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Grão de Mostarda

Padre Ivo Pedro Oro

SOMOS TESTEMUNHAS DO CRUCIFICADO RESSUSCITADO  

 

SOMOS TESTEMUNHAS DO CRUCIFICADO RESSUSCITADO

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 3º. DOMINGO DA PÁSCOA (15.04.18): Lc 24,35-48

Neste tempo pascal, e em todo o tempo, somos enviados a dar testemunho de que Jesus está vivo em nós, no meio de nós e na história do seu povo. Porém, a fé cristã que deveria ter seu fundamento na experiência de Jesus Ressuscitado, passa por diversos obstáculos e tipos variados. Alguns são fanáticos: sua fé não acolhe ninguém, não se deixa questionar e aprofundar, é muito fechada. Outros são céticos: com sua fé “descrente”, na prática nada esperam e nada creem no Deus Pai e Mãe, nem na vida. Outros são indiferentes: não querem saber do verdadeiro sentido da vida, mas apenas do seu pragmatismo na busca de segurança, bem-estar e dinheiro. Outros se entendem “proprietários da fé”: vivem no ritmo rotineiro uma fé de “costume”. Outros têm uma fé infantil: não conseguem atualizar sua fé e sua prática, permanecem com alguns elementos catequéticos da iniciação cristã, sem  experiência pessoal de Deus. “Em todas estas atitudes falta o mais essencial da fé cristã: o encontro pessoal com Cristo. A experiência de caminhar pela vida acompanhados por alguém vivo, com quem podemos contar e a quem podemos nos confiar. Só ele pode nos fazer viver, amar e esperar apesar de nossos erros, fracassos e pecados.”(Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Lucas, p.370.  Neste evangelho, aprendemos que a fé verdadeira surge com nosso encontro pessoal com Jesus, que caminha conosco, e nos faz suas testemunhas.

  1. Crer em Jesus e viver com Ele

No relato de Lucas, os discípulos de Emaús estavam contando a caminhada com Jesus. Então, Ele apareceu no meio dos discípulos reunidos. Entre eles havia de tudo: assustados, com medo, preocupados, com dúvidas no coração. Jesus lhes deseja a paz, mostra suas mãos e pés, deixa-se tocar e come com eles. Em seguida, explica as Escrituras para entenderem que a morte e ressurreição deviam acontecer. E no final acentua o que é o centro do cristianismo: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”.

Ainda temos uma fé muito mental, na cabeça. Difícil é sentir e ter certeza de que Ele está caminhando conosco. Na medida em que nos encontramos e caminhamos com Ele, vamos sentindo Jesus que nos transforma por dentro e nosso ser começa a ser a vivência de seu evangelho, dos seus valores e proposta do Reino. Mas sempre em comunhão com ele e com os irmãos e irmãs. Ele quer que sejamos testemunhas dele, falando a partir da nossa experiência de encontro com Ele e pregando em seu nome. “A presença de Jesus não transforma de maneira mágica os discípulos. …A fé em Cristo ressuscitado não nasce em nós de maneira automática e segura. Ela vai despertando em nosso coração de forma frágil e humilde. … é um processo que às vezes pode durar anos. O importante é nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Reservar-lhe muito mais lugar em cada um de nós e em nossas comunidades cristãs” (p. 366). É a partir desta experiência da presença/encontro com o Ressuscitado que podemos ser testemunhas verdadeiras: “O mundo de hoje não precisa de mais palavras, teorias e discursos. Precisa de mais vida, esperança, sentido e amor. São necessárias testemunhas, mais que defensores da fé. Crentes que nos possam ensinar a viver de outra maneira, porque eles próprios estão aprendendo a viver de Jesus” (p. 368).

  1. A ressurreição das vítimas

Ao aparecer aos discípulos, Jesus lhes disse: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!… E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés”. Ele mostra suas chagas da crucificação. “Deus não ressuscitou alguém qualquer: ressuscitou um crucificado. …ressuscitou alguém que anunciou um Pai que ama os pobres e perdoa os pecadores; alguém que se solidarizou com as vítimas; alguém que, ao encontrar-se pessoalmente com a perseguição e rejeição, manteve até o final sua confiança em Deus” (p.370). Isto nos ensina que a ressurreição de Jesus faz justiça as seres humanos que são vítimas, que o “ser de Deus” – Deus das vítimas – faz justiça aos injustiçados da sociedade. Deus tem poder sobre o poder da morte, sua justiça triunfa sobre os injustos e sobre as injustiças do nosso mundo. Assim este evangelho é boa notícia. A ressurreição de Jesus é a reação de Deus ao que o poder e os poderosos da sociedade fizeram com seu Filho, como diz Pedro: “Vós o entregastes… Vós rejeitastes o Santo e o Justo… Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas” (cf. At 3,13-16 – 1ª. Leitura). Onde os humanos espalham destruição e morte, Deus semeia ressurreição e vida nova. Deus se identifica com aquele que sofre, compartilha com o destino das vítimas. Os sofredores não estão abandonados, ao contrário, Deus está presente e solidário em seu sofrimento, e seus sofrimentos terminarão em ressurreição. Deus é ressuscitador das vítimas.

