal Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago do Chile: entre os eventos, uma peregrinação “Caminho de Dom Romero” de 157 km (98 km a pé e 59 km de ônibus, ao longo de vários dias) da capital San Salvador até Ciudad Barrios, cidade natal do arcebispo.

Justamente sobre essa cidade, o cardeal Rosa Chávez, bispo auxiliar de San Salvador, que recebeu o “barrete” do Papa Bergoglio no consistório do dia 28 de junho último, ex-colaborador do “mártir dos pobres”, propõe que assuma o nome de “Ciudad Romero”.

Rosa Chávez, durante a primeira etapa da peregrinação comemorativa, também despertou o entusiasmo dos fiéis, afirmando: “Diz-se em Roma que provavelmente Dom Romero será canonizado no ano que vem. Imaginem se fosse certa essa possibilidade. Seria o ressarcimento de um povo”.

De fato, Romero espera o último passo da proclamação da santidade, para a qual ainda sobram resistências. Mas o postulador da causa, o arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Academia para a Vida – que, no sábado, participou de uma missa na catedral londrina de St. George, em Southwark, onde está conservada uma cruz com as relíquias do bem-aventurado –, foi claro: “Estamos em um ponto bom”, disse ele à Rádio Vaticano. “Estamos examinando um milagre que diz respeito a uma mulher grávida e ao seu filho, que foram, esperamos, milagrosamente curados por intercessão de Dom Romero. Terminou o processo diocesano, que chegou a Roma, e começamos o exame do milagre. Espero que o processo chegue a termo em breve. Se tudo isso ocorrer, é possível que, no ano que vem, também se possa esperar para celebrar a canonização de Romero”. E, pelo que foi anunciado hoje, o Papa Francisco fará isso pessoalmente.

 

Poesia: HÁ FAMÍLIAS E HÁ FAMÍLIAS…

HÁ FAMÍLIAS E HÁ FAMÍLIAS…

Ivo Pedro Oro

Família, berço de vida,

Berço de fé e de amor,

Quando educa com vigor,

Não por vereda perdida…

Para a família, a saída

Com cuidado e paciência

É educar com diligência

Para autênticos valores,

Não nas ondas e sabores

Dos ventos e turbulências.

 

Se cultivar a semente

Da fé, para a vida educa;

Mas, se o vazio, deseduca,

Desumaniza o vivente…

A fé impulsiona a gente,

Qual mostarda genuína,

Mesmo sendo pequenina

Potencializa e transforma,

Destrói montanhas, mas forma,

Faz diferença e ilumina.

 

Que pena! Muitas famílias

Entre os seus membros vivem

– No tempinho em que convivem –

Acolhida, ajuda e partilha.

Mas cada qual, como uma ilha,

Fechado à comunidade,

Não abraça a caridade,

Aos outros é indiferente,

Insensível, concorrente,

Faz de seu eu sua verdade.

 

Estas reduzem o amor

A egoísmo familiar.

O seu bem particular

Não buscam jamais transpor…

Estas cercas de torpor

Limitam o repartir

E impedem o investir

Para a verdadeira fonte:

O mais humano horizonte

É conviver e servir.

 

 

 

 

Sem ter da fé força e luz

Apequenam a grandeza

De abrir sua porta e sua mesa

Aos excluídos, Jesus.

O fechamento os induz

A ser desumanidade,

Limitar a dignidade

Às ilusões do cotidiano

Rotineiro e desumano,

Sem compaixão e piedade.

 

Vagueando sem objetivo,

Esvaem-se como o fumo,

Não tendo o porquê e o rumo,

Sem norte e sem motivo…

Seguem estilo nocivo

– Parece inacreditável –

Nada digno e saudável,

Estão aí vegetando,

Se tratando e embalando

Qual produto descartável.

 

Vamos unir forças, gente,

Retomando com ardor

Pra ser escola de amor

Cada família presente…

É inadiável e urgente

Acolher e dialogar,

Diferenças respeitar,

Conviver com fraternura,

Mútuo serviço e doçura:

VIVER É COMPARTILHAR!