O que isto diz para o Brasil de hoje?… Há vítimas da sociedade, da cultura, do poder econômico, da política e, quem sabe, até da Justiça, perseguidos e execrados. É só abrir os olhos e enxergar sem preconceito que facilmente podemos ver pessoas e segmentos sociais linchados pela mídia e pelo ódio de classe. “São muitas as vítimas que continuam sofrendo hoje, maltratadas pela vida ou crucificadas injustamente. O cristão sabe que Deus está nesse sofrimento. Conhece também sua última palavra. Por isso, seu compromisso é claro: defender as vítimas, lutar contra todo poder que mata e desumaniza, esperar a vitória final da justiça de Deus.” (id., p.371).

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Poesia: SEM ÉTICA E SEM JUSTIÇA

SEM ÉTICA E SEM JUSTIÇA

 

Partidarizaram a justiça,

Criminalizaram o movimento popular.

Despolitizaram a política

Para o povo não ter poder e lugar.

 

Inflaram a já poderosa mídia,

Massacram trabalhadores e o povo.

Endeusam o desejo do mercado,

A livre exploração chamam “novo”.

 

Ressuscitaram a velha ditadura

E instituíram um regime de exceção,

Com disfarces de democracia:

Às classes pobres, ódio e opressão.

 

Criminosos são promovidos;

Inocentes são condenados

Sem provas e argumentos;

E juízes antiéticos, bajulados.

 

Seus motores são o lucro sem limite,

Propriedade privada, livre iniciativa.

Para fazer retrógradas “reformas”

Verbas e malas valem justificativa.

 

Defender pobres e trabalhadores,

Nesta cidadania de encenação,

Soa como ingênuo e antigo.

Exclui-se o povo da participação.

 

A elite do atraso encheu a bola.

Enquanto o Legislativo dá por dinheiro

O Judiciário se esnoba e tiraniza

E o Executivo se prostitui aos banqueiros.

 

QUEM CRÊ NO RESSUSCITADO VIVE DE MODO DIFERENTE

QUEM CRÊ NO RESSUSCITADO VIVE DE MODO DIFERENTE

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO 2º. DOMINGO DA PÁSCOA (08.04.18): Jo 20,19-31

Crer na ressurreição de Jesus não pode ser apenas uma ideia na cabeça ou uma doutrina ensinada e decorada. Crer na ressurreição não pode ser só um conhecimento de algo do passado. Neste tempo pascal, à luz do Evangelho e da prática dos discípulos e discípulas, precisamos ter um encontro com o Ressuscitado e, a partir desta experiência vivida, dar um rumo coerente para nossa existência.

  1. Com a presença do Ressuscitado os discípulos se transformam

João narra o encontro com Jesus no primeiro dia da semana. Estavam fechados, cheios de medo dos judeus que haviam assassinado Jesus. Sentiram e viram Jesus lhes desejando a paz, dando-lhes seu Espírito e enviando-os para a missão. Ou seja, porque acreditavam na presença dele, eles se reuniam sempre no primeiro dia da semana, para partir o pão e reviver sua Palavra. A certeza de sua presença lhes deu vida, alegria e paz: “Só quando veem Jesus ressuscitado no meio deles, os discípulos se transformam. Recuperam a paz, seus medos desaparecem, enchem-se de uma alegria desconhecida, notam o sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai” (O Caminho Aberto por Jesus – João, p. 255).

Jesus Ressuscitado continua na Igreja que se reúne e nos discípulos que o anunciam e são instrumentos do seu reino. No entanto, nossos cristãos quase não o sentem, não o encontram, não creem na sua presença dentro deles nem no meio deles. Falta a quase todos nós uma experiência mais viva e uma fé mais profunda, que nos impulsione, nos transforme e nos torne novos homens e novas mulheres. Quem crê no Ressuscitado, de fato, assume uma vivência diferente das pessoas que não creem e dos que, acreditando, preferem e querem viver sem Deus. Seguidores e seguidoras do Ressuscitado “possuem uma sensibilidade especial para ouvir, buscar, recordar e aplicar o Evangelho de Jesus. São os espaços mais sãos e vivos da Igreja” (ibid.).

  1. Aprender a conviver com Jesus Ressuscitado

Os discípulos, após a morte e ressurreição, não mais o tinham presente em carne e osso como antes. Foram aprendendo a encontrá-lo e reconhecê-lo nas pessoas, nos fatos, na comunidade reunida, na fração do pão, nas dores suportadas, nas doenças e injustiças vencidas e nas conquistas alcançadas. Aprender como viver na fé e da fé; como encher-se do Espírito, escutá-lo e  viver com sua força; como recordar os ensinamentos de Jesus e atualizar seus gestos e suas opções. Assim deve acontecer conosco. Pois Jesus soprou sobre os discípulos e disse: “A paz esteja convosco… Recebei o Espírito Santo… Como o Pai me enviou, eu também vos envio”. No hoje da nossa história, precisamos encontrar as atitudes, as ações, os modos de ser, de pensar e de agir, para testemunhar o Ressuscitado e levar adiante o seu evangelho e a sua missão. Temos que nos transformar como Tomé.

  1. Desligados da comunidade, nossa fé enfraquece

Tomé é o exemplo do cristão desligado da comunidade que, retornando, se converte. Quanta gente precisa “ver para crer” ainda hoje em dia! A vida em comunidade verdadeiramente cristã torna os seus membros participantes mais fortalecidos na fé, mais firmes no amor, mais em comunhão com Deus Trindade e com os irmãos e irmãs, e convictos de encontrar-se com o Ressuscitado. Tomé, no primeiro fato, não estava presente na comunidade reunida no primeiro dia da semana (no Dia do Senhor). Na segunda vez, estava presente e participante. Então sentiu e reconheceu que ali estava o Ressuscitado presente. Não precisou tocar em Jesus, “pôr o dedo nas chagas nem a mão no lado aberto pela lança”. Tomé transformou-se, pela fé no Ressuscitado, num exemplo de quem crê profundamente. É dele a belíssima confissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.

O tempo pascal os cristãos vivem com muita alegria, com intensa participação na vida da comunidade, com esperança acesa e com profunda união. São capazes de grandes doações e partilhas. “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. …tudo entre eles era posto em comum. …davam testemunho da ressurreição do Senhor jesus. Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro… Depois era distribuído conforme a necessidade de cada um.” (At ,32-35 – 1a. leitura)

Para refletir: Sentimos a alegria de viver em Cristo? Nossa vida se renovou e transformou com a quaresma, semana santa e Páscoa? Acreditamos na promessa de Jesus: “Felizes os que creram sem ter visto”?…Ou, na prática, preferimos não seguir o Ressuscitado?…

ESTA É UMA NOITE SANTA: É A PÁSCOA DA LIBERTAÇÃO!

ESTA É UMA NOITE SANTA: É A PÁSCOA DA LIBERTAÇÃO!

 UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA VIGÍLIA PASCAL (31.03.18): Mc 16,1-7 

Os ritos do fogo, da luz e da água nos ajudam a penetrar no significado profundo que tem para a vida do cristão a Ressurreição de Jesus. O fogo novo lembra a força misteriosa que purifica e gera nova criação. É símbolo do próprio Deus. A água batismal nos faz celebrar nossa identidade cristã: pelo Batismo todos renascemos para o Senhor. A luz nos coloca em sintonia com a luz do Senhor, que dissipa nossas trevas e clareia os caminhos que Jesus traçou para nós.

A 2ª. leitura (Gn 22,1-18) mostra a obediência total de Abraão ao Senhor. Por isso é abençoado: ele e sua descendência serão uma bênção para todos os povos e nações. Mas este Deus da Bíblia não quer a destruição dos humanos, o sangue derramado não lhe é agradável: Ele quer vida e paz, seu projeto se realizando. A 3ª. leitura (Ex 14,15-15,1) traz à celebração a história da humanidade que se afasta de Deus, pelo pecado, pela escolha de decidir contra o ensinamento divino. Vem a escravidão e a morte. Deus não abandona a humanidade, mas a recria. Chamou o povo hebreu, um povo que vivia à margem, através de Abraão. O povo caiu na escravidão do Egito, mas maravilhosamente o Senhor o libertou. É a noite da libertação, a Páscoa dos judeus, que prefigura a Páscoa dos cristãos, pelo sangue e ressurreição de Jesus. (Mais leituras são proclamadas nesta noite…)

O Novo Testamento nos fala da Páscoa de Jesus. O texto da Carta de Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11) mostra que o batismo nos mergulha neste mistério da Páscoa de Jesus, nos faz membros do novo Povo de Deus, com a obrigação de trabalharmos por um mundo novo, de homens novos e mulheres novas. Diz São Paulo: “Pelo batismo, o velho homem que está em nós foi crucificado”. E “se morremos com Cristo, consideremo-nos mortos para o pecado, mas vivos para Cristo e para o projeto de Deus”.