 

NOSSO MEDO DOS VENTOS E DAS ONDAS

Uma REFLEXÃO sobre o EVANGELHO do 19º. DOMINGO COMUM: dia 13/08/17:

Mt 14,22-33

Jesus sempre alertou e encorajou seus discípulos sobre as perseguições, dificuldades e adversidades que encontrariam na sua missão. Ao escrever o Evangelho, Mateus tem em mente a realidade de suas comunidades, atravessando inúmeras dificuldades no “mar da vida”, e vai “recriando” as falas de Jesus de um jeito que as ajude a superar “os medos” e “a pouca fé”. É como nós hoje: estamos com medo! Medo de confiar em Deus e no Reino, medo de assumir e viver pra valer o Evangelho, medo de nos doar à comunidade, medo da perda de católicos, medo de que a maioria da juventude não venha a participar da igreja, medo de que o Brasil entre num verdadeiro atraso na justiça e nos direitos. Este evangelho nos pede a tomar posição: pela coragem, que nos anima a enfrentar, e não pelo medo que nos paralisa.

  1. Nossa situação parece desesperadora

A linguagem bíblica retrata com uma simbologia forte. Os discípulos estavam “sós” (sem Jesus), nas trevas da “noite”, no meio do mar (longe da margem, pouca segurança), o vento era contrário (dificultava ir adiante, fazia retroceder), as ondas sacudiam o barco… Assim era “a situação daquelas comunidades cristãs ameaçadas de fora pela hostilidade, e tentadas de dentro pelo medo e pouca fé. Não é esta também a situação de hoje?” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – Mateus, p. 184). No começo da madrugada Jesus se aproxima caminhando sobre as águas. O medo impede de os discípulos reconhecerem a presença de Jesus, próximo deles; ao contrário, sua falta de fé faz ver “um fantasma”. “Os medos são o maior obstáculo para reconhecer, amar e seguir a Jesus como Filho de Deus que nos acompanha e salva na crise.” (p.18)

  1. “Coragem! Sou Eu, não tenhais medo!”

A presença de Jesus e nossa confiança e certeza de que é nele que nossa vida tem sentido, rumo e segurança, nos transmitem força e confiança no Pai. Pedro aparece aí como modelo de “entrega confiante”, mas também de “medo e fraqueza”. Ao caminhar sobre as águas indo ao encontro de Jesus, quando esquece a Palavra de Jesus (“Vem!”) e fixa o pensamento nas forças do mal, começa a afundar. Pagola afirma que na Igreja hoje é meio parecido: “Temos medo do desprestígio, da perda de poder e de sermos rejeitados pela sociedade. Temos medo uns dos outros: a hierarquia endurece sua linguagem, os teólogos perdem a liberdade, os pastores preferem não correr riscos, os fiéis olham o futuro com temor. No fundo desses medos, existe quase sempre medo de Jesus, pouca fé nele, resistência a seguir seus passos” (p.184). É para nós que ele reclama: “Pessoas de pouca fé! Por que estão duvidando?” Quando se acredita e segue verdadeiramente a Jesus, então provamos a segurança de sua Palavra, a felicidade de fazer parte de seu grupo, a beleza de participar do Reino e o quanto é gostoso não viver para si nem fechado  nos sonhos rasteiros de nossa sociedade materialista e consumista, ao contrário: jogar a vida num ideal mais alto, buscando e gerando a vida para todos e todas.

  1. “Tu és o Filho de Deus”, não um fantasma

Diz o evangelho que, quando Jesus e Pedro entraram no barco, o vento se acalmou. É na presença dele que somos fortes na fé e nos enchemos de coragem. Quanto mais afastados, mais ficamos ao sabor dos ventos e das ondas da sociedade, e menos confiança e menos capacidade de enfrentar as adversidades. Outra coisa. Enquanto não acreditamos no seu ensinamento, ficamos numa fé superficial e nossa vida cristã não passa de um “faz-de-contas”. Há crentes em Deus que veem fantasma no Papa Francisco e ficam com medo, porque ele acolhe a todos, especialmente os refugiados e desprezados, e quer que todos tenham trabalho, terra e teto (“os três T”). Outros veem fantasma quando nossos bispos ou congregações se posicionam contra as reformas do governo que estão tirando os direitos dos trabalhadores e recuando um século em termos de garantias no mundo do trabalho. Outros veem fantasma quando lideranças cristãs e de movimentos populares vão às ruas para tentar impedir os desmandos e podridões nos poderes desta república… Mas Jesus nos alerta e nos garante: “Coragem! Sou eu, não tenhais medo!”… Tomara que, como os discípulos, também nos prostremos diante dele, reconhecendo-o como Filho de Deus e nosso Salvador, e não mais temamos os ventos e as ondas de hoje em dia!… Afinal, “Crer é viver apoiando-nos em Deus, esperar confiantemente nele, numa atitude de entrega absoluta, de confiança e fidelidade” (p. 189).

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