O evangelho (Mc 16,1-7) narra a Ressurreição de Jesus, na noite da Páscoa.  Mostra, sobretudo, dois pontos essenciais:

  1. As mulheres foram as primeiras testemunhas e anunciadoras da Boa Nova da Ressurreição. “Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo….Quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada.” Hoje as mulheres são, mais ou menos, 75% das lideranças de nossa Igreja, nas pastorais e comunidades. O DAp reconhece a importância da mulher na Igreja, mas denuncia a omissão dos homens: O homem deve sentir-se enviado pela Igreja à missão, para dar testemunho como discípulo e missionário, “no entanto, em não poucos casos, infelizmente, termina renunciando a essa responsabilidade e delegando-a às mulheres ou esposas” (DAp 460). Que a coragem dessas mulheres que testemunharam a Ressurreição de Jesus, desperte nos homens a consciência de que religião é para homem também, e que ninguém tem o direito de dispensar Deus de sua vida… Será que, atualmente, mulheres e homens cristãos têm, pelo menos, consciência de que ser cristão é ser discípulo/a missionário/a?… Suas vidas anunciam e demonstram que creem em Jesus Ressuscitado presente na sua vida e na história de seu povo?….
  2. No Evangelho ouvimos o jovem vestido de branco: “Nas vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! … Ide, dizei aos discípulos e a Pedro que ele irá a vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito”. Ou seja: Vamos fazer a experiência de Cristo Ressuscitado no meio dos vivos! No meio dos pobres (nas Galileias da nossa vida e do nosso Brasil)… Como o Evangelho mostra, Jesus Ressuscitado estava com os discípulos de Emaus, com a comunidade reunida no primeiro dia da semana, com o povo reunido… O sepulcro vazio já não interessa como lugar de encontro com Jesus; o morto do túmulo está vivo nos irmãos e irmãs na pobreza da Galileia. “O lugar do encontro não é num passado concluído, mas num futuro novo; não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. … Somos convidados pelo evangelista a continuar o seguimento de Jesus, se quisermos encontrá-lo ressuscitado. … a continuidade do projeto de Jesus é que vai fazer com que o vejamos vivo, ressuscitado” (Balancin. Como Ler o Evangelho de Marcos, p. 178-179). Hoje encontramos o Ressuscitado no próximo que precisa de nossa presença e solidariedade e na comunidade cristã que se reúne para ouvir a Palavra e celebrar sua caminhada, em todo aquele/a que leva adiante o seu reino de justiça.

Vamos viver a Páscoa!

  • O mundo novo começou com a Ressurreição de Jesus. Páscoa não é apenas um fato passado. É um processo histórico não concluído, que continua com nossa atuação e nosso testemunho.
  • Trabalhemos para que essa transformação aconteça na história da humanidade. Que haja Páscoa nas condições de vida do povo e no modo da sociedade organizar a economia, que esta esteja a serviço da vida.
  • Façamos acontecer Páscoa nas famílias, tendo tempo para a Palavra de Deus. Assim, as famílias serão berços de vida e de fé, não somente de conhecimentos e de progresso material.
  • Testemunhemos a Ressurreição na vida da comunidade cristã. Participemos da comunidade, assumamos serviços, lideranças, as missões populares… Colaboremos para que os trabalhos pastorais da Igreja possam anunciar muito forte ao mundo que: Jesus está vivo dentro de nós e no meio de nós. Acreditemos na ressurreição. Tenhamos esperança! Lutemos contra os mecanismos e ideologias de morte! Acreditemos na vida, pois, em Cristo, a vida venceu a morte.

Desejo de coração a todos vocês, que prestigiam e apoiam as reflexões do  Grão de Mostarda, uma Feliz e Santa Páscoa !!!

6ª. FEIRA SANTA: QUEM VIVE O AMOR MAIOR É PRESO E CONDENADO À MORTE

6ª. FEIRA SANTA: QUEM VIVE O AMOR MAIOR É PRESO E CONDENADO À MORTE

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DIA DA PAIXÃO (30.03.18): Jo 18,1-19,42

Nesta narrativa da Paixão e Morte, elaborada pela comunidade de João, temos alguns destaques muito significativos. Não é possível aqui neste pequeno espaço comentar muitos aspectos do sofrimento, condenação e morte. Selecionamos dois que sobressaem neste texto.

  1. Jesus: é condenado por dar testemunho da verdade e defender os pequenos

Depois de ser levado a Anás, depois a Caifás, sumos sacerdotes, lhe deram bofetadas e fizeram acusações falsas e deboches de vários tipos. Depois o levaram ao “governador” Pôncio Pilatos, houve um diálogo entre eles, sob a acusação de Ele ser “reis dos judeus”. Ali, depois de açoitado, recebeu o flagelo da ironia cretina: o trajaram com as coisas que lembravam os reis. Puseram uma coroa de espinhos na cabeça, os soldados o vestiram com um manto vermelho, puseram um caniço na sua mão como cetro, ajoelhavam-se diante dele e, com sarcasmo, o saudavam gritando: Salve o rei dos judeus!.. No diálogo com Pilatos, Jesus esclareceu: “O meu reino não é deste mundo… Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Deixou claro que não pretendia ocupar o lugar de Pilatos nem de César Tibério, pois não é deste tipo de reis. Seu reinado não se baseia na desigualdade e injustiça, nem no poder opressor e repressor. Mas veio ao mundo para dar testemunho da verdade (será mártir da verdade). Seu reinado se baseia no amor infinito de Deus pelo mundo e pelos excluídos, um reino de justiça e de paz.

Como tinham medo das repercussões políticas dos gestos de Jesus (entrada  espetacular em Jerusalém, expulsão dos comerciantes do Templo, ser um profeta corajoso formando seguidores…) , podia repercutir mal diante do imperador romano, mesmo Jesus não tendo armas nem organizar um movimento para um levante contra o poder estabelecido. O Sinédrio sentia que era preciso “manter a ordem”. Então, diante da pressão popular e de sua insegurança pessoal, decidiu pelo castigo mais horrível da época: a crucificação. Jesus é assassinado porque o reino de Deus defendido por Ele “põe em questão ao mesmo tempo toda aquela armação de Roma e do sistema do templo. (…) Jesus estorva. Invoca Deus para defender a vida dos últimos. (…)Ele defende os mais esquecidos do Império; Pilatos protege os interesses de Roma. O Deus de Jesus pensa nos últimos; os deuses do Império protegem a pax romana (exército). (…)  No fundo Jesus é crucificado porque sua atuação e sua mensagem sacodem pela raiz esse sistema organizado a serviço dos mais poderosos do Império romano e da religião do templo” (Pagola. Jesus – aproximação histórica, p. 463). Quanta semelhança com o contexto brasileiro de hoje e quanta lição para nós cristãos!…

  1. Jesus dá a vida por amor

Condenado injustamente pelos homens do poder econômico, político e religioso, Jesus sofre e se angustia como todo ser humano em horas trágicas, mas vai até o fim sem trair o projeto do Pai e sem deixar de nos amar até as últimas consequências. Com ele, na cruz estavam aqueles e aquelas pelos quais ele viveu e gastou sua vida; os aleijados, as crianças, as mulheres, os impuros, os pecadores, os doentes, os marginalizados, enfim todos os excluídos, os empobrecidos e sofredores. Com Ele na cruz estão os crucificados de hoje: os doentes, os sem-assistência, os que não têm acesso à terra, ao estudo e ao emprego, os que sofrem exclusões diversas, os desprezados e odiados, bem como os que sofrem por lutarem pela paz e pela dignidade dos seres humanos… Na cruz, ainda, Jesus entrega sua mãe a João, que nos representa, para ser nossa mãe, e Mãe da Igreja. Sua morte confirma “o que foi sua vida inteira: confiança total num Deus que não exclui ninguém de seu perdão” (id., p. 267).  Mas Jesus Crucificado deu e dá a vida hoje “acolhendo os pecadores e excluídos, mesmo que sua atuação cause irritação no templo. (…) oferecendo ‘salvação’ aos que sofrem o mal e a enfermidade: dará ‘acolhida’ aos que são excluídos pela sociedade e pela religião; dará o ‘perdão’ gratuito de Deus a pecadores e pessoas perdidas, incapazes de voltar à sua amizade. (…) Por isso, a cruz nos atrai a nós cristãos. (…) porque em sua crucificação vemos o serviço último de Jesus ao projeto do Pai e o gesto supremo de Deus entregando seu Filho por amor a humanidade inteira” (id., 267). É Deus acolhendo e salvando na cruz de Jesus os crucificados de hoje em nossa história social, religiosa, econômica e política.

 

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DA 5ª. FEIRA SANTA (29.03.18): Jo 13,1-15

CELEBRAÇÃO DA ÚLTIMA CEIA DE JESUS COM OS DISCÍPULOS

Esta é uma noite santa. A Igreja faz memória da última refeição do Senhor com os seus, na qual instituiu a Eucaristia, sua presença no pão e vinho, seu corpo entregue e seu sangue derramado para a salvação de muitos, e pediu aos discípulos que fizessem isto em sua memória. É a véspera de sua condenação e morte. É o momento anterior à sua agonia no Horto das Oliveiras. A Igreja retoma e atualiza nesta noite a presença de Jesus que se entrega e morre, para não trair o projeto do Pai, “amando-nos até o fim”, e para nos conceder a salvação.

Diferente dos outros evangelistas, João não narra a instituição da Eucaristia, mas relata os gestos de Jesus e como podemos viver a Eucaristia. João inicia: “Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Estavam tomando a ceia”. Em seguida, Jesus “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos…”

  1. A Ceia da despedida inesquecível

O ritual de nossa missa, para os não muito iniciados, dificulta a compreensão do verdadeiro sentido da Ceia e da Eucaristia. Os primeiros cristãos, por certo tempo, designavam como “fração do pão” e “celebrar a ceia”. Depois foram adotados os termos “eucaristia” e, muito mais tarde, “santa missa”. No início tinha jeito próprio de refeição, em comunidade, com o ritual do pão e do vinho para todos. Mas qual o significado que Jesus quis dar a este gesto?…

Jesus quis transmitir que os discípulos não ficariam órfãos nem abandonados. Mesmo Ele partindo, na comunidade que se reúne Jesus continua vivo, presente e operante. Celebrar a ceia não é apenas assistir nem engolir a hóstia. É celebração que alimenta a fé dos seguidores: “A fim de alimentar nossa adesão a Jesus Cristo, precisamos reunir-nos para ouvir suas palavras e introduzi-las em nosso coração; precisamos aproximar-nos para ‘comungar com ele’, ou seja, participar de seu ideal, identificando-nos com seu estilo de vida. (…) comungar com Jesus é ter os mesmos sentimentos… Seu corpo é um ‘corpo entregue’ e seu sangue é um ‘sangue derramado’ para a salvação de todos. É uma contradição aproximar-nos para ‘comungar’ com Jesus, recusando preocupar-nos com algo que não seja nosso próprio interesse” (Pagola. O Caminho Aberto por Jesus – Marcos, p. 258).

  1. Fazer memória de Jesus

Ao pedir que os discípulos fizessem isto em sua memória, “quer deixar bem gravado em sua lembrança o que foi sempre sua vida: paixão por Deus e entrega total a todos” (p. 259). É Jesus dizendo que sua vida é uma entrega, que seu suor e sangue são derramados pelo bem do povo, que comungar com Ele é também entregar, gastar e derramar a vida pelos outros, que não guarda nem fecha a vida para si mesmo. E viver como seus seguidores é fazermos a mesma coisa: viver para os outros e derramar nosso sangue pela vida e salvação, especialmente daqueles que mais precisam de libertação e de dignidade. “Para Jesus é o momento da verdade. Nesta ceia ele se reafirma em sua decisão de ir até o final em sua fidelidade ao projeto de Deus. Continuará sempre ao lado dos fracos, morrerá enfrentando os que desejam outra religião e outro Deus esquecido do sofrimento das pessoas. Dará sua vida sem pensar em si mesmo. Confia no Pai. Deixará tudo em suas mãos.” (idem, p. 259).

 

  1. Viver a Eucaristia é lavar os pés uns dos outros

Por isso, nesta Ceia não se proclama o evangelho da instituição da Eucaristia, mas do lava-pés, com seu ensinamento profundo de humildade e de serviço mútuo. Celebrar e receber a Eucaristia sem abrir o coração, a vida e as mãos ao próximo é somente uma encenação. Rito vazio. Anunciar a morte do Senhor, que entrega a vida, implica compromisso com ele e com o projeto de amor e de justiça aos irmãos e irmãs. Pedro tinha na cabeça a ideia de que somos desiguais; uns são mais, outros menos; quem tem poder domina e não serve aos outros. Jesus lhe diz que se não aceitar que Ele o lave, não tem parte com Ele, que não entendeu nem entrou ainda no seu Reino… No final, depois do gesto e testemunho, Jesus confirma com estas palavras: “Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz”. Então, viver o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus, vivenciar a Eucaristia em nossa vida tem que ser com a mesma humildade e prática de serviço de Jesus. “É fácil fazer da eucaristia outra coisa muito diferente do que ela é. Basta ir à missa para cumprir uma obrigação, esquecendo o que Jesus viveu na última ceia. Basta comungar pensando só em nosso próprio bem-estar interior. Basta sair da igreja sem decidir-nos nunca a viver de maneira mais dedicada.” (idem, 260)

Que Jesus, na Eucaristia e na Palavra, nos fortaleça para vivermos o amor até o fim, comungando com seu projeto de vida pra todos e todas!

 

Poesia: A ÁGUA

A ÁGUA

Nesta mesa comum celebramos

Morte e Páscoa, doação sem medida.

Na união com Jesus comungamos

Com quem sofre carência de vida.

 

Refrão:

Se vivemos do Pão, da Palavra,

            Partilhamos a vida e a água.

Ó Senhor, tua presença e Palavra

São a fonte que nutre e sacia;

Colocar em comum pão e água

É viver nossa Eucaristia.

 

Toda a água é, Senhor, sacramento

De tua vida, ternura e partilha.

Não podemos negá-la ao sedento,

Somos todos a mesma família!

 

Água é dom e não mercadoria,

É sinal da bondade divina.

Quem explora, de Deus se desvia,

Quem polui e envenena, assassina.

 

Mananciais, chuvas, veios e fontes,

Tu criaste este mundo perfeito.

Vamos nós conquistar o horizonte:

Ser a água, de fato, um direito.

 

No batismo, das águas nascemos

Pela força do Espírito Santo.

Pelo Espírito hoje busquemos

Vida e pão, água e paz para tantos…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ENTRADA DE JESUS EM JERUSALÉM: REPERCUSSÕES POLÍTICAS

A ENTRADA DE JESUS EM JERUSALÉM: REPERCUSSÕES POLÍTICAS

UMA REFLEXÃO SOBRE O EVANGELHO DO DOMINGO DE RAMOS (25.03.18): Mc 11,2-10

Em quase todas as comunidades faz-se, no início da celebração, a proclamação  deste evangelho que relata a chegada de Jesus em Jerusalém e, entrando na cidade, foi recebido com festas e aclamações, acompanhado por uma verdadeira multidão. Mas neste dia, na Liturgia da Palavra, proclama-se a longa narrativa da Paixão de Jesus Cristo segundo Marcos (14,1-15,47). Vejamos o texto da entrada “triunfal”, que dá fundamento bíblico para a liturgia do “domingo de Ramos”.

  1. As expectativas em torno de um Messias

Para compreender por que aconteceu tal recepção a Jesus precisamos saber, mesmo que de modo muito breve e simples, da espera de um Messias e do perfil desse Messias esperado. Segundo Balancin, as ideias em torno da figura do Messias jogavam pra todo lado. Os saduceus, a elite liderada pelos sumos sacerdotes, que tinha seu ponto forte de domínio e de influência no Templo e no Sinédrio, não aguardavam o Messias nem queriam Reino de Deus. Como se beneficiavam com o império romano, torciam pra não haver mudança alguma no status quo sociopolítico. Os fariseus, ligados às sinagogas e ao ensino da Escritura, acreditavam que, cumprindo-se rigorosamente a Lei, o Messias chegaria mais rápido. Como muitos, especialmente os pobres, não conseguiam praticar todas as prescrições e rituais, eram taxados como impuros e vistos como responsáveis pela demora do Messias. Os essênios, que se retiraram do convívio social geral para viver fechados em suas comunidades, acreditavam que o Messias viria especialmente para eles, que se consideravam “filhos da luz”. E os zelotes formavam um grupo de “resistência contra a dominação romana”, esperavam o Messias e acreditavam que viria para assumir o trono de Davi, libertando Israel do domínio romano.

Estas expectativas, junto com a festa da Páscoa que estava próxima, mais o fato de que muitos discípulos de Jesus, talvez a maioria, simpatizassem com a expectativa dos zelotes… tudo isto formou o contexto e os fatores que propiciaram a entrada espetacular de Jesus na capital, aclamado e festejado como rei do povo, “um clima tenso e propício para levantes, despertando esperanças de transformações religiosas, sociais, políticas e econômicas” (Balancin. Como ler o Evangelho de Marcos, p. 135). E como agiu Jesus?…

  1. O simbolismo da entrada em Jerusalém

Diante da expectativa de um Messias poderoso, forte, ao estilo dos reis da época, a atitude de Jesus deixa claro que tipo de Messias ele é. Quantas vezes ele dissera aos discípulos que veio para servir, que o maior é aquele que serve, que o primeiro tem que se fazer o último!… Mas na cabeça de muitos discípulos ainda predominava a ideia do senso comum: um Messias dominador. Nesta entrada na cidade, porém, corrige as expectativas falsas. O fato de ele pedir para procurarem um jumentinho e, montado nele, entrar na cidade revela e ensina que não é um líder guerreiro. Se o fosse, chegaria montado num cavalo e acompanhado de exército armado. O povo que o seguia e o recebia não tinha lanças nem espadas, mas ramos nas mãos e estendia no chão algumas vestes. Mesmo com estilo de líder popular, Jesus foi aclamado como rei, como realizador da promessa: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito seja o reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana do mais alto dos céus!”

Prosseguindo no texto do Evangelho veríamos que Jesus se dirige ao Templo, centro de poder religioso e político da Judeia, dá uma olhada ao seu redor, não fala nada e volta a Betânia.  No dia seguinte vai falar da esterilidade das lideranças (parábola da figueira que não produz) e, depois, expulsa os comerciantes e cambistas instalados no Templo… Mas aquela entrada com numerosa multidão aclamando-o como rei deixou as autoridades incomodadas. Não mais suportando sua liderança, naquela semana, elas agiriam para acabar com Ele.

Quem é cristão, além de guardar o ramo bento que lembra a aclamação ao nosso rei humilde e servidor, vai se organizar para viver e participar intensamente das liturgias do Tríduo Pascal, bem como, neste fim de semana, dar uma oferta generosa para a Campanha da Solidariedade. Afinal, precisamos ajudar os projetos sociais, pois, como nos diz Jesus: “Vós sois todos irmãos”.

OS MARTÍRIOS DE HOJE E A CRUZ DE JESUS – Marcelo Barros

Os martírios de hoje e a cruz de Jesus

Marcelo Barros

No Brasil, em uma semana, tivemos o martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite da 4a feira, 14, no centro do Rio de Janeiro, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, mataram o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará.

Vivemos em tempo de martírio. Defender o projeto da Justiça e lutar pela Vida significa correr riscos e enfrentar a morte. Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas que acontecem cada dia ao martírio de Jesus que, nas suas liturgias, as Igrejas celebram.

Não deixa de ser estranho: as Igrejas afirmam que, em cada eucaristia, atualizam a doação de Jesus em sua cruz. No entanto, ao menos nos dias atuais, quem parece estar realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Na América Latina, dos anos 60 até os anos 90, milhares de pessoas deram a vida por causa da justiça, em meio às lutas sociais. Dessas, muitas se proclamavam cristãs. No dia 24 de março, celebramos a memória do martírio do bispo Oscar Romero, assassinado em El Salvador, no momento em que celebrava a ceia de Jesus. Nos anos mais recentes, esse tipo de martírio continuou ocorrendo e acontece até hoje. Diariamente, há pessoas que morrem como vítimas de injustiças estruturais que dominam o mundo e esse continente. São mártires. No entanto, parece que, atualmente, o martírio está acontecendo mais fora dos ambientes eclesiais. Isso não diminui em nada o mérito e a santidade desses irmãos e irmãs que, mesmo sem terem vinculação com a fé religiosa, dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Conforme o evangelho, Jesus afirmava que pertence a Deus não quem confessa o seu nome e sim quem realiza a sua vontade que é de justiça e vida para todos.

Lamentável é que as Igrejas celebram e pregam a doação da vida, mas ainda parecem distantes dessa consagração que tantas pessoas sem falar em Deus, vivem no dia a dia da vida, nas periferias urbanas, na luta das mulheres negras, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas e dos rios.  Do mesmo modo, é estranho que os irmãos e irmãs que, por causa de sua fé, nas últimas décadas, deram a vida pelo povo e pela justiça, muitas vezes, não contaram com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja. Mesmo Dom Oscar Romero não era bem compreendido por outros bispos e pelo Vaticano. Isso nos faz perguntar por que a Igreja que celebra a paixão de Jesus tem tanta dificuldade em se solidarizar e se inserir no martírio real que o povo sofre a cada dia, martírio que, na época de Jesus, se concretizou na cruz na qual o nosso mestre e Senhor deu a sua vida. Em primeiro lugar, essa interpelação toca no mais profundo de cada um de nós. Fere o meu coração como uma espada de dor e que chama a conversão minha e da nossa Igreja. Eu mesmo, nós, o que estamos fazendo? Será que esse distanciamento da vida real das lutas do povo, por parte de muitos eclesiásticos, vem do fato de que a teologia oficial das Igrejas ainda compreende a cruz e a morte de Jesus como um sacrifício religioso oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados? Geralmente, todos aceitam que a Páscoa do primeiro testamento foi de conteúdo claramente social e político (a libertação dos hebreus do Egito). No entanto, interpretam a Páscoa de Jesus no plano meramente espiritualista. Cristo é visto como o servo sofredor de Deus que, como dizia o profeta Isaías, tomou sobre si as nossas faltas e morreu por nossos pecados. É o Cordeiro de Deus, cordeiro da nova Páscoa que, por sua morte, nos liberta espiritualmente.

Até hoje, na maioria das Igrejas, padres e pastores ligam o motor automático e, a cada ano, repetem o mesmo discurso. No entanto, atualmente, essa forma de interpretar a fé corre o risco de apresentar Deus como uma divindade cruel que, para se reconciliar com o mundo, precisa da morte do seu próprio Filho. Além disso, essa teologia separa a morte de Jesus de tantas outras mortes violentas, a cada dia, ocorridas pela justiça e pela libertação. Se a morte de Jesus foi o sacrifício do Filho de Deus para salvar a humanidade nada tem a ver com as cruzes nossas de cada dia.

É preciso superar esse modo de compreender a fé e a Páscoa. Apesar dos evangelhos lhe emprestarem palavras que podem ser compreendidas no sentido sacrificial, parece que nem o próprio Jesus, inserido na cultura e religião hebraicas, pensava assim.  A cruz era o suplício que os romanos reservavam para os escravos rebeldes e prisioneiros políticos que lutavam contra a ordem do Império. Com essa acusação, referendada pelas autoridades religiosas, ligadas ao poder político que dominava aquela região, Jesus foi condenado a morrer na cruz.

A morte de Marielle, Anderson  e Pedro, assim como a de Oscar Romero e de tantos outros/as nos desafiam a compreender e celebrar a memória da morte de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada. No 6º Encontro Intereclesial de CEBs, em Trindade (1986), as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Cremos na ressurreição. Por isso, através da continuidade da luta, podemos, hoje,  dizer: Viva Marielle, Anderson, Pedro e todas as testemunhas do mesmo projeto pascal de Jesus.

 

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